Izaías Cândido Soares


Permita-me, caro leitor ou cara leitora, iniciar este artigo especial do HISTORITA com uma nota importante e com uma historiazinha.
A nota importante é que a imagem que você vê acima é 100% inédita. Ela é baseada em uma imagem que encontrei no acervo do grande memorialista José Rosendo, tendo sido publicada em um dos muitos artigos que ele escreveu, e resgatada por acaso enquanto eu estava procurando pelos textos dele. A ilustração original era de um quadro de Benedito Calixto sobre Izaías, que está hoje perdido em algum lugar do planeta Terra, e essa imagem estava em um estado muito ruim de conservação. Então, debrucei-me na tentativa de restauro, usando tanto as IAs mais recentes quanto procedimentos no Photoshop e consegui reproduzir esse simulacro do quadro original, com exclusividade para o HISTORITA.
Por isso, devemos mais uma vez dar o nosso imenso agradecimento ao esforço de José Rosendo em preservar essas memórias. O HISTORITA deve muito a ele.
Agora vamos à historiazinha:
Em 2024, este redator que vos fala foi empossado como membro da Academia Itanhaense de Letras, e a mim foi dada a cadeira de número 05, de Izaías Cândido Soares. Naturalmente, eu não tinha nenhuma ideia sobre quem havia sido esse homem. Foi então que uma pessoa se aproximou de mim e revelou: "Izaías foi meu avô".
Essa pessoa era a querida Joana Maria Soares Merlin Scholtes, também da Academia.
Eu quis então conversar melhor com ela para descobrir mais a respeito do patrono. Para minha surpresa, porém, a própria Joana não tinha muitas informações: sabia que ele havia falecido relativamente novo, na casa dos 50 anos, e que havia sido casado duas vezes (a segunda vez com a avó de Joana, Úrsula). Além disso, que ele ocupara o cargo de Intendente da cidade no começo do século XX.
A única memória, de fato, que Joana tinha dele vinha por tabela: sua falecida mãe, Iracema, contava sobre a época da morte de Izaías com detalhe suficiente para que a própria Joana escrevesse um conto sobre o dia de sua partida desse mundo em sua obra autobiográfica e literária Imponderável Travessia. Junto do conto, ela trazia também a certidão de óbito do avô, além de uma fotografia da casa onde ele morou, a chamada Casa Grande.
Na época, eu nem fazia ideia que ia tomar gosto real por pesquisa histórica. Eu só gostava de escrever. Mas esse mistério sobre meu patrono ficou ali, me inquietando... então comecei a fazer buscas que me levaram até o Arquivo Público do Estado, atrás de mais detalhes sobre o homem.
O que eu descobri foi o estopim para me fazer apaixonado pela história da cidade. Através de Izaías, descobri seu pai, João Mariano Soares, que já tem um artigo aqui no site. Depois, seu tio, Zeferino Antônio Soares, a quem eu ainda devo dedicar um artigo. Depois, do avô de Izaías, Francisco Mariano Soares, que é protagonista do livro Sargento Mariano, que pretendo lançar em breve. Assim, uma coisa foi puxando a outra.
Quando dei por mim, tinha em mãos um dossiê pronto sobre esses antepassados da família Soares em Itanhaém - caiçaras que tiveram a chance de serem letrados e que ajudaram a compor a vila da Conceição de Itanhaém da metade do século XIX até o começo do XX.
Como esse tipo de pesquisa sempre puxa mais e mais novas pessoas interessantes a se pesquisar, num ciclo interminável e detetivesco... fui seguindo, seguindo, e BUM! Nasceu o Historita como a casa dessas minhas investigações documentais.
Então, se você está lendo isso aqui hoje, a culpa é do Izaías!
Izaías Cândido Soares não tinha qualquer formação além do letramento, mas foi o letramento e o espírito curioso que o motivaram a trazer à Itanhaém primitiva um farol de conhecimento: o Gabinete de Leitura Itanhaense. Ele foi o idealizador da sociedade que surgiu em 1888, junto de seu primo Benedito Calixto e do professor João Baptista do Espírito Santo.
Com tudo o que hoje eu sei sobre ele, posso afirmar que virei o fã número 1 de seu fã clube e que almejo, assim como ele e os tantos que seguiram após ele (Edison Telles de Azevedo, Jaime Caldas, José Rosendo...), seguir usando a minha curiosidade pra acrescentar mais alguns tijolos nessa estrada de jornadas históricas iniciadas lá atrás por Izaías e Calixto.
Hoje, infelizmente, não faço mais parte da Academia Itanhaense de Letras por opção própria, então Izaías não é mais meu patrono.
Mas, considerando sua importância para a cultura, as pesquisas históricas da cidade e seu papel na idealização do Gabinete de Leitura Itanhaense, decidi que Izaías será, a partir de hoje, o patrono aqui do HISTORITA! Afinal, eu tenho certeza de que ele gostaria muito da pesquisa que trazemos aqui.
Então, convido você a vir comigo conhecer essa figura esquecida de Itanhaém, mas a quem devemos lembrar de agora em diante: Izaías Cândido Soares!
O terceiro Soares
Izaías Cândido Soares nasceu em 1860 em Itanhaém, filho único de João Mariano Soares (o João Mariano da rua do Centro Histórico, primeiro tamanqueiro de profissão na cidade e vereador) e Maria Ricarda Soares. Herdou do pai João Mariano o tino para a política e o comércio. Somado à educação do avô, Francisco Mariano Soares, que atuou como 1º Sargento da Guarda Nacional e vereador, Izaías herdou uma forte tradição familiar ligada à política, ao comércio e à cultura local.
Izaías cresceu ajudando o pai no comércio de secos e molhados da família, o que rendeu que ele ficasse conhecido entre as pessoas da vila da Conceição de Itanhaém. Provavelmente, ele via o pai lidando com o comércio de forma humana (como se vê no texto do Tio Jão, no artigo de João Mariano), e isso conferiu ao pequeno Izaías uma visão mais humanista do trato social, o que seria muito útil para ele no futuro, além de um panorama amplo sobre os problemas que a vila e seus moradores tinham.
Junto a seu trabalho, Izaías estudava na escola do professor Joaquim Mariano de Meira, que foi um dos primeiros professores formais da vila. Lá, ele foi colega de classe de Emídio de Souza e João Baptista Leal, todos numa turma só, apesar de serem de idades diferentes.
Em termos de família, Izaías teve apenas duas irmãs: Guilhermina Soares e Maria Annunciada Soares. De sua tia, Ana Gertrudes Soares, nasceriam vários primos de Izaías, mas seu mais próximo era Benedito Calixto, que tinha com Izaías uma diferença de 7 anos a mais, então é possível especularmos que Izaías, ainda criança, viu os primeiros passos de Calixto nas artes e deve ter se inspirado também, como veremos.
As primeiras perdas
Em 6 de junho de 1881, aos 20 ou 21 anos, Izaías casou-se com Adelina Angelina Soares, que era sua prima, filha de José Mariano Soares, irmão de João Mariano. Antes que o estimado leitor ou a estimada leitora entre em choque, calma lá: esse hábito de casamento entre primos não era nada incomum na época, porque era uma forma de manter os bens da família e sobrenome ainda entre os próprios familiares. À época, o casamento ainda era algo muito mais contratual que algo por amor.
Juntos, eles tiveram sete filhos. O primeiro, em 1882, foi Rodolpho Lellis Soares; em 1884, nasceu Mario Marinho Soares; em 1890, Cyro Soares; em 1893, a primeira menina, Mercedes Soares; entre 1893 e 1901 nasceram Vitor e Tito Soares; em 1901, Antonio Soares, que morreu com apenas 9 meses de vida, de causas naturais, em 1902.
Vale pontuar aqui que primeira perda real na vida de Izaías não foi seu filho Antonio; foi sua mãe Maria Ricarda, em 1890, quando ele tinha 20 anos.
Já com essas duas mortes mais próximas, da mãe e do filho, Izaías ainda sentiria mais duas perdas em 1902... pois foi nesse ano que morreu a esposa de Izaías, Adelina Angelina, ainda muito jovem, e seu pai, João Mariano, em 21 de julho.
Em minha pesquisa, não descobri o motivo da morte de Adelina. Mas eu tenho algumas hipóteses, cara leitora ou caro leitor.
A primeira é que considerando a proximidade das datas de morte entre Adelina e o bebê Antonio, é bem possível que tenham morrido de doença, assolados por alguma das epidemias que varriam o litoral todos os anos (febre amarela, varíola, entre outras).
A segunda possibilidade, é que a morte de Antonio tenha tido um peso brutal sobre Adelina, levando-a à morte por depressão (sem querer se alimentar ou viver). Não é impossível, mas é apenas uma especulação da minha parte. E você, o que acha?
Antes de seguirmos, porém, é melhor voltar um pouco e botar as coisas na ordem do tempo, como é nosso costume por aqui.
Voltemos então para alguns anos após o casamento, mais precisamente no ano de 1888. Você, fã da história itanhaense, deve ter esse ano na ponta da língua, hein? Afinal, foi nesse ano que Izaías teve a ideia de falar com o primo Calixto sobre algo que o inquietava: Conceição de Itanhaém bem que podia ter um espaço dedicado ao estudo, à leitura de bons livros e jornais: um Gabinete de Leitura. Então, quando encontrou-se com o primo, contou sua ideia, e Calixto, inovador como era, achou o máximo! E mais: disse que podiam, juntos, ir além: ter nesse Gabinete, além dos livros e jornais, um museu, um palco para teatro, oferecer aulas à população... o negócio foi longe!
Assim, eles se reuniram com o professor João Baptista do Espírito Santo e os três foram convidando mais gente para a empreitada. Aproveitaram, inclusive, que o dr. Cunha Moreira estava de férias na cidade e convidaram-no para ser o presidente de honra da nova associação que nasceria ali, no dia 5 de agosto de 1888. Apenas em 1896, também em 5 de agosto, seria inaugurado o prédio social no local onde conhecemos, sob a presidência do coronel Narciso de Andrade.
Sobre a história completa do Gabinete, ah, isso ficará para um próximo episódio do HISTORITA, porque merece um espaço só dele. Por agora, basta-nos saber que Izaías foi o idealizador e contribuinte diário das atividades da associação. Lá, ele trabalhou junto de seu pai João Mariano e seu tio, Zeferino Antonio Soares.
Inclusive, há uma história muito curiosa: certa vez, Izaías trouxe de Praia Grande um enorme osso de baleia, que ficava à mostra no Gabinete. Eu me pergunto como essa viagem deve ter ocorrido (provavelmente vieram pela praia), porque não me parece ter sido algo fácil.
Em 1890, Izaías entrou pela primeira vez na política local como vereador, mas ficou por pouco tempo, visto que a Câmara foi dissolvida em 1891. Em 1892, ele foi eleito Segundo Juiz de Paz da vila. Em 1894, junto de João Alves Ferreira, organizou as partituras para a peça "O Coro das Flores", de Benedito Calixto, que seria encenada muitas vezes no passar das décadas.
Inclusive, a atuação de Izaías para fazer com que acontecessem as peças de teatro (compostas de atores moradores locais) fez com que nascesse o Grêmio Dramático "José de Alencar", que depois mudou de nome para Grêmio Dramático Benedito Calixto, em homenagem ao primo.
Em 1895, Izaías formou uma nova banda musical de jovens, a Sociedade Musical Itanhaense, dando aulas na própria casa, sob a luz de velas e lamparinas. Junto disso, Izaías fazia parte da banda do Capitão Antônio Mendes, pai de Totó Mendes, onde tocava flauta e clarinete com maestria.

Em 1902, mesmo ano da morte de Adelina, ele foi novamente eleito vereador, com 84 votos, uma votação muito expressiva para a época.

Úrsula... e mais uma perda
Veja só como é o destino: em 1898, alguns anos antes de Adelina falecer, Izaías Soares, então com 38 anos, foi padrinho do casamento da jovem Úrsula Celina de Araújo com outro Izaías, Izaías Leopoldo de Meira. Na época, ela tinha 24 anos. Os dois casais não imaginavam que perderiam seus cônjuges em questão de oito anos, ficando os dois viúvos.
Por isso, em 1906, os Izaías e Úrsula decidiram juntar os trapos.
Porém! Havia um impedimento para que se casassem: eram considerados "parentes espirituais", por serem padrinho e afilhada do primeiro casamento de Úrsula.
Então, pediram a dispensa para a Igreja:

E se casaram um mês depois, em 6 de setembro de 1906, sendo Emídio de Souza o escrivão do casamento. E ao que tudo indica, Úrsula estava com um belo barrigão na cerimônia de casamento, pois em 19 de novembro nasceu o primeiro filho do casal: João Mariano Soares, em homenagem ao avô.
Foi então que uma nova perda se fez na vida de Izaías Cândido Soares. Com um mês e cinco dias de vida, o pequeno João faleceu em casa, às 4 da manhã, de causas naturais. Quem registrou a morte foi o filho mais velho de Izaías, Rodolpho Lellis Soares, que trabalhava como escrivão. Ou seja, Rodolpho ajudou o pai a registrar a morte do meio-irmão. Imagine a dor desse momento, cara leitora ou caro leitor...
O último Intendente
Em 1907, Izaías foi nomeado Intendente da vila. Esse cargo era basicamente o de governante da cidade, pois unia tarefas de vereador, secretário municipal e prefeito, e surgiu após a proclamação da República em 1889. Ele foi o último Intendente que Itanhaém teve antes de passar a ter a figura do Prefeito (com João Baptista Leal tendo sido o primeiro prefeito).
Foi essa atribuição que rendeu a Izaías o apelido de "Timoneiro" de Itanhaém, pois era como se ele fosse quem manobrasse o timão do navio que levava cerca de 2000 moradores a terem alguma dignidade de vida.

Em 1908, há registro de Izaías como Diretor do Gabinete de Leitura Itanhaense. Seu nome, escrita e assinaturas aparecem em várias atas do Gabinete entre esses anos de sua fundação até 1910, aproximadamente, porque ele ocupou diversos cargos nesse período.



Izaías Cândido Soares foi vereador diversas vezes, mas presidiu a Câmara em 1908 e 1914. Quanto a esse último ano, já já chegaremos lá.
Na década de 1910, Izaías celebrava seus 50 anos. Há um relato de que ele vivia entristecido pela ausência do primo Calixto, que não se envolvia mais tanto com as movimentações culturais de Itanhaém quanto no passado.
Em 16 de junho de 1911, nasceria uma nova criança do casal Úrsula e Izaías: Iracema Soares, que foi a mãe da nossa amiga Joana Merlin Scholtes Soares.
Em 1914, Izaías foi nomeado procurador da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Tomado pelo ímpeto de colaborar com a Irmandade, ele organizou uma pesquisa documental sobre a história da Festa do Divino Espírito Santo, conseguindo assim os nomes dos festeiros escolhidos como imperadores de 1866 a 1915 e colocando-os numa lista, a qual entregou para Totó Mendes.

E pois é: como você leu ali, "onze dias antes de falecer".
Em 1 de abril de 1914, aos 54 anos, Izaías estava acamado, sofrendo terrivelmente de paludismo. Talvez você não conheça a doença por esse nome, mas eu estou falando da malária. Tudo indica que ele esteve doente por poucos dias, pois segundo contava sua filha Iracema à Joana, ele havia mandado buscar um remédio de Santos que pudesse salvá-lo, mas não deu tempo. Foi nesse dia 1 de abril que Izaías faleceu, deixando Úrsula e Iracema sozinhas.
Eu me pergunto... terá sido justamente a morte de Izaías o alerta que fez com que viesse se instalar uma farmácia em Itanhaém no ano seguinte, por Jorge Rossmann? Afinal, sua morte foi bastante sentida:




No jornal Correio do Litoral, de 14 de março de 1915, o Maestro João Alves Ferreira escreveu:
"Rabiscos - A sociabilidade".
Convidado pelo Diretor do "Correio do Littoral" para escrever alguma coisa, pensei: não o satisfazer seria talvez julgado má vontade minha; satisfaze-lo seria tomar um encargo dificil para mim. Finalmente resolvi. Então veio-me logo à lembrança o nosso saudoso Izaias Soares. Ah! Que belo, que inteligente, que competente, que utilíssimo colaborador teria o "Correio" naquela pena, naquele espírito puramente itanhaense! Sim, itanhaense, por que aqui nasceu e sem mais outras luzes que a da antiga escola pública. Ali é que estava um bom colaborador para o "Correio"! Izaias Soares. Além destas ricas qualidades, possuía a de ser por excelência um espírito sumamente sociável. Basta lembrar que a extinta "Sociedade Carnavalesca Itanhaense", de saudosa memória, teve nele um dos seus principais e entusiásticos associados; a "Sociedade Musical Itanhaense", que surgiu dos escombros das sociedades "Eco Liberal" e "União e Concórdia" teve em Izaias Soares o seu principal organizador e o "Gabinete de Leitura Itanhaense" foi idealizado por ele e nele teve sempre um dos primeiros paladinos da sua existência! À memória, pois, do saudoso amigo, cujo primeiro ano de seu passamento dá-se no dia 1º de abril, como exemplo e estímulo do caráter de sociabilidade, dirigimos estes mal-alinhavados "Rabiscos"!
Sua esposa Úrsula e sua filha Iracema mudaram-se posteriormente para Santos, onde Úrsula viria a falecer em 16 de agosto de 1944, 30 anos após Izaías.
O Timoneiro que ficou no cais
No fim desse nosso papo virtual, eu fico aqui pensando, caro leitor ou cara leitora, no quanto a vida de Izaías foi feita de partidas. Partiu a mãe, partiu o pai, partiu Adelina, partiram os filhos pequenos, e por fim partiu ele mesmo, cedo demais, aos 54 anos, deixando Úrsula e a pequena Iracema para trás numa casa que, de repente e sem qualquer aviso, ficou grande demais para duas mulheres sozinhas.
E no entanto, é curioso: de todas essas partidas, foi justamente a dele que atravessou o tempo até chegar a mim, mais de um século depois, através de uma cadeira de academia de letras que eu nem sabia, à época, o peso que carregava. Pela surpresa de Joana com as descobertas que fiz em minha pesquisa, posso julgar que talvez nem ela soubesse por completo o peso da presença do avô para Itanhaém.
Alguns de vocês sabem que minha área é a da Literatura, não da História, e por isso posso dizer que há qualquer coisa de poético nessa relação temporal entre a vida de nosso homenageado e a produção desse artigo. Veja, Izaías passou a vida inteira juntando gente: fundando sociedades, organizando bandas, escrevendo partituras, erguendo um Gabinete de Leitura, tudo com a força de vontade, da curiosidade artístico-histórica e com a teimosia. Ele não deixou fortuna, não deixou grandes monumentos de pedra com suas feições. Deixou, sim, encontros; deixou pessoas que se conheceram porque ele as reuniu, textos que existem porque ele quis que existissem, uma cidade um pouco mais lida, um pouco mais culta, um pouco mais sua por causa dele.
E foi um encontro, no fim das contas, que o trouxe de volta: o encontro entre mim e minha hoje grande amiga Joana, entre uma cadeira vaga de acadêmico e uma neta que ainda guardava, mesmo que em fragmentos, a lembrança de um avô que ela nunca chegou a conhecer, senão através da pouca memória da criança Iracema que, com pouquíssima idade, teve como uma das primeiras memórias da vida os momentos finais do pai.
É de se pensar, de se filosofar... Talvez seja isso que reste de nós, no fim, mais que os registros perfeitos de uma biografia documental: as pontes que deixamos armadas para que outros venham e atravessem depois. Podemos dizer que Izaías armou a sua sem saber que, décadas depois da última vez que assinou uma ata, décadas depois de sua Úrsula fechar os olhos em Santos, décadas depois de tudo, alguém do outro lado do tempo ia debruçar-se sobre papéis amarelados só para poder contar, de novo, a sua história. Fosse Edison Telles de Azevedo, fosse José Rosendo, ou fosse eu.
A existência de Izaías denota muito bem a ideia de LEGADO, ao qual eu humildemente busco acrescentar alguns tijolinhos para que outros, mais à frente, possam seguir construindo também.
Por isso, Izaías, se de algum lugar você puder ouvir: obrigado por ter sido inquieto. Obrigado por ter incomodado o primo Calixto com aquela ideia de Gabinete. Obrigado por ter insistido em ensinar música à luz de vela, por ter carregado um osso de baleia pela praia só para que alguém tivesse o que admirar; por ter governado uma família caiçara de 2000 moradores em um de seus tempos mais difíceis.
Você não teve tempo de ver no que tudo isso ia dar. Mas nós temos. E é por isso que, a partir de hoje, esta casa também é sua: bem-vindo, Izaías Cândido Soares, patrono do HISTORITA!

Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Referências:
A NOTÍCIA. Falecimento de Izaías Cândido Soares. A Notícia, 3 abr. 1914.
A TRIBUNA. Falecimento de Izaías Cândido Soares. A Tribuna, Santos, 3 abr. 1914.
A TRIBUNA. Carta de correspondente de Itanhaém. A Tribuna, Santos, 6 abr. 1914.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Assinatura de Izaias Cândido Soares em ata da Câmara Municipal de Itanhaém, 1882. São Paulo: APESP.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Assinatura de Izaías C. Soares em ata da Câmara Municipal de Itanhaém, 1908. São Paulo: APESP.
AZEVEDO, Edison Telles de. Itanhaém de Outrora. A Tribuna, Santos, 8 fev. 1959.
CALIXTO, Benedito. Retrato de Izaías Cândido Soares [pintura]. Reproduzido em: Correio do Litoral, 23 maio 1915; republicado por José Rosendo em: Repórter do Litoral, 30 maio 1998.
DIÁRIO DE SANTOS. Eleições em Conceição de Itanhaém. Diário de Santos, Santos, 7 jan. 1902.
DIOCESE DE SANTOS. Registro de dispensa por parentesco espiritual entre Izaías Cândido Soares e Úrsula Celina de Araújo. Santos: Arquivo da Diocese de Santos, 1906.
FERREIRA, João Alves. Rabiscos – A sociabilidade. Correio do Litoral, Itanhaém, 14 mar. 1915.
GABINETE DE LEITURA ITANHAENSE. Ata da diretoria, com Izaías Cândido Soares como 2º Secretário. Itanhaém: Acervo do Gabinete de Leitura "José Rosendo", 1896.
O COMMERCIO DE S. PAULO. Nova diretoria do Gabinete de Leitura Itanhaense. O Commercio de S. Paulo, São Paulo, 17 jan. 1908.
ROSENDO, José: Acervo pessoal de José Rosendo.
SANTOS COMMERCIAL. Izaías e João Alves fundam banda de jovens. Santos Commercial, Santos, set. 1895.
SCHOLTES, Joana Maria Soares Merlin. Imponderável Travessia. Itanhaém, 2022.




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