Carlos Botelho
- Gustavo da Mota

- 25 de jan.
- 8 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.

No Centro de Itanhaém, logo aos pés do Itaguaçu, há uma simpática pracinha que costuma se encher de gente nos dias em que há jogos de futebol sendo transmitidos. É a Praça Carlos Botelho, que tem muita história, da qual um passarinho me contou que logo ficaremos sabendo aqui no HISTORITA! Enquanto essas informações não vêm, posso trazer um tanto da história não da praça em si, mas do homem que dá nome a ela: o Dr. Carlos Botelho!
Carlos José de Arruda Botelho nasceu em 14 de maio de 1855 (segundo o "índice Calixto", dois anos mais novo que o pintor) em Piracicaba, cidade do interior do estado de SP, sendo o primogênito de Antônio Carlos de Arruda Botelho (que posteriormente foi barão, visconde e conde de Pinhal) e Francisca Teodora de Arruda Coelho.
Botelho iniciou seus estudos primários e secundários em Piracicaba e Itu, e depois mudou-se para o Rio de Janeiro, para cursar medicina. Em 1875, foi além: mudou-se para a França, onde se matriculou na Faculdade de Medicina de Paris, obtendo o grau de Doutor em Medicina em 1878, com apenas 23 anos, na especialização em cirurgia. Ele definitivamente não era, como diziam os antigos, "pouca porcaria"...

Após se formar, decidiu retornar ao Brasil. Revalidou seu diploma e iniciou sua prática médica na capital de São Paulo, especializando-se em técnicas cirúrgicas e trazendo em sua bagagem francesa procedimentos modernos que ainda eram novidades no contexto médico paulista.
Carlos Botelho foi reconhecido como um dos cirurgiões mais importantes de sua geração em São Paulo. Para se ter uma ideia de sua importância para a área, é registrado que ele foi responsável por introduzir práticas modernas de antissepsia e assepsia operatórias e realizou com sucesso procedimentos cirúrgicos inovadores para a época, como cirurgias de bócio.
No contexto social, existe o registro de seu casamento em 1883, com Constança Maria de Brito Filgueiras, com quem teve três filhos.
Toda a competência profissional de Carlos Botelho não passaria em brancas nuvens. Graças a ela, o cirurgião (e especialista em urologia também, diga-se de passagem) alcançou o cargo de primeiro diretor clínico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.

Nessa mesma década de 1890, Botelho também foi cofundador da Policlínica de São Paulo e da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (que mais tarde seria a Academia de Medicina de São Paulo), sendo presidente dessa entidade entre 1896 e 1897, onde apresentou trabalhos importantes sobre temas cirúrgicos distintos.
Para encerrar essa década movimentada, Carlos Botelho ainda instalou a Casa de Saúde Dr. Botelho no bairro do Brás em São Paulo, considerada uma das primeiras instituições hospitalares particulares, com recursos modernos para a época.


Até este ponto de nosso artigo, fica evidente que o bom doutor tinha muitos louros em seu favor devido a suas contribuições para a medicina paulista, mas...
... o que Itanhaém tem a ver com ele?
Acontece que, em 1904, o recém-eleito governador de São Paulo, dr. Jorge Tibiriçá, escalou Botelho para ser seu Secretário de Agricultura. Portanto, de 1904 a 1908, as ações do novo secretário se desenrolaram com a maestria pela qual ele primava em seu serviço médico.
Nessa época, a pasta estadual da Agricultura contemplava também setores do Comércio, Obras Públicas, Viação e Iluminação. E o homem se dedicava mesmo ao serviço público. Então foram muitos os seus feitos, dos quais trago alguns exemplos:
• Coordenou diversos projetos de infraestrutura, saneamento e modernização agrícola por todo o Estado;
• Participou ativamente do processo de saneamento do porto de Santos;
• Incentivou a irrigação agrícola (para produção do arroz), levantamentos cartográficos agrícolas e a pesquisa zootécnica;
• Apoiou a retomada da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ);
• Assinou o contrato de imigração que culminou na chegada do histórico navio Kasato Maru (1908). Por isso, ele foi considerado Patrono da Imigração Japonesa no Brasil.

... certo, mas e Itanhaém?
Pois bem, caro leitor ou leitora. Transcrevo agora um artigo do jornal A Tribuna, de 2 de outubro de 1907, sobre algo que ocorrera no dia 29 de setembro:
"A tradicional Vila de Itanhaém acaba de ser dotada com um dos principais melhoramentos - o abastecimento d'água - que há tantos anos os seus habitantes reclamavam em vão.
Esse salutar empreendimento foi levado a efeito, exclusivamente, pela boa vontade do sr. dr. Carlos Botelho, que tanto se tem dedicado pelo desenvolvimento dos municípios do nosso litoral.
A inauguração oficial e definitiva teve lugar em 29 do mês findo, a qual não pôde ser feita com assistência do dr. Carlos Botelho, que por se achar ausente do Estado, designou o sr. dr. Jonas Novaes para representar o governo do Estado nesse ato inaugural.
A festa, que correu muito animada, consistiu em uma sessão solene na Câmara Municipal, onde foram inaugurados os retratos a óleo, em tamanho natural, dos srs. presidente do Estado dr. Jorge Tibiriçá e dr. Carlos Botelho.
O sr. dr. Jonas Novaes declarou, em um belo discurso, que, em nome do governo do Estado e do dr. Carlos Botelho, congratulava-se com a Câmara e povo de Itanhaém pelo melhoramento que acabava de inaugurar, fazendo, de tudo, entrega oficial à Câmara e agradecendo, ao mesmo tempo, as saudações que eram feitas ao Governo do Estado, pelo sr. capitão Julio dos Santos, presidente da Câmara, e pelos demais oradores, em nome do povo.
Foi igualmente muito saudado nessa ocasião o sr. Eugênio Egas, que muito se tem interessado nestes últimos tempos, pelo bem-estar e progresso daquele vizinho município."
Aí está: Carlos Botelho foi responsável pelo projeto de abastecimento de água da ainda Vila de Conceição de Itanhaém. A caixa d'água que passara a abastecer toda a vila ficava em um local muito conhecido dos itanhaenses e turistas: na rampa do cruzeiro, que leva ao Convento de N. Sa. da Conceição de Itanhaém, logo após a dobra para a esquerda no sentido de quem sobe aquelas pedras íngremes (cuidado, pessoal).
Aqui chega o momento de trazer Benedicto Calixto à tona. Sabe-se que foi ele o pintor dos dois quadros a óleo, encomendados pela Câmara. Um desses quadros, justamente o de Carlos Botelho, pode ser visto ainda hoje! Basta fazer uma visita à Pinacoteca Alfredo Volpi, no Centro, e pedir para fazer uma visita guiada às obras que ficam no andar superior do edifício. Lá repousa o quadro.

E Calixto também é responsável por trazer o registro histórico referente a esse projeto de abastecimento de água. Em um de seus quadros, pintado em 1886, temos o seguinte cenário:

Esse quadro, por si só, traz várias reflexões interessantes, que posso elaborar num outro artigo, mas por agora, basta que usemos essa pintura para compará-la com outra, de 1920:

Veja só quem aparece: o casebre onde ficava a caixa d'água da cidade! Ao se clicar na imagem para ampliá-la, é possível enxergar os seixos de água escorrendo pelo cano "ladrão" da caixa. Ao que parece, isso era bastante frequente, ao ponto de Calixto retratá-lo, e a julgar pelas marcas de erosão que vemos ainda hoje sobre a pedra do morro do Itaguaçu.
E, por falar em hoje:



Agora que você já sabe de onde saiu o carinho itanhaense pelo dr. Caixa d'-- digo, Carlos Botelho, só nos resta encerrar este artigo contando o que foi da vida dele após 1908.
Em termos de política, posteriormente à atuação no governo estadual, Botelho foi eleito senador pelo Estado de São Paulo em 1919, com reeleição em 1927, posição que ocupou por diversas legislaturas.
Ao chegar 1930, porém, ele sentiu que talvez fosse hora de se aposentar e viver mais a vida em família. Passou, então, a frequentar cada vez mais a fazenda herdada de seu pai, em São Carlos, no interior de SP. Era a Fazenda do Pinhal, situada na antiga região rural que hoje corresponde ao distrito de Santa Eudóxia, área então pertencente ao território de São Carlos do Pinhal e por lá foi ficando.
A Fazenda do Pinhal tinha grande produção cafeeira, pecuária, e era campo de experimentações agrícolas de Botelho. Agora, tudo o que amara de maneira profissional enquanto Secretário da Agricultura era seu universo particular. Recebia lá os amigos de longa data e os muitos descendentes, com conforto merecido e muitas histórias para contar.
Em 20 de março de 1947, Carlos Botelho faleceu na fazenda, aos 92 anos. A Fazenda do Pinhal é hoje um patrimônio tombado e integrante do circuito histórico-cultural da região.



É inegável que o legado de Carlos José de Arruda Botelho vai muito além de um nome para a praça do Centro. Ele ajudou a modernizar procedimentos cirúrgicos que salvaram milhões de vidas com os anos, fez inúmeras benfeitorias no Estado de SP sob os mais variados âmbitos de sua pasta secretarial, sem se esquecer do litoral paulista. Sem se esquecer de Itanhaém.
Por isso, penso que Itanhaém também não deve jamais se esquecer dele.
O HISTORITA espera ter contribuído para a preservação da memória desse humanista que trouxe e segue trazendo a saúde - um dos maiores legados que alguém pode deixar.
Para encerrar, fique com um artigo do Correio Paulistano, de 1904, logo após Carlos Botelho se tornar Secretário da Agricultura:
(comece lendo pela esquerda inferior)

Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes:
ACADEMIA DE MEDICINA DE SÃO PAULO. Carlos José de Arruda Botelho. São Paulo: Academia de Medicina de São Paulo, s.d. Disponível em: https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/membros-academicos/carlos-jose-botelho/. Acesso em: 25 jan. 2026.
ACADEMIA DE MEDICINA DE SÃO PAULO. História da Academia de Medicina de São Paulo: perfis biográficos. São Paulo: AMSP, s.d. Disponível em: https://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/wp-content/uploads/14443347372015.pdf. Acesso em: 25 jan. 2026.
ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL DE ARARAQUARA (ACIAR). Carlos Botelho: médico, político e patrono da imigração japonesa. Araraquara, s.d. Disponível em: https://www.aciar.com.br/carlos-botelho. Acesso em: 25 jan. 2026.
CÂMARA MUNICIPAL DE PIRACICABA. Carlos José de Arruda Botelho – perfil histórico. Piracicaba: Centro de Documentação Histórica, s.d. Disponível em: https://historia.camarapiracicaba.sp.gov.br/vereador/106-carlos_jose_de_arruda_botelho. Acesso em: 25 jan. 2026.
CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 1903-1905.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE GOIÁS E GOIÂNIA (IHGGI). Carlos José de Arruda Botelho (1855–1947). Goiânia, 2022. Disponível em: https://ihggi.org/2022/01/08/carlos-botelho/. Acesso em: 25 jan. 2026.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Agricultura. Relatórios administrativos do Governo Jorge Tibiriçá (1904–1908). São Paulo: Typographia do Diário Oficial, 1909.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Relatórios técnicos e administrativos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 1905–1908.
SOCIEDADE DE MEDICINA E CIRURGIA DE SÃO PAULO. Anais da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. São Paulo: Typographia do Estado, finais do século XIX.




Comentários