Estanislau Gerônimo (Chocolate)
- Gustavo da Mota

- 13 de mar.
- 11 min de leitura
Atualizado: 22 de mar.

Um atleta esquecido de Itanhaém? Aqui no HISTORITA, tem! Hoje vamos falar do simpático Chocolate, cujo nome real era Estanislau Jerônimo, e que viveu na Itanhaém do século XX.
As informações que pude aferir em pesquisa sobre ele são um tanto escassas, então você já sabe: se você ou algum amigo tem histórias ou mais informações sobre o Chocolate, entre em contato pelo nosso Instagram @ohistorita! Eu farei questão de subir as informações aqui, dando crédito a você.
De Mocóca para Itanhaém
Estanislau Gerônimo nasceu em 11 de outubro de 1925, filho de Antonio Jerônimo e Malvina Rosa, na região de Mocóca em Caraguatatuba (SP). Lá, ele viveu por 12 anos, pois por alguma razão que desconheço sua família se mudaria toda para Itanhaém em 1938. Ou seja, na época, Estanislau tinha entre 12 e 13 anos.
Assim que chegou, ele foi empregado na lavoura num sítio nos arredores da cidade (possivelmente de bananas, a julgar pela época), e seria essa uma experiência que o deixaria marcado para toda a vida. Ele comentaria, já nos anos 1950, que as recordações dessa época não eram boas, porque como trabalhador rural ganhava uma miséria e trabalhava sem qualquer garantia ou assistência.
Isso o teria motivado a buscar emprego na região mais urbana, onde acabou conseguindo um cargo na Prefeitura, que na época era conduzida pelo farmacêutico e prefeito Jorge Rossmann (sim, o do Hospital Regional/Maternidade!).
Mas antes, é preciso dizer: Chocolate serviu no exército aos 18 anos, e chegou a ajudar a defender as obras do gasoduto de São Vicente.
Chocolate, o goleiro do E.C. São Paulo
Quando se mudou para Itanhaém, Estanislau morou no bairro da Vila Operária com a família, na já então Avenida Rui Barbosa. Era uma casa bem simples - um barraquinho, segundo sua filha mais velha, Benedita. Logo mais falaremos dela. Durante a década de 1940, temos então o nosso pesquisado ainda muito jovem, e por isso seria uma época em que ele fez muitas amizades e envolveu-se com a cidade pra valer, sobretudo no esporte. É bem possível que tenha sido no ramo esportivo que ele ganhou o apelido de Chocolate, pois os registros de suas aventuras futebolísticas e no halterofilismo trazem sempre esse nome.
Há registros em 1944 de Chocolate fazendo parte da equipe do E.C. São Paulo, que na época estava sob o comando de Manácio Apelian. É sabido que Estanislau jogou pelo menos por 2 anos, pois os registros de 1944 e 1945 apontam seu nome no quadro dos jogadores, na posição de arqueiro, ou seja, goleiro!
Chocolate inclusive esteve presente no mítico jogo de 7 a 1 de 1945, contra o Alvaro Alvim:

Tragédia familiar
Em 1949, Chocolate já estava se derretendo (perdoe-me pela piada) por sua amada, Maria da Cunha Soares, que era dois anos mais nova que ele. Em um de seus passeios para visitar os parentes em Caraguá, ele acabou trazendo-a de lá para morarem juntos. Ou seja, imagino que os passeios bem podiam ser para ver a amada também! Maria era sua prima distante (de mais de terceiro ou quarto grau).

Em 22 de julho de 1950, já há o registro do casamento deles no civil, em Itanhaém. Curiosamente, nesse registro é possível ver que sua profissão está como operário. No que será que Chocolate trabalhava nessa época?

Os detalhes que seguiram os primeiros anos de seu casamento são delicados.
Em primeiro lugar, nasceria no dia 1 de janeiro de 1951 a simpatissíssima (e brava!) Benedita de Lourdes Jerônimo (depois Zach). Em 1952, nasceria seu segundo filho Antonio.
Depois, em 6 de setembro de 1954, nasceria sua terceira criança, Teresa da Conceição. Mas quase um mês depois, em 4 de outubro, a menina Teresa faleceria.
E poucos dias depois, em 30 de outubro, o menino Antonio, então com 2 anos, também faleceria. Imagine, caro leitor ou leitora, a dor de Estanislau e Maria, perdendo dois filhos pequenos em menos de um mês. Mesmo Benedita, que era bem pequena, disse-me ter lembranças da comoção.
Mas a vida seguiu. Chocolate não esmoreceu e continuou trabalhando como podia. Nessa época, surgem registros dele como motorista. Terá sido motorista na Prefeitura?
Levantando-se do peso... e levantando peso!
Logo viriam novas figurinhas a coroar a casa dos Jerônimo de alegria. Em 26 de julho de 1957, nasceu a também simpatissíssima Maria Santana Jerônimo.
Após esse período, é possível que Chocolate tenha se envolvido ainda mais com os esportes, pois encontrei em minhas pesquisas registros que indicam que continuou jogando futebol e jogando capoeira habilmente. Benedita contou que Chocolate jogava sim bastante, nos campos onde estão o Saito da Av. João Baptista Leal e o Extra perto do Fórum, além daquele campo que existe até hoje no bairro da Guarda Civil. Segundo ela, as partidas eram bem intensas, com sua mãe Maria levando os filhos pra assistir aos jogos e se divertir, chamando a atenção dos juízes, que ficavam bravos com a torcida organizada!
Em 1958, porém, surge um registro desportivo inusitado. Chocolate foi um dos únicos dois atletas que se inscreveu para participar do V Campeonato Rústico de Levantamento de Pesos promovido pelo jornal A Tribuna na sede do Clube Sírio-Libanês, em Santos. Na verdade, Estanislau foi inscrito sob a Comissão Municipal de Esportes (CME), que era chefiada por Orlando Diz, como atleta apoiado pela Prefeitura.
O segundo atleta, por sinal, chamava-se Guilhermino Soares.

Saiba você, meu caro leitor ou minha cara leitora, que naquele ano, na categoria de meios-pesados, Chocolate ficou em terceiro lugar, levantando 69 kg!

No ano seguinte, os atletas santistas cobraram que a Prefeitura de Itanhaém, através da CME, registrasse novamente a dupla dinâmica para participar da sexta edição do Campeonato, tamanha havia sido a popularidade dos dois antes.




Na Coluna do Jornal
Em uma edição do jornal itanhaense Correio do Litoral, do fim da década de 1950, é possível encontrarmos a seguinte coluna Quem é Quem, a qual o HISTORITA faz questão de exibir em sua totalidade. Ela serve como um bom resumo até agora, além de ser o local onde encontrei a foto para criar a versão de IA que inicia nosso artigo.
Lembre-se que você pode clicar ou tocar na imagem para poder ampliá-la com os dedos, de modo a conseguir ler melhor:

Aqui temos a confirmação de vários detalhes da história e personalidade de Chocolate. Foi motorista para a Prefeitura, de fato, e usava seu caminhão para ajudar a população em emergências nas horas vagas. Tinha bom humor, espírito brincalhão, e praticava esportes mesmo ainda naquele ano. Tinha o sonho de construir uma casa própria no bairro do Ivoty.
E sim, ele conseguiria essa casa nos anos seguintes! A casa existe hoje, no mesmo local.
ATUALIZAÇÃO: Este artigo trazia antes um questionamento sobre quem seriam as duas filhinhas do papai mencionadas na coluna, e mostrava que o único nome que eu encontrei de um filho de Chocolate foi o de Paulo Roberto, o Foca, que agora sei que atravessava o Rio Itanhaém a nado. E sei disso porque contatos foram feitos, e hoje, 22 de março de 2026, eu tive o prazer imenso de me encontrar pela manhã com os quatro filhos de Estanislau e Maria!

E pense num papo bom! Decerto, herdaram o carisma e o carinho dos pais. E não só eles: havia também as netas de Estanislau e Maria. O DNA dos Jerônimo segue firme e forte!
Agora, caro leitor ou leitora, você deve ter percebido na legenda da foto acima que eu mencionei Carlos Alberto (Chocolate). Não foi erro, não: de fato, temos um Chocolate do século 21! E pasme: ele resolveu o quebra-cabeças que apresentei no artigo anteriormente. Veja abaixo.
Quem leu o artigo antes dessas atualizações de hoje vai se lembrar do seguinte, que eu vou transcrever mais uma vez:
"Outro fato que não pude confirmar foi a data certa da morte de Estanislau. Vou explicar. Não encontrei registros civis disponíveis sobre isso, mas alguns detalhes me levam a especular um período de anos, ao menos.
Acontece que existe hoje em Itanhaém, no bairro do Oásis, uma rua Estanislau Gerônimo, que com quase 100% de certeza foi denominada baseada em Chocolate. O primeiro registro da rua com esse nome é de 1983. Considerando que não é permitido pela legislação dar nomes de pessoas vivas a logradouro algum, então é fato que em 1983, Chocolate já havia falecido.
PORÉM!.. estávamos eu e minha querida esposa fazendo compras no Supermercado Saito da Avenida Cabuçu, no bairro do Sion há uns dias, quando me deparei com um painel enorme contando a história da família Saito. Como um bom colecionador de histórias, achei que seria interessante fotografar e depois ver em casa, com mais detalhes, tudo que estava escrito.

Já em casa, abri a foto... e para a minha surpresa, quem estava lá no cantinho:

Na próxima vez em que eu precisar comprar uma mistura no referido Saito, não tenha dúvidas de que vou tirar uma foto melhor. Foi golpe de sorte: mirei no Saito, acertei no Chocolate.
PORÉM!... o leitor ou leitora com olhos de águia já deve ter percebido um grande problema.
Na foto, o ano é 1984, mas se em 1983 já existia a rua (e há mais de um registro disso), então é impossível que Estanislau estivesse jogando em 1984, a menos que fosse batendo uma bolinha no céu.
Minha conclusão: a data na imagem deve estar equivocada, mas não deve ser muito distante: talvez 1982?
De qualquer modo, sabemos aqui então que Chocolate morreu cedo, talvez com nem 60 anos. Considerando que era um atleta e aparentemente tinha boa saúde, qual terá sido a causa de sua morte?"
Minha conclusão estava errada! Mas o leitor vai me perdoar, porque ela foi justificada.
E quem vem pra esclarecer as nuvens confusas da minha cabeça é ele: o Chocolate atual traz para o HISTORITA a informação que mata a charada: Oras, o Chocolate na foto do Saito de 1984 era ELE, Carlos Alberto, e não seu pai Estanislau! Carlos Alberto trabalhava no Saito na época.
Foi aí então que os filhos todos me confirmaram que Estanislau faleceu em 1976, e não na década de 1980, como eu havia imaginado. Foi no dia 15 de fevereiro de 1976, após sofrer adoecido por alguns meses.

Sua esposa, Maria Soares da Cunha Jerônimo, faleceria em 1991, deixando os quatro filhos.
Desse encontro com os Jerônimo, eu aprendi mais algumas coisas:
Lica contou que seu pai por vezes se envolvia em brigas (até por conta do futebol) e acabava indo parar na cela da Casa de Câmara e Cadeia, mas era só pra dar um "corretivo"nele, como se dizia antes: ele logo era liberado, porque todos o conheciam e sabiam que tinha sido só mais uma briga boba.
Lica também contou que certa vez faltou à escola porque sua mãe mandou que ela levasse uma marmita ao pai na cadeia.
E Lica também disse que ela uma vez deu uma coça numa certa menina abusada... mas isso são detalhes, meros detalhes! Segundo a própria, hoje ela já não é tão mais brava... E com certeza vai dar uma boa risada ao ler isso.
Ah! E que levou uma coça quando os pais ficaram sabendo da arte...!
Outro fato é que sim, Chocolate trabalhou aplicando vacinas e dirigindo ambulância em certa época. Ele trabalhou junto do Doutor Nogueira no posto de saúde que hoje se tornou um Centro Odontológico Municipal.
Um legado de força e doçura
A história de Estanislau Jerônimo, o Chocolate, é feita de pequenos fragmentos espalhados pela memória da cidade. Ele não foi um grande astro dos jornais esportivos da capital, nem um atleta de fama nacional, mas Chocolate foi algo muito mais raro: um dos personagens intrínsecos da vida cotidiana de uma cidade pequena, cuja importância não se mede por medalhas, e pelas lembranças que deixou.
E foram muitas as lembranças entre as pessoas! Desde a primeira publicação deste artigo, várias pessoas comentaram no particular com saudades de Chocolate, dizendo que ele havia sido prestativo, que aplicou vacinas, que era muito generoso e que tratava muito bem as crianças que iam aos jogos de futebol.
Chocolate foi goleiro do E.C. São Paulo por total paixão pelo esporte. Era grande, devia pegar todos os chutes ao gol! Também levantou peso representando Itanhaém em competições regionais quando o esporte era diferente do que temos hoje: era mais de coragem do que de estrutura.
Trabalhou como operário, depois como motorista, e segundo os relatos ajudava a população com seu caminhão em momentos de necessidade. Trabalhou também no posto de saúde, em época de grande escassez e perigos de doenças de tratamento difícil devido às limitações. Era, como descreveu o jornal da época, um homem de bom humor e espírito brincalhão.
Estanislau também conheceu a dor — e não foi pouca, não. Perdeu dois filhos pequenos em menos de um mês... Mas ainda assim, tudo indica que Chocolate seguiu em frente, continuou trabalhando, praticando esportes, criando a família e participando da comunidade.
Talvez seja justamente por isso que seu nome acabou gravado no mapa da cidade. Não teve essa honra por ter sido um herói desportivo distante, de glória nacional, e nem precisava. Chocolate foi alguém que viveu entre as pessoas, compartilhou suas dificuldades e alegrias, e deixou marcas suficientes para que, décadas depois, uma rua levasse seu nome.
Hoje, quem passa pela Rua Estanislau Gerônimo talvez não saiba quem foi o homem por trás da placa. Mas ali está, silencioso, um pequeno monumento urbano à memória de um atleta popular, de um trabalhador da cidade e de um personagem querido de uma Itanhaém que já não existe mais em tijolos e telhados originais, mas que está vivíssima na memória e no DNA da Itanhaém do século XXI.
E se este artigo conseguiu resgatar ao menos um pouco dessa história, então talvez possamos dizer que o apelido estava certo: o legado de Chocolate, afinal, continua sendo a pura doçura, comum a tantos itanhaenses de direito e de coração.
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Agradecimentos:
João Tadeu Bastos da Silva (quem fez a ponte para contatar o Foca)
Lica, Maria, Foca e Chocolate, os Jerônimos, e toda a família que surgiu de um casal humilde e batalhador.
Fontes:
A TRIBUNA. Campeonato rústico de levantamento de pesos: participação de atletas de Itanhaém. Santos, jan. 1958.
A TRIBUNA. Resultado do V Campeonato Rústico de Levantamento de Pesos. Santos, 24 jan. 1958.
A TRIBUNA. Atletas de Itanhaém no VI Campeonato Rústico de Levantamento de Pesos. Santos, 20 jan. 1959.
CORREIO DO LITORAL. Quem é Quem. Itanhaém, década de 1960.
O DIÁRIO. E.C. São Paulo vence o Álvaro Alvim por 7 a 1. 13 dez. 1945.
REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS DE ITANHAÉM. Certidão de casamento de Estanislau Gerônimo e Maria Soares da Cunha. Itanhaém, 22 jul. 1950.
REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS DE ITANHAÉM. Registro de nascimento de Teresa da Conceição Jerônimo. Itanhaém, 6 set. 1954.
REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS DE ITANHAÉM. Registro de óbito de Teresa da Conceição Jerônimo. Itanhaém, 4 out. 1954.
REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS DE ITANHAÉM. Registro de óbito de Antonio Gerônimo. Itanhaém, 30 out. 1954.
ACERVO PESSOAL DO AUTOR. Fotografia do painel histórico da família Saito no Supermercado Saito da Avenida Cabuçu, bairro Sion, Itanhaém. Itanhaém, mar. 2026.
ACERVO PESSOAL DO AUTOR. Fotografia do jogador Estanislau “Chocolate” Jerônimo em equipe de futebol local. Itanhaém, [s.d.].
HISTORITA. Acervo de pesquisa sobre Estanislau Jerônimo (Chocolate). Itanhaém, 2026.
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Justa homenagem ao grande CHOCOLATE. 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽