Bernardino Sousa Pereira (parte 1)

Atualizado: 3 de set.

Nos anos 1940, Itanhaém despediu-se do pintor primitivista Emídio de Souza, em uma perda irreparável para as artes plásticas e para a cultura da cidade. Mas veja como são curiosas as coisas: foi perto dessa mesma época que um casal, vindo de São Paulo para passar quinze dias na Amazônia Paulista, viu que não teria mais tanto interesse em retornar para a terra da garoa, e por aqui ficou.
Eu estou falando de um outro Sousa, e diferente de Emídio, esse se escreve mesmo com S: o pintor Bernardino Sousa Pereira, que veio com sua esposa Arminda.
Talvez você diga: ué, não era Bernardino DE SouZa?
E eu digo: calma, que mais pra frente vamos falar sobre o nome. Por enquanto, sigamos, caro leitor ou cara leitora.
Se você visitar o Museu Conceição de Itanhaém, vai se deparar com alguns objetos pessoais de Bernardino, tais como sua boina e sua caixa de tintas e pincéis. E se entrar no Cemitério Municipal do Centro, vai encontrar o jazigo onde ele foi sepultado, pois é o primeiro, bem à direita da entrada.
Mas não falemos mais da morte; afinal, ela só foi uma gotinha em meio a um oceano de vida através da qual Bernardino Sousa pintou em multicor, carvão, crayon e óleo.
Falemos, pois, da vida de Bernardino Sousa Pereira!
Vanguarda da pintura paulistana
Bernardino Sousa Pereira nasceu no dia 03 de setembro de 1895, filho de Manoel Pereira e Francisca Sousa Pereira, na Vila Buarque, nas imediações do Largo do Arouche, na capital de São Paulo. Quando jovem, terminou os estudos no Grupo Escolar e foi trabalhar como ajudante de pintor de paredes nas casas em que seu pai trabalhava. Seu pai era bastante severo e não queria que ele se ocupasse com as distrações de desenhar e pintar, então Bernardino se escondia no porão para desenvolver suas habilidades em segredo.
Assim que completou a maioridade, Bernardino fugiu de casa para que pudesse ser artista como quisesse. Devido a não ter nada, nem trabalho, por muitas vezes chegou a dormir no coreto do Parque da Luz (que existe até hoje, pasmem!):

Bernardino diria, muitos anos mais tarde, que seu interesse nessa época não era exclusivamente pela pintura, mas sim pelas artes como um todo. Era amigo de outros jovens que faziam teatro na região do Arouche, e acabou se envolvendo com apresentações de ópera. Ele mesmo menciona que foi barítono, mas que perdera a voz para cantar, com o tempo.
Em 1916, temos o primeiro registro de Bernardino envolvido com as artes plásticas. Seu nome consta no livro de visitantes da exposição da excelente pintora de Campinas, Beatriz Pompeu de Camargo:


Aqui temos que fazer uma observação importante: na biografia de Bernardino Sousa Pereira disponível na Wikipedia, é possível encontrarmos que ele ganhou uma Menção Honrosa em 1919, na Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro, e uma Medalha de Bronze em 1920, também no RJ.
Porém, tudo o que foi possível encontrar em documentos pela pesquisa do HISTORITA demonstra que essa informação não corresponde à realidade.
Vamos aos fatos!
A Wikipedia mostra que a fonte dos dois registros é o site Enciclopédia Itaú Cultural. Ao verificar o site, observei que nos registros da exposição dos dois anos aparece apenas "Bernardino" com Menção Honrosa e Medalha de Bronze. Em termos documentais, isso não é suficiente para atribuir a Bernardino Sousa Pereira o que pode ter sido um prêmio dado a qualquer outro Bernardino (ou ainda uma corruptela do nome, como Bernardini ou Bernardelli).
Esses registros do site, por sua vez, também têm fontes, então fui verificá-las. Há apenas uma fonte da exposição de 1920, que é uma notícia de um jornal do Rio de Janeiro. Ao verificar a notícia em si, constatei que o nome de Bernardino não aparece em momento algum.
E a Exposição de 1919 não tem nenhuma fonte.
O nome de Bernardino aparece pela primeira vez só no catálogo da Exposição de 1923, com as obras que ele levou ao Salão (inclusive mostrando seu endereço na época, Rua Itararé, 19 (Bairro da Bela Vista):

Acontece que os catálogos costumavam trazer os nomes dos artistas premiados anteriormente. E não há em nenhum dos catálogos de 1920, 1921, 1922 ou 1923 o nome de Bernardino ligado a nenhuma premiação.


Somando-se todos os fatos, é possível dizer com tranquilidade que os dados das premiações de Bernardino no site da Enciclopédia Itaú Cultural estavam imprecisos até a publicação deste artigo do HISTORITA, e por terem sido esses dados usados como base para o artigo da Wikipedia sobre Bernardino, acabaram perpetuando e "oficializando" uma informação desencontrada.
De qualquer modo, sigamos. O ano em que começamos a ter registros mais sólidos de Bernardino é 1922. No ano da Semana de Arte Moderna, houve também a I Exposição Geral de Bellas Artes de São Paulo, ocorrida no Palácio das Indústrias, de modo a expor obras dos artistas que não haviam conseguido participar da Semana de Arte Moderna, e também para celebrar o Centenário da Independência.
Na exposição, que contou com 270 trabalhos (242 pinturas e 28 esculturas), Bernardino apresentou uma escultura chamada "Cabeça", que chegou a ser vendida.

Felizmente, graças à pesquisa de Ana Maria B. F. Marcondes, é possível encontrarmos um registro inédito em Itanhaém: Bernardino com 26 ou 27 anos, entre os artistas dessa exposição. Confira:


A pesquisadora ainda pondera que provavelmente a historiografia deu mais relevância à Semana de Arte Moderna, o que ofuscou a importância dessa outra grande mostra de arte paulistana.
Ainda em 1922, temos um registro de que Bernardino esteve entre artistas que doaram quadros para um leilão pró-Retiro dos Jornalistas:

Percebe-se que ele estava bem envolvido com os pintores italianos da época, fazendo parte da vanguarda que borbulhava arte pelas ruas do centro de São Paulo no começo do século XX. Esses contatos, junto de sua desenvoltura para a pintura a óleo, fariam com que, posteriormente, Bernardino se tornasse um dos professores na Escola Tranquillo Cremona, de Giuseppe Perissinotto, junto do também pintor Angelo Simeone.
Antes disso, Bernardino conseguia uns trocados trabalhando em retoques para ampliações fotográficas e pôde pagar por seis meses de aulas de desenho com o mestre Antonio Rocco, com quem aprendeu as técnicas do Fusain.
Foi com esse pouco dinheiro que conseguia e apoio dos amigos artistas que ele enviou seus quadros para o Rio de Janeiro, para participar da 30a. Exposição Geral de Bellas Artes do Rio de Janeiro, em 1923, com a relação de quadros inscritos sendo aquela que mostrei um pouco mais acima. Seu mestre Rocco também enviou quadros, mas veja só que plot twist, que surpresa ocorreria:
Um dos quadros de Antonio Rocco não seria aceito, e os de Bernardino sim. E mais: lá ele ganhou uma Menção Honrosa de Primeiro Grau, com a tela Depois que o vento passou, da qual, infelizmente, não há registros em foto.
Segundo as próprias palavras de Bernardino, no ano seguinte, 1924, ele foi ao Rio de Janeiro e conheceu Cândido Portinari, de quem se tornaria amigo próximo.
Em 1925, novamente participou da conceituada Exposição, onde veio a ganhar uma Medalha de Bronze:

Impulsionado por esse reconhecimento, Bernardino se sentiu seguro para conseguir sua primeira exposição individual. Assim foi! Em 1926, de 29 de abril a 30 de maio, ocorreu sua exposição no antigo prédio dos Correios, Largo do Palácio, N.9. Hoje, o endereço é bem mudado, e nós o conhecemos como Largo do Colégio, onde fica o Páteo do Colégio. Após a demolição da ala que servia como sede dos Correios no Palácio do Governo em 1881, o órgão passou a funcionar nesse espaço alugado o tal número 9, até se mudar, em 1922, para o prédio onde ainda existe até hoje. Então, de fato, em 1926, o local já era o "antigo prédio dos Correios".
Essa primeira exposição de Bernardino foi um sucesso absoluto. Durou apenas um mês, mas as visitações eram intensas, o que fez com que Bernardino conseguisse vender uma série de obras. Algumas de que se tem registro foram: Expressão de cansaço; A alegria dos meus vasos; Para um aniversário; Supplica; Rosas (impressão); Catleyas; Rosas brancas (impressão); Autorretrato; Rosas; Margaridas melancólicas; Telhados úmidos; Vaca em repouso; Colhendo flores; Alegria; Cisma de caboclo; Hortências. Um dos quadros mais vistosos era a sua Cigana, mas não encontrei registro da venda dele.

Tamanha foi a repercussão da exposição, que fez com que Bernardino ganhasse um espaço na conceituada Revista Escolar, principal publicação pedagógica da época, com um texto sobre sua arte sugerido como leitura para as turmas mais avançadas.
O HISTORITA caçou essa revista com afinco, e para felicidade maior, descobriu que não só esse texto dava honras à arte de Bernardino, como trazia uma verdadeira pérola.
Veja agora, com exclusividade, uma fotografia de Bernardino Sousa Pereira aos 31 anos:

Segue a transcrição do artigo da Revista Escolar:
VULTOS E FATOS
LEITURA PARA AS CLASSES ADIANTADAS
GALERIA NACIONAL
BERNARDINO DE SOUZA PEREIRA
Acima de tudo, a primeira mostra de arte do jovem pintor Bernardino Pereira foi a afirmação dum temperamento admirável. O espírito de sedução que adquirem certos de seus quadros - paisagens, interiores, natureza-morta - pelo jogo surpreendente das claridades e superior visão dos motivos, pela impressão de fatura, ora sutil, às vezes audaz, mas sempre tão pessoal e distinta, ressalta-lhe a personalidade artística, focalizando-a, em primeiro plano, entre os que realizam de verdade o milagre da ascensão para a Beleza.
Vede essa "poesia silenciosa", que é uma surpresa magnífica de interior; essa "alegria dos meus vasos", duma transparência viva de alma e duma poesia que lembra aquelas rosas brancas de Oscar Wilde!
Sem auxílio e minguado de recursos, na sua pobreza, confortado simplesmente no entusiasmo que lhe suscita a simpatia duns raros irmãos de sonhos, o artista surgiu como por encanto: revelou-se. Admirável é o heroísmo interior com que procura, dentro da sua humildade gloriosa, sobrepor-se às contingências e às misérias humanas, marchando resolutamente para a perfeição com a imperturbabilidade dos que acordaram para a vida, sagrados dentro dum grande sonho ainda por se realizar... Embora lhe sangrem os pés, não lhe reponta nos lavores a dor da jornada. Estimula-se, como os predestinados, no próprio sofrimento, criando a sua arte sem asperezas, com o encantamento que lhe promana dos olhos deslumbrados.
A exposição de Bernardino é o documento prestigioso com que o novel artista se apresenta candidato legítimo a um prêmio de viagem ao estrangeiro. Se, alheado de "escolas", só por si, o artista realizou já todo um verdadeiro milagre de perfeição, imaginai, agora, o quanto lhe será proveitosa uma peregrinação de estudos pelos museus do velho mundo, ao contato dos mestres da cor!
Bernardino, mais que ninguém, merece as nossas homenagens. O sentido do seu valor impõe-nos o conceito apreciativo, sincero. Surpreende a maleabilidade com que já resolve, imprevistamente e sem exclusivismos, assuntos e motivos dos mais variados. A harmonia dos contrastes, deliciosa e suave, lhe requinta os lavores, dando às suas telas, como "depois que o vento passou" (premiada com menção honrosa de 1.º grau, no Salão do Rio, em 1923) "para um aniversário", "à tarde, depois da chuva", "dia cinzento", "rosas brancas", "tarde triste" etc., um sortilégio admirável nos efeitos e na maneira por que resolveu os assuntos. Os retratos, de modelação segura, são marcantes. As suas paisagens, envolve-as um senso pessoal de cor, têm luminosidade, fusão de tons e movimento.
O seu modo todo particular de concepção foge aos excessos abstrusos dos artistas reflexivos, sem iniciativa e sem bafejo vivificador que, para encobrir os defeitos duma técnica falha e inepta, recorrem, sem habilidade, aos truques de empastamento e às desarmonias contrastantes de motivos que, por difíceis, não lhes é dado resolver de maneira equilibrada. Dessas contaminações não sofre o artista de índole.
Na sua arte, a natureza não é mera reprodução objetiva, mas reflexo maravilhoso do seu espírito, ainda não contagiado pela malícia dos tempos de agora e por certos dissídios que põem em fronteiras opostas - a vida e a arte. Não há preferência nos assuntos que fixa: tudo o que impressiona a sua sensibilidade é um motivo gentil para a sua paleta sem vícios; tudo se "animiza" ao toque do seu pincel, afirmando-o.
Sem preferências que denunciem afinidades, incorrupto, as suas telas são esplêndidos triunfos de colorido vivaz, verdadeiros apontamentos em cor duma poesia espontânea, em que se entrelaçam, comovidamente, o sonho e a realidade.
Falta-lhe, sem dúvida, ainda alguma coisa para atingir o vértice de luz das esperanças mais altas. Mas esse pouco que lhe falta, virá com o tempo - pelo estudo vinculado à experiência e à observação. Facultem-lhe os meios e teremos, em futuro próximo, uma das glórias mais legítimas da pintura brasileira."
Na edição 276 da revista A Cigarra, saiu no mesmo ano uma foto do quadro A Cigana:

Em 1928, Bernardino se envolveria com mais uma exposição, mas com poucas obras. Foi o Salão de Belas Artes Muse Italiche, o qual teve 6 quadros seus, incluindo Manhã na roça e Rua em abandono.

Uma pequena curiosidade sobre essa exposição é que o ganhador da Medalha de Ouro foi Alfredo Volpi. Mas devido a deliberações posteriores da sociedade italiana Muse Italiche, todas as medalhas e prêmios foram revogados, tendo os artistas que devolver o que tinham ganho. É mole?
De qualquer modo, não há registro de que Bernardino tenha ganho algum prêmio nesse caso.
A intensa década de 1930 para Bernardino
Ainda em 1928, uma nova curiosidade: no catálogo da Exposição do Rio há o registro das esculturas do renomado Humberto Cozzo, que era amigo de Bernardino. Vejam só o título de uma das esculturas...

Ou seja: é possível que exista uma escultura masculina na casa de alguém ou em algum museu que seja ninguém mais, ninguém menos que Bernardino Sousa. Em uma busca rápida pela internet, encontrei algumas imagens de cabeças masculinas, mas é difícil dizer com certeza que se tratam de Bernardino, porque não têm nome e não são tão parecidas...
Os anos seguintes seriam primordiais para a carreira de Bernardino. Em 1929, participaria novamente da Exposição Geral do RJ, onde ganharia uma Pequena Medalha de Prata.

Nesse ano, conseguiu comprar seu primeiro estúdio, na Av. São João, no centro de São Paulo. Sobre esse estúdio, conta-nos Bernardino, em 1970:

Em 1930, uma elevação ainda maior: Bernardino ganhou sua primeira Medalha de Prata na Exposição do Rio de Janeiro, com o único quadro que enviou à mostra, Um só, Yáyá?

Em 1932, apoiou as famílias dos soldados da Revolução Constitucionalista com nova doação de suas obras para leilão.
Em 1934, Bernardino participou do I Salão Paulista de Belas Artes, onde conquistou o segundo prêmio, empatado com Anita Malfatti.


Em 1935, ele participaria do II Salão Paulista como um dos componentes do júri e responsável pela admissão de obras. É nesse ano que viria seu apogeu: Bernardino levou a Medalha de Ouro com a obra Galo Branco.

Para celebrar sua vitória, os amigos de Bernardino proporcionaram a ele uma festa (um chá!) com quase 80 participantes, nas dependências da Casa Alemã, a 10 de maio de 1935.
Mas nem tudo são flores: eis o relato de um crítico de arte ao visitar o Salão:

O crítico, entretanto, era mesmo ácido: ele menciona ali no finalzinho do artigo um "retrato de Euclides de Andrade". Porém, parece ter ignorado completamente que o quadro é de Eugênia de Sá Andrade, filha de Euclides de Andrade (crítico de arte do Diário Popular. A obra se intitulou Depois da Valsa, e junto de Galo Branco chamou bastante atenção no Salão. É mesmo um quadro impressionante, não acha, cara leitora ou caro leitor? Parece foto!

Ainda se tratando de críticos, cabe ler uma outra crítica ao quadro de Bernardino, "Abóbora ao Sol", que revela muito sobre a visão de parte da elite artística da época:

No final de 1935 e começo de 1936, Bernardino foi um dos membros da comissão para a organização do III Salão Paulista de Belas Artes. Lá, entretanto, ocorreria uma situação de revolta para Bernardino, por ter detectado favoritismo do pintor vetereno e jurado Theodoro Braga, que supostamente dava preferência no julgamento às obras de suas alunas particulares.


A soma de sua medalha de ouro com esse reconhecimento por Euclides de Andrade levou o nome de Bernardino Sousa a níveis inéditos para ele, fazendo com que aparecesse, por exemplo, na Revista Mensário de Arte em 1936.

Infelizmente, o HISTORITA não encontrou nenhum acervo digitalizado desse Mensário, nem sequer sinal dele em bibliotecas ou hemerotecas.
Em 1937, muitos movimentos! Bernardino Sousa participou da comissão organizadora do I Salão Brasileiro de Bellas Artes Pedro Américo:

No social, temos o registro de Bernardino participando de um baile de Carnaval dos artistas, o Baile "des Quart'z'Arts."

Por fim, Bernardino participou de uma exposição na rua Quintino Bocaiúva, dos artistas do chamado Grupo Almeida Júnior:

Ainda em 1937, seria inaugurada no Museu Paulista a Sala Bartholomeu de Gusmão, contado com quadros de Benedito Calixto e Bernardino Sousa, entre outros:

Em 1939, Bernardino teve seus quadros decorando o salão da solenidade do aniversário de São Paulo, no Clube Piratininga.

E mais: no mês de fevereiro, Bernardino expôs na Exposição Fischer-Elpons:

E mais! Ainda em 1939, Bernardino participou do IV Salão de Bellas Artes em Araraquara (SP).

E ainda não acabou: em outubro, Bernardino foi elencado para a Exposição Comemorativa de Lisboa:

Que loucura. O homem não parou um segundo na década de 1930, caro leitor ou cara leitora! Como seria a década seguinte, hein...?
Bernardino em Itanhaém
Antes de darmos seguimento à nossa jornada já bem longa, convém analisarmos dois fatos:
Primeiro fato: em 1940, Bernardino já tinha 45 anos. Entretanto, em nenhum momento dos registros de festas e sociais nos quais ele participou apareceu um nome de uma possível esposa ou parceira. Em minhas pesquisas, não encontrei registros do casamento, se é que houve. O fato é que Bernardino teve sim uma companheira, chamada Arminda, mas não consegui encontrar ao certo quando eles se encontraram e quando passaram a viver como um casal (casados ou não). Já já nos será possível especularmos a esse respeito, por conta do segundo fato.
Segundo fato: a essa altura do campeonato, estamos chegando à meia-idade de Bernardino, e ainda não houve nada de Itanhaém. E isso é natural, pois toda sua carreira de pintura se fez entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Entretanto, é possível pontuarmos que foi nessa década que Bernardino e Arminda se mudaram de vez para Itanhaém, a julgar pela própria Arminda dizendo isso em uma entrevista em 1970, e pelo fato de que surgiram pinturas com o título de Itanhaém datadas de 1949. Minha suspeita principal é que essa mudança aconteceu mesmo em 1949, pois lembro-me de ter lido em algum lugar que falava a respeito da morte de Emídio de Souza, ocorrida em 1949, indicando que era curioso que no mesmo ano Itanhaém perdia um grande pintor, Emídio, e ganhava um outro, Bernardino. Vejamos se até o fim desse artigo eu consigo resgatar essa leitura.
Em 1940, ele ainda estava em São Paulo, como podemos ver por este anúncio de uma homenagem a um pintor amigo, Cleomenes Campos:

Em 1942, após insistência dos amigos e quase à força, Bernardino Sousa Pereira aceitou fazer sua segunda exposição individual. E assim como sua primeira exposição em 1926, a segunda foi um sucesso estrondoso.
Prepare-se, pois a respeito disso o HISTORITA conseguiu, com exclusividade, um outro registro sobre Bernardino inédito para Itanhaém. Eis imagens do folheto de apresentação dessa segunda exposição:


Interessante, não é? Um autorretrato de Bernardino com 46 ou 47 anos!
Detalhes: é curioso ver como colocaram ali que a primeira exposição dele foi em 1924, quando sabemos que foi em 1926. Seria mais um errinho a somar-se ao nome escrito errado mais acima nesse folheto também.
A exposição ocorreu na Galeria Itá, na rua Barão de Itapetininga, 88, bairro da República.


E aqui é importante fazer uma distinção sobre a verificação dos dados históricos antes de publicá-los. No HISTORITA, prezo por trazer como declaração apenas o que pode ser confirmado de forma documental. O que é especulação, digo-o que é especulação e pronto. E o que não tenho certeza, não declaro como sendo fato histórico.
Digo isso, porque fiquei triste em ver que no Museu da Conceição, no centro histórico, há o seguinte banner sobre Bernardino:

O cartaz tem informações erradas/infundadas:
A mostra de 1942 não foi numa Galeria ITAÚ. Tal lugar sequer existe. Decerto quem fez o banner imaginou que Itá fosse um erro, e provavelmente ITAÚ era o certo, e não se deu ao trabalho de pesquisar por conta própria se essa conclusão era real;
A primeira exposição não foi em 1925, foi em 1926;
Bernardino não se mudou para Itanhaém em 1960;
Seu nome correto era Bernardino Sousa Pereira.
Itanhaém tem uma história linda, que merece todo o carinho possível. Por assim ser, o HISTORITA gostaria de presentear a cidade com um banner atualizado, de design profissional e informações verificadas, para honrar melhor a história de Bernardino Sousa Pereira. Se a Prefeitura aceitar essa doação, ficarei feliz em ter contribuído para o acervo do Museu; se não houver interesse em aceitar, não há problema: o site estará aqui para quem quiser consultar a biografia desse personagem tão ilustre. Mas minha ideia é sempre contribuir.
Por ora, sigamos. Veja esta crítica que fala da Exposição de Bernardino de 1942:

Para encerrar o ano de 1942, temos o registro de Bernardino participando da comissão para o 9o. Salão Paulista de Belas Artes (registro esse que é protegido por direitos autorais, então não posso mostrá-lo, mas está no jornal Folha da Manhã).
Em 1944, temos confirmação de Bernardino Sousa em Campinas (SP), como membro jurado do II Salão de Belas Artes da cidade.

Em 1947, ele assinou uma carta de apoio à candidatura de Honório de Sylos enquanto Deputado Estadual.

Em 1948, em uma entrevista do pintor Aldo Bonadei, que era amigo de Bernardino, Aldo comentou um fato curioso sobre as impressões de seu amigo quanto a suas pinturas tidas como mais modernistas que Aldo fazia, inspiradas pelas vanguardas europeias:

É fato notório que Bernardino era um pintor mais do estilo acadêmico, ainda que tenha tido pouca, quase nenhuma instrução formal em academia. Quando um mecenas da época quis bancar estudos para ele em Paris, Bernardino não aceitou.
Acontece que a década anterior, à qual Bonadei refere o causo com Bernardino, viveu um conflito intenso entre as tendências clássicas e acadêmicas da pintura e as vanguardas europeias do Modernismo, conflito que permeou os Salões Paulistas, por exemplo. Naturalmente, Bernardino não concordava por completo com as tendências "amalucadas" dos Modernistas...
Ainda assim, não é possível dizer que Bernardino não considerasse a pintura modernista como arte. A exemplo disso, temos a criação do Núcleo dos Artistas Plásticos, que ele ajudou a fundar, e que abrigava todo tipo de artista plástico:

E em agosto, a confirmação de que Bernardino Sousa dava aulas no Núcleo:

Perceba que tudo isso cimenta ainda mais a percepção de que Bernardino ainda não tinha vindo a Itanhaém até 1948, pois estava bem enraizado em São Paulo. E podemos ir ainda mais longe, pois em 1949 temos o seguinte registro:

Então sabemos que até outubro de 1949, Bernardino ainda tinha uma rotina considerável em São Paulo. Aqui volta o mistério de quando ele se mudou para Itanhaém.
Quem vem para nos dar uma pista sobre isso é Arminda, a companheira de Bernardino, que disse o seguinte em uma entrevista em 1970:

Se em 1970 Arminda considerou que já se iam uns 30 anos desde que primeiro viajaram a Itanhaém e resolveram ficar, isso deixa nossa hipótese da mudança do casal ter acontecido ainda na década de 1940, possivelmente em 1949. Se a mudança deles tivesse sido em 1960, como diz o banner no Museu até a publicação deste artigo, dificilmente d. Arminda diria "Isso faz bem uns 30 anos", em 1970. Diria algo como "Isso faz uns 10 anos".
Concorda?
Mas agora já nos estendemos demais. Continuaremos nossa viagem pela biografia de Bernardino Sousa Pereira, agora em Itanhaém, na parte 2 de nossa pesquisa.
Até lá!
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Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes utilizadas:
A CIGARRA. São Paulo, ed. 276, jul. 1926.
CIDADE DE SANTOS. Santos, 14 abr. 1970.
CIDADE DE SANTOS. Santos, 1970.
CORREIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 26 jan. 1934.
CORREIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 15 fev. 1934.
CORREIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 1 fev. 1935.
CORREIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 30 nov. 1935.
CORREIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 9 fev. 1926.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 23 jun. 1916.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 3 out. 1922.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 21 nov. 1922.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 25 maio 1926.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 26 fev. 1935.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 8 mar. 1936.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 9 jan. 1937.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 28 jan. 1937.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 10 mar. 1937.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 24 jun. 1937.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 26 jan. 1939.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 14 fev. 1939.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, nov. 1939.
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CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 8 dez. 1942.
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CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 1947.
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CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 8 out. 1949.
REVISTA DA SEMANA. Rio de Janeiro, 1935.
REVISTA ESCOLAR. São Paulo, n. 19, jul. 1926.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1920.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1923.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1924.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1928.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1929.
EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1930.
XXXII EXPOSIÇÃO GERAL DE BELLAS ARTES DO RIO DE JANEIRO. Catálogo. Rio de Janeiro, 1925.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Bernardino Sousa Pereira. São Paulo: Itaú Cultural. Acesso em 18 ago 2026.
FACEBOOK. Galeria Itá. 2017. Acesso em 02 set 2026.
WIKIPÉDIA. Bernardino Sousa Pereira. Acesso em 18 ago 2026.
MUSEU CONCEIÇÃO DE ITANHAÉM. Banner expositivo sobre Bernardino Sousa Pereira (Fotografia do autor). Itanhaém, jun. 2026.




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