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Frei Venâncio Both

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
8 de ago.
16 min de leitura

Atualizado: 11 de ago.


Falar do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém envolve sempre falar, de uma forma ou de outra, da presença dos frades Franciscanos. E sempre o papo é: tinha os franciscanos, os freis...


Mas quem foram os freis? E até quando eles ficaram no Convento? Afinal, muita gente vai se lembrar das freiras no Convento, não de freis, o que indica que em algum momento os Franciscanos foram embora.


Hoje, o HISTORITA vem trazer parte desses detalhes. Vamos falar neste artigo de um nome que se perdeu da boca do povo há muitas décadas, mas que merece ser lembrado como um dos religiosos que fizeram diferença para a Itanhaém do século XX, cujas ações ressoam até os dias de hoje. Nosso homenageado neste artigo é um dos muitos que não nasceram em Itanhaém, mas que, enquanto aqui estiveram, foram muito itanhaenses.


Eu estou falando do último guardião franciscano do Convento, o Frei Venâncio Both, cuja vida memorável acabaria de maneira muito triste.


Gaúcho, tchê!


Benno João Both nasceu em Poço das Antas, Rio Grande do Sul, no dia 23 de junho de 1915. Ele foi o segundo filho de uma família tradicional de Três Arroios, o casal Reinaldo Pedro Both e Anna Emma Kuhn, que tiveram no total 13 filhos.


Sobre a infância de Benno, não pude encontrar nada em jornais. São poucas as referências de jornais da época, ainda mais em uma região tão pequena quanto era (e ainda é) Poço das Antas.


Entretanto, eu tenho uma suspeita que pode nos dar algumas dicas. O primeiro registro que temos a respeito de Benno é de 1933, quando ele tinha 18 anos e estava na cidade de Rodeio, no estado de Santa Catarina. No Convento Franciscano de lá, ele tomou o hábito da Ordem dos Frades Menores, dando início ali à sua jornada religiosa.


Depois há o registro de que em 1937 ele teria emitido seus votos permanentes, ou seja, a partir daquele momento, não havia mais volta: dedicaria toda a vida às causas de São Francisco e da Igreja Católica. Tornava-se então o frei Venâncio Both.


Já em 1939, no dia 26 de novembro, frei Venâncio esteve em Petrópolis, no Rio de Janeiro na sede franciscana, onde foi ordenado como sacerdote.


Acontecimento extraordinário, 3 dez 1939, (A Cruz - RJ)
Acontecimento extraordinário, 3 dez 1939, (A Cruz - RJ)
Acontecimento extraordinário, 3 dez 1939, (A Cruz - RJ)
Acontecimento extraordinário, 3 dez 1939, (A Cruz - RJ)

Um pequeno adendo: os Franciscanos no Convento de Itanhaém


Antes de seguirmos com nossa viagem biográfica, cabe aqui trazer um esclarecimento que vai ajudar a contextualizar a presença de frei Venâncio Both aqui na cidade.


É sabido que o Convento de N. Sa. da Conceição de Itanhaém foi morada de inúmeros freis Franciscanos desde o século XVII. Porém, por dois momentos no período desse ponto de partida até os dias atuais, há registro de que o Convento não esteve sob a tutela dos religiosos: o primeiro foi na década de 1840. Isso porque o terrível incêndio de março de 1833 deixou as condições de tocar a vida religiosa através do Convento cada vez piores, ao ponto de que os freis optaram por abandoná-lo enquanto templo.


Claro, o Convento teria sua Capela usada por outros vigários da Diocese durante os 100 anos da década de 1840 à de 1940, mas não por franciscanos. Além disso, seria mantido em boa parte pela Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, reiniciada na década de 1860 com figuras como João Mariano Soares, Zeferino Antônio Soares e Leopoldino Antônio de Araújo (os três restauradores do Convento nessa época, aliás), além do ter o apoio da comunidade, que muito estimava o templo secular.


Seria apenas em 1940 que os franciscanos voltariam a ser os guardiões do Convento, com a chegada de Frei Hilário Banse e Frei Getúlio Reimann.


Foi através dessa retomada que a história de Frei Venâncio Both com Itanhaém se iniciou, pois a Ordem dos Frades Menores enviou o recém-ordenado para a cidade em 3 de fevereiro de 1941, aos 25 anos. Junto a ele, posteriormente, viria o Frei Epifânio Dresch como seu coadjutor. O coadjutor não era ordenado padre, então era como um irmão leigo, que servia como um auxiliar direto do frei ordenado.


Uma missão primordial dada a Frei Venâncio era a de preparar os meios para que acontecesse uma nova restauração do Convento (a última grande reforma havia sido na década de 1920).


Com esse fim, Frei Venâncio passou a pesquisar a história do lugar. Esse interesse fez com que ele se encontrasse com a figura de Emídio de Souza, quem certamente ofereceu muitas informações a esse respeito ao Frei.


Em um de seus encontros, Emídio, já com avançada idade mas ainda com excelente memória, lembrou-se de uma lenda que ouviu falar desde quando criança pelos mais antigos: a de que os freis do passado enterraram imagens sacras para protegê-las de saques, atrás da Igreja Matriz de Santana. Aquilo deixou uma boa pulga atrás da orelha de Frei Venâncio, que resolveu investigar.


... e não é que a lenda era verdade?


Veja o que nos traz o pesquisador Rafael Schunk:


"Baseado neste indício, o religioso iniciou escavações desenterrando quatro santos franciscanos que se tornaram um dos mais importantes achados arqueológicos do litoral brasileiro na época: as imagens de São Francisco de Assis, Santa Clara, Santa Isabel e São Domingos, em terracota vermelha, trabalhos posteriormente atribuídos por Dom Clemente da Silva-Nigra ao Mestre de Angra."


E ainda:


"Ao averiguarem, as imagens encaixavam-se perfeitamente nos nichos de pedra ainda existentes nas ruínas do convento, esculturas provavelmente entronizadas pelos frades quando se instalaram no morro da ermida, coincidindo à época de ampliação dos anexos."


Fotos por Rafael Schunk (2010).
Fotos por Rafael Schunk (2010).

Espaços destinados a imagens do Mestre de Angra: Santa Clara, São Francisco de Assis, Santa Isabel ou São Domingos. Fotos Rafael Schunk (2010).
Espaços destinados a imagens do Mestre de Angra: Santa Clara, São Francisco de Assis, Santa Isabel ou São Domingos. Fotos Rafael Schunk (2010).

(Se quiser saber mais sobre o misterioso e anônimo Mestre de Angra, o criador das imagens no século XVII, eu recomendo a leitura da pesquisa completa de Rafael Schunk, a qual pode ser encontrada nas referências bibliográficas deste artigo. É um belíssimo trabalho acadêmico, e a parte de Itanhaém é baseada nas pesquisas do historiador José Carlos Só. )


Eu te convido a imaginar, cara leitora ou caro leitor, que essa descoberta rendeu ao Frei uma visibilidade considerável, e ele então resolveu fazer bom uso dela. Aproveitou o interesse renovado pelo Convento e sua história para iniciar uma campanha de arrecadação de valores para ajudar com os custos de uma boa reforma.


Em 1943, Frei Venâncio esteve em bastante atividade, gerenciando a festa de São Sebastião em Peruíbe, a Festa do Divino em Itanhaém, de São João Baptista em Peruíbe e da Nossa Senhora da Glória, no povoamento do Verde Mar, além da festa da Conceição.


23 jan 1943 (A Tribuna)
23 jan 1943 (A Tribuna)
6 jun 1943 (A Tribuna)
6 jun 1943 (A Tribuna)
14 ago 1943 (A Tribuna)
14 ago 1943 (A Tribuna)

Em 1944, ele participaria como vigário da paróquia da cerimônia de juramento à bandeira, representando um monsenhor. Isso era já marca de seu prestígio junto à sociedade e ao Poder Público.


18 jul 1944 (A Tribuna)
18 jul 1944 (A Tribuna)

No final desse ano, o nome de Frei Venâncio aparece como o vigário que fez o enterro de Jorge Rossmann. Isso reforça seu protagonismo na cidade, sendo o responsável pela cerimônia no sepultamento do chefe maior do Poder Executivo Municipal. E ele não tinha ainda nem 30 anos.


27 dez 1944 (A Tribuna)
27 dez 1944 (A Tribuna)

As primeiras fotos da coroa?


Para encerrar o ano de 1944, temos o registro de uma reportagem do jornal O Diário, falando sobre o Convento, e exibindo aquela que, segundo frei Venâncio, era a primeira fotografia tirada da coroa de N. Sa. da Conceição.


O sr. Pedro Pedreira, personagem do saudoso Francisco Milani, porém, diria a nós sua célebre frase: Há controvérsias!


Isso porque há uma fotografia no acervo de Benedito Calixto que exibe justamente a coroa. Mas como não sei se quem tirou a foto foi Calixto ou seu filho Sizenando, prefiro não afirmar nada, porque sua data é incerta.


Uma coisa é certa: essa é a primeira foto que nós dá a dimensão real do tamanho da coroa, com frei Venâncio tendo-a nas mãos. A fotografia de Calixto é isolada, e mesmo uma outra imagem bem conhecida da coroa, dos anos 1970 ou 1980, não serve muito bem para nos dar uma comparação de tamanho.


Frei Venäncio segurando a coroa da N. S. da Conceição, 30 nov 1944 (O Diário)
Frei Venäncio segurando a coroa da N. S. da Conceição, 30 nov 1944 (O Diário)

30 nov 1944 (O Diário)
30 nov 1944 (O Diário)
O altar-mor do Convento, 30 nov 1944 (O Diário)
O altar-mor do Convento, 30 nov 1944 (O Diário)

E se você está pensando agora: ah, mas essa imagem do Frei Venâncio está muito ruim, Historita! Eu digo: calma... é só deixar o tempo passar um pouquinho.


Digo isso, porque em 1945 o Convento recebeu a visita de repórteres da revista Brasilidade. E a reportagem que fizeram é tão interessante que faço questão de reproduzí-la na (quase) íntegra. Infelizmente, o começo dela não existe mais, pois as páginas em que estaria não fazem parte da edição digitalizada. E acredite, caro leitor ou cara leitora, eu procurei feito um desembestado nos arquivos, mas nada feito.


De todo modo, a parte da matéria que sobreviveu ao tempo é o mais interessante, pois traz uma narrativa memorável e se encerra com uma fotografia formidável. É de fato tão interessante, que eu faço questão que você faça essa viagem no tempo junto comigo, ouvindo o áudio abaixo.


Ouça o áudio original:



Não é incrível, cara leitora ou caro leitor, como uma revista preservada 80 anos atrás tem o poder de nos transportar àquele momento do tempo? Uma fotografia literária.


Eis o único instantâneo dessa matéria que ficou ainda registrado:


Frei Venâncio em 1945, na Revista Brasilidade
Frei Venâncio em 1945, na Revista Brasilidade

E por falar em tempo, sigamos: em 1946, além das festas mencionadas antes, temos a participação de Frei Venâncio na Festa de N. Sa. Do Livramento, no bairro do Rio Acima.


04 set 1946 (A Tribuna)
04 set 1946 (A Tribuna)

Em 23 de junho, mesma data de seu aniversário, o Frei fez a benção de quatro novos sinos que foram doados à Matriz por Ernesto Bertini. Será que são os mesmos sinos de hoje em dia?


23 jun 1946 (A Tribuna)
23 jun 1946 (A Tribuna)

Em 22 de junho de 1947, Frei Venâncio surge como parte das pessoas convidadas para a posse do novo prefeito, João Mariano Ferreira (sim, o da rua da Câmara hoje).


23 abr 1947 (A Tribuna)
23 abr 1947 (A Tribuna)

O ano seguinte, de 1948, teve Frei Venâncio e Frei Epifânio ainda tocando as festividades por toda Itanhaém e Peruíbe, mas no fim do ano ocorreu sua participação em Itariri, que na época ainda considerada parte de Itanhaém. Lá, em 7 de novembro, ele participou da organização da Festa de Nossa Senhora de Monte Serrate.


07 nov 1948 (A Tribuna)
07 nov 1948 (A Tribuna)

Ainda em 1948, as movimentações apra restauro do Convento ganharam corpo:


25 ago 1948 (Correio Paulistano)
25 ago 1948 (Correio Paulistano)

13 nov 1948 (Correio Paulistano)
13 nov 1948 (Correio Paulistano)

Em 1949, há este registro sobre a Festa do Divino Espírito Santo de Itanhaém que achei pertinente trazer, devido ao conjunto de nomes interessantes:


19 mai 1949 (A Tribuna)
19 mai 1949 (A Tribuna)

Também foi em 1949 que frei Venâncio recebeu mais a parte que faltava do dinheiro doado por uma mulher anônima de São Paulo para as obras da restauração do Convento, ocasião que foi registrada na montagem trazida pelo Diário da Noite:


18 jun 1949 (Diário da Noite)
18 jun 1949 (Diário da Noite)

O ano de 1949 também foi o ano do jubileu de prata da Diocese de Santos. Por isso, o bispo D. Idílio José Soares foi recebido em várias localidades do litoral para as celebrações. Frei Venâncio e Frei Epifânio o receberam em Itariri com grande festa, em 21 de agosto, ocasião em que D. Idílio visitou as construções da Igreja de N. Sa. de Monte Serrate.


21 ago 1949 (A Tribuna)
21 ago 1949 (A Tribuna)

Pouco tempo depois, em 25 de setembro, temos a nota de que Frei Venâncio havia abençoado o novo gerador elétrico de Itariri.


25 set 1949 (A Tribuna)
25 set 1949 (A Tribuna)

E nos dias 17 e 18 de dezembro, foi celebrada a festa da padroeira da cidade, e frei Venâncio estava lá organizando.


18 dez 1949 (A Tribuna)
18 dez 1949 (A Tribuna)

Entre celebrações religiosas e festas, mais registros foram surgindo, como o do Dia de São José em Itariri, e novamente a Festa do Divino em Itanhaém, o que nos faz pensar, cara leitora ou caro leitor, que ele era quase uma nova edição de um certo padre voador (Leonardo Nunes - o Abarebebê), pois vivia pra lá e pra cá em suas obrigações litúrgicas.


19 mar 1950 (A Tribuna)
19 mar 1950 (A Tribuna)
19 mai 1950 (A Tribuna)
19 mai 1950 (A Tribuna)

O último registro que temos de Frei Venâncio pelas terras itanhaenses é de 12 de setembro de 1951, com mais uma Festa de N. Sa. de Monte Serrate em Itariri. Aqui, ele é registrado como vigário da paróquia.


12 set 1951 (A Tribuna)
12 set 1951 (A Tribuna)

Em algum momento entre setembro de 1951 e 1952, Frei Venâncio recebeu uma nova missão: a de servir a população da cidade de Amparo, em SP, no então Convento Franciscano e Igreja de São Benedito.


s.d. , 1952 (Correio do Litoral)
s.d. , 1952 (Correio do Litoral)

Segundo a revista da Paróquia de São Benedito de Amparo, edição especial dos 100 anos, podemos pontuar essa mudança em algum momento de 1952. Sobre a reforma da igreja, a qual já veremos que Frei Venâncio ficou encumbido de organizar, a revista traz:


"Mas a grande reforma da igreja viria ocorrer em 1957, quando tinha como guardião Frei Venâncio Both (ele ficou em Amparo de 52 a 59)."


Essa mudança de Frei Venâncio pode ter a ver com a mudança de planos dos franciscanos para Itanhaém. Digo isso, pois em 1952 a prefeitura entrou em embate com a Ordem, porque julgavam que os franciscanos estavam querendo se apossar de terras públicas (do morro do Itaguaçu e do seu entorno). O resultado foi que em janeiro de 1953, os freis deixaram Itanhaém.


Um dos nossos pesquisadores favoritos aqui no Historita, Edison Telles de Azevedo, nos traz, a esse respeito da partida dos freis o seguinte em sua famosa coluna Itanhaen de Outrora, de 1959:


6 set 1959 (A Tribuna)
6 set 1959 (A Tribuna)

Mas mais que isso já é coisa para um próximo episódio do Historita...


Em Amparo... e o fim trágico


Bem, como eu disse, em fevereiro de 1952, Frei Venâncio chegou à cidade do interior paulista com a promessa de tocar por lá a organização da restauração da Igreja de São Benedito.


E assim foi. Em 1954, há o registro de que estava já ocorrendo a demolição interna como parte dos trabalhos, e em 1956, tudo indica que a obra estava próxima de chegar ao fim, pois novamente segundo a revista dos 100 anos da igreja de São Benedito de Amparo, há o registro de que o Frei abençoou os novos vitrais da igreja.


A mesma revista traz que, em 1957, Frei Venâncio levou à frente a discussão quanto às vestes dos frades, chegando a promover mudanças substanciais:


"Até o ano de 1957, os irmãos usavam o hábito franciscano, feito de lã marrom e sem o capuz, enquanto que as irmãs usavam roupa preta e, como distintivo, uma capinha curta de lã marrom. Em reunião do Discretório, em 13 de outubro de 1957, presidida pelo Padre Comissário e Guardião do Convento, Frei Venâncio Both, e com a presença dos irmãos Pedro Alves de Siqueira, Tereza Barbosa Cunha, Cristina Alves dos Santos, Benedita Moraes dos Santos e Zulmira Franco de Moraes, o padre comissário falou sobre a mudança do uso do hábito e da capinha, substituindo-os por uma fita marrom presa à medalha de São Francisco."


Por fim, em janeiro de 1959, Frei Venâncio foi chamado para ser o superior do Convento no qual tinha começado sua trajetória religiosa, na cidade de Rodeio, Santa Catarina. Partiu então de Amparo, com muito pesar, pois já havia se afeiçoado àquele povo.


Antes tivesse permanecido em Amparo...


Digo isso, cara leitora ou caro leitor, porque o que viria a acontecer pouco mais de três meses após a chegada de Frei Venâncio no Convento de Rodeio seria trágico, para dizer o mínimo.


No dia 17 de maio de 1959, um domingo, estavam Frei Venâncio e os outros freis do Convento no refeitório, almoçando após as celebrações matinais do Pentecostes, cerimônia que reflete sobre a descida do Espírito Santo de Deus sobre os Apóstolos de Jesus. O clima era alegre e amigável, ao ponto de Frei Venâncio pedir que fossem buscadas em seu quarto duas garrafas de vinho que haviam lhe sido presenteadas por um amigo frequentador da igreja na véspera.


Assim foi "Buda", um noviço auxiliar, buscar os frascos. Logo retornou com as bebidas, cujas garrafas ficaram ali bem próximas de seu prato. Uma delas, segundo o professor Nélson Dellagiustina, "tinha no rótulo os dizeres: 'Cerveja Faixa Azul', a rolha de cortiça já enegrecida e gasta, o aspecto um tanto velho da garrafa era de molde a lançar a suspeita sobre o conteúdo".


Um dos frades, Frei Eduardo, não demorou para cuspir a bebida, porque achou muito agressiva. Frei Venâncio deve ter achado graça da baixa tolerância do colega à bebida, e tratou de beber tudo do cálice e ainda repetiu a dose, até por julgar que poderia ajudar com os problemas do estômago que tinha.


Um terceiro Frei cheirou a bebida e achou estranha. Mais outros chegaram a beber algum golezinho apenas para experimentar a ruindade.


Pouco tempo depois, os vômitos começaram. Os que mais beberam, sofreram mais, com o caso de Frei Venâncio ter sido o único a tomar um copo cheio.


Em algumas horas, o estado dos freis se desenrolou da seguinte forma, novamente, segundo o professor Dellagiustina:


"Dois irmãos leigos, Frei Eduardo e Frei Inácio também tomaram um traguinho. As consequências foram funestas. Frei Venâncio sentiu-se muito mal, mas não aceitou as sugestões para ir ao hospital São Roque de Rodeio. Trouxeram-lhe da farmácia leite de magnésia e carvão vegetal como neutralizantes de um possível envenenamento. Entretanto, o quadro foi se agravando. À noite, pediu ao Frei Hugolino, mestre de noviços, que lhe aplicasse uma injeção, o que não resolveu e teve que ser internado às pressas, às nove horas da noite. Foi atendido prontamente pelo médico, com injeções antitóxicas e para o coração, tudo o que no momento foi possível fazer, não deixou de ser feito. A febre não cedera e lhe aplicaram também soro. O doente não dava grandes esperanças. Por volta das 8 horas da manhã, inesperadamente o doente melhorou e recuperou a serenidade e a calma. Pelas 10,30 horas teve nova recaída e seu estado piorou consideravelmente. Frei Olivério chegou a tempo de administrar-lhe os santos óleos e dar-lhe a absolvição sacramental e, aos cinco minutos para meio-dia, entregou sua alma a Deus".


"A morte foi, sem dúvida, por envenenamento."


"Frei Eduardo, que também havia ingerido a bebida, teve que ser internado, mas conseguiu sobreviver, assim como Frei Inácio. O povo de Rodeio acompanhou com visível interesse e emoção o triste desenrolar desses acontecimentos. Às quatro horas da tarde seu corpo foi exposto e velado na Igreja Matriz de Rodeio, com contínuas visitas por parte de paroquianos e amigos confrades. Após a missa solene de “Requiem”, celebrada no dia 19 de maio de 1959, com numerosíssimo acompanhamento do povo, foi sepultado no cemitério dos religiosos franciscanos no lado da gruta. Antes que o caixão baixasse à sepultura, o Sr. Érico Moser, em nome do povo rodeense, proferiu, sinceramente comovido, umas breves palavras de gratidão e despedida ao saudoso Vigário de Rodeio. Hoje, seus restos mortais jazem na cripta do convento dos franciscanos em Rodeio."


Pelo que pude averiguar, as apurações sobre o que poderia ter acontecido foram bem conclusivas. Aparentemente, o frei anterior a Frei Venâncio, que ocupara o quarto antes de sua chegada, guardava em seu armário uma garrafa com álcool e pentaclorofenol, um veneno contra cupins poderoso e altamente tóxico, usado para proteger madeira.


Quando o noviço levou a garrafa para o Frei, Venâncio provavelmente deve ter dito que não era aquela uma das garrafas de vinho, mas julgou que fosse mesmo cerveja, tanto pelo rótulo, quanto pelo cheiro de álcool. Então, bebeu e serviu aos irmãos.


Seu atestado de óbito, com o declarante sendo frei Hugolino Becker, marca sua morte como morte acidental, aos 43 anos, ao meio-dia do dia 18 de maio de 1959.


Sua morte foi sentida por muita gente, mesmo em Amparo:


29 mai 1959 (A Tribuna)
29 mai 1959 (A Tribuna)

Em Itanhaém, a informação chegou meio torta, já que Frei Venâncio não faleceu em Amparo; mas sua morte também foi sentida:


2 jun 1959 (A Tribuna)
2 jun 1959 (A Tribuna)

E eis aqui notícias mais próximas da data da morte, que trazem os detalhes que mencionei um pouco acima:


23 mai 1959 (A Nação - jornal de Blumenau)
23 mai 1959 (A Nação - jornal de Blumenau)

No mesmo dia, o jornal Cidade de Blumenau trouxe a matéria:


23 mai 1959 (Cidade de Blumenau)
23 mai 1959 (Cidade de Blumenau)

Como uma pequena e última observação, é interessante de ver como as informações se cruzaram e se transmitiram um tanto erradas em vários dos casos dos jornais analisados. O texto que o HISTORITA traz aqui, entretanto, tem as datas e informações confirmadas por documentos como o próprio atestado de óbito de Frei Venâncio, e são as mais acertadas até que alguma nova pesquisa elucide melhor detalhes que possam ainda estar obscuros (como a infância e adolescência do frei, e também o motivo dele ter falado que nasceu em Monte Negro, em vez de Poço das Antas, para os repórteres da revista Brasilidade).


As mãos de Frei Venâncio


Há uma fotografia, cara leitora ou caro leitor, que eu guardo com carinho especial entre tudo que descobri nessa pesquisa, e que foi o estopim para que eu pesquisasse a sua vida: a foto de Frei Venâncio segurando, com as próprias mãos, a coroa de Nossa Senhora da Conceição.


É uma imagem simples: não há pose, não há grandiosidade. Apenas um jovem frade, de pouco mais de 25 anos, segurando com cuidado um símbolo sagrado que atravessava séculos (assim como ele próprio, sem saber, atravessaria a história de Itanhaém!).


Talvez seja muita viagem minha, mas veja se concorda. Dá para pensarmos nessa imagem como um retrato do que foi a vida inteira de Frei Venâncio: mãos que seguravam com reverência aquilo que lhe fora confiado. Mãos que abençoaram sinos, que restauraram vitrais, que resgataram imagens sacras enterradas havia um século, que serviram um povo inteiro, cidade após cidade, festa após festa.


E é doloroso pensar que essas mesmas mãos, tantas vezes erguidas em bênção, um dia seguraram sem saber um cálice que carregava não vinho, mas a própria morte.


Os finais das nossas histórias aqui sempre doem para escrever, mas o caso de Frei Venâncio dói um pouquinho mais que o normal para mim. Porque depois de acompanhar, registro após registro, os passos de um homem que dedicou sua vida inteira a servir os outros, é cruel constatar que ele partiu de um jeito tão silencioso, tão sem sentido, tão distante da grandeza que ele próprio construiu em vida.


Mas prefiro guardar dele a primeira imagem, não a última. Prefiro lembrar das mãos que sustentavam a coroa, e não das que sofreram o veneno. Porque é assim, cara leitora ou caro leitor, que a memória deveria funcionar, na modesta opinião do HISTORITA: escolhendo guardar o fim de uma vida, claro, pois é parte do viver, mas principalmente o que essa vida ergueu, resgatou e abençoou enquanto pôde.


Obrigado, Frei Venâncio Both!


Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Agradecimentos:

Prof. Nélson Dellagiustina (autor de artigo sobre o Breve histórico dos párocos da Paróquia São Francisco de Assis de Rodeio - 12o. Pároco: Frei Venâncio Both) Frei Lauro Both, sobrinho de Frei Venâncio, que ofereceu informações importantes sobre o tio, além de imagens de seu acervo. Noviciado Franciscano São José - Rodeio - SC Leilane, da Paróquia São Francisco de Assis de Rodeio.


Referências: A CRUZ. Rio de Janeiro, 3 dez. 1939.

A NAÇÃO. Blumenau, 23 mai. 1959.

A TRIBUNA. Santos, 23 jan. 1943.

A TRIBUNA. Santos, 6 jun. 1943.

A TRIBUNA. Santos, 14 ago. 1943.

A TRIBUNA. Santos, 18 jul. 1944.

A TRIBUNA. Santos, 27 dez. 1944.

A TRIBUNA. Santos, 23 jun. 1946.

A TRIBUNA. Santos, 4 set. 1946.

A TRIBUNA. Santos, 23 abr. 1947.

A TRIBUNA. Santos, 7 nov. 1948.

A TRIBUNA. Santos, 19 mai. 1949.

A TRIBUNA. Santos, 21 ago. 1949.

A TRIBUNA. Santos, 25 set. 1949.

A TRIBUNA. Santos, 18 dez. 1949.

A TRIBUNA. Santos, 19 mar. 1950.

A TRIBUNA. Santos, 19 mai. 1950.

A TRIBUNA. Santos, 12 set. 1951.

A TRIBUNA. Santos, 29 mai. 1959.

A TRIBUNA. Santos, 2 jun. 1959.

AZEVEDO, Edison Telles de. Itanhaen de Outrora. A Tribuna, Santos, 6 set. 1959.

CIDADE DE BLUMENAU. Blumenau, 23 mai. 1959.

CORREIO DO LITORAL. [S.l.], [19--?].

CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 25 ago. 1948.

CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 13 nov. 1948.

DELLAGIUSTINA, Nélson. [Breve histórico dos párocos da Paróquia São Francisco de Assis de Rodeio - 12o. Pároco: Frei Venâncio Both - ano da publicação não identificado].

DIÁRIO DA NOITE. São Paulo, 18 jun. 1949.

O DIÁRIO. [S.l.], 30 nov. 1944.

PARÓQUIA DE SÃO BENEDITO DE AMPARO. Revista comemorativa dos 100 anos. Amparo, [19--].

REVISTA BRASILIDADE. [S.l.], 1945.

SCHUNK, Rafael. [Título da pesquisa sobre o Mestre de Angra — dados completos disponíveis nas referências bibliográficas do artigo original].

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