João Baptista do Espírito Santo
- Gustavo da Mota

- 6 de fev.
- 12 min de leitura

Por muito tempo, a história do Professor João Baptista do Espírito Santo foi uma incógnita. Seu nome surgira ligado a outros nomes na ata de fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense, em 1888, onde se menciona que ele era um mestre-escola que ajudou com a propaganda para que o projeto da associação civil do Gabinete ganhasse mais adeptos.
Ainda assim, apesar de seu nome constar na ata de fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense, João Baptista do Espírito Santo não foi posteriormente homenageado na toponímia do Centro da cidade. As ruas dessa área receberam, na maioria, nomes de signatários ou personagens vinculados àquela ata — como João Mariano (Soares), Leopoldino Antonio de Araújo e Zeferino Antonio Soares —, distinção que não se estendeu ao professor João Baptista, apesar de sua importante atuação registrada na documentação fundadora.
Quando foi feita a criação da Academia Itanhaense de Letras, em 1997, o memorialista José Rosendo sugeriu nomes para os patronos e patronesses a serem adotados para cada cadeira, de modo a eternizá-los. Foi por conta dele que pude conhecer que João Baptista do Espírito Santo havia sido alguém de renome, e após questionamento do atual empossado em sua cadeira, o acadêmico Rui Coutinho, constatei que realmente não havia nada de substancial sobre o patrono.
As informações sobre a vida do professor João Baptista do Espírito Santo são bastante raras e difíceis de se encontrar devido ao nome bastante genérico, mas foi possível traçar uma linha do tempo baseada em documentos de registro civil, jornalísticos e oficiais. Hoje, o HISTORITA vem fazer certa justiça à história de um homem que merece ser lembrado pelo respeito e carinho que inspirava na Itanhaém do séc. XIX.
O início
João Baptista do Espírito Santo nasceu em Conceição de Itanhaém, em 1837. Não há quaisquer informações a respeito de sua presença nas escolas da cidade, mas é de se imaginar que ele tenha tido alguma boa instrução. Isso seria primordial para que, no futuro, ele fosse admitido como professor. Entretanto, como não há dados sobre essa época de sua vida, considere esses argumentos como pura especulação da minha parte.
Algo que também é possível especular é que em algum momento de sua juventude ele foi tentar a vida em Santos.
Digo isso devido ao primeiro registro claro que temos: em 1865, quando João Baptista tinha 27 anos: seu alistamento como Voluntário da Pátria em Santos, durante a Guerra do Paraguai.

Em 3 de março de 1866, ele foi convocado como jurado:

E em 24 de maio, hospedou um amigo de Caçapava (SP), Alexandre de Freitas Dias, em sua casa, e foi por ele agradecido com uma nota no jornal Revista Commercial:

Do Guapira, de volta à Conceição de Itanhaém
Em 1870 (33 anos), há o registro de que João Baptista do Espírito Santo estava na cidade de São Paulo. Ele respondeu ao chamado de um edital para a admissão de novos professores ao corpo docente da Província, e fez seu exame às 9:30 da manhã do dia 30 de dezembro. Não é possível saber se ele já estava em São Paulo antes disso, ou se precisou ir de Santos até a capital para essa admissão especificamente.
Já no início de 1871, ele surge nomeado como professor do antigo sítio/bairro do Guapira.
Confesso que pensei ser esse dado algum tipo de confusão, pois não esperava ver um nome tão próximo a mim ligado a Itanhaém. O bairro em que vivi por 35 anos em São Paulo, o Jaçanã, tinha sido justamente o Guapira no passado. Em uma coincidência divertida, o professor João Baptista deixaria o bairro e a São Paulo em 1873, e viria para Conceição de Itanhaém - assim como eu o fiz, saindo do Jaçanã e vindo para cá.
Temos uma situação curiosa que surge no ano de 1873, que foi o estopim para o retorno de João Baptista para a Vila. Isso pode ser averiguado no seguinte ofício da Câmara à Província, datado daquele ano:
"Em cumprimento do despacho de V. Exa. de 23 do presente mês, proferido na petição dos Professores Públicos de 1ᵃˢ letras do Bairro do Itaqueri, João Pedro de Jesus Junior, e D. Julia Augusta do Amaral, cumpre-me informar a V. Exa. que a cadeira do sexo masculino do Bairro do Peruíbe, distrito desta Vila, acha-se vaga há mais de ano, em consequência da remoção que pediu o respectivo Professor para Itapeva de Jacareí; e a do feminino foi abandonada pela Professora D. Maria Joaquina Ferreira a 22 de outubro de 1872, a qual, ausentando-se para o Rio de Janeiro em companhia de um mascate, até o presente não há mais notícia dela, como já tive ocasião de informar à Inspetoria Geral da Instrução Pública, que existindo no dito bairro grande numero de alunos de um e outro sexo e não tendo havido concorrentes às cadeiras, muito tem sofrido a instrução dos mesmos, e atendendo às circunstâncias que exponho, rogo a V. Exa. se digne despachar os pretendentes Professores para o referido Bairro o qual é muito populoso e dividido em dois quarteirões."

Esse documento mostra que o bairro de Peruíbe estava abandonado em termos de educação, sem professores há mais de um ano. É justamente nesse ano que vemos o nome de João Baptista do Espírito Santo surgir como parte do rol de eleitores de Conceição de Itanhaém no jornal A Tribuna, indicando que a resposta da Província foi "emprestar" o professor do Guapira temporariamente, até que surgisse alguém para ocupar a cadeira em definitivo.
E assim foi... mais ou menos, na verdade. O que era para ser temporário acabou se tornando permanente, como veremos. Por agora, basta saber que João Baptista tinha duas irmãs ainda morando na Vila: Anna Francisca do Espírito Santo e Maria Carolina do Espírito Santo (que também era professora pública), e retornava para sua terra de origem.
Após assumir a escola em Peruíbe (da Aldeia de S. João Baptista, mais precisamente, em mais uma coincidência), o prestígio de João Baptista foi imediato: ele veio como um salvador da educação naquele bairro tão populoso. Por isso, ainda em 1873, ele foi convocado como parte da equipe de recenseadores da Vila, composta de Antonio Maria dos Santos, Leopoldino Antonio de Araújo, João Sabino Pinto, Urcezino Antonio Ferreira, e ele mesmo. Em 1874, a tarefa se repetiria, com a mesma turma, como pode se atestar pela Tribuna dos dois anos.
Respeitado e querido
Em 1875, João Baptista apadrinha junto de sua irmã Maria Carolina sua sobrinha Alzira, filha de Anna Francisca. na Vila, reforçando a ideia de que era querido pela população, e no mesmo ano se casa com Elisiária Maria do Espírito Santo. O documento de registro comprova que João Baptista do Espírito Santo realmente nasceu em Itanhaém.
Clique na imagem para vê-la em tamanho maior. Se estiver no celular, você vai precisar dar um bom zoom para enxergar.

Em 1876, João Baptista do Espírito Santo tem sua primeira filha: Maria Elisa do Espírito Santo, nascida em 21 de março.
Em 1878, na falta de um secretário para a seção eleitoral das eleições daquele ano, João Baptista se voluntariou a cumprir a função. Ele era declaradamente liberal. No mesmo ano, apadrinhou outra criança (Maria), agora com sua esposa Elisiária. A criança era filha de Manoel Francisco do Nascimento e Joana Josefa de Aguiar.
Em 1879, novamente ele seria padrinho. Tenho a documentação, mas não vou me estender aqui em mais detalhes quanto aos apadrinhamentos porque, no total de sua vida, João Baptista seria padrinho de oito crianças. Isso mostra que ele era realmente querido pela população.
Se houver interesse ou curiosidade de conhecer todos os detalhes sobre os afilhados, basta me contatar pelo Instagram @ohistorita, e eu mostrarei os documentos.
Ainda nesse ano de 1879, João Baptista fez parte de uma comissão criada pela Câmara Municipal para ajuda e relato sobre os indígenas que moravam às margens do Rio Mambu (afluente do Rio Branco), pois estavam sendo perseguidos e viviam em situação de precariedade. Essa comissão foi responsável por produzir o primeiro censo indígena de Itanhaém e solidificou a proibição de cerco aos nativos, legislada na Câmara meses antes.
O HISTORITA trará os documentos dessa comissão e os dados do censo indígena com exclusividade, em breve, num artigo próprio. É possível que os dados ajudem a traçar perfis genealógicos de famílias itanhaenses e peruibenses atuais.

A morte de Elisiária
Em 1881, há os primeiros registros de que João Baptista se tornou apresentante em diversas situações no Cartório da Vila. A figura do apresentante era alguém voluntário, geralmente de algum prestígio e respeito da sociedade, que ia até o cartório comprovar a identidade ou idoneidade de algum terceiro. Tratava-se de uma necessidade recorrente, pois eram poucos os que tinham documentos que comprovassem sua identidade, então alguém com responsabilidade frente à sociedade tinha uma voz determinante para isso. O Alferes Leopoldino Antonio de Araújo também serviu como apresentante algumas vezes, mas o nome de João Baptista é mais frequente nos registros.
Em 1883, na edição de 7de julho do Correio Paulistano, há o registro de um despacho da Presidência da Província executado no dia 4, onde se lê:

Isso indica que, após 10 anos de trabalho como professor "temporário" no bairro de Peruíbe, João Baptista pediu sua exoneração como servidor da escola paulistana no Guapira, pois ainda constava como professor de lá para fincar raízes definitivas em Itanhaém. Isso se comprova com o que seria publicado 4 dias depois no mesmo jornal:

O "Idem" que surge como resposta do despacho se refere a "Concedo", que surge anteriormente no mesmo rol de despachos. Como o trâmite foi bastante rápido, confirma-se que foi mais uma simples questão de formalização da situação do professor João Baptista do Espírito Santo em Peruíbe/Itanhaém.
Nesse ano nasce sua segunda filha, Corina do Espírito Santo.
Até 1887, João Baptista do Espirito Santo e Elisiária seguiram apadrinhando crianças juntos, tendo o último registro disso sido em 14 de maio de 1886. Digo último registro, pois no dia 1 de maio de 1887, Elisiária faleceu. No Diário de Santos de 4 de maio, viria esta nota:

Especulo aqui que ela tenha morrido ainda um tanto jovem, pois apenas quatro anos antes ela havia dado à luz a sua filha Corina, e havia se casado 12 anos antes. Fazendo as contas, é possível especular que ela tenha se casado bem jovem e morrido também com pouca idade, ou casou com 30 anos e teve a segunda filha já com 42, o que não é impossível. Considerando que o próprio João Baptista se casou aos 37 anos, a tese de que teria se casado com uma mulher de idade próxima a sua é bem plausível, mas não ignora a chance dele ter se casado com uma moça bem mais jovem que ele, claro (até por conta de algo que veremos mais abaixo).
O Gabinete de Leitura Itanhaense e a nova esposa nova
Em 1888, talvez no afã de se ocupar de assuntos que o distraíssem da morte da esposa, o professor João Baptista do Espírito Santo se envolve com o projeto do Gabinete de Leitura Itanhaense. Junto de Isaías Cândido Soares, Benedicto Calixto, João Mariano Soares e Narciso de Andrade, ele compõe a primeira equipe decidida a fazer a ideia acontecer. Isaías, como o idealizador, Calixto como aperfeiçoador da ideia, João Mariano e Narciso de Andrade como apoiadores e o professor João Baptista como o propagandista da ideia aos moradores da Vila. Certamente, seu prestígio com a população daria ainda mais peso e autenticidade ao projeto.
Em 20 de julho de 1888, na reunião para a fundação do Gabinete na casa de Manoel Antônio Ribeiro, João Baptista do Espírito Santo foi nomeado como o primeiro secretário do Gabinete. Por conta disso, é dele a letra que escreveu a ata da fundação.
O professor tinha na ocasião 50 anos.
Em 1890, há um registro do Correio Paulistano em que João Baptista do Espírito Santo pediu licença de 30 dias de seu cargo, por razões de saúde. Se considerarmos a extensão da licença, é de se imaginar que tenha sido acometido por alguma enfermidade grave. Ele conseguiu a licença, mas não foi remunerada.
Em 1891, ele já estava com a saúde em dia, aparentemente: foi padrinho de mais uma criança, dessa vez junto com a filha Maria Elisa (que já era professora em Itanhaém também), e em 30 de novembro, casou-se com Maria Luiza Gonzaga, que tinha 26 anos.

Em 1892, nasceu a primeira e única filha do casal, Eulina Luiza do Espírito Santo.
Em 1894, surge um outro registro de João Baptista como apresentante no cartório. Ele seguia ativo.
Em 1895, nasceu sua primeira neta, filha de Maria Elisa, a menina Anna Benedicta Bonifácia. Ainda há registros dele como professor, sob a inspetoria de instrução de João Mariano Soares.

A partir desse ano, surge um grande buraco na história de João Baptista do Espírito Santo. Não há mais qualquer registro encontrado sobre ele, mas podemos inferir algum possível fechamento:
Em 1901, sua primeira filha, Maria Elisa, aparece sozinha como madrinha de uma criança. Claro, isso por si só não quer dizer nada. Pode ser que ela tenha sido convidada especificamente, e não o pai, até porque nessa época ele já estava casado novamente, e se tivesse sido convidado a apadrinhar, é mais provável que seria junto da jovem esposa Maria Luiza Gonzaga.
Um outro fato a seguir permite pontuarmos mais detalhes. Em 1907, existe a certidão de casamento de Maria Luiza Gonzaga com Benedicto Jorge de Araújo (filho de Leopoldino), e lá ela é listada como viúva.
Deduz-se, então, que até 1907, o professor João Baptista do Espírito Santo já havia falecido.
Terá sido em 1900, 1901, justificando sua ausência no apadrinhamento com sua filha Maria Elisa?
Eu, particularmente, tendo a acreditar que tenha sido entre 1895 e 1905, pois não acho que Maria Luiza se casaria novamente logo após enviuvar - haveria de ter um tempo de luto, ou seria mal-vista pela sociedade. Mas o que você acha? Fique à vontade para comentar mais abaixo.
Uma pequena curiosidade/fofoca: Benedicto Jorge de Araújo foi testemunha no primeiro casamento de Maria Luiza Gonzaga, com o professor João Baptista (!).
Legado
Esta é a primeira vez em que a história do professor João Baptista do Espírito Santo é contada. Ainda há muito o que se descobrir sobre ele - inclusive sua aparência, a qual não sabemos na realidade (a aparência usada aqui é apenas uma ilustração possível, considerando fotografias de professores da época). É fato que Calixto pintou um retrato do professor e esse quadro esteve nas paredes do Gabinete de Leitura, assim como o quadro de Narciso de Andrade. Que fim terá levado? Não pude encontrar nenhum sinal dele, nem se ainda existe.
Mas permita-me, caro leitor ou leitora, a franqueza: um itanhaense que foi Voluntário da Pátria, que cruzou o estado para levar as primeiras letras ao bairro do Guapira e que retornou à sua terra natal para tirar do abandono o ensino em Peruíbe, não precisa de pinceladas para ser eterno. Seu legado sobrevive em cada cidadão que, ao longo de gerações, aprendeu a ler e a escrever sob a influência de sua linhagem de educadores — incluindo sua irmã e sua filha.
Agora sabemos que o Professor foi mais que um nome em uma ata; foi o mestre que deu voz aos que não sabiam ler e o apresentante que deu identidade aos que não tinham documentos. Foi o homem que, entre batismos e censos indígenas, costurou o tecido social de uma Vila que ele amava.
Hoje, ao retirarmos o véu de anonimato que cobria sua biografia, o HISTORITA não faz só o preenchimento de uma lacuna acadêmica que se fazia necessária, mas cumpre um dever de gratidão da Vila com ele. O professor João Baptista do Espírito Santo finalmente volta para casa, não mais como uma incógnita. Volta como o exemplo de que a educação é, e sempre será, o ato de resistência mais nobre de um povo.
Que sua história agora lida inspire futuros mestres a entenderem que, mesmo quando o rosto se apaga das paredes já perdidas de um Gabinete de Leitura, a luz de seu legado através da educação e de sua responsabilidade social voluntária permanece acesa na alma de Itanhaém.
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes:
A TRIBUNA. [Registros de eleitores e recenseamento]. A Tribuna, Santos, 1873-1874.
ALMANAQUE DA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO. [Equipe da educação de Conceição de Itanhaém]. Almanaque da Província de S. Paulo, São Paulo, 1895.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Ofício da Câmara à Província: falta de professores em Peruíbe. São Paulo: APESP, 1873.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Ofício sobre a comissão de auxílio aos indígenas do Rio Mambu. São Paulo: APESP, 12 jul. 1879.
CORREIO PAULISTANO. [Notas sobre Voluntários da Pátria e Despachos da Província]. Correio Paulistano, São Paulo, 1865-1890.
DIÁRIO DE SANTOS. [Missa de sétimo dia de Elisiária Maria do Espírito Santo]. Diário de Santos, Santos, 4 maio 1887.
GABINETE DE LEITURA ITANHAENSE. Ata de fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense. Itanhaém, 20 jul. 1888.
ITANHAÉM. Cartório de Registro Civil. Registro de batismo de Alzira. Itanhaém, 14 nov. 1875.
ITANHAÉM. Cartório de Registro Civil. Registro de casamento de João Baptista do Espírito Santo e Maria Luiza Gonzaga. Itanhaém, 30 nov. 1891.
ITANHAÉM. Cartório de Registro Civil. Registro de casamento de Maria Luiza Gonzaga e Benedicto Jorge de Araújo. Itanhaém, 1907.
REVISTA COMMERCIAL. [Editais e notas de agradecimento]. Revista Commercial, Santos, 3 mar. 1866; 25 maio 1866.
ROSENDO, José. Patronos e Patronesses da Academia Itanhaense de Letras. Itanhaém: [s.n.], 1997.
SÓ, José Carlos. Itanhaém: História & Estórias. Itanhaém: [s.n.], [s.d.].




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