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João Baptista Leal

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
4 de mar.
16 min de leitura

Atualizado: 16 de mar.


Não, não é a Avenida João Baptista Leal... Bem, é o homem que deu origem ao nome da avenida tão movimentada! E quem será que foi João Baptista Leal? Como todo itanhaense nascido no século XIX, João Baptista Leal tem informações um tanto mais escassas do que o pessoal do século XX, mas o HISTORITA vem hoje trazendo o máximo que pôde encontrar a respeito dele. Afinal, sua figura é primordial para a história da Conceição de Itanhaém.


Leal aos estudos


João Baptista Leal nasceu em Conceição de Itanhaém, em 18 de junho de 1866, filho de Benedicto José Leal e Anna do Espírito Santo Baptista Leal. Usemos o nosso bom "índice Calixto" para ter uma posição quanto ao tempo em que João Baptista viveu: quando ele nasceu, Calixto tinha 13 anos, então decerto não foi presente na infância de João.


E como teria sido sua infância? É fato que o menino João Baptista estudou por pelo menos oito anos na escola do professor Joaquim Mariano de Meira. No registro de alunos de sua escola, de 1879, o mestre Meira declara as seguintes informações:


Livro de matrículas da escola de Joaquim Mariano de Meira - jan de 1879 (APESP)
Livro de matrículas da escola de Joaquim Mariano de Meira - jan de 1879 (APESP)

Você pode clicar ou tocar na imagem para que ela aumente e possa dar zoom nela, mas para os que sofrem das intempéries oculares como eu, vou transcrever:


1. João Baptista Leal / Filiação: Benedicto José Leal / Moradia: Com seu pai / Naturalidade: Itanhaém / Nacionalidade: Brasileiro / Idade: 13 anos / Matrícula: 6 de setembro de 1871 / Aprende há oito anos.


2. Antonio Augusto Leal / (informações sobre filiação, moradia, naturalidade e nacionalidade idem às de cima) / Idade: 11 anos / Matrícula: 9 de janeiro de 1873 / Aprende há 6 anos.


Com isso, vemos que João Baptista começou a estudar com 5 anos de idade. É quase o equivalente a viver todo o tempo do Ensino Infantil e Ensino Fundamental de hoje em dia. Não é de se espantar que ele tenha se formado com tanto conhecimento, que o levaria a postos interessantes na vila e posteriormente na cidade.


Outra curiosidade é perceber que João Baptista estudava na mesma turma que o irmão dois anos mais novo, Antonio Augusto, que também frequentava a escola desde os 5 anos.


E mais uma curiosidade: em outra turma do mesmo professor e ano, é possível encontrarmos a matrícula de Emídio Emiliano de Souza (com 12 ou 13 anos na época). Com isso, não é incabível pensar que João Baptista e Emídio tenham brincado juntos pelo areião da Itanhaém primordial em algum momento.


A figura do professor Joaquim Mariano de Meira ainda valerá um artigo próprio só dele, graças a um arquivo interessantíssimo (e divertido) que descobri. Por enquanto, fiquemos com sua assinatura no fim do livro:


Assinatura do professor Joaquim Mariano de Meira - 31 dez 1879 (APESP)
Assinatura do professor Joaquim Mariano de Meira - 31 dez 1879 (APESP)

Em 1888, o jovem João Baptista Leal esteve na cerimônia de fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense, ao lado de figuras como Izaías Cândido Soares, Benedicto Calixto, Henrique da Cunha Moreira e tantos outros.


Dois anos depois, em 28 de junho de 1890, aos 24 anos, João Baptista se casa com Maria Nazaré Ferreira Leal (de 18 anos), na Igreja Matriz de Itanhaém. A neta de João Baptista, também apaixonada pela história, Maria Tereza Leal Diz, a Teté, confidenciou ao HISTORITA o seguinte:


"Tiveram doze filhos! Sendo que, seis deles faleceram ainda crianças. (...) Os seis filhos que 'vingaram' foram: Dalila, Nestor (30/06/1894), Benedito (18/06/1906), Nerval (10/07/1908), Adhemar (06/08/1910) e Maria Pureza (03/10/1917)."



Leal na política


Em 1891, João Baptista Leal entraria como vereador da Câmara Municipal de Itanhaém, mas devido à nova Constituição da República que sairia em fevereiro, ainda em janeiro as Câmaras Municipais foram dissolvidas, como se pode observar neste trecho do periódico Commercio de São Paulo daquele ano:


Dissolução das Câmaras Municipais - 23 jan 1891 (O Commercio de São Paulo)
Dissolução das Câmaras Municipais - 23 jan 1891 (O Commercio de São Paulo)

Em 1893, saiu no mesmo jornal a seguinte nota:


João Baptista Subdelegado - 3 fev 1893 (Commercio de São Paulo)
João Baptista Subdelegado - 3 fev 1893 (Commercio de São Paulo)

A partir dela, podemos compreender o cargo que João Baptista exercia em sua juventude, o de subdelegado de Itanhaém, que era basicamente a autoridade policial maior na vila. Não se sabe por quanto tempo ele foi subdelegado, mas é razoável pensar que tenha sido por ao menos um ano, visto estar pedindo exoneração no começo de 1893.


Essa década é um tanto nebulosa quanto a registros, mas é possível confirmar que em 1905 João Baptista Leal foi Presidente da mesa eleitoral para a eleição de deputados estaduais daquele ano, então já era notável um envolvimento com a política. O jornal que veremos ao final deste artigo diz que ele teria sido em algum momento Intendente Municipal de Itanhaém, mas não encontrei registros em documentos que pudessem comprovar isso - não por não ser verdade, mas sim pela escassez de documentos dessa década.


Após esse registro, nossa viagem historiográfica nos leva a 17 de janeiro de 1908. Aqui, temos a confirmação de que João Baptista Leal não só conseguiu ser eleito como parte do governo itanhaense, como foi declarado chefe do Executivo, ou seja, o primeiro prefeito de Itanhaém!


João Baptista Leal empossado Prefeito - 28 jan 1908 (Correio Paulistano)
João Baptista Leal empossado Prefeito - 28 jan 1908 (Correio Paulistano)

Em 1912, há um edital publicado por João Baptista no jornal A Tribuna, o qual transcrevo:


"EDITAIS


Conceição de Itanhaém


Concessão de terrenos


João Baptista Leal, prefeito municipal da Câmara Municipal da Conceição de Itanhaém, neste Estado de S. Paulo,


Faz saber a todos quantos o conhecimento deste possa interessar, que constando à Câmara Municipal desta vila, que pessoas que obtiveram terrenos desta municipalidade, por carta de data, tem feito vendas dos mesmos, e, sendo ilícitas tais vendas, sem que os concessionários dos terrenos tenham cumprido as disposições municipais, que obriga-os a construir dentro do prazo de dois anos, sem o que não existe a propriedade real, em sessão de 11 do corrente, resolveu a câmara interpor publicamente o seu protesto contra tais vendas que são nulas, a fim de evitar dúvidas futuras.


Itanhaém, 13 de Maio de 1912.


O prefeito municipal, João Baptista Leal."


Em outras palavras, o prefeito foi alertado das vendas de terrenos que a prefeitura havia cedido a cidadãos e cobrou a construção no terreno vazio em até dois anos, para validar as propriedades. E indicou que todas as vendas eram nulas, sem valor.


Imagino que deva ter feito alguns inimigos com a medida... Mas foi justo.


É importante frisar que isso comprova que João Baptista seguia como prefeito em 1912, diferente do que se tinha registrado na seção de Cronologia Política do site da Prefeitura. No site, era exibido que ele havia sido prefeito apenas por 3 anos (1908-1911).


Em 4 de setembro de 1913, uma nota no Correio Paulistano mostra um ofício enviado pelo Diretório do Partido Republicano de Itanhaém à Comissão Diretora, onde podemos ver as assinaturas de Antonio Mendes da Silva e João Baptista Leal:


Ofício do Diretório do PR - 4 set 1913 (Correio Paulistano)
Ofício do Diretório do PR - 4 set 1913 (Correio Paulistano)

Em 1914, João Baptista Leal foi eleito Presidente da Câmara:


Câmara Municipal em 1914. 25 jan 1914 (Correio Paulistano)
Câmara Municipal em 1914. 25 jan 1914 (Correio Paulistano)

A propósito, que Câmara épica, hein? Só nomes de peso!


Nesse mesmo ano, há o registro de uma viagem que João Baptista fez a São Vicente. Esses registros seriam recorrentes com os anos, e as companhias que levava consigo (vereadores e ex-vereadores) podem comprovar que ele com frequência ia tratar de assuntos políticos, mas isso é só especulação por parte do HISTORITA.


Veja este exemplo do jornal A Notícia, de São Vicente:


Viagem a S. Vicente. 18 nov 1914 (A Notícia)
Viagem a S. Vicente. 18 nov 1914 (A Notícia)

Em minha pesquisa nos jornais, encontrei um detalhezinho no dia 10 de fevereiro de 1915, e esse detalhe acabou trazendo outras informações interessantes. A primeira é que há o registro do aniversário de Dalila, filha de João Baptista Leal, confirmado como 3 de fevereiro (por isso considera-se notícia "retardada", ou seja, atrasada). Mas junto dessa nota, há várias outras que valem a sua leitura. veja só:


Itanhaém em 1915. 10 fev 1915 (Correio Paulistano)
Itanhaém em 1915. 10 fev 1915 (Correio Paulistano)

Em 10 de outubro de 1915, João Baptista Leal esteve presente na comitiva que foi receber o Secretário da Agricultura quando este veio para Itanhaém. Por ser um tanto longo, preferi transcrevê-lo a colocar aqui o print do jornal Correio Paulistano.


"A excursão do sr. secretário da Agricultura

VISITA A ITANHAÉM


(Do correspondente, em data de 7):

Em trem especial da "Southern S. Paulo Railway", chegou ontem, às 10 horas, a esta cidade, o sr. dr. Paulo de Moraes Barros, secretário da Agricultura, que há 15 dias se acha em excursão pelo sul e pelo litoral do Estado.

Nessa longa viagem, S. Exa. teve ocasião de conhecer as zonas de Fartura e Itaporanga, a mina de ouro do Apiaí, as grutas calcárias do Ribeira, a colonização oficial de Pariquera-Assú e Jacupiranga e a particular dos japoneses, bem como toda a zona percorrida pela estrada de ferro "Southern S. Paulo Railway".

De Prainha para esta localidade, acompanhou S. Exa. e sua comitiva, o Sr. Coronel Diogo Martins Ribeiro, Dr. P. V. Landell, Dr. Persio de Queiroz e Isidoro Leite, aos quais se incorporaram, em Itariri, os srs. Antonio Mendes da Silva, pelo diretório político, e Francisco Simões de Carvalho, coronel Geraldo Leite da Fonseca, pela nossa Câmara Municipal, bem como os srs. Benjamin Leite, José de Silva Novita e Marcello Marietto.

À chegada do trem a esta cidade, a banda de música itanhaense executou o hino nacional, após o que foram os ilustres excursionistas entusiasticamente aclamados pelos alunos das escolas locais.

Depois, foi o sr. secretário da Agricultura saudado pelo professor Humberto de Sousa Leal, que pronunciou o seguinte discurso:


"Permiti, sr. secretário, que, em nome da população desta cidade, eu vos apresente as boas-vindas. Felizes nos julgamos hoje, exmo., pela honra que nos dá, visitando Itanhaém.

Era justo que, depois de percorrerdes tantas e tantas léguas pelo solo paulista, não deixásseis de vir a esta localidade, que, embora perdida num recanto do glorioso Estado de S. Paulo, muito se envaidece com uma visita muito honrosa.

Viestes encontrar aqui o que há de mais sagrado para os brasileiros: apertado entre as serras altaneiras e o majestoso Atlântico, vive há mais de 4 séculos este pedaço lendário da nossa pátria, como uma página gloriosa da nossa história.

Tudo aqui nos fala da aurora do Brasil querido. Tudo evoca os traços sagrados para inspirar, com as monumentais relíquias ainda existentes, o que foram os primeiros passos da terra de Santa Cruz.

E, sem falar de muitas e muitas relíquias, sagradas para os brasileiros, aí está o convento dos antigos frades, obra sólida, eterna, que bem evidencia hoje a perseverança, a tenacidade, o grande amor ao trabalho, principais características dos nossos antepassados. Essa obra gigantesca está no alto de um outeiro como para projetar sobre todos os recantos do país uma lição sublime da história pátria.

Itanhaém é, em tudo, uma terra tradicional. Seus filhos são tradicionalmente patriotas e, como patriotas ardorosos, é que se ufanam com a visita de um alto representante do nosso governo, como sois vós, exmo. Sr.

Não estranheis, portanto, que aqui se encontrem, à vossa chegada, os representantes de todas as classes sociais.

Todos, todos os filhos de Itanhaém, desde as mais altas autoridades até o operário mais humilde, todos querem trazer-vos, a vós e à vossa ilustrada comitiva, as mais efusivas saudações. Sede, pois, bem-vindos. Nós vos saudamos!"


Compareceram à estação, entre muitas pessoas, cujos nomes nos escaparam, os srs. João Baptista Leal e Antonio Mendes Junior, respectivamente presidente e prefeito da Camara Municipal; Zeferino Soares, vereador; Emygdio de Souza, secretario da Camara; Humberto de Araujo, delegado; Benedicto Pereira, Francisco Manoel dos Santos, Affonso Meira Junior, Benedicto Ferreira, Benedicto F. Junior, Antonio Sobral, Carlos Meira, Cícero Ferreira, Antonio J. dos Santos, João Theodoro, Antonio Jeremias, Pergentino dos Santos, Cyro Soares, alunos das quatro escolas e respectivos professores.

Momentos depois, o sr. dr. Paulo de Moraes Barros e comitiva, acompanhados pelo povo que afluíra à sua chegada, seguiram para o Hotel Toscano, nas proximidades do porto, onde a Câmara Municipal lhe ofereceu um opíparo almoço.

À mesa, na forma de I, sentaram-se pela ordem, os srs. dr. Paulo de Moraes, secretário da Agricultura; João Baptista Leal, Mendes Junior, presidente e prefeito da Câmara Municipal; a comitiva do sr. secretario, que se compunha dos srs. dr. Alfredo Braga, diretor das Obras Públicas; dr. Theophilo de Souza, diretor da Viação; o poeta Nuto Sant'Anna, representante do "Correio Paulistano"; coronel Antonio Araujo Cintra, diretor de Terras e Colonização; fotógrafo Stanzioni, técnico da Casa Stolze; e os srs. capitão Antonio Mendes da Silva, Francisco Simões de Carvalho, professor Humberto de Sousa Leal, Zeferino Soares, Humberto Araujo e João Martins.

Ao champanhe, orou o Sr. Antonio Mendes Junior, prefeito municipal, nos seguintes termos:


"Muito embora longe de nós a ideia de se quebrar o aspecto modesto desta reunião, cabe-nos, entretanto, na qualidade de representantes do município de Itanhaém, o dever de manifestar o contentamento que acabamos de sentir com a honrosa visita de v. exa. a esta vila. É curta demais esta visita. Muito mais desvanecidos ficaríamos se nos fosse dada a ventura de, em companhia de v. exa., percorrer, com vagar, todos os recantos do município, estimulando com a sua presença o movimento de que se opera, que se alastra em cada paragem.

Esse movimento, que é a semente da prosperidade, e que forçosamente há de produzir os seus benéficos resultados, muito espera e necessita das salutares visitas de v. exa., do amparo indispensável que a sua administração inteligente e fecunda tem sabido prestar ao elemento que labuta com afinco pela grandeza, pela prosperidade do Estado de S. Paulo!

Queira, pois, v. exa. aceitar o reconhecimento da Câmara Municipal, a solidariedade dedicada do diretório republicano e a gratidão deste povo que, desde hoje, deixando com prazer os seus labores para assistir à chegada de v. exa., quis patentear mais uma vez a veneração que lhe consagra.

Bebamos, senhores, à felicidade pessoal do ilustre sr. dr. secretário da Agricultura. A s.exa. esta homenagem modesta, mas de coração, que s. exa. a sentirá com a democracia que lhe caracteriza e que, de tradição, é a norma plausível dos Moraes Barros!"


O sr. secretário da Agricultura, em um brilhante improviso, agradeceu em seu nome e em nome de sua comitiva as manifestações de que tinha sido alvo.

Disse s. exa. que não há muito tempo estivera em Itanhaém. Nessa ocasião, não existiam ainda essas avenidas magníficas que hoje embelezam a nossa vila e que vieram substituir os trilhos apertados. Com a inauguração da estrada de ferro, Itanhaém entrou numa nova fase, descortinando-se-lhe novos horizontes. Que estes horizontes, que esta fase de progresso se dilatem, são os votos de s. exa. Tudo para s. exa. agora é novo, nesta localidade, que se está desenvolvendo rapidamente. Por isso, esperava que a população de Itanhaém, aproveitando-se dos esplêndidos elementos naturais de que dispõe, continuasse a trabalhar pela sua prosperidade.

De fato, s. exa. se mostrou muito bem impressionado com o progresso que notara em Itanhaém. Em palestra, prometeu, em outra ocasião, passar mais tempo nesta cidade, em companhia de sua exma. família.

Após o almoço, foram oferecidos charutos a todas as pessoas, as quais seguiram logo depois para a praia. Aí estavam os automóveis.

E o sr. dr. Paulo de Moraes Barros, abraçando a todos, despediu-se, dizendo, muito sensibilizado: "Itanhaém é tão pitoresca e os senhores nos tratam tão bem a gente, que dá pena sair daqui."

Dali a momentos, os automóveis sumiram ao longo da praia que, em uma reta belíssima, se estende até S. Vicente."


Leal no social


Em 1916, João Baptista Leal foi o mais votado para o cargo de Juiz de Paz, com 133 votos, o que demonstra pra nós o carinho que a população tinha por ele. No mesmo ano, temos uma notícia sobre seu filho Nestor, que já tinha 22 anos:


Nestor muda-se para Santos, 3 mai 1916 (Correio Paulistano)
Nestor muda-se para Santos, 3 mai 1916 (Correio Paulistano)

Ele também precisou ajudar a escola do professor Antonio Mendes da Silva, devido à sua licença-prêmio de 1 ano, então entrou como professor substituto da chamada primeira escola masculina de Itanhaém, que ficava no centro, e era a mesma do prof. Joaquim Mariano Ferreira.


João Baptista Leal como professor substituto, 8 ago 1916 (Correio Paulistano)
João Baptista Leal como professor substituto, 8 ago 1916 (Correio Paulistano)

E em 17 de novembro ainda desse ano de 1916, saiu a notícia:


Criação de Coletoria em Itanhaém, 17 nov 1916 (Correio Paulistano)
Criação de Coletoria em Itanhaém, 17 nov 1916 (Correio Paulistano)

E logo em seguida:


João Baptista Leal nomeado Coletor Estadual, 17 nov 1916 (Correio Paulistano)
João Baptista Leal nomeado Coletor Estadual, 17 nov 1916 (Correio Paulistano)

Pois é, a partir dessa data, João Baptista Leal foi o primeiro Coletor Estadual da cidade de Itanhaém. Para saber onde ficava a antiga Coletoria e o que existe lá hoje, veja o excelente artigo de João Tadeu sobre a Praça Carlos Botelho.


Mas vamos a 1917. Aqui, há na Tribuna um registro bastante interessante sobre a Festa do Divino daquele ano. Com relação às celebrações e missas, lê-se:


"No coro, sob a direção do sr. capitão Antonio Mendes da Silva, prestam seu concurso a orquestra local e os cantores Maria Baptista dos Santos, Dalila Leal e João Baptista Leal."


Em 28 de agosto de 1918, há no Diário de Santos a notícia de que João Baptista Leal contratou junto à Prefeitura o aumento do cemitério, cujo valor do projeto era maior do que as despesas do ano anterior inteiro em 100.000 réis. Devem haver registros dessa obra, que decerto foi bastante grande, mas o HISTORITA não os tem.


Em 1919, foi candidato a Juiz de Paz mais uma vez, sendo reeleito. É dessa época um monte de registros civis em que aparece o nome de João Baptista Leal, justamente porque era ele quem assinava os casamentos e outras questões legais.


Em 19 de janeiro de 1921, ele surge em um registro como presidente do Gabinete de Leitura Itanhaense, agradecendo pelo envio periódico do jornal Gazeta do Povo à cidade para ficar em exposição lá para a leitura de quem se interessasse.


Agradecimento pelo envio do Gazeta Popular, 19 jan 1921 (Gazeta Popular)
Agradecimento pelo envio do Gazeta Popular, 19 jan 1921 (Gazeta Popular)
Resultado de Assembleia do Gabinete de Leitura Itanhaense, 22 jan 1921 (Gazeta Popular)
Resultado de Assembleia do Gabinete de Leitura Itanhaense, 22 jan 1921 (Gazeta Popular)

Em 1922, há alguns registros de João Baptista Leal participando ativamente de comissões para a festa de Nossa Senhora da Conceição e para a celebração do 1o. Centenário da Independência em Itanhaém. Também há registro na Tribuna de que ele adoeceu nesse ano, chegando a ficar acamado, mas se recuperou bem. Não é mencionado na nota o problema de saúde. Ele tinha 56 anos à época.


Ainda em 1922, foi reeleito mais uma vez como Juiz de Paz. O homem era querido e influente, é de se notar.


Em 1923, os diretores da Southern S. Paulo Railway resolveram promover a linha do trem com excursões para jornalistas. Em virtude disso, surgiu uma matéria completa sobre uma das excursões, que é bem interessante e ganhará um artigo em especial no futuro aqui no HISTORITA. Por ora, resta saber que João Baptista Leal e Totó Mendes receberam os excursionistas em passeio pela cidade.


Em 1924, João Baptista ajudou a promover o escotismo na cidade, além de ser designado como presidente da Caixa Escolar de Itanhaém. A Caixa Escolar nada mais era que uma associação civil sem fins lucrativos, com personalidade jurídica de direito privado, vinculada às escolas públicas, que gerenciava recursos públicos para a manutenção, conservação e projetos pedagógicos.


Após esse ano e até 1930, tudo o que vemos sobre João Baptista Leal são suas participações no Diretório Político Republicano de Itanhaém, como Presidente e depois Vice-Presidente, alternando os cargos com Totó Mendes.


Em 15 de março de 1930, ele pediu exoneração do cargo da Coletoria Estadual, talvez por questão de saúde. Digo isso, pois pouco mais de um ano depois, em 25 de junho de 1931, aos 65 anos, João Baptista Leal faleceu em casa. Seu atestado de óbito diz que morreu de causas naturais, e quem declarou sua morte foi seu filho Benedicto Leal.


Veja a nota de sua morte no obituário do jornal Praça de Santos, de 27 de junho de 1931:


Nota de necrologia, 27 jun 1931 (Praça de Santos)
Nota de necrologia, 27 jun 1931 (Praça de Santos)

E na Tribuna, no dia 26 de junho e 27 de junho:


Morte de João Baptista Leal, 26 jun 1931 (A Tribuna)
Morte de João Baptista Leal, 26 jun 1931 (A Tribuna)

Enterro de João Baptista Leal, 27 jun 1931 (A Tribuna)
Enterro de João Baptista Leal, 27 jun 1931 (A Tribuna)

Leal a Itanhaém


É fato que nosso pesquisado de hoje teve um impacto considerável em Itanhaém. Tanto foi o caso que, em 1966, numa edição do jornal Correio do Litoral, houve algumas homenagens em razão do centenário de seu nascimento, as quais apresento aqui:


Homenagem a João Baptista Leal pela Câmara Municipal, 31 jul 1966 (Correio do Litoral)
Homenagem a João Baptista Leal pela Câmara Municipal, 31 jul 1966 (Correio do Litoral)

Homenagem do jornal ao centenário de João Baptista Leal. 31 jul 1966 (Correio do Litoral)
Homenagem do jornal ao centenário de João Baptista Leal. 31 jul 1966 (Correio do Litoral)

Para encerrar, um bônus: a fotografia de um de seus filhos, Nerval Leal, que enveredou também pela política como o pai. Quem sabe podemos ter algum artigo sobre ele no futuro aqui no HISTORITA? E siga com fotos da Av. João Baptista Leal na década de 1940 e na atualidade.


Nerval Leal (Correio do Litoral)
Nerval Leal (Correio do Litoral)
Av. João Baptista Leal, numa fotografia de 1942. 31 jul 1966 (Correio do Litoral)
Av. João Baptista Leal, numa fotografia de 1942. 31 jul 1966 (Correio do Litoral)
O começo da avenida atualmente, com recuos para estacionamento. Considerando que a foto anterior apresenta um declive, é bem possível que seja exatamente deste trecho da Avenida. 2026 (Google Maps)
O começo da avenida atualmente, com recuos para estacionamento. Considerando que a foto anterior apresenta um declive, é bem possível que seja exatamente deste trecho da Avenida. 2026 (Google Maps)

Podemos dizer que o legado de João Baptista Leal transcende as placas de sinalização da famosa avenida que leva seu nome; ele foi, em essência, um dos principais arquitetos da Itanhaém moderna. Como o primeiro prefeito da cidade (empossado em 1908) e figura central na transição do século XIX para o XX, Leal acumulou funções que moldaram a estrutura cívica local: foi subdelegado, vereador e presidente da Câmara, o primeiro Coletor Estadual e um Juiz de Paz recorrentemente eleito pela vontade popular. Sua atuação foi pautada por um senso de justiça rigoroso, como demonstrou em 1912 ao anular vendas ilícitas de terrenos para garantir o desenvolvimento urbano real, e por um profundo incentivo à cultura e educação, presidindo o Gabinete de Leitura e a Caixa Escolar. Entre a política e o social, João Baptista Leal personificou o espírito de liderança necessário para transformar a "Itanhaém primordial" em uma cidade em crescimento, deixando um rastro de integridade e dedicação que justifica sua posição de destaque na história itanhaense.


Obrigado, João Baptista Leal!


Ilustração em IA baseada em imagens reais fornecidas por Maria Tereza Leal Diz. mar 2026 (HISTORITA)
Ilustração em IA baseada em imagens reais fornecidas por Maria Tereza Leal Diz. mar 2026 (HISTORITA)

Assinatura de João Baptista Leal, 1905 (APESP)
Assinatura de João Baptista Leal, 1905 (APESP)

Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes:

A NOTÍCIA. Viagem a S. Vicente. A Notícia, São Vicente, 18 nov. 1914.

A TRIBUNA. Editais: Concessão de terrenos. A Tribuna, Santos, 13 maio 1912.

A TRIBUNA. Enterro de João Baptista Leal. A Tribuna, Santos, 27 jun. 1931.

A TRIBUNA. Morte de João Baptista Leal. A Tribuna, Santos, 26 jun. 1931.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Assinatura de João Baptista Leal, 1905. São Paulo: APESP, 1905.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Assinatura do professor Joaquim Mariano de Meira, 31 dez. 1879. São Paulo: APESP, 1879.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO (APESP). Livro de matrículas da escola de Joaquim Mariano de Meira, jan. 1879. São Paulo: APESP, 1879.

CORREIO DO LITORAL. Avenida João Baptista Leal (fotografia de 1942). Correio do Litoral, Itanhaém, 31 jul. 1966.

CORREIO DO LITORAL. Homenagem a João Baptista Leal pela Câmara Municipal. Correio do Litoral, Itanhaém, 31 jul. 1966.

CORREIO DO LITORAL. Homenagem ao centenário de João Baptista Leal. Correio do Litoral, Itanhaém, 31 jul. 1966.

CORREIO DO LITORAL. Nerval Leal. Correio do Litoral, Itanhaém, 31 jul. 1966.

CORREIO PAULISTANO. Câmara Municipal em 1914. Correio Paulistano, São Paulo, 25 jan. 1914.

CORREIO PAULISTANO. Criação de Coletoria em Itanhaém. Correio Paulistano, São Paulo, 17 nov. 1916.

CORREIO PAULISTANO. Itanhaém em 1915. Correio Paulistano, São Paulo, 10 fev. 1915.

CORREIO PAULISTANO. João Baptista Leal como professor substituto. Correio Paulistano, São Paulo, 8 ago. 1916.

CORREIO PAULISTANO. João Baptista Leal empossado prefeito. Correio Paulistano, São Paulo, 28 jan. 1908.

CORREIO PAULISTANO. João Baptista Leal nomeado Coletor Estadual. Correio Paulistano, São Paulo, 17 nov. 1916.

DIÁRIO DE SANTOS. Ampliação do cemitério municipal de Itanhaém. Diário de Santos, Santos, 28 ago. 1918.

GAZETA POPULAR. Agradecimento pelo envio de periódico ao Gabinete de Leitura Itanhaense. Gazeta Popular, 19 jan. 1921.

GAZETA POPULAR. Resultado de Assembleia do Gabinete de Leitura Itanhaense. Gazeta Popular, 22 jan. 1921.

GOOGLE. Google Maps: Avenida João Baptista Leal, Itanhaém, 2026. Disponível em: https://www.google.com/maps. Acesso em: 4 mar. 2026.

O COMMERCIO DE SÃO PAULO. Dissolução das Câmaras Municipais. O Commercio de São Paulo, São Paulo, 23 jan. 1891.

O COMMERCIO DE SÃO PAULO. João Baptista Leal subdelegado. O Commercio de São Paulo, São Paulo, 3 fev. 1893.

PRAÇA DE SANTOS. Nota de necrologia – João Baptista Leal. Praça de Santos, Santos, 27 jun. 1931.

3 comentários


Maria do Carmo Apelian de Oliveira
Maria do Carmo Apelian de Oliveira
09 de mar.

Parabéns, Gustavo, pela excelente matéria sobre este ilustre Itanhaense. O texto proporcionou conhecer mais a fundo a história da cidade e de seus ilustres moradores.

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Vinicius Cardoso
Vinicius Cardoso
06 de mar.

Meu bisavô!! Excepcional matéria, parabéns!

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Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
06 de mar.
Respondendo a

Que alegria! Obrigado pela leitura!

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