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Boá (Antonio Mendes de Aguiar)

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
23 de jun.
26 min de leitura

Atualizado: 6 de jul.


— Lá vai ele, lá vai o Antonio! Ele vai chutar pro gol!


Já cansado e suado da partida que vai chegando ao último minuto, Antonio corre praticamente sozinho na frente da área do gol. Entre as duas traves, as pernas do goleiro adversário tremem de forma involuntária. Antonio sorri de canto de boca, fazendo subir seus filete de bigode, satisfeito; ele percebe o medo nos olhos do goleiro e se delicia com o pavor.


Seus olhos miram o ângulo esquerdo. Ele quer fazer a rede balançar mais uma vez. Então sua perna direita baila no ar com a facilidade de quem já fez aquilo muitas vezes...

... atinge a bola em cheio!


O tiro de canhão voa pelo ar sem qualquer impedimento, e o goleiro pula pra tentar espalmar...


... mas não adianta. É GOL! Gol do Esporte Clube São Paulo de Itanhaém!


A torcida vibra em frenesi e grita, quase que em um som só:


— BOAAAA!


Assim, gol a gol, aquele rapaz atlético, ajudante de pedreiro, ia ganhando um novo nome, marcado por cada jogada maravilhosa em cada novo jogo enquanto centroavante do E.C. São Paulo. Quando a rede balançava, a torcida vibrava com ele:


— BOAAAA!


E assim, Antonio Mendes de Aguiar se tornou o BOAAA,"traduzido" pelo gosto popular como Boá.

Hoje, o HISTORITA tem a honra de prestar sua singela homenagem a um itanhaense que ainda é lembrado por muitos contemporâneos e que será agora conhecido pelas novas gerações que pisam nas terras da Conceição.


Nasce uma alma boa, nasce um Boá


Antônio Mendes de Aguiar nasceu em Itanhaém no dia 06 de dezembro de 1922, na casa da R. Cunha Moreira, número 43. Seus pais eram Joaquim dos Santos Aguiar e Maria da Conceição Aguiar, e com esses nomes, é fácil identificar que tinham ascendência portuguesa.


A casa onde Boá nasceu e viveu sua juventude até ter os primeiros filhos. Foto do HISTORITA, 2026.
A casa onde Boá nasceu e viveu sua juventude até ter os primeiros filhos. Foto do HISTORITA, 2026.

Antonio teve três irmãos: Maria Aparecida, Nelson e Inês.


O "Mendes" do sobrenome veio, pasme, querido leitor ou querida leitora, de Totó Mendes. Boá tinha parentesco com o ex-prefeito (era sobrinho-neto dele) e mesmo com a própria família de Benedito Calixto.


Só a título de registro, pois já é comprovado: Boá foi filho de Maria da Conceição, que era filho de Leopoldo de Araújo, que era irmão de dona Antonia Leopoldina Calixto, a esposa de Calixto.


Quando jovem, o pequeno Antonio já dava sinais de quem seria durante a vida. Estudou só até o quarto ano e logo se embrenhou a trabalhar pra ajudar em casa. Ele contava que mesmo no início da adolescência fazia seus bicos como ajudante de pedreiro. O dinheiro que ganhava era entregue todo nas mãos de sua mãe Maria da Conceição e além de servir para comprar as coisas de que a família precisava, também era o dinheiro que pagava pelos estudos do irmão Nelson na escola Escolástica Rosa em Santos. Como o estudo gratuito naquela época era oferecido apenas até o quarto ano, a partir daí Boá viu que valeria mais a pena investir no sonho do irmão de seguir estudando. Quanto a ele, bom, ele seguiria trabalhando em Itanhaém e fazendo uma das coisas de que mais gostava: jogar futebol.


Antonio jogava no futebol de várzea — e imagine você a várzea da pequenininha Itanhaém nas décadas de 1930 e 1940 — havendo o registro dele no E.C. Vasco da Gama em 1941 e também no E.C. São Paulo (alguns anos depois), ambos times locais.


Inscrições aprovadas pela Liga de Amadores, 10 ago 1941 (A Tribuna)
Inscrições aprovadas pela Liga de Amadores, 10 ago 1941 (A Tribuna)

Foi nessa época que ele ganhou o apelido de Boá, justamente por conta da história que abre o nosso artigo, segundo suas filhas Rosário e Ana Cláudia me informaram.


E por falar em futebol, conta-nos a notícia trazida no jornal A Tribuna, de 1947, que enquanto jogava por Itanhaém contra Itariri, Boá foi suspenso com outro colega após trocar palavras, que com certeza eram muito carinhosas, com o árbitro da partida. O jogo era beneficente e buscava conseguir fundos para o Hospital São José, de São Vicente. mas nem o caráter benéfico impediu que os ânimos futebolísticos se exaltassem.


Campeonato de Futebol do Litoral Paulista, 07 mai 1947 (A Tribuna). É possível que Boá esteja bem no centro da foto, segurando uma das pontas da bandeira do E.C. São Paulo, a julgar pela fisionomia.
Campeonato de Futebol do Litoral Paulista, 07 mai 1947 (A Tribuna). É possível que Boá esteja bem no centro da foto, segurando uma das pontas da bandeira do E.C. São Paulo, a julgar pela fisionomia.

Inclusive, Boá jogava tão bem, mas tão bem, que chegou a ser almejado pelos times profissionais da época. Depois de conseguir espaço para treinar em Santos, ele chamou a atenção do Jabaquara Atlético Clube, que queria contratá-lo pra jogar na equipe titular.


Pois veja como são as coisas da vida, cara leitora ou caro leitor: quando fazia poucos dias para que Boá assinasse o contrato, ele teve uma contusão grave no joelho e, claro, ficou impossibilitado pra seguir com o esporte.


Quem conviveu com Boá diz que a lesão foi tão complicada, que ele ainda andaria mancando pelo resto da vida.


Antes que possamos passar o tempo desse início da vida de Boá, vale a pena ver um registro feito por Edison Telles de Azevedo em sua coluna Itanhaem de Outrora do jornal A Tribuna de 1958. Ele afirma que em 1933, mais ou menos, houve a recriação da banda da cidade, que havia sido tradição na época de João Mariano Soares e mesmo Calixto. Veja você que lá estava o Boá registrado como excelente trombonista!


Itanhaém de Outrora, 14 set 1958 (A Tribuna, por Edison Telles de Azevedo)
Itanhaém de Outrora, 14 set 1958 (A Tribuna, por Edison Telles de Azevedo)

As filhas de Boá mencionaram que o pai sabia ler partituras, ou seja, em algum momento ele teve instrução formal de música. O registro acima comprova que ele teve aulas com o maestro João Alves Ferreira, revelando a origem de sua veia musical, ainda quando criança.


De qualquer modo, peço a você que guarde bem essa informação sobre o trombone. Já já voltamos a ela.


Agora vamos a 1948. Nesse ano, um caso curiosíssimo aconteceu em Itanhaém, e Boá foi uma das testemunhas.


O caso do tesouro de Juvenal Mendes e o carvoeiro


Na edição do dia 16 de dezembro de 1948, o jornal O Diário trouxe a pitoresca história que ocorrera em Itanhaém, a qual passo a compartilhar com o leitor ou a leitora na íntegra, porque é de um folclore itanhaense que merece não ser esquecido pelo tempo:


O carvoeiro foi surrado por invisíveis dentro do poço que estava abrindo para encontrar a fortuna


Uma pessoa morta há muitos anos indicara ao rude trabalhador o local onde estava enterrado o cofre. Diante do delegado e da reportagem o espírito protetor de José Torres utilizou-se do seu “aparelho” para proteger o carvoeiro. Fatos inéditos observados pela reportagem na visita feita ontem à histórica cidade do litoral.


Texto de Ribeiro de Castro

Fotos de Francisco Dias Herrera


Das mais curiosas e interessantes foi uma informação trazida anteontem à nossa redação, segundo a qual teria sido achado um tesouro nas imediações do Convento. A notícia dizia que o tesouro encontrado desaparecera com aqueles que o teriam achado e que toda a população de Itanhaém vivia horas de assombro diante do acontecimento da forma como os fatos se desenrolaram. Asseverava mais que um grande buraco havia sido feito nas imediações do túnel e dele fora retirado o tesouro encontrado.


A reportagem em Itanhaém


Ontem pela manhã nossa reportagem seguiu para aquela cidade do litoral sul com o propósito de verificar in loco a extensão dos acontecimentos. Assim que chegamos àquela localidade entramos em contato com elementos do povo, auscultando a opinião pública. Num grupo de pessoas tivemos a oportunidade de ouvir Antonio Mendes de Aguiar, mais conhecido por 'Boá', o que outras pessoas nos haviam indicado como capaz de nos fornecer interessantes detalhes sobre o caso que vinha empolgando toda a população.


'Boá', que é conhecido e estimado futebolista da cidade, em presença de diversas pessoas passou a relatar-nos o seguinte:


— Moro nas imediações do túnel. Como é costume, eu e o tesoureiro do clube, Ademar Gomes Rivera, todas as noites ficamos conversando na porta da casa. No dia 8, por volta das 22:30, quando nos achávamos juntamente com d. Maria, mãe de Ademar e outras pessoas, ouvimos para o lado do túnel fortes pancadas no flanco do morro, o que nos dava a impressão de que alguém de picareta em punho estava a proceder escavações ali. Uma forte ventania sacudiu o arvoredo e com as pancadas nos impressionou muito, pois que o barulho não nos era comum; resolvi, juntamente com os outros, e provido de uma lanterna, ir verificar o que havia. Aproximamo-nos do local de onde vinham as pancadas e, embora não constatando a presença de ninguém, eu e os demais observamos que, subitamente, do ponto em que projetássemos a lanterna, o ruído aterrador produzia-se mais adiante ou mais para trás. Todos então, como que amedrontados, resolvemos ir deitar. Dia 13 é que somente foi descoberto o enorme buraco que existe ainda agora no túnel e que tem levado centenas de pessoas a ir constatar a grande escavação ali feita.


Indagamos de 'Boá' se sabia informar quem havia feito o buraco, ou se alguém na cidade tinha conhecimento de quem o fizera.


— Dizem que foi o carvoeiro, que mora no quilômetro 60 juntamente com o Sílvio, cidadão que possuía uma tinturaria em Itanhaém. Há um fato a respeito do Sílvio, correndo insistentemente na cidade. Esse moço vivia maritalmente com uma senhora, de quem possui uma filha de um ano e pouco. Sílvio dizia constantemente em Itanhaém que jamais se casaria com a sua companheira. Depois de aparecer essa história do encontro do tesouro e de ser voz corrente aqui que Torres e o Sílvio o haviam encontrado, com surpresa geral, o tintureiro largou o seu negócio, embora tendo aprontado todos os serviços que tinha e sem receber de nenhum deles o produto do seu trabalho, batizou a filha, casou-se e desapareceu de Itanhaém. Silvio, segundo consta, dissera a pessoas de sua amizade que não mais precisaria trabalhar e que iria deixar de vestir as roupas modestas que usava para só trajar ternos bons de linho, e que a partir de tal data iria ser um corretor ou um cambista.


A escavação do túnel


Depois de estarmos de posse desses elementos aproximamo-nos do delegado Adolfo Molinari solicitando a sua intervenção para nos avistarmos com o tal carvoeiro Torres, uma vez que só esse indivíduo se achava em Itanhaém. Devemos à valiosa colaboração dessa autoridade termos entrevistado o carvoeiro e o desenrolar dos fatos curiosíssimos que adiante relataremos.


Seguimos então para o local da escavação e ali, onde se encontravam inúmeras pessoas constatamos a existência de enorme cratera de uns dois metros de diâmetro por dois metros e pouco de profundidade. No fundo desse buraco inegavelmente tudo deixa supor que existia um volume, possivelmente uma caixa, pois duas lajes dispostas lateralmente delineavam um retângulo quase perfeito e numa das extremidades dessa figura continuava uma galeria obstruída.


O repórter examina a enorme cratera onde José Torres foi buscar o tesouro que lhe foi dado por Juvenal Mendes, pessoa falecida que teria residido há mais de um século em Itanhaém. Veem-se inúmeros curiosos dos muitos que têm ido verificar o fato. (texto integral da legenda da reportagem). É possível que Boá esteja nesta imagem.
O repórter examina a enorme cratera onde José Torres foi buscar o tesouro que lhe foi dado por Juvenal Mendes, pessoa falecida que teria residido há mais de um século em Itanhaém. Veem-se inúmeros curiosos dos muitos que têm ido verificar o fato. (texto integral da legenda da reportagem). É possível que Boá esteja nesta imagem.

Ouvindo o Carvoeiro Torres


Por volta das 13 horas, no hotel Atlântico, onde fizemos as refeições, encontramo-nos com o carvoeiro José Torres, que vinha trazer carvão para o estabelecimento e também atender a um chamado do delegado Adolfo Molinari.


José Amaro Cabral, conhecido em toda zona por José Torres, é um sitiante de compleição magra, alto, de cor preta e barba cerrada. Disse-nos ser carvoeiro de profissão, que residia em Indapaúva nos fundos do quilômetro 60, com mulher e dois filhos.


Indagamos se havia aberto o poço no túnel, quando começara o trabalho, quais os motivos que o levaram a isso.


"Um homem me deu o tesouro"


José Torres ou José Amaro Cabral fala com lucidez e desembraço, embora pareça um homem rude e sem estudos. A sua história é apavorante:


— No começo do mês eu vinha pela linha da máquina, às 11 horas da noite, quando fui abordado por um homem alto, trajando calça preta e paletó branco. Disse-me chamar-se Juvenal Mendes e ser parente de Tóto Mendes (pessoa muito conhecida e que reside em Itanhaém). Perguntou-me se eu tinha coragem, ao que lhe respondi que sim. Acompanhou-me até o túnel e disse-me que ali existia um tesouro e que esse tesouro me pertencia. Dia 4, decorridos três dias do nosso encontro e sem que ninguém disso tivesse conhecimento fui ao túnel para fazer a escavação e retirar o tesouro. Quando ali cheguei encontrei o mesmo homem que me indicou o local para escavar ao lado de uma bananeira que aliás eu derrubei como o sr. terá verificado (Exatamente, no local há uma bananeira derrubada). Depois que comecei a escavar, o sr. Juvenal Mendes, dizendo-me que reconhecia que eu era um homem corajoso, levou-me ao outro arco do túnel indicando-me o local exato onde eu devia escavar, local em que está o grande poço que abri. Durante quatro noites, depois de apagadas as luzes da festa, dava início ao meu trabalho. Ao cabo da terceira noite é que o Silvio me viu ir abrir o poço tendo-me oferecido o seu auxílio, o que recusei. Quando me aproximei das lages foi um inferno. Começaram a me empurrar contra as paredes do poço, mas eu insistia e prosseguia no meu trabalho. Pisei numa das lages grandes e esta com o meu peso cedeu sendo uma pedra escavada. Mas confesso que não encontrei o tesouro. Sei que ele está lá e se o delegado deixar vou prosseguir”.


Na delegacia de polícia


Após termos ouvido as declarações do carvoeiro Torres que nos falou sempre calmamente convidamo-lo a ir ter à Delegacia como solicitado pelo delegado. Quando ali chegamos diversas pessoas encontravam-se no gabinete da autoridade e não somente ouviram José Torres repetir as suas declarações feitas ao reporter, como presenciaram os fatos que se seguiram e que passamos a descrever com o testemunho das referidas pessoas.


O homem foi atuado por um espírito


Fotografias que acompanham a matéria.
Fotografias que acompanham a matéria.

Perante o delegado Adolfo Molinari, o carvoeiro José Torres fizera o seu depoimento sem omitir um só dos detalhes que relatara ao repórter anteriormente. Depois, quando algumas perguntas lhe eram dirigidas, subitamente José Torres foi tomado por um “espírito” entrando em “transe” como o fazem os adeptos de Allan Kardec. Rezou uma prece desejando que “a paz estivesse com todos”. Repórter, autoridade e todos os presentes entreolharam-se. O “espírito” disse que tomara o aparelho para defendê-lo e evitar que o mesmo sofresse qualquer castigo. (?) Foi a essa altura que bancamos o “doutrinador”. Entramos a falar com o “irmão”, assegurando-lhe inicialmente que o “aparelho” nada sofreria e que pelo contrário, mereceria até a nossa colaboração. O caso assumia um aspecto bastante curioso e assaz divertido. Dissemos ao “espírito” se ele sabia nos informar o nome todo de José Torres. Com surpresa nossa e dos presentes disse que José Torres chamava-se José Amaro Cabral e que era filho de Amaro Dunisio de Melo e Amarina Anselmo Cabral. Não conheciamos esse detalhe, que nos foi dito confirmado mais tarde pelo próprio carvoeiro. Fizemos inúmeras outras perguntas submetendo o "espírito" a um autêntico "teste" psíquico. Indagamos desde quando José Torres residia na zona, onde morava, qual a sua naturalidade e onde nascera. Foi-nos então respondido com absoluta exatidão e confirmando esses dados que já conhecíamos, que o "aparelho" se encontrava residindo na zona desde 1927; era brasileiro, natural de Pernambuco da localidade de Sirinhaém. Não conformados com a evidência dos fatos e admitindo que o próprio "aparelho" e não o "espírito" estivesse a nos repetir aquilo que já conhecíamos, passamos a outro terreno do "teste" que improvisáramos.


Incrível!


Dissemos ao "espírito" que éramos solteiro e se sabia de onde éramos filho. Respondeu-nos que eramos nortistas. Exato! Por pouco precisou o Estado em que nascemos, mencionando Paraíba, quando somos filho de mais além, do Pará. Jogando com o despistamento, pois que havíamos dito ser solteiro, indagamos se sabia nos informar quantos filhos possuíamos. A resposta foi exata: um. Alegamos que se éramos solteiro, como podíamos ter filho? Respondeu-nos então que o "aparelho" de que se utilizava não era casado e possuia mulher e dois filhos...


Submetemos o "irmão" a uma prova que nos pareceu mais difícil: Saberia informar se nossa esposa está hoje em nossa casa? Respondeu-nos que não. Perguntamos-lhe ainda se informaria, se nossa esposa tinha conhecimento de termos ido a Itanhaém. Sua resposta: "O sr. a avisou?"


Declaramos aqui como o fizemos na sala do delegado, que efetivamente no dia de ontem nossa esposa havia viajado para Ribeirão Pires.


Terminado o que classificamos de "teste" o "espírito" despediu-se e José Torres voltou a si. Ignorava tudo quanto se passara.


Vai prosseguir


José Torres declarou que permitido pela autoridade, prosseguirá em procura do "seu tesouro". Que segunda-feira próxima reiniciará a escavação. Declarou e comprometeu-se perante o delegado Adolfo Molinari e o repórter que se encontrar o tesouro leva-lo-á à Delegacia.


José Torres declarou na Delegacia que se achar o tesouro mandará rezar sete missas em intenção de Juvenal Mendes, fará realizar uma grande festa em Itanhaém para as crianças pobres e terá que depositar sete moedas no poço que escavou, o qual não poderá fechar por suas próprias mãos, nada acontecendo entretanto se outros o façam.


José Torres, se entrar na posse do "seu" tesouro, não mudará o seu sistema de vida. Continuará vivendo como até agora. A única coisa que fará seria a compra da propriedade em que reside com sua mulher e seus dois filhos.


Assim é a lendária história que nos conta o repórter. Os fatos que relatou, e que têm o testemunho das seguintes pessoas: Adolfo Molinari, Augusto Pereira de Araujo, Nivaldo A. Mião, Henrique Fedre, Kardec Rangel Veloso, José Amaro Cabral, Francisco D. Herrera e Antonio Mendes Aguiar (Boá), que se prendem à manifestação espírita ocorrida na Delegacia de Policia de Itanhaém, poderão ser confirmados por todas as pessoas citadas."


Uma mudança boa


Um ano depois desse acontecimento tão peculiar, a vida de Boá passou por uma mudança considerável. Em 1949 ou 1950, quase chegando aos 30 anos, Boá morava ainda na casa dos pais. Lá, conheceria a jovem Maria Vicentina, contratada para ajudar a mãe Maria da Conceição com os afazeres domésticos.


Naturalmente, Boá se apaixonou por ela. Os dois passaram a namorar e... sabe como são as coisas do amor, cara leitora ou caro leitor: de repente, o amor fez aparecer um nenê, o Antonio (Toninho).


Aí, você sabe como são também as coisas das barrigas, ainda mais em 1950: engravidou, tinha que casar.


Assim se casaram Boá e Vicentina, em 29 de junho de 1950. O lar logo seria abençoado pelo nascimento de Toninho. Curiosidade: Toninho herdaria de Boá a habilidade no futebol e seria jogador profissional até em outros países, como o México.


O casal Boá e Vicentina seguiu a morar então na casa 43 da Cunha Moreira, junto com os pais dele.


Agora, com a necessidade de sustentar a esposa e o filho, e impedido de tentar a carreira esportiva, não havia outra saída para Boá: o negócio era largar os bicos de pedreiro e procurar algum emprego formal. Foi nessa época que surgiu na cidade o primeiro posto de saúde, o PAMS (Posto de Assistência Médico-Sanitária) capitaneado pelo Dr. Nogueira. Boá estava contratado em 1952 como fiscal sanitário e fazia também as vezes de enfermeiro junto de Chocolate (Stanislau Jerônimo), e das moças Irene e Ivete.


Como fiscal, Boá tinha o dever de averiguar os comércios e feiras livres de acordo com os requisitos sanitários. Ele era presença comum no mercado Peralta, na Padaria da Praça, no restaurante Uirapuru, no Pioneiro, João Bonito... E conta-se que ele não era cruel: em vez de chegar no comércio e multar de imediato diante das irregularidades, Boá já detectava tudo antes de sua visita oficial e avisava aos comerciantes que teriam um prazo pra resolver a situação, e que ele voltaria pra verificar depois do prazo. Isso, por si só, dava a chance do problema ser consertado antes que gerasse um prejuízo ao comércio.


Por conta disso, Boá ficou sendo muito querido pelos comerciantes. Ele não deixava de fazer seu trabalho, mas o fazia de maneira mais humanizada. Isso trazia o reconhecimento e a amizade desses empresários e feirantes, que viviam presenteando a família com cestas de Natal, frutas, galinhas, pernil, enfim!


Já o trabalho no PAMS era muito variado. Dr. Nogueira foi ensinando aos seus ajudantes como fazer os procedimentos médicos, e Boá pegou gosto pela coisa. Não apenas gosto; ele tinha mesmo a mão boa para fazer suturas, aplicar injeções, e até desencravar unha do pé. Era um grande faz-tudo (lembre-se: sem estudo formal)!


Conforme foram passando os anos, a família de Boá ganhou mais membros. Depois do primeiro, Antonio Carlos, viriam José Pedro, Pedro Paulo, Maria do Rosário e João Carlos. Alguns deles nasceram enquanto Boá e Vicentina ainda moravam na casa dos pais dele.


Nessa década de 1950, o pai de Boá, o sr. Joaquim, já apresentava alguns problemas de saúde. Foi em virtude deles que em 1956, na noite de 7 de fevereiro, a primeira noite dos Carnavais na cidade no Clube Náutico naquele ano, Joaquim pressentiu que estava partindo. Boá receberia dinheiro para tocar trombone nas quatro noites de festa.


Ali, diante da morte iminente, o sr. Joaquim disse palavras duras e ao mesmo tempo tenras a Boá:


— Filho, eu tô morrendo, mas olhe, não deixa de ganhar seu dinheirinho, não. Não deixa de tocar no Carnaval por conta da minha morte; porque você tá com seus filhos, tá precisando de ganhar seu dinheirinho...


Diz-nos sua filha que anos depois Boá contava essa história, com mais ou menos essas palavras; por isso eu faço questão de reproduzi-las aqui em forma de diálogo.


O sr. Joaquim faleceu cedo, com 63 anos. E sim, Boá respeitou o último desejo do pai e tocou nos bailes daquele Carnaval, mesmo enlutado. Compromisso era compromisso, e ele honrava os seus mesmo diante das piores situações.


Após a partida do patriarca e com o retorno de sua irmã Inês, que enviuvara em São Paulo com 7 filhos pequenos na bagagem, o número de pessoas na pequena casa ficou excessivo, então Boá decidiu se mudar. Foram então os sete para uma casa na praça Carlos Botelho, número 31.


Em 1959, já com as muitas amizades angariadas devido à sua profissão, Boá foi incitado a se candidatar como vereador pelo PTN. E foi eleito, com um número estrondoso de votos, para a câmara de 1960.


Constituiçào da Câmara Municipal face ao resultado final do pleito, 11 out 1959 (A Tribuna)
Constituiçào da Câmara Municipal face ao resultado final do pleito, 11 out 1959 (A Tribuna)

Foi próximo dessa ocasião que o jornal Correio do Litoral publicou, em julho de 1960, a seguinte coluna Quem é Quem, em homenagem a Boá:


QUEM É QUEM


Boá aos 37 anos. jul 1960 (Correio do Litoral, Quem é Quem) [colorido no Photoshop por Historita.
Boá aos 37 anos. jul 1960 (Correio do Litoral, Quem é Quem) [colorido no Photoshop por Historita.

"Há pessoas que numa pequena Cidade tornam-se credoras de obrigações de quase todos por força de sua profissão e dedicação à coletividade. Esse é o caso de Antonio Mendes Aguiar, o popular Boá, que atendendo à população como enfermeiro, tem prestado inestimáveis serviços aos moradores da região, aceitando chamados a qualquer hora, resignado e com inapagável espírito de solidariedade. Nascido em Itanhaem aos 6 de Dezembro de 1922, é filho de Joaquim dos Santos Aguiar e Dna. Maria da Conceição Aguiar. Ainda rapaz apaixonou-se pelos serviços de alvenaria, tendo trabalhado em muitas casas de Itanhaem.


Conhecedor do ofício, foi-lhe fácil propor-se às responsabilidades de fiscal sanitário junto ao PAMS de Itanhaém, onde ingressou em 1952, aprendendo então a profissão ou melhor diga-se, a missão de enfermeiro.


Esportista, tem sido citado como um dos melhores centroavantes da linha, defendendo as cores do E. C. São Paulo. Prestando serviços de socorro e trato conquistou amigos que o requisitaram para a vereança exigindo que fosse candidato.


No dia da eleição não conseguiu estar à testa do corre-corre de distribuição de cédulas pois teve de socorrer uma criança que se queimara. Mesmo assim, elegeu-se com a terceira votação, o que prova o seu prestígio na Cidade.


Na Câmara vem trabalhando com denodo, apresentando Projetos e Indicações com atenção também para as localidades distantes da Sede. É casado com a Senhora Maria Vicentina e tem filhos: Antonio Carlos, José Pedro, Pedro Paulo, Maria do Rosário e João Carlos."


Cabe enfatizar um detalhe importante sobre a atuação de Boá no PAMS. Ele não atendia só no horário convencional; era muito comum fazer plantões noturnos no pronto-socorro. Como ele morava perto do posto, que é o mesmo local onde hoje é a USF do Centro, quando acontecia de pessoas se acidentarem ou precisarem de cuidados médicos durante a noite ou madrugada, batiam na casa de Boá. Se estava dormindo, ele acordava sem reclamar e ia atender o enfermo no PAMS. Contam-me suas filhas que por várias vezes viram pessoas chegando de carro em sua casa à noite para buscar Boá e levá-lo até locais mais distantes do Centro. E não havia uma cobrança extra pelos serviços extras, nem nada; ele sentia que ainda estava em seu dever.


E por falar em cobrança, vale a pena dizer: nessa época, os vereadores não tinham salário. Nem mesmo o prefeito. Era um serviço quase como o de um conselho civil, sem ganhos financeiros. Esse era mais um dos trabalhos que Boá exercia sem ter algum retorno monetário em troca.



A boa política


Enquanto vereador, Boá era bastante ativo em pedir mudanças e propor melhorias para a cidade. Conhecedor que era das áreas mais humildes de Itanhaém, Suarão e Peruíbe, ele chamava atenção para as necessidades dessa população e demonstrava um espírito de debate frente a essas questões.


Por exemplo, uma questão que foi veiculada no Correio Paulistano em 16 de novembro de 1960:



O tal processo n. 449/59 dizia respeito ao pagamento de serviços de terraplanagem prestados a Peruíbe enquanto ainda era distrito de Itanhaém, em 1954. Talvez o debate tenha sido acalorado porque houve vereadores que julgaram que não deveriam pagar pelo serviço, já que agora as terras pertenciam a Peruíbe enquanto município.


Sobre essas movimentações de Boá enquanto vereador, encontrei mais registros nos anais do jornal A Tribuna, cujas edições, por já serem dos anos 1960 em diante, não permitem a reprodução aqui devido aos direitos autorais. E há outros registros no Correio do Litoral, também. Pra facilitar a sua leitura, vou simplesmente mencionar um minúsculo número desses registros em lista, incluindo um pouquinho do que veio em suas reeleições na década de 1970:


  • pediu título de cidadão itanhaense a Edison Telles de Azevedo (1960);

  • cobrou do Prefeito explicações sobre a falta de aumento de salário para os diaristas da Prefeitura (1960);

  • pediu a provisão de uma extensão da rede de água para as ruas do Jardim Ivoty (1960);

  • celebrou a vitória de Jânio Quadros (1960);

  • pediu a construção de um prédio para o funcionamento do PAMS que melhor atendesse às necessidades da cidade (1960);

  • pediu a construção de muro, jardim e passeio no Grupo Escolar "Benedito Calixto" (1960);

  • pediu a recriação de uma banda de música municipal (1960);

  • pediu melhorias para a estação de trem do Suarão (1960);

  • cobrou investigações dos abusos do sistema hídrico da cidade por um único hotel (1960);

  • pediu investigação sobre os abusos da rede elétrica por algumas poucas casas em Suarão (1960);

  • buscou viabilizar a construção do Grupo Escolar do Belas Artes (1961);

  • pediu a construção da ponte sobre o Rio Itanhaém (1961);

  • participou de festa em louvor de São Pedro (Colônia Luso-Espanhola) (1962);

  • primeiro-secretário da Mesa da Câmara (1962);

  • participou de festa na Igreja Presbiteriana de Itanhaém para a consagração de mobiliários novos (1963);

  • reeleição em 1968;

    Para o Sul, ARENA ganha todas. 17 nov 1968 (Cidade de Santos)
    Para o Sul, ARENA ganha todas. 17 nov 1968 (Cidade de Santos)
  • cobrou da SUDELPA a limpeza das praias, nivelamento da Av. Rui Barbosa, desobstrução de valas no Jardim Ivoty e Cidade Anchieta (1970);

  • apoiou a criação de um Museu de Benedito Calixto, na casa onde Ernesto Zwarg Jr. atestou que o pintor havia nascido (R. Cunha Moreira, 14) (1971);

Sobre o Museu Benedito Calixto, 23 mar 1971 (Cidade de Santos)
Sobre o Museu Benedito Calixto, 23 mar 1971 (Cidade de Santos)
  • vice-presidente da Câmara (1971);

  • cobrou que os comerciantes respeitassem os preços tabelados para produtos da cesta básica, que estavam muito mais caros que em Santos e São Paulo (1971);

  • apoiou a criação de uma Escola Profissional na cidade (1971);

  • reeleito em 1972;


Reeleição em 1972, 18 nov 1972 (Cidade de Santos)
Reeleição em 1972, 18 nov 1972 (Cidade de Santos)
  • participou da festa de 14 anos da emancipação de Mongaguá (1973);

  • membro da comissão municipal de Cultura e Assistência Social (1973);

  • votou contra a delimitação de bairros como bairros operários ou populares, projeto que buscava permitir casas geminadas apenas nesses bairros considerados "pobres" , ou seja, que permitiria a ampliação da segregação (1974);

  • membro da comissão municipal de Finanças e Orçamento (1975);

Boá em 1960 (Correio do Litoral)
Boá em 1960 (Correio do Litoral)

Boá só não se elegeria por mais tempo depois de 1975, porque na eleição de 1976 as cédulas traziam os nomes civis dos candidatos, e infelizmente o povo em geral não conhecia Boá por seu nome real. Por isso, acabou tendo menos votos do que certamente teria, e não foi eleito.


Mas alto lá, que já estamos nos adiantando bastante no tempo. Eu só queria deixar toda essa questão política de Boá condensada em um pedaço só do nosso artigo.


Vamos seguir com os detalhes de sua vida pessoal e profissional.


Sozinho, mas em boa companhia


Veio então o destino, o acaso, as circunstâncias que não conseguimos entender, e mudaram os planos dos envolvidos naquela casinha da praça Carlos Botelho.


De repente, Boá se viu sozinho, tendo que criar e cuidar dos cinco filhos pequenos. O HISTORITA não precisa entrar em detalhes tão particulares assim do que teria acontecido, até porque partimos da premissa de que não nos cabe fazer julgamentos. No bom Português, "cada um sabe onde o calo dói"... eu acho que o ditado é esse.


O que podemos dizer é passar a ver como a vida de Boá e de seus filhos se desenvolveu a partir dessa ruptura.


Boá optou por não retornar à casa dos pais para pedir ajuda com a criação dos filhos. Simplesmente aceitou a nova situação de sua família e tocou-a como pôde.


Pra começar, em seu trabalho como fiscal, Boá começou a prestar atenção nos cozinheiros dos restaurantes que visitava. Observava e perguntava como eles preparavam a comida, na ânsia de aprender a cozinhar.


E não é que o danado aprendeu mesmo?


Sua rotina era mais ou menos assim: Boá acordava por volta de 5 da manhã pra começar a preparar comida. Os vizinhos da época dizem que era comum sentir o cheiro das refeições logo cedo. Preparava o café da manhã das crianças e também já o almoço dos cinco (com ele, seis) para mais tarde. Esperava que tomassem o café, enquanto arrumava as mochilas deles, depois os levava pra escola e enfim partia para o trabalho às 7h. Como o Posto de Saúde era próximo de casa, ele retornava pra almoçar e dar almoço pros filhos, mandava cada um fazer suas tarefas de casa e depois voltava ao trabalho. Por volta das 17h, chegava em casa e preparava a janta.


Segundo relato das filhas de Boá, o pai sempre cozinhava comida fresca - dificilmente era alguma coisa requentada, até porque essa era uma época em que não havia muitas formas de se preservar a comida pra muitas refeições seguidas. E Boá gostava de cozinhar: nunca era só uma mistura; sempre tinha opções a se escolher.


Inclusive, a comida que ele preparava para os filhos e pra ele próprio não era a mesma. Pra Boá, era quase sempre o mesmo cardápio: arroz, feijão, farinha manema (que ele comprava de Iguape) e peixe. De vez em quando, um bife acebolado. Mais caiçara, impossível.


Sobre os dotes culinários de Boá, as duas filhas com quem conversei foram unânimes: ele era um exímio cozinheiro. Fazia toda a culinária caiçara, em especial tainha recheada com farofa de camarão, robalo... No sábado à tarde, era hora de fazer bolos, tortas... À noite, uma variedade de lanches com frios. No domingo, era macarrão, nhoque, carne assada...


(e quem é que diz que ler não dá fome, hein, cara leitora ou caro leitor?)
(e quem é que diz que ler não dá fome, hein, cara leitora ou caro leitor?)

Essa fartura toda era principalmente ainda por conta das amizades que ele colhia, frutos do seu trabalho generoso. Quando era final de semana, muitas vezes Boá saía de barco para atender populações mais distantes, na subida do Rio Itanhaém. Quando chegava lá e prestava assistência médica aos moradores dos sítios e ribeirinhos, não cobrava nada, pois sabia que era um povo muito necessitado. Ainda assim, eles queriam agradecê-lo e então sempre davam uma abundância de galinhas, frutas, mandioca, batata-doce, enfim, o que tivessem. Com frequência, acabava sendo demais e ele dividia com os vizinhos, como de costume.


Sua filha Ana Cláudia contou ao HISTORITA que ele muitas vezes fazia a barba logo pela manhã e saía para atender no rio. Quando voltava lá pelas 5 da tarde, chegava carregado de coisas que davam e com a aparência bem cansada, passando a impressão que sua barba já até havia crescido de novo durante a passagem do dia, por conta do trabalho intenso nas regiões mais selvagens de Itanhaém.


1970, uma boa década


Em 1964, foi a vez de Boá se despedir de sua mãe Maria da Conceição, que faleceu também um tanto nova, aos 65 anos, com doença cardíaca hipertensiva. Agora a família era ele e os filhos.


Já com mais idade para começar a entender as coisas, os filhos começaram a falar que o pai devia procurar um novo amor, ter uma nova mulher. Mas ele era enfático: dizia que só ia procurar alguém quando sua filha Rosário fizesse 18 anos. E assim foi: ele conheceu Maria Odete Ferreira e passou a morar com ela a partir de 1970. Ela trabalhava como assistente social.


Desse novo relacionamento, nasceriam dois filhos: Ana Cláudia e Paulo.


Agora, aqui vão algumas histórias da vida de Boá nessa época de 1960 e 1970, pras quais não tenho datas exatas:


  • Durante os anos do primeiro mandato do prefeito Orlando Bifulco Sobrinho, Itanhaém viveu um surto muito intenso de meningite. Boá trabalhou incansavelmente nessa época;

  • Com as campanhas de vacinação encabeçadas pelo Dr. Nogueira (como você pode ler no artigo sobre ele), Boá e Chocolate eram responsáveis por vacinar a população. Dizem que conforme Boá passava pelas ruas no dia a dia, as crianças saíam correndo de volta pras suas casas, com medo de levar a picada tão temida;

  • Boá trabalhava os plantões noturnos no pronto-socorro muitas vezes, das 18h às 6h, sozinho. Por ser o único local com alguma estrutura médica na cidade da época, ele também ficava responsável por cuidar dos corpos das pessoas que morriam e eram levadas para lá. Boá preparava os defuntos para o velório e enterro, com banho e arrumação de roupas;

  • Muitas vezes o filho mais novo dos primeiros cinco filhos de Boá, João Carlos, era levado por Boá para ficar com ele no pronto-socorro, já que se preocupava de deixá-lo tão pequeno com os outros filhos ainda crianças. No pronto-scorro, ele ficava num quartinho à parte e lá dormia, ainda que o quarto fosse justamente ao lado do cômodo onde ficavam os cadáveres. Segundo contam hoje, o que mais se via eram casos de morte por afogamento e acidentes;

  • Como à noite eram apenas Boá e o filho pequeno no pronto-socorro, quando surgia alguma emergência, o pequeno ia com o pai na ambulância buscar e levar os feridos e mortos;

  • Certa ocasião, houve um trágico acidente com um caminhão que levava trabalhadores de origem japonesa na região de Ana Dias. Boá contava que foi a pior tragédia que presenciou, pois os corpos foram encaminhados para Itanhaém sob orientação do Dr. Nogueira e estavam em péssimo estado;

  • O filho mais novo de todos os de Boá, Paulo César, lembra-se de ver uma família que chegou com um bebê no plantão do pronto-socorro, alegando que ele tinha morrido. Boá verificou os sinais vitais e entendeu que o bebê ainda estava vivo, e conseguiu reanimá-lo;

  • Humberto Ataulo, o Betinho da farmácia, teria aprendido a aplicar injeção com Boá;

  • Às noites depois da janta, Boá gostava de ir pra frente da casa, sentar e fumar seus cigarros de palha e cachimbos, enquanto papeava com os filhos e vizinhos.

  • Era participante assíduo das Festas na cidade, principalmente no Divino Espírito Santo, na de N. Sa. da Conceição e nos Carnavais no Gabinete de Leitura Itanhaense e nos Clubes. Sempre tocando o trombone ou bombardino. Há relatos de que ele costumava contar piadas baixinho pros músicos nos momentos em que deviam ficar em silêncio, pra provocar a risada nos colegas;


    Boá ao lado direito, com seu bombardino. A julgar pelas calças, década de 1970 ou 80. (Fotografia do acervo de João Tadeu Bastos da Silva, recolorizada com cuidado pelo HISTORITA)
    Boá ao lado direito, com seu bombardino. A julgar pelas calças, década de 1970 ou 80. (Fotografia do acervo de João Tadeu Bastos da Silva, recolorizada com cuidado pelo HISTORITA)
Mais uma da banda do Divino, com Boá ao centro, cores originais.
Mais uma da banda do Divino, com Boá ao centro, cores originais.
  • Em 1973, durante as gravações da primeira versão da novela Mulheres de Areia em Itanhaém, Boá ia todos os dias com muito gosto acompanhar os atores.


Boá e atores da novela Mulheres de Areia (Maria Isabel de Lizandra, Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Zara) .1973 (Acervo da família, carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA. Cuidadosamente colorizada por IA)
Boá e atores da novela Mulheres de Areia (Maria Isabel de Lizandra, Gianfrancesco Guarnieri e Carlos Zara) .1973 (Acervo da família, carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA. Cuidadosamente colorizada por IA)
O ator Ivan Mesquita e Boá, 1973. (Acervo da família. Carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA)
O ator Ivan Mesquita e Boá, 1973. (Acervo da família. Carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA)
  • Em seu tempo enquanto vereador, e mesmo após, era comum que nas festas de aniversário dos filhos de Boá a cozinha ficasse tomada pelos políticos como Miguel Dias, Jaime de Castro, entre outros.


Boá e amigos na cozinha, década de 1970. Detalhe para a elegância dos tamancos! (Acervo da família. Carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA)
Boá e amigos na cozinha, década de 1970. Detalhe para a elegância dos tamancos! (Acervo da família. Carece de autorização expressa da família para uso, cedida ao HISTORITA)

Nos anos 1990, já sem a presença de Dr. Nogueira e da amizade com Chocolate, pois já tinham falecido, Boá ainda seguiria como funcionário público da saúde, vindo a se aposentar em 1993. Convidado pelo então prefeito João Carrasco para voltar a trabalhar após sua aposentadoria, Boá optou por não aceitar. Suas filhas relatam que já andava meio desanimado, meio triste, talvez pelas circunstâncias da passagem do tempo.


Nessa década, Boá se empenhou com outras pessoas para fazer com que a tradição da Festa do Divino não fosse abandonada. Por isso, é possível ver Boá participando dos festejos em algumas filmagens que estão disponíveis publicamente no canal do Youtube da APRODIVINO.


Aqui está um dos excertos nos quais Boá aparece. Não deixe de assistir os vídeos na íntegra no canal da APRODIVINO!


Boá regendo a banda do Divino (1994). Excerto do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=biFhOCWBqZM , do canal da APRODIVINO no YouTube.

Uma boa vida


Infelizmente, em 1999, Boá perderia sua companheira Maria Odete, com apenas 46 anos. Poucos meses depois, ele mesmo partiria, em 11 de outubro, de maneira inesperada, aos 77 anos. Partiu sem agonias, como merecia o homem que tanto lutou pela vida dos filhos e que salvou tantos milhares de pessoas com seus esforços na saúde.


Boá em 1994. Excerto do vídeo mencionado acima.
Boá em 1994. Excerto do vídeo mencionado acima.

O dia 12 foi um dia triste em Itanhaém, porque a cidade perdia um de seus filhos mais ilustres. Ilustre na simplicidade, na humanidade e sobretudo na generosidade sem limites.


O nome de Boá hoje orna a parede do lugar em que tanto dedicou sua vida: o posto de saúde do Centro, USF Antonio Mendes de Aguiar (Boá). É possível encontrar sua foto e uma pequena biografia lá dentro.


O retrato de Boá na USF Centro, 2026 (Foto do HISTORITA)
O retrato de Boá na USF Centro, 2026 (Foto do HISTORITA)

Mas mais que essa lembrança nominal, Boá deixou-nos legados muito mais vivos: seja a memória afetiva de quem foi socorrido por ele numa madrugada, ou de quem comeu de seu prato farto, de quem ouviu sua risada abafada no meio de um concerto, de quem cresceu vendo aquele homem de cachimbo na calçada, sempre pronto para uma conversa. Deixou filhos que o admiram com uma intensidade que só se constrói quando um pai faz de seu cotidiano um ato de carinho. Deixou uma cidade que, sem saber direito o nome verdadeiro dele, sabia muito bem quem ele era de verdade, e no que depender do HISTORITA, vai seguir sabendo por esse século XXI.


Antonio Mendes de Aguiar, o Boá, viveu 77 anos inteirinhos. Não desperdiçou nenhum deles.


O HISTORITA tem a certeza de que enquanto houver alguém em Itanhaém disposto a ouvir histórias de quem veio antes, o nome de Boá voltará à tona. E assim vai ser, com o mesmo calor com que a fumaça do seu cachimbo subia toda preguiçosa nas noites da Praça Carlos Botelho, enquanto a cidade dormia, protegida por um herói cujos feitos ressoam na saúde de tantas pessoas que a doença não atingiu, ou em tantas outras atingidas, mas por ele cuidadas. E oras, mesmo na gratidão das famílias que perderam seus entes e puderam se despedir deles com dignidade graças ao trabalho de Boá.


Para encerrar, deixo uma historinha.


Disse-me sua filha Ana Cláudia que certa vez encontrou-se com a neta da senhora D. Leonilda, que Boá conhecera. Essa senhora então disse à jovem, apresentando-a a Ana Cláudia:


— Essa moça é a filha do homem que não deixou a gente morrer de fome.


Boá compartilhava tudo do que recebia. E o que recebia era só o amor.


Obrigado, Boá!


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Pesquisa por: MOTA, Gustavo Caperutto da.


Agradecimentos: Ana Cláudia Ferreira Aguiar Maria do Rosário Aguiar Moreira João Tadeu Bastos da Silva

Toda a família Mendes-Ferreira-Aguiar

Fontes utilizadas:

A TRIBUNA. Inscrições aprovadas pela Liga de Amadores. 10 ago. 1941.

A TRIBUNA. Campeonato de Futebol do Litoral Paulista. 07 mai. 1947.

A TRIBUNA. AZEVEDO, Edison Telles de. Itanhaém de Outrora. 14 set. 1958.

CORREIO DO LITORAL. Quem é Quem: Antonio Mendes Aguiar. jul. 1960.

CORREIO PAULISTANO. [Debate sobre processo n. 449/59 — terraplanagem em Peruíbe]. 16 nov. 1960.

CIDADE DE SANTOS. Para o Sul, ARENA ganha todas. 17 nov. 1968.

CIDADE DE SANTOS. [Reeleição de Boá]. 18 nov. 1972.

CIDADE DE SANTOS. [Sobre o Museu Benedito Calixto]. 23 mar. 1971.

O DIÁRIO. CASTRO, Ribeiro de. O carvoeiro foi surrado por invisíveis dentro do poço que estava abrindo para encontrar a fortuna. Fotografias de Francisco Dias Herrera. 16 dez. 1948.

Fontes audiovisuais

APRODIVINO. Festa do Divino Espírito Santo de Itanhaém — parte 1. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=biFhOCWBqZM.


Acervos

Acervo fotográfico da família Aguiar. Itanhaém. Uso cedido ao HISTORITA.

Acervo fotográfico de João Tadeu Bastos da Silva. Itanhaém.

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