Praça Carlos Botelho: cotidiano e histórias - por João Tadeu Bastos da Silva
- Gustavo da Mota

- 8 de fev.
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Atualizado: 8 de fev.

Situada no Centro Histórico de Itanhaém, na subida da rampa que dá acesso à Igreja e Convento de Nossa Senhora da Conceição, recebe o nome do Dr. Carlos Botelho, médico renomado e homem público responsável pelo abastecimento de água na cidade.
Atualmente concentra vários bares e restaurantes, sendo muito procurada por turistas e moradores interessados na agitação da vida noturna. Difícil imaginar que, até alguns anos atrás, a praça era uma área estritamente residencial formada por um casario colonial, com seus moradores e suas histórias, e que pouco a pouco foram expulsos pela expansão urbana.

Apesar do nome oficial, era popularmente conhecida como Praça das Comadres. Ali existia um coreto rodeado de chapéus de sol onde as moradoras sentavam para tricotar, jogar conversa fora e logicamente fofocar. Daí o apelido jocoso.
As casas, alinhadas umas às outras, não tinham recuo; portas e janelas de frente para as calçadas. Tinham um pé direito bastante alto e os quintais estendiam-se até a Rua Antônio Olívio de Araújo, a rua de baixo. Nessa Praça, no número 45, passei grande parte da minha vida.

Na esquina com o Beco de Sant’Anna moravam Manácio Apelian e Filomena Dias Apelian. De origem armênia, Seu Manácio, juntamente com seu irmão José, era proprietário da Casa Armênia. Da casa sempre impecavelmente limpa e conservada exalava um cheiro de comida que dava “água na boca” nas pessoas que por ali passavam. D. Filomena, sempre zelosa, tinha o hábito de colocar os travesseiros sobre a janela para tomarem sol.
Vizinha aos Apelian, ficava a residência de Dona Massuê Yoshimoto. Num dos quartos funcionava a Arte Concha, lojinha especializada em objetos e enfeites feitos de conchas. D. Massuê, com sua paciência oriental, e sua filha Cecília, construíam peças originais que eram muito procuradas por turistas. Quando se quebrava algum bibelô em casa ou qualquer outro objeto, minha vó Pedrina levava para D. Massuê consertar. Ela tinha o costume de varrer a casa e a calçada à noite.
Certa vez, ainda criança, perguntei por que ela fazia isso. A resposta veio certeira:
- É porque no Japão é dia.

Nos anos 1950/1960, a residência de número 17 foi ocupada pelo Sr. Clemente Martins Ré e sua esposa Rafaela Delgado Gonçalez e família. Clemente e amigos jogavam cartas e dominó. Quando a filha Rafaela Martins Gonçalez, chamada de Faila se casou, foi conduzida à igreja pelo pai a pé, seguida por padrinhos e familiares. Posteriormente se mudaram para a Vila Operária, atual Vila São Paulo.
Os próximos moradores foram Sr. Jones e Dona Antonica, ambos com idades bem avançadas. Ela tinha problemas de audição. Tínhamos que gritar para sermos ouvidos. Seu Jones era exibicionista, mas convém encerrarmos por aqui.
Finalmente, a casa foi comprada por meu tio-avô e padrinho, Walter Apelian. Minha tia Noemia, sempre de bom humor, acolhia a todos e a casa vivia sempre cheia. Ela era funcionária do Ministério da Agricultura e diariamente verificava o pluviômetro, instrumento meteorológico utilizado para medir e coletar a chuva ocorrida em um determinado local.
Lembro que tal tarefa era realizada em vários horários, e o aparelho ficava na Rua João Mariano, mais precisamente naquela descida que dá acesso aos trilhos do trem. Muitas vezes acompanhei minha tia, principalmente na última medição, que era realizada às 21h30. Podemos dizer que a casa também foi a sede do Palmeirinhas Futebol Clube, formado por crianças e adolescentes, idealizado por Nivaldo de Oliveira, genro do casal Apelian.

Onde hoje é um escritório de contabilidade morou “Irmã” Carolina Ballio, neta de Leopoldino Antônio de Araújo, homem importante da história itanhaense. Vivia sozinha numa casa imensa e sem energia elétrica. Em seu interior, móveis belíssimos de madeira maciça dispostos em uma sala onde um altar de mármore completava a decoração. Fazia questão de ser chamada de Irmã, apesar de ter se desligado da ordem religiosa que pertencera.
Irmã Carolina Ballio era ótima bordadeira e cuidava dos paramentos litúrgicos, das toalhas e da decoração da Igreja Matriz de Sant’Anna. Também era responsável pela montagem da Casa do Império nas Festas do Divino Espírito Santo. Durante algum tempo, foi organista e responsável pelo Coral da Paróquia.
A próxima casa pertencia à tradicional família Soares: Seu Cyro, Dona Isabel e Dona Mercedes. Lembro vagamente que o senhor Cyro usava suspensórios e tinha dificuldade de locomoção. No corredor da casa que dava acesso à cozinha, havia uma mesinha ladeada por dois cadeirões cujo acento e encosto eram de madeira formando um conjunto bastante harmonioso. Minha vó Pedrina gostava muito desses móveis e acabou comprando as peças para decorar o corredor do nosso casarão. Com o tempo, a mesinha não resistiu, mas os cadeirões estão comigo até hoje.

Antonio Mendes Aguiar, o popular Boá, seus filhos e filha ocupavam a moradia onde hoje é o Bar Armazém. Era funcionário do Posto de Saúde e excepcional músico: tocava trombone e bombardino nas bandas e também abrilhantava os bailes de Carnaval realizados na sede do Esporte Clube São Paulo, onde havia funcionado o Gabinete de Leitura.
Boá trabalhava o dia inteiro e os filhos brincavam ou estudavam, deixando a casa vazia. Naquele tempo, não se trancava as portas e minha bisavó, Henriqueta Soares Pompeu, bastante idosa, adentrava o recinto e saboreava a comida que estava sobre o fogão, principalmente se era robalo ou tainha. Quando Boá chegava e via as panelas reviradas, ria e pensava: Dona Henriqueta andou por aqui.
No número 35, na sala da frente, funcionou por muitos anos o “Salão Grená”, especializado no embelezamento feminino. Era também a residência de Gilberto Pompeu, de sua esposa Maria Josefa (Maria Gomes), de sua filha Maria da Conceição (Chicha), do seu genro João e da agregada Isabel. Tia Maria, como era carinhosamente chamada, era a proprietária do salão onde histórias hilariantes aconteceram (algumas registradas no livro “75 anos, 75 textos, todos itanhaenses”, da pesquisadora Maria Tereza Leal Diz - a Teté).

Durante certa época, era rotina jogarmos cartas. As duplas eram formadas e sempre Gilberto jogava contra tia Maria. No decorrer da jogatina os ânimos ficavam exaltados. Gritos e xingamentos causavam um breve tumulto que logo era dissipado. Jogávamos para nos divertir, para passar o tempo e tudo se resolvia. Mesmo assim, Tia Maria, ficava “de bico” por um tempo.
Todos ali gostavam de animais, mais precisamente de cachorros e gatos. Tiveram vários cachorros, mas um foi especial: o pastor alemão de nome Theo. Era enorme, tinha um latido forte e assustava todo mundo. Theo era irmão de Moleque, um cachorro que pertencia à Conceição, a vizinha do 53 e cunhada de Maria Gomes. Quando os cachorros se encontravam em plena praça, era um Deus nos acuda. Apesar de irmãos, os cães se odiavam e era briga na certa. Em meio à gritaria, João pacientemente tentava separar os dois e muitas vezes ele também se feria.

Três janelões pintados de verde e uma porta bastante alta na mesma cor tornavam nossa casa uma das maiores da Carlos Botelho. Corredor imenso, salas e cozinha espaçosas e quartos menores, sendo um deles uma verdadeira alcova. O banheiro ficava do lado de fora, e em dias frios era um suplício tomar banho. Como não havia pia no banheiro, usávamos o tanque para lavar as mãos e escovar os dentes. Tudo de uma simplicidade franciscana.
O chão era de terra batida. Quando chovia, sentíamos a umidade penetrar nossos pés descalços.
O fogão à lenha ficava no canto direito da enorme cozinha. Era liso, com acabamento em vermelhão e não tinha aquele aspecto rústico tão característico das moradias caiçaras. Talvez por morarmos em área urbana, tinha um aspecto mais “modernoso”. Cascas secas de laranja ficavam penduradas sobre ele. Vez ou outra era o peixe seco que ocupava esse espaço, e eu, em minha meninice, achava muito estranho aquele animal aquático esturricado.
O velho fogão veio abaixo em 1961, e o piso foi substituído pelo famoso vermelhão.
O quarto das bagunças era o local onde as crianças tomavam banho em uma enorme bacia de alumínio. Certa vez, minha tia Noemia achou por bem banhar seu neto José Alberto no quarto da frente e Dona Zely Paniquar vinha contornando a praça com seu fusca quando perdeu o controle e entrou com tudo no quarto, só parando em frente a bacia com água. Foi um susto danado, mas tudo acabou bem e ninguém foi ferido.
A casa pertenceu a nosso antepassado, Zeferino Antonio Soares, e ali residiram as famílias Soares, Pompeu e Apelian. Com o tempo, várias reformas foram feitas na parte interna e a partir de 2002, seguindo o processo de urbanização, o velho casarão foi alugado para comércio.
As três últimas residências não seguiram os modelos coloniais. Ainda lembro da antiga casa de Adhemar Rivera, de Dona Conceição e seus dois filhos. Era como todas as outras, mas logo foi reformada adquirindo o aspecto atual, com terraço e muro baixo de pedras. Conceição, além de divertida, tinha uma paixão por animais. Teve vários cachorros, papagaios, um cágado e uma macaca. Adorava ensinar palavrões aos papagaios, e quando eles desandavam a falar, a vizinhança caía na risada. Só eram proibidos de falar perto dos padres que moravam na Casa Paroquial vizinha à subida do Convento.
China, a macaca, era terrível. De vez em quando, ela se soltava e acabava aprontando pela redondeza. Quando ouvíamos Conceição em alto e bom som xingar a macaca, era sinal que ela estava solta. Era hora de fechar a casa rapidamente para que ela não entrasse. Mesmo assim, ela subia na prateleira que ficava em cima do tanque, apertava o creme dental que ali ficava e passava nos dentes. Também pegava a caixa de sabão em pó e jogava em cima de seu corpo magro. Era uma confusão geral que somente terminava quando seus filhos conseguiam capturá-la.
No sobrado vizinho à casa de D. Conceição funcionou a Coletoria Estadual, unidade da Secretaria da Fazenda responsável pela arrecadação de tributos estaduais. O Coletor era o Senhor César e dona Odete Mosca Diz era funcionária. Posteriormente, com algumas adaptações, foi a moradia do senhor Nelson Quintas, de sua esposa Dona Olga e seus filhos e filhas. Não eram itanhaenses; tinham vindo de São Paulo, mas logo se adaptaram ao modo de vida caiçara e à vizinhança. Seu Nelson abriu um escritório de contabilidade no centro da cidade e D. Olga montou uma lojinha especializada em roupas infantis na parte térrea do sobrado. Por último, a família Watanabe morou ali, até se transformar em ponto comercial.

A última casa desse lado da praça não existe mais. Foi demolida recentemente, após ser vendida. Também era uma casa com terraço e muro baixo. Ali morou Miguel Simões Dias, futuro prefeito, sua esposa Dona Maria Graciette Dias e Márcia Maria Simões Dias, a primogênita do casal. Em tempos mais recentes, a casa tinha sido adquirida pela Chicha e acabou abrigando alguns cachorros abandonados.

Abordei apenas um lado da Praça Carlos Botelho. A última casa desse espaço foi construída por moradores de São Paulo que vinham passar as férias na cidade. Depois, foi ocupada por freiras de uma ordem religiosa. Atualmente é um restaurante japonês. Outras ficaram de fora, como a Casa Paroquial e a residência de seu Waldemar e Dona Cotinha, com seu terraço envidraçado e belíssimos vasos gigantescos enfeitando o jardim onde hoje está situada a Padaria Peg Pão.
Maria da Conceição, carinhosamente chamada de Chicha, foi a última moradora da praça. Tinha um amor muito grande pela praça e pela casa onde nasceu e viveu. Continuou morando ali, mais precisamente no número 35, cercada pelo comércio, pelo barulho e por toda agitação. Resistiu até o final, e só abandonou o local definitivamente quando partiu em maio de 2021.
A Praça das Comadres refletiu uma Itanhaém bucólica, onde todos se conheciam, viviam seu cotidiano recheado de histórias tristes, alegres, engraçadas, e acima de tudo felizes por desfrutarem dessas maravilhas que a vivência caiçara proporcionava. Alguém um dia afirmou: “sentir saudade é carregar alguém dentro de si”. Tenho absoluta certeza que muito de nós que ali vivemos temos dentro do coração a Praça Carlos Botelho, a famosa Praça das Comadres.
(João Tadeu Bastos da Silva, fevereiro de 2026).
Agradecimentos: Gustavo Caperutto da Mota, Maria Tereza Leal Diz, Joana Maria Merlin Soares Scholtes, Sonia Aparecida Lamping e Manuel Martins Poitena.



Que texto maravilhoso! Refletindo com vivacidade a vida dos moradores da Praça Carlos Botelho. Quantas lembranças e quantas emoções resgatadas. Quanta nostalgia!
Muito importante manter viva a história daquela praça tão especial e de seus moradores.
Mais uma vez, parabéns!
Muito bom, fiquei emocionada, eu e minha familia moramos numa dessas casas, amei o texto, obrigada Tadeu
Sensacional o texto do Sr. João Tadeu. São tantas lembranças lindas e pitorescas de alguém que nasceu e viveu grande parte de sua vida neste espaço tão peculiar de Itanhaém.
Sr. João Tadeu é um registro vivo da memória de Itanhaém. Parabéns!