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Benedicto Calixto de Jesus

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • há 10 horas
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 1 hora

Será o Benedito? Ou Benedicto? Tanto faz, na verdade! Os dois nomes são aceitos segundo a reforma ortográfica, acredite.


Para dizer bem a verdade, a ortografia do nome só cabe mesmo aos puristas. A nós, cabe falar, e falar muito, sobre o itanhaense de mil e uma utilidades e dois mil e dois talentos, Benedicto Calixto de Jesus.


Nascido na então Vila da Conceição de Itanhaém, em 14 de outubro de 1853, Benedicto Calixto teve contato precoce com o ambiente natural e urbano da costa paulista, de uma infância que não era de riqueza, mas também não era de total abandono. Filho de Ana Gertrudes Soares e João Pedro de Jesus, o pequeno Calixto saracoteava pelo areião do Centro daquela época e brincava como podia. Ainda criança, demonstrou aptidão para o desenho e a pintura, inicialmente de forma autodidata. Imagina-se que gostava de estudar na escola que já existia em sua época, porque esse traço com certeza se apresentaria de uma forma bastante intensa por todo seu futuro.


Outra coisa que se imagina é que Calixto tenha tido uma proximidade muito grande com sua prima Antônia Leopoldina de Araújo, pois tinham quase a mesma idade. Isso há de se confirmar com o que viria a acontecer alguns anos depois, mas não apressemos os bois! Calixto já era talentoso desde cedo (há histórias que contam que ele desenhava pequenos retratos das pessoas que assistiam à missa na Igreja Matriz, santinhos personalizados).


Na vila, entretanto, Calixto não teria muito futuro. Dizem as más línguas que ele se impressionou com o irmão mais velho, que em determinada época se mudou para Brotas (SP) para trabalhar na casa de seus tios. Ao voltar para Itanhaém, todo bem-apessoado, o irmão causou um belo impacto nas ambições do jovem Calixto e plantou nele a vontade de tentar a sorte em outros arredores.


Então lá foi ele para fora da vila, provavelmente muito a contragosto de seu tio João Mariano Soares e de sua prima. A trajetória de Calixto nessa época é toda uma epopeia por si só, então não vou me alongar neste momento. Basta dizer que como decorador e pintor de painéis de comércios, atividade comum entre artistas do período, Calixto ganhou alguns poucos trocados enquanto desenvolvia seu domínio técnico e sensibilidade compositiva.


A consolidação de sua carreira ocorreu a partir da década de 1880, quando passou a produzir retratos, paisagens e, sobretudo, telas de temática histórica. Diferentemente de muitos de seus contemporâneos formados na Academia Imperial de Belas Artes, Calixto construiu sua história fora do eixo acadêmico tradicional, embora mantivesse diálogo com seus valores formais, como o desenho rigoroso, a composição equilibrada e o tratamento cuidadoso da luz.


Ah, um mero detalhe: Calixto retornou a Itanhaém nesse meio-tempo, claro, pois, como você sabe, o amor não permite grandes distâncias. O amor por quem, você pode me perguntar. Ora, por sua prima Antônia! Pois é, Calixto casou-se com a prima, o que era frequente naquela época.


Uma das obras de Calixto que mais chamou a atenção na época foi o seu trabalho para o Teatro Guarany, em Santos. O diretor do teatro, Garcia Redondo tomou nota do talento do rapaz e fez seus contatos com o Visconde de Vergueiro. Foi por isso, então, que entre 1883 e 1884, Calixto realizou uma temporada de estudos na Académie Julien, em Paris, totalmente custeada pelo Visconde. Lá, ele viveu uma experiência decisiva para seu amadurecimento artístico e humano. Teve contato com museus, coleções e a pintura histórica europeia, o que reforçou ainda mais seu interesse pela reconstituição visual do passado e pela História em si.


Apesar do lado bom da experiência, dizem que Calixto não se sentia muito contente com todos os movimentos de vanguarda artística, que estavam começando a eclodir no continente no fim daquele século. Preferiu se manter clássico: representando suas pinturas com o rigor dos detalhes dos assuntos das obras, em uma linguagem figurativa clara, narrativa e documental.


Quando voltou para o Brasil, Benedicto Calixto dedicou-se intensamente à representação de episódios fundamentais da história paulista, como a fundação de vilas, cenas do período colonial, os bandeirantes, missões religiosas e acontecimentos ligados à expansão territorial. Obras como Fundação de São Vicente, Martim Afonso de Sousa e A Inundação da Várzea do Carmo tornaram-se imagens canônicas, amplamente reproduzidas em livros didáticos e instituições públicas. Seu trabalho contribuiu decisivamente para a visualização de um passado que, até então, carecia de representação pictórica sistemática.


Fundação de São Vicente - obra de 1900 - acervo do Museu Paulista
Fundação de São Vicente - obra de 1900 - acervo do Museu Paulista

Paralelamente à pintura histórica, Calixto produziria um número assombroso de obras paisagísticas, com destaque para vistas do litoral paulista, do Vale do Paraíba e da cidade de São Paulo em transformação. Suas paisagens registram portos, igrejas, ruas, rios e áreas rurais, funcionando como documentos visuais de um território em processo acelerado de modernização. Nesse aspecto, sua pintura ultrapassa o valor estético e assume relevância histórica e urbanística.


Largo dos Remédios, 1862 - obra de setembro de 1918 - acervo do Museu Paulista
Largo dos Remédios, 1862 - obra de setembro de 1918 - acervo do Museu Paulista

Outro traço distintivo de Benedicto Calixto foi sua atuação como pesquisador da história paulista. Ele foi apaixonado por documentos, mapas antigos, crônicas e relatos de viajantes, e muitas vezes usava essas fontes como base para suas composições. Essa preocupação com a verossimilhança histórica, embora não isenta de idealizações, deu credibilidade e autoridade às suas obras.


Essa verossimilhança, inclusive, é responsável por retratar figuras itanhaenses cuja aparência jamais teria sido conhecida se não fosse por ele. No segundo andar da Pinacoteca Alfredo Volpi, por exemplo, é possível hoje encontrar um retrato do sanitarista Carlos Botelho feito por Calixto como homenagem. Se vier visitar Itanhaém, não deixe de ver!


É imprescindível falar sobre a importância de Benedicto Calixto para Itanhaém em especial. Apesar de a maioria de seus anos ter sido gasta em outras bandas que não eram a vila de Itanhaém, Calixto tinha uma ligação fortíssima com sua terra natal. Por conta disso, as contribuições (e visitas) que ele fazia à vila/cidade foram muitas.


Talvez a mais importante delas tenha sido a fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense, incentivado pelo idealizador e seu primo, Isaías Cândido Soares. O Gabinete serviria como um museu cheio de objetos de valor histórico, biológico (coleções de insetos, peixes e outros animais) e educacional. Nesse último caso, eu me refiro aos jornais e revistas que ele assinou ou trouxe de suas viagens a São Paulo e Santos, e aos muitos livros que compunham a primeira biblioteca da Vila, que permitia que os associados do Gabinete tivessem acesso aos clássicos da literatura mundial.


Além disso, Calixto também participava com a criação de peças de teatro junto de seu primo e de outros itanhaenses, como Emídio Emiliano de Souza. O pano de boca do teatro, inclusive, trazia uma grande pintura de Calixto, representando Martim Afonso ancorando as caravelas, de paixão por essas terras...


Para completar, há relatos de que Calixto dava aulas noturnas no Gabinete para adultos, ensinando Ciências, Primeiras Letras e Matemática. E quando o céu noturno se enchia de estrelas, ele montava seu telescópio na frente do Gabinete para que todos da vila pudessem ver os astros com os próprios olhos.


Antes de encerrarmos, é preciso dizer que a vertente histórica de Calixto gerou frutos de pesquisa importantíssimos. Em 1895, muito incentivado por seu primo Isaías, ele juntou vários de seus estudos e documentos sobre a Vila de Conceição de Itanhaém e publicou seu primeiro livro: A Vila de Itanhaém. Esse livro parece ter sido sua porta de entrada para o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e rendeu respeito e conexões com o Museu Paulista/do Ipiranga. Digo isso, porque na mesma época Calixto enveredou-se em artigos sobre a história do litoral para os periódicos impressos pelas duas instituições.


A Vila de Itanhaém, 2a. edição, de 2025.
A Vila de Itanhaém, 2a. edição, de 2025.

Em 1913, já conhecedor de novos fatos sobre a história de Itanhaém, Calixto lançou o opúsculo (livreto) chamado Memória histórica sobre o Convento e a Igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém. O trabalho funciona como um apanhado de informações novas, e algumas correções quanto ao seu livro primeiro, e traz imagens interessantes, principalmente as de seus tios João Mariano e Zeferino Antônio Soares, e seu sogro, Leopoldino Antônio de Araújo, os três responsáveis pela restauração do Convento, encerrada em 1865.


Por fim, em 1924, Calixto lançaria a primeira edição de sua obra-prima, Capitanias Paulistas, que é um verdadeiro compêndio sobre a história do litoral paulista, focada nas capitanias de São Paulo, São Vicente e Itanhaém. É um trabalho de valor inestimável para se compreender o desenrolar da colonização na costa paulista, e traz muitos mapas desenhados por ele mesmo e por seu filho, Sizenando Calixto de Jesus.


Reconhecido ainda em vida, Calixto recebeu encomendas de instituições públicas, igrejas e particulares, além de participar de exposições nacionais. Sua produção decorativa inclui painéis murais e trabalhos religiosos, nos quais se observa o mesmo rigor narrativo presente em suas telas históricas. Faleceu em São Paulo, em 31 de maio de 1927, aos 73 anos, de ataque cardíaco, enquanto visitava seu filho. Deixou os filhos Sizenando, Fantina e Pedrina, e claro, a viúva Antônia, além da vasta obra que hoje integra acervos de museus, arquivos e coleções públicas.


Calixto é uma figura que merece bem mais que um artigo biográfico básico. Por assim ser, aqui no Historita nós teremos vários outros artigos falando sobre ele, suas obras e anedotas divertidas...

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por Gustavo C. da Mota

 

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