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João Mariano (Soares)

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • 15 de jan.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 4 de fev.


João Mariano Soares figura entre os personagens centrais da história social, religiosa e administrativa de Itanhaém ao longo do século XIX. Nascido em 1826 e falecido em 21 de junho de 1902, pertenceu a uma família antiga e amplamente enraizada na vila, marcada pela atuação pública, pela devoção religiosa e pela forte inserção comunitária. Era irmão de Zeferino Antônio Soares, José Mariano Soares, Ana Gertrudes Soares de Jesus (mãe de Benedicto Calixto) e Maria Soares Ferreira, e casou-se com Maria Ricarda Soares, com quem teve os filhos Isaías Cândido Soares, Guilhermina Soares Ferreira e Maria Annunciada Soares.


Da esq. para a dir: Leopoldino Antônio de Araújo, João Mariano Soares e Zeferino Antônio Soares, do acervo de Benedicto Calixto de Jesus, da década de 1880 (na reforma da Igreja Matriz).
Da esq. para a dir: Leopoldino Antônio de Araújo, João Mariano Soares e Zeferino Antônio Soares, do acervo de Benedicto Calixto de Jesus, da década de 1880 (na reforma da Igreja Matriz).

Desde meados do século XIX, João Mariano Soares aparece de forma recorrente na documentação administrativa e religiosa de Itanhaém. Em 1857, exercia a função de segundo suplente do subdelegado da vila, indício de seu reconhecimento como homem de confiança e de prestígio local. Essa atuação se intensificaria nos anos seguintes, sobretudo no campo religioso, ao qual esteve profundamente ligado durante toda a vida.


Em 1861, João Mariano participou ativamente da reedificação do Convento de Nossa Senhora da Conceição, um dos marcos arquitetônicos e espirituais da cidade. No mesmo período, ocupou cargos de direção na Irmandade de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, atuando como diretor, procurador e tesoureiro. Entre 1862 e 1863, foi nomeado zelador provisório dos bens da santa e reeleito sucessivamente para a tesouraria da irmandade, função que exigia não apenas idoneidade moral, mas também capacidade administrativa e rigor contábil. Mais tarde, acumulou também a tesouraria da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, ampliando sua influência no universo das confrarias religiosas locais.


Paralelamente à vida religiosa, João Mariano Soares manteve intensa participação na esfera política e civil. Em 1868, figurava como vereador suplente pelo Partido Liberal, além de novamente ocupar a suplência da subdelegacia. Em 1882, foi eleito vereador da Câmara Municipal de Itanhaém, consolidando uma trajetória de décadas de serviço público.


Em 1876, havia sido nomeado inspetor da Instrução Pública (semelhante ao cargo de Secretário da Educação de hoje), função que o colocava diretamente ligado à organização e à fiscalização do ensino na vila, em um período em que a educação elementar ainda se estruturava de forma incipiente no interior paulista.


Sua atuação, entretanto, não se limitava aos cargos formais. João Mariano Soares era, antes de tudo, um homem do trabalho cotidiano. Em 1873, declarava como profissões o ofício de tamanqueiro — fabricante de tamancos — e o comércio de secos e molhados, exercido em sua “venda”, ponto de encontro da população local. Essa combinação de trabalho manual, comércio e vida pública conferia-lhe uma posição singular: era simultaneamente autoridade, conselheiro e homem comum, profundamente inserido no tecido social da vila.


Imagem de João Mariano Soares, feita por Benedicto Calixto em seu livro Memória histórica sobre o convento e a igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém.
Imagem de João Mariano Soares, feita por Benedicto Calixto em seu livro Memória histórica sobre o convento e a igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém.

Essa dimensão humana e patriarcal de João Mariano foi registrada de maneira notável no texto memorialístico “O tio Jão”, escrito por Benedito Ribeiro Santos em 1911 e encaminhado ao jovem Totó Mendes. Nele, o autor descreve João Mariano como um homem já idoso, porém resistente, trabalhando diariamente em sua venda, pregando tamancos e atendendo à freguesia. Conhecido por todos como “tio Jão”, era visto como a própria “alma de Itanhaém”, um patriarca simples, severo e afetuoso, que colocava sistematicamente o interesse coletivo acima dos interesses pessoais.


Segundo esse testemunho, João Mariano era profundamente religioso, católico praticante e cristão no sentido moral mais amplo, cultivando a bondade, a retidão e a caridade como princípios fundamentais. Embora econômico e rigoroso nos negócios, era generoso diante da miséria e da doença, permitindo que os necessitados se servissem de sua venda mesmo sem dinheiro. Exercia informalmente o papel de conselheiro, mediador de conflitos e até de curador, ministrando remédios caseiros e palavras de estímulo, cuja eficácia parecia, aos olhos da comunidade, quase milagrosa.


Sua casa, considerada a maior e mais bela de Itanhaém à época, situava-se em posição de destaque na principal via da vila, a atual rua Dr. Cunha Moreira. Era uma residência ampla, caiada, aberta à paisagem da beira-mar, e guardava em seu interior uma capela doméstica, verdadeiro santuário familiar. Ali se realizavam as rezas noturnas da quaresma, reunindo parentes e moradores em um ritual que misturava devoção, sociabilidade e tradição. O ambiente era descrito com riqueza sensorial: flores cuidadosamente dispostas, toalhas de linho, castiçais de prata, incenso e imagens sacras iluminadas, muitas delas cuidadas pelas filhas Guilhermina e Maria Annunciada.


Essa mesma casa conservava pinturas murais realizadas por Benedito Calixto, ainda jovem, o que revela a proximidade de João Mariano com figuras que mais tarde se tornariam centrais na história cultural paulista. Além disso, parte das casas da rua principal da vila era de sua propriedade, e nenhuma delas era ocupada sem a cerimônia solene de benzimento, acompanhada por sacerdote, acólito, banda musical e moradores, especialmente por ocasião das festas religiosas.


No campo das obras públicas e religiosas, destacou-se ainda em 1880, quando dirigiu, ao lado de Urcezino Antônio Ferreira e João Bento de Souza, as obras da Igreja Matriz de Itanhaém. Em 1888, integrou o grupo fundador do Gabinete de Leitura Itanhaense, exercendo o cargo de secretário da instituição e atuando lado a lado com seu filho Isaías Cândido Soares. O Gabinete consolidava-se como espaço de sociabilidade letrada e afirmação cultural da vila, e a presença de João Mariano Soares em sua administração demonstra sua abertura à instrução e à circulação do saber, mesmo sendo um homem profundamente ligado às tradições.


Nos últimos anos de vida, sua figura adquiriu contornos quase simbólicos. Em 1901, foi escolhido Imperador da Festa do Divino Espírito Santo, uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais de Itanhaém, coroando uma trajetória marcada pela devoção e pelo serviço comunitário.


Sua morte, ocorrida em 21 de junho de 1902, foi sentida como o encerramento de um ciclo. Para seus contemporâneos, a decadência progressiva da vila acentuou-se após seu desaparecimento, como se a perda daquele patriarca humilde e vigilante tivesse deixado um vazio difícil de preencher. Veja a seguir o atestado de óbito de João Mariano, preenchido pelo próprio irmão, Zeferino:


Atestado de óbito de João Mariano. Lê-se: "Aos 21 dias do mês de junho de 1902, neste Distrito de Paz de Itanhaém, compareceu no meu cartório Isaías Cândido Soares, residente nesta Vila, e declarou: hoje, às duas horas da manhã, faleceu seu pai João Mariano Soares, de 75 anos de idade, viúvo de Maria Ricarda Soares, deixou um filho viúvo, uma filha casada e uma solteira. Faleceu de morte natural e vai sepultar-se no Cemitério Municipal. Do que para constar lavrei o presente termo que assino com as testemunhas abaixo firmadas, que verificaram o óbito. Eu, Zeferino Antônio Soares, Escrivão de Paz, o escrevi."
Atestado de óbito de João Mariano. Lê-se: "Aos 21 dias do mês de junho de 1902, neste Distrito de Paz de Itanhaém, compareceu no meu cartório Isaías Cândido Soares, residente nesta Vila, e declarou: hoje, às duas horas da manhã, faleceu seu pai João Mariano Soares, de 75 anos de idade, viúvo de Maria Ricarda Soares, deixou um filho viúvo, uma filha casada e uma solteira. Faleceu de morte natural e vai sepultar-se no Cemitério Municipal. Do que para constar lavrei o presente termo que assino com as testemunhas abaixo firmadas, que verificaram o óbito. Eu, Zeferino Antônio Soares, Escrivão de Paz, o escrevi."

João Mariano Soares permanece, assim, como uma das figuras mais representativas da Itanhaém oitocentista: comerciante, artesão, político, dirigente religioso, educador, benfeitor e patriarca. Sua trajetória sintetiza uma forma de liderança fundada menos no poder formal e mais na autoridade moral, na presença cotidiana e na fidelidade às tradições locais, configurando um personagem essencial para a compreensão da história social e cultural da cidade. Por sua importância, hoje seu nome pode ser visto em uma das ruas que ladeiam a praça Narciso de Andrade.


Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes utilizadas:

SANTOS, Benedito Ribeiro. O Tio Jão. A Tribuna, 1911, Santos.

AZEVEDO, Edison Telles de. Itanhaém de Outrora. A Tribuna. 1959, Santos.

A Gazeta de SP. 1868, São Paulo.

CALIXTO, Benedicto. A Vila de Itanhaém. 2. ed. Itanhaém, Noz Editoria, 2025.

Almanack da Província de São Paulo, 1873-1875.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Atas e ofícios do século XIX em Itanhaém. Fundo Secretaria do Governo da Província, 18--, São Paulo.


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por Gustavo C. da Mota

 

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