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Emídio de Souza

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • 23 de jan.
  • 15 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.


Você conhece Emídio de Souza? E o Emygdio Emiliano de Souza? Hoje, venho trazendo um panorama bem completo sobre Emídio, garimpado em jornais e documentos históricos, e amparado sobretudo pelas pesquisas do memorialista mais influente de Itanhaém, na minha modesta opinião: José Rosendo.


Emídio nasceu em 21 de maio de 1867(ou 68), na então Vila da Conceição de Itanhaém. Ele era filho de Rosa Maria de Souza, nascida em 1839 e falecida em 1937 (98 anos, raríssimo para a época!) e Ricardo Herculino de Souza. Considerando o nosso "índice Calixto" para calcular idades no século XIX, quando Emídio nasceu, Calixto já tinha 13 anos (se não me falha a Matemática...). Esse número vai nos ser importante mais adiante, então lembre-se dele.


O primeiro registro que encontrei sobre Emídio está ligado a um fato curioso. É de 1886, quando ele tinha apenas 18 anos. Foi nessa ocasião que Emídio, sem qualquer orientação formal, produziu duas telas, que você confere a seguir (clique para ampliá-las):


Itanhaém em 1886 - Emídio de Souza
Itanhaém em 1886 - Emídio de Souza

Parece bastante razoável dizer que temos nessa obra o registro iconográfico mais antigo sobre Itanhaém, e feito por um genuíno caiçara. Tesouro de valor inestimável!


A próxima obra traz uma festa junina em Peruíbe, que ainda era parte de Itanhaém naquela época.


Festa Junina em Peruíbe, 1886 - Emídio de Souza
Festa Junina em Peruíbe, 1886 - Emídio de Souza

(agradeço ao navegante da história e colaborador João Tadeu Bastos da Silva por confirmar que, de fato, se trata de uma festa junina - o mastro é branco, assim como a bandeira, quando deveria tudo ser vermelho se fosse a Festa do Divino, além do detalhe de 2 homens soltando fogos no canto inferior direito)


O fato dessas duas obras existirem, tendo sido criadas em 1886, põe em xeque a história que se fala sobre Emídio: que ele aprendeu a pintar com Benedicto Calixto. Afinal, o que se sabe pela história é que Calixto o convidou para ajudá-lo em seu ateliê em Santos apenas em 1888. Faz total sentido que assim tenha sido: ao ver os dotes artísticos de Emídio, confiou que seria um jovem auxiliar que respeitaria e cuidaria de suas telas com cuidado, enquanto teria ali um emprego envolvido com a área da pintura.


Friso, porém, que eu disse que essa informação põe em xeque, não em xeque-mate. Isso porque é impossível não reconhecer que realmente Emídio aprendeu com Calixto enquanto foi seu auxiliar no ateliê; mas não foi uma aprendizagem do zero.


E a respeito dessa época de sua vida, entre infância e início da fase adulta, o próprio Emídio disse, em um caderno/livro de memórias chamado RECORDAÇÕES, de 1946, quando já beirava os 80 anos, o seguinte.


Com a palavra, Emídio de Souza:


"Frequentei a escola pública da vila, da qual era professor preliminar o velho Joaquim Mariano de Meira (tio Nenê, como era tratado pelos seus parentes), sob o regime da 'palmatória', usado naquele bom tempo. Em 1888, por já ter alguma inclinação para a pintura, fui convidado pelo pintor-patrício Benedito Calixto para ir a Santos, como auxiliar, trabalhar com ele na pintura e ornamentação do que tinha sido contratado para os festejos referentes à Lei Áurea, a 13 de maio daquele ano. Acabado esses serviços, Calixto propôs-me ficar com ele naquela cidade, pois precisava dos meus serviços no seu 'atelier', e assim poderia me dar algumas lições. Aceitando a sua proposta, fiquei até o meado do ano de 1890, quando ele com a família vieram para esta vila, devido a ter se desenvolvido naquela cidade as epidemias de varíola e febre-amarela. Foi durante esse pouco tempo que adquiri alguma prática: não que recebesse lições ou instruções para pintura como havia sido proposto, mas sim pela vontade que tinha de saber alguma coisa da arte (porque Calixto nunca tinha tempo para me dar as lições!). Assim, quando me achava a sós no 'atelier', aproveitava o tempo disponível para copiar desenhos de algumas paisagens que se achavam pregadas nas paredes, servindo-me de tintas aquarela, em cartolina, que tinha comprado para o meu uso.


Certo dia em que Calixto foi à capital fazer compras, depois do almoço fui para o 'atelier' e comecei a pintar uma paisagem, de pôr do sol no interior, a qual eu achava bonita (eu tinha gosto por esse gênero de arte); e tão aplicado estava eu no meu trabalho, que não calculei o tempo, sendo assim apanhado em flagrante pelo 'mestre', que já havia regressado... Calixto, examinando 'a minha obra', disse-me com severidade: 'Isto é trabalho que não está ao seu alcance fazer com acerto... só pintores que estudaram esse gênero. Se você quer fazer pinturas, aí tenho restos de tintas a óleo e pincéis de que não me utilizo. Pode dispor deles, bem como sobras de telas'.


Daí em diante comecei a fazer as minhas 'borradelas' a óleo, não desprezando, no entanto, a aquarela, se bem que compreendesse que Calixto tinha razão."


Paisagem de Itanhaém - sem data - Emídio de Souza
Paisagem de Itanhaém - sem data - Emídio de Souza

Segundo a introdução de suas RECORDAÇÕES, Emídio pontua alguns momentos de sua vida adulta que se iniciou após retornar de Santos com Calixto:


  • Em 5 de janeiro de 1892, Emídio começou a trabalhar como agente do correio, e ficou no cargo por quase nove meses, deixando-o em 31 de agosto do mesmo ano;

  • Poucos dias depois, em 10 de setembro de 1892, Emídio foi contratado como professor público provisório na escola para meninos do bairro do Poço. Em 1897, foi nomeado efetivo na mesma escola. Ficaria no cargo por oito anos, até 31 de dezembro de 1900;

  • Em 1893, Emídio foi vereador da Câmara Municipal, a primeira do regime republicano, ocupando o cargo de intendente no segundo ano do mandato, que foi até 1895. Essa eleição provavelmente se deu por seu prestígio como professor, como era de costume pelo respeito e admiração conferidos aos docentes na época;

  • Ainda em 1893, Emídio pinta a obra Praça da Matriz de Peruíbe;

  • Em 1896, Emídio se casa com Elvira Meira de Souza. No mesmo ano, é nomeado primeiro suplente do subdelegado de polícia da vila.


Paisagem de Itanhaém - 1895 - Emídio de Souza. Detalhe para o mastro do Divino na embarcação maior.
Paisagem de Itanhaém - 1895 - Emídio de Souza. Detalhe para o mastro do Divino na embarcação maior.

Sobre o ano de 1895, Emídio de Souza diz o seguinte em suas RECORDAÇÕES:


"Quando em 1895, ou mais, o nosso conterrâneo, pintor Benedito Calixto, como filho desta vila, desejou escrever a monografia que depois intitulou "A Vila de Itanhaém", precisando de dados antigos para a sua orientação, além dos tradicionais, obteve permissão da Câmara para consultar o seu velho Arquivo, conhecendo já o gosto e amor que eu tinha pelas coisas antigas que se referissem à nossa terra natal e à pátria, convidou-me para auxiliá-lo nesse trabalho, e assim foi que obtive muitos esclarecimentos que atualmente me baseio".


Mais um pedacinho curioso da reportagem do Correio Paulistano, de onde tirei esses excertos, é este:


"Emídio (de) Souza conta-nos fatos que se passaram em Itanhaém, guardados religiosamente pela tradição oral. Fala-nos das lendas existentes na região e narra-nos em sua linguagem simples a vida de José de Anchieta. A propósito da estátua de Anchieta, executada pelo escultor Morrone e colocada na praça principal de Itanhaém, diz-nos que evidentemente se enganou ao colocar uma varinha na mão direita de seu trabalho, porque '... devia ser uma cruz ou um crucifixo, que era a arma principal de que esses missionários se utilizavam para catequizar os índios tanto no litoral, como nos sertões, pois que até as feras se afastavam respeitosas nas florestas ao lhes ser mostrado o símbolo da nossa fé'."


Em 1903, nasceu sua filha Clarice de Souza.


Em 1915, Emídio assumiu o cargo de Secretário da Câmara Municipal, o que faria com que sua assinatura constasse em inúmeros documentos e atas da época. Foi nessa época que ele tomou principal gosto pela escrita, publicando até 1919 no jornal Correio do Litoral cerca de 21 contos folclóricos sob o título Contos da Roça. O HISTORITA está buscando esses contos - quem sabe teremos sua publicação aqui, mais de um século depois?


Assinatura de Emídio de Souza em ata do Gabinete de Leitura - 1905
Assinatura de Emídio de Souza em ata do Gabinete de Leitura - 1905

E como falar em Literatura e arte sem falar do Gabinete de Leitura Itanhaense? Saiba você, caro leitor ou leitora, que Emídio de Souza teve participação muito ativa no Gabinete no começo do século, escrevendo peças de teatro e encenando nelas. Além de contribuir com a escrita, também compunha músicas para tocar e cantar nas peças, e canções para serenatas... Ele poderia muito bem ser o patrono dos atuais Seresteiros de Itanhaém, não acha?


Essa atuação de Emídio perduraria por muitos anos. O registro mais tardio de suas desventuras teatrais é de 1921, o qual apresenta sua filha Clarice como atriz em uma de suas montagens.


Mas calma lá, que já estou me adiantando. Voltemos um pouco.


Santos - 1942 - Emídio de Souza
Santos - 1942 - Emídio de Souza

Em 1916, Emídio foi contratado como Chefe da Estação Ferroviária de Itanhaém (Peruíbe). Apesar do foco em seu ganha-pão, durante essa época Emídio não abandonou as artes, tanto no teatro, quanto na pintura.


Em 22 de abril de 1922, às 19h, na residência de João Baptista Leal, houve o casamento de sua prendada filha (diz assim na nota) Clarice com Albino Mendes Mariano, negociante de Itanhaém. Na nota sobre o casamento, Emídio é mencionado como "zeloso chefe da estação da Southern S. Paulo Railway, em Peruíbe".


De todo modo, Emídio pediria demissão do cargo em 1924 e voltou ao centro de Itanhaém para exercer o cargo de subdelegado de polícia mais uma vez.


Um evento aconteceu em Itanhaém no meio daquele ano, no qual Emídio se envolveu, conforme relatado pelo jornal A Tribuna do dia 9 de julho de 1924:


"Ontem, na histórica cidade de Conceição de Itanhaém, durante a festa, havia desusado movimento não só de pessoas do lugar e dos arredores, como veranistas de São Paulo, S. Vicente e de Santos.


Durante o dia, chegaram a Itanhaém vários automóveis desta cidade [Santos], conduzindo passageiros.


Os festejos corriam animados, não tendo havido nada que perturbasse a boa paz e tranquilidade habituais daquela localidade.


Um desastre de automóvel


Entretanto, cerca das 14 horas, o sr. Benjamin Rodrigues, que ali chegara pela manhã, quando o automóvel n. 516 e em que viajavam vários rapazes desta cidade, atendendo às solicitações de várias senhorinhas, se dispunha a fazer uma volta, ao tempo em que aqueles rapazes faziam uma pequena refeição.


Depois de terem tomado lugar no automóvel diversas moças, o sr. Benjamin Rodrigues deu saída à máquina no largo da Matriz e, ao dobrar a esquina que dá para a rua Cunha Moreira, o indivíduo João Pires, por imprudência, foi colhido pelo para-lama do automóvel, recebendo leves contusões pelo corpo.


Soldado arbitrário


Verificado o acidente, compareceu logo o soldado do destacamento de Itanhaém, Jorge Braziliano de Freitas, que deu logo voz de prisão ao chofer, mandando que o mesmo abandonasse o carro, ameaçando esbofeteá-lo.


O sr. Benjamin Rodrigues, então, entregou o automóvel ao sr. Olegário Rodrigues e foi levado para a cadeia, aos empurrões, pelo 'valiente' soldado Jorge Braziliano de Freitas, que, pouco depois, voltava ao local, onde fez verdadeiro sarilho, ameaçando o povo, sem respeitar os seus superiores, que se achavam presentes.


O subdelegado em exercício, Emygdio de Souza, ao invés de punir o façanhudo soldado, sabendo que o desastre fôra todo casual, ameaçou multar em 100$000! o sr. Benjamin Rodrigues, obrigando o mesmo a conduzir o ferido no seu automóvel para esta cidade, a fim de ser internado na Santa Casa.


--- O soldado Jorge Braziliano de Freitas é o mesmo que, há dias, espancou barbaramente um indefeso índio do aldeamento de Bananal, o qual, para se ver livre das garras do façanhudo 'mantenedor da ordem', teve que atravessar o rio Itanhaém a nado, escondendo-se no mato, onde passou a noite."


Descobri, em outra edição do jornal, o nome do indígena: José Ribeiro. De fato, correu um inquérito sobre o fato, mas não consegui informações sobre o desfecho.


Mais adiante, acha-se o registro do atropelamento, na mesma página do jornal:


"O nacional João Thomaz Pires, solteiro, de 32 anos, morador em Conceição de Itanhaém, ontem, às 16 horas, foi atropelado pelo automóvel n. 516, ficando ligeiramente ferido."


Emídio chegou ao local do acidente e aplicou a justiça que não consistia na violência. É de se notar que zelava mesmo pela justiça, pois pouco tempo depois, outro fato dessa ordem ocorreria na pacata Conceição de Itanhaém...


O ano de 1924 foi especial para o estado de São Paulo, pois foi quando estourou a Revolta Paulista, incitada por grupos de tenentes veteranos da Revolta Tenentista de 1922, mas com participação civil. O início foi em 05 de julho de 1924, na capital, e logo se espalhou pelo interior e litoral. O objetivo era derrubar o governo do então presidente Artur Bernardes e iniciar uma reforma na república.


Onde Emídio de Souza se encaixa nisso tudo? Bem, temos a seguinte passagem no jornal A Tribuna, de 3 de agosto de 1924:


"DESTACAMENTO DE ITANHAÉM --- Pelos sentinelas do Porto Guaraú, foram presos anteontem, no rio Itanhaém, vindos de São Paulo: Leopoldo Ricardo da Silva, brasileiro; Silvestre de Souza Azevedo, português; Onofre Santana, Osvaldo Machado e Flávio Trigo, brasileiros; Johan Batista Baron e Albert Ferdinand Hans, alemães. Depois de averiguadas suas identidades, foram postos em liberdade, exceto o último, que foi conduzido ao dr. delegado regional, escoltado por 3 praças do Batalhão de Tiros de Guerra 11 e 598, a fim de entrar em explicações."


Lembre-se, Emídio era o subdelegado. A nota continua:


"--- O serviço de vigilância, a cargo do sargento Edison Telles de Azevedo, comandante do destacamento, e do sr. Emídio de Souza, delegado de polícia em exercício, continua alerta, tendo efetuado várias prisões."


Interessante, não? Surge inclusive Edison Telles de Azevedo, que viria, trinta e quatro anos depois, a publicar a lendária coluna Itanhaém de Outrora, um marco para a historiografia sobre Itanhaém, no jornal A Tribuna.


Paisagem de Itanhaém - 2 de janeiro de 1925 - Emídio de Souza
Paisagem de Itanhaém - 2 de janeiro de 1925 - Emídio de Souza

Pois bem, sigamos a viagem pelo tempo!


Em 1927, há o registro de Emídio como um dos membros fundadores do Partido Democrata de Itanhaém, em reunião ocorrida no Esplanada Hotel:


Relato completo do dia 29 de dezembro de 1927 - Diário Nacional (31/12/1927)
Relato completo do dia 29 de dezembro de 1927 - Diário Nacional (31/12/1927)

Em 1928, uma triste ocasião: faleceu Risoleta de Souza Lima, irmã de Clarice. Risoleta foi esposa de Avelino Camillo de Lima, negociante de Peruíbe. Relata-se que a morte foi muito sentida em Itanhaém, principalmente quando o corpo chegou ao Cemitério Municipal, pois ela era muito bem quista e conhecida por todos.


Após esse ano, há o registro de Emídio trabalhando novamente como Secretário da Câmara de Itanhaém, em 1932 e 1933.


Perceba que até essa idade, talvez 64 ou 65 anos, Emídio ainda não tinha reconhecimento por suas obras. Pintava porque gostava, sem estudo e sem expectativa de fama ou de uma carreira artística.


Emídio dá seguimento à nossa viagem, conduzindo-nos pela mão, em seu RECORDAÇÕES:


"Estamos no ano de 1935. Assim fazendo, no período de dez anos construí cinco 'casitas', como disse o português Francisco Bernardo, e à proporção que ia fazendo, logo aparecia comprador, de sorte que me tornei em construtor. Como, graças a Deus, de todas as profissões entendo um pouco, não era preciso pagar carpinteiro."


É registrado que ele construía as casas em terrenos que achava serem da Marinha, e depois descobria que eram da Paróquia, então logo eram vendidas.


Já sobre a pintura nesses anos, ele menciona:


"Antes da Segunda e Grande Guerra, todos os trabalhos que fiz de pinturas foram adquiridos por pintores e amadores e, assim, fui me tornando conhecido e angariando boas amizades. (...) Durante o tempo em que permaneci fora da convivência com a família, acostumei-me à vida isolada: gostava do sossego, comia o que podia arranjar e trabalhava com satisfação. A família, enquanto estava sob o meu poder, mesmo na minha ausência, nunca sofreu privações."


Entende-se que nessas jornadas em busca de construir as casas, Emídio por algum tempo ficava distante da família, que deixava em meio à civilização em Itanhaém, e foi tomando gosto pelo isolamento, que levaria consigo até o fim de seus dias, como veremos.


Paisagem de Itanhaém - 1938 - Emídio de Souza. Detalhe para o Gabinete com a placa "CINEMA", o único registro visual desse uso do Gabinete de Leitura Itanhaense.
Paisagem de Itanhaém - 1938 - Emídio de Souza. Detalhe para o Gabinete com a placa "CINEMA", o único registro visual desse uso do Gabinete de Leitura Itanhaense.

Em 1938 (ou 39), com Emídio já na casa dos 70 anos, sua vida ganharia novas cores de amizade. Nesse ano, o pintor Alfredo Volpi, em busca de tratamento para sua esposa Judite, foi direcionado aos bons ares litorâneos como recomendação médica. Seu amigo nas artes, Bruno Giorgi, leva-o a conhecer Itanhaém e as pinturas de Emídio, e Volpi se encanta com a ingenuidade de seu estilo primitivista, que em muito se assemelhava à arte Naif de Henri Rousseau. Curiosamente, Rousseau desenvolveu o primitivismo em Paris justamente no mesmo ano em que Emídio de Souza o fazia na Vila de Conceição de Itanhaém, 1886. Digo-o curiosamente, não pressupondo que um tenha se inspirado no outro, pois não tinham qualquer ligação, mas sim no aspecto de como as manifestações artísticas são mesmo fruto de seu tempo e circunstâncias: "brotam" na inspiração humana quase que ao mesmo tempo em pontos distintos, como hoje vemos a explosão literária do gênero distópico.


Mas para que nosso trem não saia dos trilhos, sigamos:


Por esse pioneirismo, vários críticos consideram a obra visual de Emídio de Souza como pioneira no Brasil, tornando esse filho de Itanhaém, em meu entendimento, tão ilustre quanto Benedicto Calixto. É nítido para mim que Emídio é o pai do Primitivismo brasileiro, quiçá do mundo, visto que Rousseau não tem pinturas anteriores a 1886. Mas como minha área de conhecimento é a Literatura, não posso afirmar nada. O que você acha, leitor?


Outro pesquisador da história de Itanhaém que muito admiro, José Carlos Só, menciona em sua pesquisa que Volpi daria várias falas em respeito à sua admiração por Emídio, dizendo que nunca tinha sido influenciado por nenhum pintor, apenas por Emídio de Souza. Você pode conhecer o artigo de Só em sua forma completa em um link ao final deste texto.


Praça da Matriz - Década de 1940 - Emídio de Souza
Praça da Matriz - Década de 1940 - Emídio de Souza

Segue mais uma fala de Emídio, sobre essas amizades, de suas memórias de 1946:


"Dos artistas e demais pessoas que me têm auxiliado, tanto na compra de meus quadros como fornecendo-me tintas, telas e pincéis, cumpre-me citar os srs. Alfredo Volpi, Bruno Giorgi, Angelo Simeone, Reinaldo Manzke, d. Ambrosina de Moura."


Em virtude desse reconhecimento de amigos pintores, em 1941, Emídio de Souza teve um de seus quadros expostos no I Salão de Arte da Feira Nacional de Indústria, em São Paulo. Posteriormente, seria muito agraciado por críticos como Sérgio Millet e Quirino da Silva, Quirino, em especial, falaria dos anos finais da vida de Emídio e após sua morteem colunas publicadas no Diário da Noite em diferentes ocasiões, que trago aqui para sua leitura:


Diário da Noite, 1946, por Quirino da Silva.
Diário da Noite, 1946, por Quirino da Silva.

Diário da Noite, 1952, por Quirino da Silva
Diário da Noite, 1952, por Quirino da Silva
Diário da Noite, 1957, por Quirino da Silva.
Diário da Noite, 1957, por Quirino da Silva.

Como nos diz Quirino, a situação da vida de Emídio em seus últimos anos estava bastante difícil, complicada por problemas de saúde. Ele chegou a ter uma exposição de suas obras no início de 1949, na Galeria Domus. Em janeiro daquele ano, o jornalista Ibiapaba Martins, responsável pela matéria do RECORDAÇÕES, diz o seguinte:


"Essas (são) as memórias de Emídio (de) Souza, um dos poucos pintores realmente populares do Brasil. Seus quadros são admirados por artistas consagrados e diz-se que, durante muito tempo, Alfredo Volpi se inspirou nas marinhas desse solitário colega de Itanhaém. Agora, Souza vai expor, ou melhor, vão expor em seu lugar. Ele continuará em Itanhaém, pendido sobre a perna doente, pintando o morrer do sol e a praça da cidade. Não quer conversa com a cidade grande, nem liga muito para essas coisas de exposição. Tem oitenta e um anos e não quis estar presente à Galeria Domus, onde se encontram os seus trabalhos."


Infelizmente, 1949 seria o ano em que ele faleceria, aos 82 (ou 81?) anos em 19 de setembro, na Santa Casa de Santos, tendo sido levado até lá por uma ambulância conseguida por Harry Forsell:


Certidão de óbito de Emídio de Souza, 1949.
Certidão de óbito de Emídio de Souza, 1949.

Você, leitor ou leitora atento(a), deve ter percebido que em alguns momentos eu me questiono quanto à idade de Emídio, e isso se dá por conta de registros conflitantes. Em algumas fontes confiáveis, seu ano de nascimento é tido como 1867, mas noutras (como no próprio testemunho de Emídio), aparece 1868. Eu tendo a acreditar no próprio Emídio, mas deixo essa incumbência de datas a alguma outra pessoa que consiga documentos que comprovem o ano certo. Quando for o caso, atualizarei este artigo.


Itanhaém - 7 de setembro de 1948 - Emídio de Souza
Itanhaém - 7 de setembro de 1948 - Emídio de Souza
(sem título) - Emídio de Souza, 1949. Uma de suas últimas telas.
(sem título) - Emídio de Souza, 1949. Uma de suas últimas telas.

Após essa nossa longa viagem, chegamos ao fim - mas apenas ao fim de Emídio de Souza enquanto matéria. Digo isso, porque Emídio seguiu tendo suas obras apresentadas em exposições do século XX e outras são parte de acervos especializados, como é o caso da Pinacoteca de São Paulo, que tem esta pintura dele:


Bandeira do Divino - 1941 - Emídio de Souza
Bandeira do Divino - 1941 - Emídio de Souza

Quanto à sua existência imaterial, ah, essa ainda há de durar por todo o tempo, celebrando sua visão única, genuinamente caiçara, que pintou a história da Itanhaém do fim do século XIX e das transformações do início do século XX. É de Emídio de Souza o registro mais antigo de que se tem notícia, e também são dele os 21 contos que ilustram o folclore e a vivência de seu povo e de sua época, e que devem ser trazidos novamente à luz em algum momento, porque Emídio merece esse reconhecimento da cidade que ele tanto amou.


Por isso, viva, Emídio Emiliano de Souza! Viva, pois ainda há muito para seu legado viver na Itanhaém de hoje e do futuro.


Retrato original de Emídio, sem edições - A Tribuna, 1960 - acervo da família.
Retrato original de Emídio, sem edições - A Tribuna, 1960 - acervo da família.

Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes: A TRIBUNA. Santos, 1922.

A TRIBUNA. Santos, 1924.

A TRIBUNA. Santos, 1959. Coluna Itanhaém de Outrora. Edison Telles de Azevedo.

A TRIBUNA. Santos, 1999.

CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 1897.

DIÁRIO DA NOITE. Notas de Arte: “Não há dúvida que morrerá como o Guercho”. Quirino da Silva. São Paulo, 1946.

DIÁRIO DA NOITE. São Paulo, 1952.

DIÁRIO DA NOITE. Colunas de Quirino da Silva. São Paulo, 1957.

DIÁRIO NACIONAL. Diário Nacional: a democracia em marcha. São Paulo, 1927.

ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Emídio de Souza. São Paulo, 2026. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/6778-emidio-de-souza. Acesso em: 23 jan. 2026.

GUIA DAS ARTES. Emídio de Souza: vida. Disponível em: https://www.guiadasartes.com.br/emidio-de-souza/vida. Acesso em: 23 jan. 2026.

JORNAL PRAÇA DE SANTOS. Santos, 1927.

JORNAL PRAÇA DE SANTOS. Santos, 1928.

O DIÁRIO. 1949.

PINACOTECA DE SÃO PAULO. Acervo: visite o acervo. São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://pinacoteca.org.br/pina/acervo/visite-o-acervo/. Acesso em: 23 jan. 2026.

ROSENDO, José. Emygdio Emiliano de Souza. Baseado em pesquisa de José Carlos Só. Disponível em: https://www.zwarg.com.br/itatinga8.html. Acesso em: 23 jan. 2026.

1 comentário


Douglas Fontes
Douglas Fontes
24 de jan.

Excelente texto e pesquisa. Parabéns! Os ilustres devem ser reconhecidos.

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© 2026 HISTORITA — História de Itanhaém 

por Gustavo C. da Mota

 

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