Jorge Rossmann


Antes de eu me mudar para a cidade há alguns anos, topei com o nome de Jorge Rossmann como o primeiro nome que eu vi ligado às origens da cidade. Antes até do que o nome de Benedito Calixto, se é possível acreditar numa coisa dessas.
E isso foi porque em 2022, na escolha de qual cidade seria o meu destino ao sair de São Paulo, eu e minha esposa batemos o martelo quanto a Itanhaém, porque, oras, Itanhaém tinha um hospital: era o Hospital Regional Jorge Rossmann!
Na certeza de que seríamos amparados na saúde pelo Hospital, acabamos nos decidindo em fincar raízes por aqui.
Hoje, entretanto, não estou aqui para falar do hospital em si, mas sim de seu patrono. Quem foi Jorge Rossmann? Qual foi sua importância para Itanhaém?
E ao pesquisar sobre ele, descobri uma história de dedicação à saúde e ao povo da então muito humilde vila da Conceição de Itanhaém, e também de toda a região do Vale do Ribeira.
Vamos (re)conhecê-lo juntos.
O pharmacêutico
Jorge Bittencourt Rossmann nasceu em 21 de outubro de 1888, em Santos, filho dos imigrante alemão Jorge Adão Rossmann e de Maria Bittencourt Rossmann. Teve quatro irmãos: Guilherme, Bemvinda, Maria José e Casimiro.
Em 1907, ainda com 19 anos, ele aparece nos registros sociais de aniversários do jornal A Tribuna como auxiliar da Pharmácia União. Não há qualquer registro anterior sobre a infância ou adolescência dele, mas é presumível que ele tenha estudado em Santos.

Dá para chegarmos à conclusão de que seu conhecimento e habilidade para a farmácia foram dignos de nota, porque até 1910 temos novamente registro de seu aniversário na coluna social de A Tribuna, e sua ocupação vem ora como farmacêutico auxiliar da Santa Casa de Misericórdia e da Beneficência Portuguesa, duas das mais importantes instituições de saúde de Santos naquele tempo.
Foi também nesse ano que Jorge se casou com Francisca da Cunha Sampaio. No ano seguinte, em 16 de maio de 1911, nasceria o primeiro filho do casal, José Rossmann.

A farmácia N. Sa. da Conceição
Aqui é importante fazer um registro: as poucas biografias esparsas de Jorge Rossmann que encontrei (uma antiga no site da Prefeitura sobre o batismo do Hospital Regional e outra na Wikipedia) trazem um dado que está incorreto. Dois, na verdade, pois fala do casamento ter sido em 1909, quando já se é possível provar que não foi o caso. Mas o mais importante não é esse.
Acontece que nas biografias há a menção de que Jorge Rossmann teria aberto a primeira farmácia de Itanhaém em 1932. Veja:


Cabe então à pesquisa do HISTORITA reparar essa questão, para que não haja mais dúvidas de uma data tão importante pra cidade, que marcou possivelmente o primeiro momento em que Itanhaém teve algum tipo de assistência médica especializada, muitos anos antes da chegada do Dr. Nogueira.
O jornal Correio Paulistano do dia 10 de fevereiro de 1915 nos traz, de forma inequívoca:

É possível dizer, então, que ele se mudou com a família já nesse ano? Talvez. Ele poderia ainda estar vivendo em Santos e vindo trabalhar de trem, ainda que fosse algo dispendioso de tempo. Mas não podemos afirmar que foi o caso.
O que não se pode negar é que a primeira farmácia de Itanhaém nasceu em 8 de fevereiro de 1915, muitos anos antes do que se veicula nas biografias.
Entretanto, vale a pena dar atenção ao que parece ser uma notinha boba de fim de página, do Correio Paulistano de 8 de agosto de 1916. Na seção de acontecimentos sobre Itanhaém, temos isto:

Pensemos: se a nota diz que ele tinha ido a negócios para Santos e retornado para Itanhaém, a ideia de que ele já morava pelas bandas itanhaenses não é impossível. Ora, se ele ainda morasse em Santos, ele não teria viajado até lá a negócios, concorda, caro leitor ou cara leitora?
Os registros mostram Jorge Rossmann à frente do negócio pelo menos até 1º de outubro de 1916, quando temos este registro no Correio do Litoral:

Em março de 1917, porém, surge uma questão.

Ué. Que papo é esse de retirada?
Calma, cara leitora ou caro leitor. Eu confesso que achei bastante esquisito isso, então dei uma mergulhada um pouco mais a fundo no que pode ter acontecido.
Pedro de Barros era, na época, apenas uma estação de trem que estava sendo construída em terras da região então denominada Prainha, que mais tarde viria a se chamar Miracatu. Essa partida temporária de Jorge Rossmann para lá provavelmente buscou atender com remédios e tratamentos as pessoas do pequeno vilarejo de trabalhadores da ferrovia que se formou nos arredores dela.
E digo que foi uma partida temporária, pois há um registro mais a frente que o coloca novamente em Itanhaém, como veremos. Como o registro será de 1924, temos aí um espaço de 7 anos em que não se sabe ao certo o que Jorge Rossmann fez. Em conversa com uma de seus descendentes, Ana Paula Rossmann, fiquei sabendo que ele ficou bem conhecido na região do Vale da Ribeira, por conta da ajuda que proveu. Será possível, então, que ele instalava a farmácia nos pontos em que a ferrovia ia abrindo novas estações? O que você acha, cara leitora ou caro leitor?
Enfim, em 11 de outubro de 1917, nasceu o segundo filho do casal, Renato Rossmann. Alguns anos depois, em 1921, nasceria o terceiro: Walter Rossmann.
Homem público
Em algum momento no começo da década de 1920, Jorge Rossmann foi eleito Juiz de Paz de Itanhaém — cargo que, na época, cuidava de casamentos e pequenas questões civis e de conciliação. É possível inferir isso por conta de um registro no Correio Paulistano de 15 de novembro de 1924, celebrando os 35 anos da Proclamação da República, logo após as revoluções daquele ano. Jorge enviou felicitações, junto de Totó Mendes, João Batista Leal e Emídio de Souza.

Em 1930, sua mãe Maria faleceu em Santos. Sobre seu pai, o HISTORITA não encontrou detalhes de sua morte.
Alguns anos depois, decerto por conta de seu prestígio entre a população, Jorge Rossmann foi eleito vereador, com 35 votos; um número que hoje pode parecer pouco, mas que era a política de vila pequena da época, decidida por punhados de votos entre gente que se conhecia de cor.
Para que você tenha uma ideia: o total de eleitores era de 306 naquele ano. Ou seja, Rossmann teve cerca de 11,5% dos votos, ficando atrás de Ércio Simões de Carvalho por 2 votos apenas. O mais votado foi o também farmacêutico Octacílio Dantas, com 58 votos (19% do total).
Vale sempre lembrar: os cargos eletivos públicos não recebiam salário. Nem vereador, nem prefeito. Pois é, foi assim no Brasil até meados de 1970. Mas isso é papo para outro capítulo de nossa história.
Pois bem, em 1937, Jorge Rossmann renunciou ao cargo de vereador. Considerando a eleição da prefeita Spasia Albertina Bechelli Cecchi ter sido um tanto controversa, pode ter havido desgaste político entre os vereadores que levou Jorge Rossmann a renunciar. Ou então o Estado Novo, com toda sua mudança de conjuntura política, tenha levado Jorge a tomar a decisão. Cabe a algum historiador tirar essa nossa dúvida, leitor ou leitora.
Essa não seria, entretanto, sua única desventura na política.
O prefeito Jorge Rossmann
Em 1940, vem a grande virada da vida de Jorge Rossmann: ele é indicado prefeito de Itanhaém pelo próprio interventor federal Adhemar de Barros. Estamos em plena Era Vargas e no Estado Novo, quando os políticos deixaram de ser eleitos pelo voto direto e passaram a ser escolhidos de cima para baixo — e foi justamente esse boticário, ex-Juiz de Paz e ex-vereador, o nome escolhido para tocar os destinos da vila.
Segundo matéria no jornal Estado de São Paulo, a população de Itanhaém ficou muito agradecida pela escolha, pois considerava Jorge Rossmann um "homem íntegro, de caráter impoluto, radicado no nosso meio social".
Ainda sobre a posse, o jornal Correio da Tarde trouxe, em 28 de julho de 1941, a seguinte nota:

Eis a notícia de sua posse, ocorrida em 29 de julho de 1941, reportada no dia seguinte no Correio Paulistano:

E aqui, mais detalhes da posse em São Paulo:

Por fim, A Tribuna de 31 de julho de 1941 trouxe os detalhes da repercussão em Itanhaém no dia 30:

E enquanto novo prefeito, Jorge Rossmann não perdeu tempo: procurou fazer o alongamento da rede hídrica para levar água para o bairro Vila Operária e providenciou reparos na rodovia até o Suarão. Ambos foram relatados pelo jornal Folha da Manhã, o qual não podemos reproduzir aqui devido ao custo dos direitos autorais.
Foi também nesse ano, no dia 31 de agosto, que ele ajudou a fundar a Associação Santos-Juquiá de Assistência Rural, ao lado de outros nomes da região. Segue abaixo a matéria da Tribuna a respeito:

Em 1942, o jornal Correio da Tarde dedicou uma folha praticamente inteira a falar de Itanhaém. Veja abaixo (e lembre-se que você pode sempre ampliar a imagem com os dedos no celular):


No mesmo ano, Jorge teve a iniciativa de promover o primeiro encontro de prefeitos do litoral sul do estado, cuja primeira reunião se deu em Iguape, e a segunda, em Itanhaém:


Em 29 de julho de 1942, uma pequena nota trazida pela Tribuna conta um detalhe a respeito daquele que viria a ser prefeito em 1947:

Em 3 de agosto (ainda em 1942), celebrou-se em Itanhaém o primeiro ano de mandato de Jorge Rossmann, como nos mostra A Tribuna:

Pra fechar 1942, vamos de assuntos religiosos. Jorge Rossmann fez parte da comissão da Festa do Divino daquele ano (e veja quantos nomes conhecidos na matéria a seguir!). Finalmente, em dezembro de 1942, há uma breve nota indicando que ele iria carregar o pálio na festa de N. Sa. da Conceição.


Em 1943, Jorge passa a integrar a diretoria da Sociedade Científica "Bios", de São Vicente, e também participa da formosa celebração do 3º ano do Centro Itanhaense, no Gabinete de Leitura Itanhaense.

Os últimos meses de vida
Em 1944, já em seu último ano de vida, Jorge aparentava estar adoecendo ao emagrecer bastante, mas seguiu ativo: em maio, pediu um trem à Sorocabana para viabilizar a Festa do Divino. Em 6 de junho, fundou o Grêmio Esportivo Itanhaense, sociedade de atletas femininas, principalmente jogadoras de vôlei, que queriam uma sede. Em julho, estava discutindo com o interventor federal sobre as questões dos problemas de iluminação pública na cidade.


Em 28 de novembro de 1944, uma matéria inteira sobre os esportes de Itanhaém traz uma entrevista com Jorge Rossmann, e uma foto dele. Apesar da baixa qualidade da imagem, é possível vê-lo bem franzino e abatido. Ele estava com apenas 58 anos na época, mas aparentava bem mais idade, consumido pela doença.




No dia 13 de dezembro, há o registro de que Jorge Rossmann estava enfermo, em casa, onde recebeu a visita do prefeito de Santos. Um gesto de reconhecimento entre autoridades e, talvez, também de amizade antiga, vinda daquela cidade onde tudo, para Jorge, tinha começado.
E então, no dia 25 de dezembro, o Natal daquele ano de 1944, Jorge Rossmann faleceu em sua casa, na Av. João Baptista Leal, n. 6, vitimado pelo câncer de próstata.

Jorge Rossmann hoje

Quando nos acostumamos a passar diariamente diante do Hospital Regional Jorge Rossmann, é fácil esquecer que houve, um dia, uma pessoa de carne e osso por trás daquele nome. Um farmacêutico que deixou Santos para viver numa pequena vila litorânea quando ela ainda carecia de quase tudo; que abriu sua farmácia quando Itanhaém sequer contava com assistência médica permanente; que serviu como Juiz de Paz, vereador e prefeito; e que, até o último mês de vida, continuava envolvido com as obras, com as festas populares, com o esporte e com os problemas cotidianos da cidade.
A pesquisa também mostrou que a história nunca está completamente pronta. Descobrimos que a primeira farmácia de Itanhaém surgiu em 1915, e não em 1932, como repetiam as biografias disponíveis. Encontramos novos documentos, mas também novas perguntas: o que exatamente aconteceu durante sua passagem por Pedro de Barros? Por que renunciou ao mandato de vereador? Quantos outros registros ainda aguardam ser encontrados em arquivos, gavetas e álbuns de família?

Se você possui fotografias, documentos, cartas, recortes de jornal ou qualquer lembrança relacionada a Jorge Rossmann ou à antiga Itanhaém, entre em contato com o HISTORITA pelo WhatsApp. Toda contribuição ajuda a preencher lacunas e permite que a história da cidade seja contada com cada vez mais precisão.

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Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Referências:
A FITA. O gárrulo menino José, filho do sr. Jorge Rossmann. Santos, 1914.
A TRIBUNA. Associação Santos-Juquiá de Assistência Rural. Santos, 31 ago. 1941.
A TRIBUNA. Chegada de Jorge Rossmann a Itanhaém após a posse em São Paulo. Santos, 31 jul. 1941.
A TRIBUNA. Comemorado anteontem o 3º ano de fundação do Centro Itanhaense. Santos, 13 jul. 1943.
A TRIBUNA. Conceição de Itanhaen será dotada de magnífica praça de esportes. Santos, 28 nov. 1944.
A TRIBUNA. Festa da Padroeira. Santos, 12 dez. 1942.
A TRIBUNA. Festa do Divino Espírito Santo. Santos, 15 maio 1942.
A TRIBUNA. Homenagem ao prefeito de Itanhaém. Santos, 12 ago. 1942.
A TRIBUNA. Posse do novo prefeito, sr. Jorge Rossmann. Santos, 5 ago. 1941.
A TRIBUNA. Tesoureiro da Prefeitura de Itanhaém. Santos, 29 jul. 1942.
CORREIO DA TARDE. Visitantes – Jorge Rossmann. São Paulo, 28 jul. 1941.
CORREIO DO LITORAL. Classificado da Pharmácia N. Sa. da Conceição. 1 out. 1916. Acervo do Memorialista José Rosendo.
CORREIO PAULISTANO. Aberta a primeira farmácia em Itanhaém em 8 de fevereiro de 1915. São Paulo, 10 fev. 1915.
CORREIO PAULISTANO. Empossado o novo prefeito de Itanhaen. São Paulo, 30 jul. 1941.
CORREIO PAULISTANO. Jorge Rossmann se retira de Itanhaém. São Paulo, 24 mar. 1917.
CORREIO PAULISTANO. Jorge Rossmann vai a Santos a negócios e retorna para Itanhaém. São Paulo, 8 ago. 1916.
CORREIO PAULISTANO. Nova reunião dos prefeitos do litoral sul do Estado. São Paulo, 27 out. 1942.
CORREIO PAULISTANO. Quinze de Novembro. São Paulo, 15 nov. 1924.
CORREIO PAULISTANO. Reunião dos prefeitos do litoral sul do Estado. São Paulo, 4 jul. 1942.
GOOGLE. Google Maps. Disponível em: https://maps.google.com. Acesso em: 13 jul. 2026.
HISTORITA. Pesquisa documental realizada pelo autor em periódicos históricos, arquivos públicos e acervos particulares, 2026.
MEMORIALISTA JOSÉ ROSENDO. Acervo do Correio do Litoral. Itanhaém, [s.d.].
O DIÁRIO. Falecimentos – Jorge Rossmann. Santos, 27 dez. 1944.
O DIÁRIO. Jorge Rossmann fala ao interventor. Santos, 8 jul. 1944.
PREFEITURA MUNICIPAL DE ITANHAÉM. Hospital Regional recebe nome do ex-prefeito Jorge Rossmann. Itanhaém, 13 ago. 2013. Página atualmente indisponível. Informação preservada por registros do autor.
ROSSMANN, Ana Paula. Informações familiares prestadas ao autor em comunicação pessoal, 2026.
WIKIPEDIA. Jorge Rossmann. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Rossmann. Acesso em: 13 jul. 2026




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