Dr. Cunha Moreira
- Gustavo da Mota

- 31 de jan.
- 18 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.

Quanto riso; ó, quanta alegria! Quando se aproxima o Carnaval, surgem as memórias dele: o mais carnavalesco dos médicos, o dr. Henrique da Cunha Moreira, cujo nome está em uma das principais (se não A principal) ruas do Centro Histórico de Itanhaém, como rua Dr. Cunha Moreira, ou apenas rua Cunha Moreira, mais recentemente. E pelo que pude averiguar sobre o bom doutor, é bem possível que ele não fizesse nenhuma questão do título antes do nome.
Henrique da Cunha Moreira nasceu como um presente de Natal para a casa do Visconde e da Viscondessa de Cabo Frio, no dia 24 de dezembro de 1829, na cidade do Rio de Janeiro. A família morava na rua do Lavradio, número 52, logradouro que faz parte do aspecto histórico da cidade maravilhosa até hoje. Veja só:


Pois é, a casa de Cunha Moreira (que vinha sendo usado no século XXI pelo Cordão da Bola Preta para suas reuniões, por ironia do destino, como veremos), teve boa parte de si que desabou no primeiro semestre de 2012. Depois, "reformaram"o prédio.
A propósito, é interessante conhecermos visualmente a figura do pai de Cunha Moreira, o já mencionado Visconde de Cabo Frio. Ei-lo:

Luiz, que decerto era um homem muito disciplinado, teve o filho Henrique estudando nas melhores escolas do Rio. De início, o menino estudou no Colégio Francês (Lycée Française), onde com 10 anos (1839) já tinha ótima pontuação nas disciplinas de Doutrina Cristã e Leitura em Português, além de Tradução de Francês para Português.

Já aos 14 anos, em 1843, Henrique estudava no Colégio d'Instrução Elementar, onde foi aprovado cum laude (com honras).
Como dessa fase de criança e adolescente sempre se encontra muito pouco, podemos seguir nossa pesquisa com o registro de 1854. Nesse ano, em 18 de dezembro, Henrique se formou em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, tornando-se, finalmente, o nosso dr. Cunha Moreira. Foi ali o ponto de virada de sua vida, quando estava prestes a começar, de fato, a viver.

Não se sabem os motivos, mas é fato que ele conseguiu emprego na Santa Casa de Misericórdia de Santos em 1855. Por isso, ele deixou o Rio de Janeiro e tomou o paquete a vapor "Paraense" rumo à terra de Braz Cubas.
Logo ao chegar, foi requisitado à equipe da Santa Casa um relatório sobre a situação da saúde na cidade, considerando que em 1855 houve um surto de cólera pelo estado de São Paulo. Cunha Moreira redigiu-o para publicação no Correio Paulistano, dizendo:
"Ilmos. Srs. Vergueiro e Cia,
Respondendo aos quesitos que V. Ss. me pedem, direi: quanto ao primeiro, que não só não reina epidemia alguma nesta cidade, como tão bem o seu estado sanitário é atualmente o mais satisfatório possível.
Quanto ao segundo, responderei que a aglomeração e demora de homens, sobretudo colonos, soldados e pretos, classes pouco dadas ao asseio, favorecem o desenvolvimento de epidemias e muito principalmente quando são acomodadas em lugares apertados e pouco arejados com os que se acham nesta cidade, é opinião dos grandes médicos e escritores e os fatos todos os dias o provam; eu, perfeitamente ciente e convencido disto, afirmo, garanto e juro na fé de meu grau se necessário for, e assino.
Santos, 12 de dezembro de 1855.
Dr. Henrique da Cunha Moreira."
Ainda nesse ano e no seguinte, Cunha Moreira apareceria nos jornais atestando a qualidade de um tal "Elixir Calmante da Índia". Percebe-se que ele já acumulava certa fama, pois seu nome era usado para referendar um medicamento.
O testemunho dele é este:

No ano seguinte, 1856, Henrique conhece e se casa com Domitila Proost de Souza. Além disso, é escalado para uma comissão da Santa Casa que verificaria a situação da trasladação dos mortos enterrados em lugares fora do cemitério do Paquetá.
Ao que tudo indica, apesar de sua seriedade e profissionalismo, Henrique da Cunha Moreira tinha um lado bastante divertido. Digo isso, porque no ano de 1857 ele estava bastante envolvido com o carnaval santista, ao ponto de ser um dos fundadores da chamada Sociedade Carnavalesca Santista, que germinaria o Club XV anos depois. Segundo relatos, dizem que o dr. Cunha Moreira proibia as pessoas de ficarem doentes nos dias do Carnaval, pois ele realmente não atendia durante as festividades! Sua devoção à festa era tanta, que ele seria lembrado mesmo em livros como História do Carnaval Santista como "o maior folião santista" de todos os tempos. Há até mesmo um relato que diz que certa vez ele se apresentou vestido de deus dos mares, Netuno, entre os carros alegóricos! Pobre dona Domitila... ou será que ela se juntava às festas?
Apesar de seu lado carnavalesco, quando não era Carnaval, dr. Cunha Moreira seguia trabalhando firme, inclusive tendo participado da elaboração e estruturação de um lazareto (pequena clínica temporária, neste contexto) para a cidade de Paranaguá chefiado pela Santa Casa, para a contenção do surto de febre-amarela daquele ano.
Em 1859, aos 29 ou 30 anos, Cunha Moreira assume o cargo de subdelegado em Santos. Já vimos aqui no HISTORITA diversos homens que se tornavam subdelegados de polícia, possivelmente porque eram pessoas vistas como de confiança e conhecedoras de leis, mas isso é só especulação de minha parte. A confiança em sua pessoa era tanta, que ele esteve junto de um processo que pedia revisão de um inventário para que a Santa Casa participasse da partilha de bens, por exemplo, nesse ano.
Em 1860, temos o registro de que Cunha Moreira se mudou com a família para Limeira (SP). Tal mudança teria sido motivada pela promessa de uma vida política por lá, sob o Partido Liberal (oposto ao Partido Conservador).
Em 1863, já estabelecido na cidade como médico particular, Cunha Moreira foi convocado para uma comissão que cuidaria da criação de um lazareto na cidade para combater a epidemia de varíola, doença chamada na época de "bexigas", devido às pústulas e bolhas que formava.
Novamente, pela sua boa atuação, em 1864 foi concedido ao dr. Cunha Moreira os cargos de Delegado de Polícia e Inspetor de Instrução Pública. Essa última posição, entretanto, parece não lhe ter agradado muito, pois em 10 de setembro de 1865 ele pediu sua exoneração, e em 1866, exonerou-se como delegado.
Por quê? A razão verdadeira não é registrada, mas pode ser inferida: ele decide retornar a Santos em 1866, onde é recontratado pela Santa Casa de Misericórdia. Considerando que não teve vida de ativismo político em Limeira, é possível argumentar que simplesmente viu que sua carreira teria mais sucesso se retornasse a Santos, ou que ele ou a família não se adaptaram ao interior do estado.
Tão logo chega a Santos, Cunha Moreira passa a trabalhar em uma enfermaria especial na Santa Casa, criada e custeada inteiramente pelo benfeitor e filantropo Inácio Wallace da Gama Cochrane. Lá, o dr. Cunha Moreira tratava os doentes com a prática da homeopatia, inteiramente de graça (nem mesmo os remédios eram cobrados).
Em 1867, há registros no Porto de Santos de Cunha Moreira e seu filho (menor) Luiz viajando para o Rio de Janeiro e retornando em pouco tempo. Essa viagem pode estar ligada ao fato de que o pai de Henrique da Cunha Moreira, o Visconde de Cabo Frio, estava já com 81 anos, e morreria no ano seguinte. Pode ter sido uma viagem para verificar sua saúde, ou para que o neto pudesse se despedir, porque o registro não contempla a família toda; apenas pai e filho.
Ainda nesse ano de 1867, vários acontecimentos:
foi nomeado Inspetor de Saúde Pública de Santos (semelhante ao Secretário de Saúde);
foi nomeado Delegado de Polícia de Santos;
foi nomeado Capitão Cirurgião-mor da Guarda Nacional;
nasceu sua filha mais nova, Marcionilla.
Em 1868, Henrique foi suplente de um vereador de Santos, pelo Partido Liberal. Era sua carreira política começando a deslanchar. Tinha, nessa altura, cerca de 39 anos.
Em 1870, o doutor era médico em clínica particular (Rua Áurea, 16, com atendimentos entre meio-dia e duas da tarde, e pobres não pagavam nada), na Santa Casa e nas chamadas Enfermarias do Povo, que eram bancadas por particulares e ofereciam atendimento aos pobres.
Em 1871, Cunha Moreira foi nomeado como Inspetor de Saúde do Porto (de Santos). A essa altura, e por muitos anos, ele exerceria pelo menos esses quatro cargos de maneira simultânea: Inspetor de Saúde Pública, Delegado de Polícia, Capitão Cirurgião-mor da Guarda Nacional e Inspetor de Saúde do Porto. Era uma máquina de fazer medicina!
Já em 1872, outro registro político: como suplente de Juiz de Paz. No ano seguinte, finalmente conseguiu ser eleito primeiro Juiz de Paz, mesmo ano em que estourou uma nova epidemia de varíola - e dessa vez, não poupou Santos. O relato do doutor é que atendeu 194 doentes entre agosto de 1873 e janeiro de 1874, com 39 mortos. O número, aos nossos olhos pós-Covid-19, não parecem tão grandes, mas lembre-se que Santos tinha uma população consideravelmente menor nessa época.
Ainda em 1873, Dr. Cunha Moreira consta como o Provedor (o líder, efetivamente) da Irmandade de N. Sa. do Rosário Aparecida e da Irmandade do Santíssimo Sacramento, comprovando seu envolvimento religioso ainda bastante ativo.
Em 1875, este relato surge no Correio Paulistano:

Ainda nesse ano de 1875, há registros de que o Dr. Cunha Moreira esteve envolvido em um processo judicial por parte da oposição política conservadora. Sua eleição para Juiz de Paz, apesar de ter sido por ele almejada, estava sob suspeição. Por isso, Henrique não assumiu o cargo, por vontade própria, até que se esclarecessem os fatos. Essa recusa em exercer a posição não teria sido penalizada pelo Estado como crime de responsabilidade, e o processo buscava que fosse esse o caso. Sabe-se que o processo se arrastou pelo menos até 1877, mas não houve ramificações ou consequências sérias, e o doutor apenas não exerceu a profissão. Ademais, a febre-amarela estava às voltas novamente, então ele foi muito requisitado para o tratamento dos aflitos.
Em 1878, houve uma grande celebração em Santos: seria o início das obras para a ampliação das instalações da Santa Casa. Os festejos, feitos durante a passagem de D. Pedro II e D. Teresa Cristina por Santos foram bem registrados, e neles estava o nosso Dr. Cunha Moreira, levando para a cerimônia uma colher e uma trolha de construção civil com dizeres comemorativos, presentes oferecidos ao casal imperial, que marcariam a data. Veja o relato no jornal O Diário:


A ligação de Henrique da Cunha Moreira com a Santa Casa de Santos se estreita ainda mais nessa época, visto que ele é tido como o Provedor da Irmandade para os anos de 1879 e 1880, já com 50 anos de idade.
Não pense, porém, que a idade tiraria seu ânimo carnavalesco de quando era jovem: sabe-se que ele ainda participava dos desfiles e bailes, porque em 1879 chegaram a criar uma marchinha de Carnaval em homenagem a sua filha Marcionilla. A marchinha é homônima; infelizmente não há registros acessíveis a mim sobre a letra, que com certeza nos daria detalhes sobre a filha de Cunha Moreira. Se alguém souber e quiser contribuir, que fique à vontade para me contatar, e adicionarei a este artigo com os devidos créditos.
Agora-nos chega o momento da pergunta: OK, mas e Itanhaém? O que Dr. Cunha Moreira teve a ver com Itanhaém?
Bem, em meados de outubro de 1878, uma nova epidemia chegou à Conceição de Itanhaém: o sarampo. principalmente no então bairro de Peruíbe. A Câmara Municipal da Vila implorou por ajuda da Província, para que lhes fosse enviado um médico, e o Dr. Cunha Moreira foi enviado. Eis uma resposta a um ofício vindo da Província:
"A Câmara Municipal da Villa da Conceição de Itanhaém acusa recepção do ofício de V. Exa. datado de 4 do corrente, no qual V. Exa. comunica a esta Câmara ter encarregado ao Dr. Henrique da Cunha Moreira, a vir a esta Villa e bairro de Peruhibe, tratar dos afetados da epidemia do sarampo que grassando estava neste Municipio.
Esta Câmara muito agradece à V. Exa. a dedicação que tem mostrado a esta desditosa população; e comunica à V. Exa. que desde o dia 7 do corrente se acha comnosco o Ilustre Dr. que não se tem poupado administrar a todos os doentes seus medicamentos, seguindo no dia 8 para Peruíbe e praia, onde tem encontrado avultoso número de doentes, não só de sarampo, como de diversas doenças e graças a Deus, quando aqui chegou o Dr., já havia cessado a força da epidemia, mas muitas gentes sofriam das consequências do mal por ter lhes faltado os recursos necessários em ocasião oportuna.
Deve Grande a. V. Exa. por muitos anos.
Paço da Câmara Municipal da Vila da Conceição de Itanhaém, 14 de outubro de 1879."

Com esse registro de que de fato o Dr. Cunha Moreira esteve em Itanhaém nesse ano, é possível inferir que acabou se afeiçoando à Vila e ao seu povo. Além disso, é muito provável que o povo de então tivesse por ele uma grande estima, como salvador em uma situação de calamidade pública que foi. É possível, mas não posso afirmar com certeza, que a forte ligação de Cunha Moreira com Itanhaém se iniciou nesse ano. É fato que em algum momento da década de 1880 ele adquiriu uma casa de veraneio em Itanhaém, então gostava e passava suas férias aqui com a família, longe do burburinho da já movimentada Santos.
A partir de 1881, a carreira política de Henrique em Santos dispara: ele se torna membro da diretoria do Partido Liberal, e almeja o cargo de deputado provincial, o qual consegue para 1882, 1883 e 1884. Em 1882, ele retoma o cargo de Inspetor de Saúde do Porto temporariamente, devido ao titular ter se ausentado para ajudar contra a epidemia de febre-amarela que assolava Cananéia.
Em 1888, enquanto estava de férias com a família em Itanhaém, ele recebe a visita do artista Benedicto Calixto, que lhe apresenta o projeto do Gabinete de Leitura Itanhaense. Calixto pede seu apoio para a criação dessa associação civil que levaria jornais, livros, teatro, letramento e música para a Vila. O doutor logo aceita, e, no dia 20 de julho de 1888, se reúne na casa de Manoel Bento de Souza com seus familiares e todos os outros interessados (entre eles, João Mariano Soares, Izaías Cândido Soares, Zeferino Antônio Soares, Leopoldino Antônio de Araújo e Antônio Mendes da Silva) e lá é proclamado Presidente em modalidade ad hoc, ou seja, apenas para aquela ocasião. Além disso, ele contribuiu com dinheiro suficiente para bancar a assinatura do jornal "O Paiz" e mandou que se lessem os estatutos da associação recém-nascida.

Em 1889, uma avalanche de epidemias de febre-amarela se espalhou pelo litoral paulistano. Santos foi muito atingida, e isso fez com que fossem estabelecidas no mês de março duas enfermarias apenas para esses casos, e Dr. Cunha Moreira foi designado pela Santa Casa para a enfermaria provisória instalada no Mosteiro de São Bento.
Em meados de julho, a epidemia já tinha chegado à Conceição de Itanhaém, principalmente no então bairro de Peruíbe. Foi criada uma comissão sanitária em Santos e designado o dr. Cunha Moreira como Delegado de Higiene, para vir atuar por aqui. Ele chegaria em agosto e se depararia com uma situação pior do que imaginava em alguns aspectos, mas melhor em outros.
Passo a transcrever agora os relatos diretos de Henrique da Cunha Moreira sobre essa situação, em cartas de resposta às autoridades, ricas em detalhes que nos mostram a dificuldade que o doutor encontrou e como ele foi primordial para salvar vidas, cujos descendentes ainda hoje devem residir em Peruíbe e Itanhaém.
Em primeiro lugar, o ofício enviado pela Câmara de Conceição de Itanhaém ao Dr. Cunha Moreira, pedindo socorro:
"Chegando ao conhecimento desta Câmara que o povo do Bairro de Peruíbe está sendo atacado de uma moléstia que os entendidos a desconhecem, complicando-se, dizem eles, com garrotilho [nome popular para a difteria, inspirado em doença de mesmo nome comum em cavalos], o que é confirmado pelo Cidadão o Sr. José da Fonseca Leite que esteve naquele Bairro, esta Câmara, tomando na devida consideração a reclamação feita por aqueles munícipes, vem respeitosamente à presença de V. Sa., como Delegado de Higiene, pedir enérgicas providências mandando um médico e remédios a fim de serem socorridos aqueles afetados e debelar o mal que parece ser contagioso, pois tem atacado a maior parte dos habitantes daquele Bairro.
Esta Câmara, convicta do interesse que V. Sa. toma por esta população, pede que, se necessário for, leve ao conhecimento do Exmo. Governo, requisitando do mesmo verba e medicamentos para esse fim; ao mesmo tempo roga a V. Sa. toda urgência, pois o caso é grave e assim requer.
Deus guarde a V. Sa.
Paço da Câmara Municipal da Vila da Conceição de Itanhaém, 1º de julho de 1889."
As notas em colchete são minhas. Segue a imagem do ofício:

A resposta de Cunha Moreira a esse ofício vai na forma de uma carta à Província, que transcrevo abaixo:
"Estando a população do Bairro de Peruíbe, que é de 1500 almas, sendo assolada por uma epidemia, pediu providências à Câmara Municipal de Conceição de Itanhaém e esta tendo pleno conhecimento do triste estado em que se acha aquele bairro, reuniu-se em sessão extraordinária da noite e deliberou enviar-me um ofício, que envio incluso, pedindo também a V. Ex.ª providências prontas.
Em princípios do mês passado, chegando àquele bairro, fui obrigado a demorar-me três dias para tratar de diversos doentes de bronquites complicadas de pneumonia; hoje, pelo ofício da Câmara verá V. Ex.ª que apareceu a terrível complicação do croup [laringotraqueobronquite] e por cartas particulares que recebi ultimamente apareceram afecções cerebrais com intensidade havendo vários doentes perdido o uso da razão [meningites], urge pois que V. Ex.ª faça seguir quanto antes médico com ambulância a fim de socorrer os infelizes afetados da epidemia.
Santos, 3 de agosto de 1889."
As anotações entre colchetes são notas minhas. Segue a imagem do documento:

Comissionado como Delegado de Higiene, Dr. Cunha Moreira foi realmente enviado a Conceição de Itanhaém, chegando em Peruíbe no dia 18 de agosto, após as 23 horas, como menciona nesta carta à Província:
"Com uma viagem penosa aqui cheguei ontem, depois das onze horas da noite. A epidemia, que no princípio do mês tomou largas proporções, tem diminuído sensivelmente nestes últimos oito dias.
As moléstias que a constituem são pneumonias com caráter epidêmico, reprodução do ano de 1879, conjuntivites complicadas de meningites, que tomaram um caráter grave por falta de higiene e de recursos médicos e as anginas de que quase todo o povo foi acometido: as alternativas da temperatura várias vezes no mesmo dia julgo terem sido a causa principal de desenvolvimento dessas enfermidades, pois assim, que se tornou firme e moderada declinou sensivelmente a epidemia.
A população, ansiada pela demora dos recursos pedidos, lançou mão de um prático [médico popular, sem formação], mandando-o vir de Juquiá, e esse, na falta de ciências e de medicamentos, tornou-se contudo muito útil; obrigando a guardarem os leitos os doentes atacados da garganta, e aos de conjuntivite, privando-os de luz.
Ainda não posso dar a V. Ex.ª informações sobre o número de doentes pois o bairro é grande e apenas comecei o meu serviço, podendo contudo informar que os casos que tenho nos doentes últimos atacados não são revestidos de gravidade.
Tomarei desde já os apontamentos para em tempo apresentar a V. Exa. na ocasião oportuna a respectiva estatística.
Deus guarde a V. Ex.ª . Peruíbe, 19 de agosto de 1889."


Passam-se então dez dias, e em 29 de agosto de 1889, Cunha Moreira dá seu parecer atualizado sobre a situação:
"Levo ao conhecimento de V. Ex.ª que a epidemia, que em princípios deste mês assolou este bairro, atacando quase a quarta parte da população, tende a desaparecer, pois os casos novos são raros e benignos e nos dez dias de minha estada aqui, apenas faleceu uma criança de meningite. Há alguns asfíticos [pessoas com asfixia, insuficiência respiratória], que poucos dias terão de vida, resultado de pneumonias agudas sem tratamento conveniente, ou pode-se dizer sem tratamento algum.
O número de doentes cujo estado reclama guardarem leito e visitas médicas diárias sobe a oitenta e seis e o de consultantes sobe a cinquenta e três. O estado sanitário, contudo, não é muito satisfatório, pois têm aparecido muitos casos de câmaras de sangue [disenteria com sangue] que tendem a tomar cometer epidemias e eleva-se o seu número já a dezesseis.
Eis o que tenho a comunicar a V. Exa sobre o estado sanitário deste bairro.
Deus guarde a V. Exª. Bairro de Peruíbe, 29 de agosto de 1889."

Por fim, temos a conclusão dos acontecimentos, com este ofício de agradecimento da Câmara Municipal de Conceição de Itanhaém à Província, datado de 17 de setembro de 1889. Veja a transcrição a seguir:
"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor,
A Câmara Municipal desta Vila, em sessão de hoje, deliberou oficiar a V. Exa. agradecendo a atenção que mereceu de V. Exa. o seu pedido de médico para socorrer os doentes, que no Bairro de Peruíbe eram assolados por uma epidemia. O nosso reconhecimento torna-se maior por ter a escolha de V. Exa. recaído no nosso bom amigo e caritativo médico, o Doutor Henrique da Cunha Moreira.
Ele, incansável no exercício de sua nobre profissão, prestou os mais relevantes serviços e conseguiu extinguir o mal que assolava aquele Bairro. Retirou-se no dia 16, tendo, nos poucos dias que aqui esteve, dado consultas e medicamentos a cerca de 100 pessoas. Partiu levando sobre si as bênçãos de todos aqueles que procuram alívio e cura de seus males, e conseguiu, com sua ilustração e dedicação, que o obituário fosse insignificante.
Deus guarde a V. Exa.
De Itanhaém. Paço da Câmara Municipal, 17 de setembro de 1889.
Ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General José Vieira Couto de Magalhães, Digníssimo Presidente da Província de São Paulo.
Assinaturas:
Manoel Antonio Ribeiro
Leopoldino Antonio d’Araujo
João Mariano Soares
José Marcellino da G.ª Telles
Benedicto José Leal"

Então, para resumirmos: em 1 de julho de 1889, a Câmara Municipal de Itanhaém relatou uma epidemia alarmante no bairro de Peruíbe, onde uma doença desconhecida e contagiosa, assemelhada ao garrotilho, afetava a maioria dos habitantes, motivando um pedido urgente por auxílio médico e verbas ao governo provincial. Em resposta, o Dr. Henrique da Cunha Moreira foi enviado como Delegado de Higiene e, após enfrentar uma viagem penosa e diagnosticar um quadro de pneumonias e meningites agravado pelo clima e pela falta de recursos, realizou o atendimento de cerca de 100 pessoas e forneceu os medicamentos necessários. Atuou na região de 19 de agosto a 16 de setembro. O desfecho bem-sucedido da crise foi registrado em 17 de setembro de 1889, quando a Câmara Municipal formalizou seu agradecimento ao Presidente da Província, ressaltando que a atuação incansável do médico foi decisiva para extinguir a moléstia e garantir que o número de óbitos fosse insignificante diante da gravidade inicial da situação.
Merece ou não merece o nome na rua? A Rua Dr. Cunha Moreira, a propósito, se chamava à época Rua Direita, como era de costume que as ruas que levassem à Igreja Matriz das Vilas.


Apesar de sua paixão pelo Carnaval, Henrique da Cunha Moreira infelizmente não conseguiria celebrar os festejos do ano seguinte, pois em 3 de dezembro de 1889, ele teve um acidente vascular cerebral e faleceu, próximo de completar 60 anos.
Encerramos aqui nossa viagem de mãos dadas com o filho do Visconde. O Dr. Cunha Moreira foi uma figura singular, que uniu a nobreza de berço ao mais profundo espírito humanitário, consolidando um legado que transcendeu a medicina para abraçar a política, a cultura e a alegria popular. Formado no Rio de Janeiro e radicado no litoral paulista, ele se tornou uma "máquina de fazer medicina" ao acumular cargos estratégicos como Inspetor de Saúde Pública e do Porto de Santos, ao mesmo tempo em que exercia a caridade prática atendendo gratuitamente a população pobre e liderando irmandades religiosas. Seu impacto em Itanhaém e Peruíbe foi vital, não apenas por ter sido o herói técnico que extinguiu epidemias devastadoras como o sarampo em 1879 e o surto de pneumonias e disenterias em 1889, mas também por sua contribuição intelectual ao fundar, ao lado de Benedicto Calixto, o Gabinete de Leitura Itanhaense. Conhecido como o "maior folião santista", Cunha Moreira personificou um equilíbrio raro entre o rigor científico necessário para enfrentar crises sanitárias e uma paixão vibrante pela vida e pelo Carnaval, deixando seu nome perpetuado na principal rua do Centro Histórico de Itanhaém como um testemunho da gratidão de um povo que ele protegeu até, literalmente, os seus últimos dias de vida.
Obrigado, Cunha Moreira! E que nesse Carnaval e em todos os próximos possamos brincar com a mesma leveza de espírito com que você certamente brincaria!

Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes:
A PROVÍNCIA DE SÃO PAULO. São Paulo, 1883.
A TRIBUNA. Santos, 1889, 1939, 1943, 1949, 1953, 1962, 1971, 2007.
ALMANAQUE DA BAIXADA SANTISTA. Santos, 1870.
ALMANAQUE DA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO. São Paulo, 1873, 1879, 1882, 1886.
ALMANAQUE DE SANTOS. Santos, 1870, 1872, 1887.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Documentos e ofícios de Conceição de Itanhaém. Século XIX.
BANDEIRA JUNIOR, Pedro. História do Carnaval de Santos. [S. l.: s. n.], 1964. p. 28.
CIDADE DE SANTOS. Santos, 1960.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 1855-1856, 1864, 1867, 1868, 1870, 1872, 1875, 1877, 1878, 1879, 1880, 1881, 1882, 1883, 1884, 1907.
DIÁRIO DE SANTOS. Santos, 1931.
DIÁRIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 1865, 1874.
DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO. Rio de Janeiro, 1843-1844, 1855.
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JORNAL DA ORLA. Santos, 2008, 2015.
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REVISTA COMMERCIAL. Santos, 1859, 1863, 1864, 1865, 1866, 1867.




Excelente trabalho de pesquisa.