Festa do Divino de Itanhaém através dos anos (parte 1)


Se o mês de abril em Itanhaém é recheado de celebrações pelo aniversário da cidade, o mês de maio traz os festejos da Festa do Divino de Itanhaém. Ainda não temos um artigo aqui explicando os pormenores da Festa, e vamos até o fim do mês de maio trazer algumas postagens da celebração através dos anos.
Afinal, se você está aqui lendo o HISTORITA, é porque quer saber da História! As pesquisas vão trazer os registros de jornal, como de costume, porque servem bem pra pontuar quando as coisas aconteceram - em especial, festas!
Então, vamos lá.
O registro de jornal mais antigo - 1866
Começaremos com uma que é do "arco da velha". Pra situar o leitor ou leitora, pense assim: no ano de 1866, o Brasil estava envolvido até o pescoço na Guerra do Paraguai, o Imperador D. Pedro II ainda governava e a escravidão só seria abolida dali a 22 anos. Isso é para dar uma ideia do quão antigo estamos falando dessa vez.
Nesse ano, a Festa do Divino aconteceu da seguinte forma, segundo o periódico Revista Comercial, de 24 de maio:

É possível perceber que nesse ano se fez o sorteio para festeiro, quando diz "teve lugar a sorte". Assim ficou o sr. Antonio de Boaventura Rita escolhido para a festa do ano seguinte.
Eu acho interessante esse caráter do sorteio dos festeiros. Isso demonstra que a Festa do Divino deveria acontecer, feita pela comunidade, ou seja, independente das vontades da comunidade. Não é uma questão apenas de vontade, mas sim de a tradição precisar ser seguida, e de a Providência escolher quem deveria ficar responsável pela festa em seus fardos de bancá-la através desse sorteio.
Essa tradição compartilhada é responsável, acredito eu, para que ela seja tão antiga e siga oferecendo pertencimento e união aos fiéis através dos séculos. Muito bonito.
Para mim, aqui no HISTORITA, a tradição ainda é uma novidade. Participei de algumas partes já, e estou aprendendo - por isso peço humildemente a quem quiser corrigir qualquer abobrinha que eu diga aqui que por favor corrija mesmo. É só entrar em contato.

No ano seguinte, em 1867, o mesmo jornal traz os detalhes da Festa do Divino. Aparentemente, ela foi um pouco mais extensa que no ano anterior, veja:

Os detalhes que podemos averiguar:
O nome do padre da época era Scipião;
Sorteado para Imperador: Zeferino Antonio Soares, o tio de Benedito Calixto. O HISTORITA ainda está devendo um artigo sobre ele;
Houve soirées. Sabe o que são soirées? Ora, pois são saraus, com recitação de poemas, música, danças de salão, jogos de cartas e dominó, debates políticos.
Agora vamos avançar no tempo...
Calixto na Festa do Divino - 1906
Quarenta anos depois do primeiro registro em jornal aqui encontrado, temos este lindo registro no jornal Diário de Santos de 7 de junho de 1906, que vem carregado de detalhes. Veja só:

Alguns detalhes:
O Sr. Mendes mencionado aqui não é Totó Mendes, mas sim seu pai, o Capitão Mendes, que foi um dos primeiros professores da cidade e que regia a banda do Divino, além de dar aulas de música aos itanhaenses. Ainda teremos um artigo sobre ele;
A missa foi celebrada pelo padre Hygino de Campos;
Benedito Calixto teve participação bastante ativa, sendo reportado aqui como o diretor dos festejos, e sobre ele podemos ler a frase "incansável sempre em tudo quanto diz respeito à sua terra natal". Essa frase é importante, porque eu já ouvi de algumas pessoas que Calixto "não gostava de Itanhaém", "tinha vergonha de Itanhaém", "quase não vinha para Itanhaém". Ora, em minhas pesquisas eu encontro apenas o contrário. Basta ler o livro A Vila de Itanhaém, de sua autoria, pra ver o carinho dele pela terra em que nasceu. E não acho que alguém que não gostava de sua terra sairia por aí expondo lindas pinturas dela. Mas enfim, voltando ao Divino;
Foi feito leilão de prendas, que era muito comum nas festas santas do começo do século XX. Essa prática podia voltar, né? Seria divertida;
Houve baile na casa de João Mariano Soares, a chamada Casa Grande, que tinha esse nome porque era grande mesmo, não por ser de um senhor de terras (como na época da escravidão). A casa ficava próxima de onde hoje é a sede da Prefeitura. Se você quer saber mais sobre esse outro tio de Benedito Calixto, irmão de Zeferino Soares, o João Mariano que dá nome à rua do Correio no Centro, basta ler o artigo exclusivo do HISTORITA sobre João Mariano bem aqui.;
Mesmo em uma época em que não havia transporte fácil, sequer estrada, havia muita gente que visitava a Conceição de Itanhaém vinda de Santos e da Ilha de Santo Amaro (hoje Guarujá). Isso mostra como era forte o apelo da Festa do Divino de Itanhaém, mesmo em 1906!
Interessante, não? Pois é... na parte 2, continuaremos nossa viagem pelo tempo, vendo outras notícias da Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém.
Até já!
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo "Caperutto" da.
Fontes utilizadas:
REVISTA COMERCIAL. Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém. Santos, 24 mai. 1866.
REVISTA COMERCIAL. Festa do Divino Espírito Santo de Itanhaém. Santos, 20 jun. 1867.
DIÁRIO DE SANTOS. Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém. Santos, 7 jun. 1906.
CALIXTO, Benedito. A Vila de Itanhaém. 2. ed. Itanhaém: Noz Editoria, 2025.




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