top of page

Dr. Antonio Ribeiro Nogueira Junior

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • 1 de mai.
  • 15 min de leitura

Na minha adolescência jaçanense, eu escutava um dos hinos dos meus queridos Demônios da Garoa que dizia: "Eu não sei o que que há / que vantagem que ele faz / será que tem açúcar / no bigode do rapaz?"


Ao buscar uma imagem do popularíssimo rio-pardense de nascimento e itanhaense de carteirinha, o dr. Antonio Ribeiro Nogueira Junior, essa música me voltou à cabeça. Ao conhecer a história do Dr. Nogueira, percebi que além do açúcar no bigode, o rapaz tinha muito mais: o suficiente para se tornar a figura tão benquista por milhares de itanhaenses através das gerações.


Este artigo com certeza vai trazer surpresas tanto para quem ainda não conhecia essa figura quanto para quem já o conhecia. Naturalmente, o artigo não se propõe a ser uma biografia definitiva (nada aqui no HISTORITA é definitivo!), então você já sabe: se tiver coisas a acrescentar, fique à vontade para me contatar.


Pelo pouco que sei do dr. Nogueira, é bem possível que muita gente faça esse contato...


Vamos começar!


O rio-pardense na Revolução


Antonio Ribeiro Nogueira Junior nasceu em 12 de junho de 1911, na cidade de São José do Rio Pardo, em São Paulo. Foi filho do fazendeiro, capitalista e político Antonio Ribeiro Nogueira com dona Cherubina Ribeiro Nogueira.


Palacete de Antonio Ribeiro Nogueira (pai) em São José do Rio Pardo, começo do século XX. (del Guerra)
Palacete de Antonio Ribeiro Nogueira (pai) em São José do Rio Pardo, começo do século XX. (del Guerra)
Antonio Ribeiro Nogueira (pai), quando Presidente da Câmara de São José do Rio Pardo, 1920-1925. (del Guerra)
Antonio Ribeiro Nogueira (pai), quando Presidente da Câmara de São José do Rio Pardo, 1920-1925. (del Guerra)

O pai, Antonio Ribeiro Nogueira, era conhecido como "Nhô Ribeiro" pelos rio-pardenses, e tinha uma representação intensa na área agrícola e de pecuária da cidade, por conta de sua fazenda, a fazenda Santa Luzia. Há várias fotos de seus animais expostos em feiras, como em 1918. E mais: ele ficou famoso por criar um sistema de secagem de café, que batizou com o nome da fazenda.


Segunda exposição pecuária em São José do Rio Pardo. Estábulo onde estavam os animais de Antonio Ribeiro Nogueira (pai), 1918 (Revista A Vida Moderna)
Segunda exposição pecuária em São José do Rio Pardo. Estábulo onde estavam os animais de Antonio Ribeiro Nogueira (pai), 1918 (Revista A Vida Moderna)

Em minha pesquisa, não encontrei informações sobre o período escolar do Nogueira Junior, o que se é esperado. Se fosse alguém que estudou em alguma cidade grande, as informações teriam uma chance de estarem registradas num jornal. Mas não é o caso do nosso Junior...


A princípio, vamos especular que ele tenha estudado lá mesmo em São José do Rio Pardo.


Familiares da família Nogueira. O jovem Dr. Nogueira é o quarto em pé, da esquerda para a direita, com a criança ao lado. Foto provavelmente entre 1920-1930.
Familiares da família Nogueira. O jovem Dr. Nogueira é o quarto em pé, da esquerda para a direita, com a criança ao lado. Foto provavelmente entre 1920-1930.

A partir de 1930, porém, as informações surgem! Em abril de 1930, há o registro de Nogueira Junior na cidade do Rio de Janeiro, fazendo sua matrícula na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ali, com 19 anos, ele dava início a sua carreira.


Em abril de 1932, há um registro dele participando de um clube de remo amador, no Fluminense F.C.

Registros de amadores na Federação do Remo, 13 abr 1932 (A Noite)
Registros de amadores na Federação do Remo, 13 abr 1932 (A Noite)

Mas veja só: também em 1932, o que eclodiu no Brasil? Sim, é claro que você se lembra: a Revolução Constitucionalista! São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas! E bem, quem era paulista mesmo? O Nogueira Junior!


Foi assim, como voluntários por São Paulo, que tanto ele, quanto o primo Pedro Ribeiro de Andrade, deixaram a faculdade por um tempinho para viajar por algumas cidades de estado do café e dar apoio à Força Pública Paulista.


O primo de Nogueira Junior, com o uniforme como voluntário, que Nogueira Junior também deve ter usado, 11 ago 1932 (Diário Nacional)
O primo de Nogueira Junior, com o uniforme como voluntário, que Nogueira Junior também deve ter usado, 11 ago 1932 (Diário Nacional)


O Doutor... prefeito?


Em janeiro de 1936, Nogueira Junior finalmente se tornou o doutor Nogueira, graduando-se. Logo em seguida, começou a cursar a Especialização em Tuberculose.


Chamada da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1 set 1935 (Diário de Notícias)
Chamada da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1 set 1935 (Diário de Notícias)

Em 1937, o jovem médico resolveu se casar com a jovem (então com 17 ou 18 anos) Deozinda Silva Costa, uma moça nascida no Distrito Federal:


Proclamas de casamento, 5 mar 1937 (Diário Carioca)
Proclamas de casamento, 5 mar 1937 (Diário Carioca)

Após o casamento, ele voltou à cidade natal com a esposa. E lá, em 1938, aconteceu a primeira grande surpresa pra você, leitor ou leitora, principalmente se você conheceu o dr. Nogueira aqui em Itanhaém.


Em 3 de julho de 1938, ele foi empossado como Prefeito de São José do Rio Pardo. Pois é! O dr. Nogueira, quando veio anos depois para Itanhaém, já era um ex-prefeito.


Veja só. É esse artigo que nos deu a foto que ilustra nossa pesquisa aqui:


Posse de Dr. Nogueira como Prefeito de São José do Rio Pardo, 2 jul 1938 (Correio Paulistano)
Posse de Dr. Nogueira como Prefeito de São José do Rio Pardo, 2 jul 1938 (Correio Paulistano)

Temos inclusive uma fala do Dr. Nogueira nessa posse:


A posse do novo prefeito, Dr. Ribeiro Nogueira Jr., 6 jul 1938 (Correio Paulistano)
A posse do novo prefeito, Dr. Ribeiro Nogueira Jr., 6 jul 1938 (Correio Paulistano)

Dr. Nogueira tomou posse aos 27 anos! Terá sido ele o prefeito mais jovem da cidade?


Seu mandato durou pouco: de 25 de junho de 1938 a 10 de março de 1939, provavelmente por conta das mudanças governamentais do Estado Novo, aplicadas pelo interventor Ademar de Barros. Assim que se instalou o regime, Ademar de Barros saiu trocando prefeitos e vereadores, que haviam sido eleitos pelo voto, por escolhas diretas segundo o governo de Getúlio Vargas.


Lembremos que isso também aconteceu aqui em Itanhaém, com a prefeita Spasia Albertina Bechelli Cecchi.


Ainda que seu mandato tenha sido curto, há registros de Nogueira em São Paulo, encontrando-se como o Secretário da Educação da época. É possível especular que esses encontros resultaram em algo bastante positivo para a cidade: a retomada das obras do segundo Grupo Escolar, conforme podemos ver no Correio Paulistano:


Melhoramentos em São José do Rio Pardo pelo Dr. Nogueira, 19 fev 1939 (Correio Paulistano)
Melhoramentos em São José do Rio Pardo pelo Dr. Nogueira, 19 fev 1939 (Correio Paulistano)

Poucos dias depois, ele se reuniu com prefeitos da zona Mogyana para discutir a iniciativa de Mocóca de criar um hospital para tuberculosos:


Reunião de prefeitos da zona Mogyana, 21 fev 1939 (Correio Paulistano)
Reunião de prefeitos da zona Mogyana, 21 fev 1939 (Correio Paulistano)

Depois que deixou o cargo, temos uma incógnita de quase 3 anos em nossa pesquisa. Um novo registro só vai aparecer em 1942, e já com o Dr. Nogueira como médico em Itanhaém, participando de uma reunião com os prefeitos regionais sobre as necessidades de melhorias no litoral sul.


Se pensarmos no fato de que no final dos anos 1930 começaram a haver planos para melhoria sanitária com a criação do Departamento Nacional de Saúde por Vargas, é razoável imaginar que o Dr. Nogueira tenha sido encaminhado pelo Estado para assumir o Posto de Saúde de Itanhaém no processo.


Desquite e um mistério


Em 1945, Nogueira já estava bem naturalizado em Itanhaém, e tinha uma influência considerável, a ponto de fazer parte da primeira diretoria da Comissão Municipal de Esportes junto do ex-campeão brasileiro de natação Harry Forssell e da professora Nair Simões Dias, e foi escolhido como Presidente.


Criada a CME em Itanhaém, 27 fev 1945 (O Diário)
Criada a CME em Itanhaém, 27 fev 1945 (O Diário)
Empossados os membros da CME de Itanhaém, 18 jul 1945 (O Diário)
Empossados os membros da CME de Itanhaém, 18 jul 1945 (O Diário)

Em 1946, há nos registros civis o detalhe que Nogueira e sua mulher Deozinda entraram em processo de desquite, ou seja, separaram-se. Pra quem é mais novo: o desquite era uma forma de mudança do estado civil reconhecida por lei até 1977, que permitia que o casal vivesse em separado, mas que não extinguia o vínculo matrimonial. Ou seja, impedia que as pessoas se casassem novamente.


Guarde essa informação, caro leitor ou leitora. Estamos prestes a ficar bem confusos! Por enquanto, sigamos no tempo.


Em 1948, o Dr. Nogueira participou dos chamados Comandos Sanitários em Santos. A iniciativa era nada mais, nada menos do que uma tropa de vigilância sanitária composta por médicos de São Paulo e por Dr. Nogueira, além de assistentes, que visitava os comércios e locais onde poderia haver risco de contaminações variadas.


Coloco a notícia a seguir mais pelo registro, porque está recheada de detalhes sobre as podridões e irregularidades encontradas pelos Comandos. O nome do Dr. Nogueira só aparece no começo da segunda coluna.


Em plena atividade os "Comandos Sanitários", 4 jun 1948 (A Tribuna)
Em plena atividade os "Comandos Sanitários", 4 jun 1948 (A Tribuna)

Em 1950, Dr. Nogueira aparece como Presidente de seção eleitoral nas eleições daquele ano. Isso reforça a ideia de que ele amava servir à Itanhaém, fosse no Posto de Saúde, na CME ou como mesário.


Em 1951, chega até ele a triste notícia do falecimento de seu pai em São José do Rio Pardo. Agora vamos a um teste de observação, querida leitora ou querido leitor: quero que você leia a notícia do obituário que foi veiculada no jornal Estado de São Paulo e me diga se percebe algo meio esquisito...


Morre Antonio Ribeiro Nogueira (pai), 27 jun 1951 (O Estado de São Paulo)
Morre Antonio Ribeiro Nogueira (pai), 27 jun 1951 (O Estado de São Paulo)

E aí? Pegou algum detalhe misterioso?


O texto traz ali a informação valiosa dos nomes dos irmãos do Dr. Nogueira: João (que aparece sentado ao lado da esposa Messias naquela fotografia da família lá em cima), Francisco, Maria Rosa, Paulo e Amélia.


Mas o detalhe misterioso não é esse.


Seria então o fato de que o Antônio Ribeiro Nogueira pai foi casado 3 vezes? Primeiro com Amélia, depois com Cherubina (mãe do Dr. Nogueira) e por último com Maria Olinto.


Não, também não é isso. Atente-se para a linha que fala especificamente sobre o Dr. Nogueira. Ali, temos:


"Antonio Ribeiro Nogueira Junior, casado com d. Helena Junqueira Ribeiro."


Hã? Quem é Helena? E por que estava casada com o Dr. Nogueira, se ele não podia se casar?


Inclusive, se observarmos bem, vemos que seu irmão Paulo também se casou com uma mulher da família Junqueira, Vera. Seria irmã de Helena?


Confesso, caro leitor ou cara leitora, que não entendi nada. Sabemos que o Dr. Nogueira estava em desquite com sua primeira esposa, Deozinda - isso é um fato, o qual o HISTORITA conseguiu verificar através de documentos de registro civil.


Enquanto escrevo agora, surge-me uma teoria: será que essa Helena foi "casada" com Dr. Nogueira, sem vínculo matrimonial, mas vivendo como marido e mulher? Decerto, ela seria vista como esposa dele frente à sociedade (ainda que houvesse sussurros fofoquísticos).


Essa teoria definitivamente não parece absurda se considerarmos que alguns anos depois o Doutor Nogueira estava com uma nova companheira, vivendo maritalmente: Annete Marques, quem muitos itanhaenses conheceram como sendo sua esposa de fato, mas que não era casada no papel com ele, em virtude do desquite.


Dr. Nogueira, o médico aviador


Não existem registros, mas é possível imaginar que o Dr. Nogueira tenha conseguido um brevê como piloto de avião no Aero Clube de Santos entre as décadas de 1940 e 1950. Curiosidade: o Aero Clube santista ficava na região que hoje é o bairro Aviação na Praia Grande. Por isso o nome.


Em 1954, há um pedido de registro de horas de voo feito pelo doutor à Diretoria de Aeronáutica Civil, que comprova que ele já voava mesmo antes de Itanhaém ter um aeroporto. Contam os mais antigos que ele usava o que hoje é a Avenida Condessa de Vimieiros como pista de pouso e decolagem.


Registro de horas de voo, 5 ago 1954 (O Estado de São Paulo)
Registro de horas de voo, 5 ago 1954 (O Estado de São Paulo)

Em 19 de dezembro de 1954, inaugurou-se o Aeroporto Municipal de Itanhaém, e o Dr. Nogueira estava lá.


Inauguração do Aeroporto Municipal de Itanhaém, 30 dez 1954 (Correio Paulistano)
Inauguração do Aeroporto Municipal de Itanhaém, 30 dez 1954 (Correio Paulistano)

Em 20 de março de 1955, após pedidos da comissão da qual Dr. Nogueira fazia parte, foi entregue a Itanhaém sua primeira ambulância. O primeiro atendido por ela foi um jogador de futebol que se feriu e foi encaminhado pelo doutor a Santos. Esta próxima imagem está um pouco ruim de se ler, mas vale mais pelo registro histórico importante para a Saúde de Itanhaém.


Primeira ambulância em Itanhaém, 27 mar 1955 (Correio Paulistano)
Primeira ambulância em Itanhaém, 27 mar 1955 (Correio Paulistano)

Ainda em 1955, o jornal carioca A Noite promoveu um concurso entre seus leitores para definir quem eram os melhores engenheiros, advogados e médicos do Brasil. O Dr. Nogueira ficou em 32o. lugar entre 176 médicos, o que é surpreendente, visto que havia médicos ali de São Paulo e do Rio de Janeiro, e que os votos eram dados pelos leitores, ou seja, a popularidade do Dr. Nogueira era bastante, mesmo ele atuando em uma cidade ainda tão pequena à época, para que que 224 pessoas declarassem seu voto nele como melhor médico do Brasil.


Concurso de A Noite, 1955. Grifo nosso.
Concurso de A Noite, 1955. Grifo nosso.

Agora vamos a 1958, quando uma surpresa assustadora abalou Itanhaém: um avião Curtiss C-46 da Varig, que saiu de Porto Alegre com destino a São Paulo e ao Rio de Janeiro, vinha pelo mar próximo à cidade às 9h da manhã do dia 18 de abril. Nesse momento, os passageiros perceberam que a turbina da asa esquerda estava em chamas.


Urgido a tomar uma decisão para salvar o avião de uma tragédia, e o comandante e piloto Nelson, junto da tripulação, optaram por tentar um pouso emergencial no aeroporto municipal. À época, a pista do aeroporto ainda não comportava aviões maiores, como era o caso do C-46, pois não era longa o suficiente para frear o impulso do avião pousante.


O modelo Curtiss C-46 (via https://www.varig-airlines.com)
O modelo Curtiss C-46 (via https://www.varig-airlines.com)

O resultado foi que o avião pousou "de barriga", talvez por algum problema com o trem de pouso, indo para além da área da pista e entrando no charco.


O avião já parado, com moradores indo ajudar. É possível ver as colunas de fumaça ao lado esquerdo. 19 abr 1958 (A Tribuna)
O avião já parado, com moradores indo ajudar. É possível ver as colunas de fumaça ao lado esquerdo. 19 abr 1958 (A Tribuna)
Curiosos e ajudantes, 19 abr 1958 (A Tribuna)
Curiosos e ajudantes, 19 abr 1958 (A Tribuna)

Apesar da gravidade do pouso forçado, não houve feridos graves, mas o Dr. Nogueira esteve presente no local para tomar as providências necessárias.


Confira abaixo a matéria completa. Lembre-se que você pode ampliar a imagem para ler com mais detalhes:


Serenidade e perícia do piloto da "Varig" evitaram um grande desastre, 19 abr 1958 (A Tribuna)
Serenidade e perícia do piloto da "Varig" evitaram um grande desastre, 19 abr 1958 (A Tribuna)

Vacina e ação


Em 1959, Dr. Nogueira começou a receber no Posto de Saúde doses da vacina contra a poliomelite, ou paralisia infantil, e assim iniciou-se a campanha de vacinação em Itanhaém.


Iniciada a vacinação contra a paralisia infantil no município, 27 mai 1959 (A Tribuna)
Iniciada a vacinação contra a paralisia infantil no município, 27 mai 1959 (A Tribuna)

Vale lembrar que o querido Chocolate, Estanislau Gerônimo (ou Stanislau Jerônimo), foi assistente do Dr. Nogueira nesse período. Se você ainda não conhece essa figura, vale a pena dar uma lida no artigo sobre ele aqui do HISTORITA.


Ainda em 1959, no dia 31 de julho, Dr. Nogueira fez a primeira reunião para que fosse criado o Aero Clube de Itanhaém. Essa história reunião aconteceu no Gabinete de Leitura Itanhaense, que era na época sede do E.C. São Paulo.


Fundado o Aero Clube de Itanhaém, 2 ago 1959 (A Tribuna)
Fundado o Aero Clube de Itanhaém, 2 ago 1959 (A Tribuna)
Eleitos os membros da primeira diretoria do Aero Clube Local, 8 ago 1959 (A Tribuna)
Eleitos os membros da primeira diretoria do Aero Clube Local, 8 ago 1959 (A Tribuna)

E no final daquele mesmo ano, A Tribuna trouxe a notícia de que o Aero Clube oferecia aulas para formar pilotos. A primeira turma era composta de 7 alunos, que aprendiam a teoria diretamente com o Dr. Nogueira.


Escola de pilotagem inicia os trabalhos, 18 dez 1959 (A Tribuna)
Escola de pilotagem inicia os trabalhos, 18 dez 1959 (A Tribuna)

O primeiro voo solo, ou seja, sem a companhia do professor, foi feito em 1960, com dos sete alunos da primeira turma: Antônio Fortes Gatto. O fato foi bastante celebrado, inclusive com a presença do prefeito Harry Forssell e o coletor estadual Manoel Gatto, em um coquetel oferecido na sede do Aero Clube.


O Aero Clube de Itanhaém em 1965, 21 abr 1965 (O Diário)
O Aero Clube de Itanhaém em 1965, 21 abr 1965 (O Diário)

O Aero Clube de Itanhaém tem muita história, e merece um artigo só dele. Se você quiser ver esse artigo, ou se tiver informações que possam ajudar a construí-lo, entre em contato com o HISTORITA através de um dos nossos canais de comunicação disponíveis neste site.


Por enquanto, sigamos com o Doutor Nogueira. Em 1960, ele também foi nomeado diretor técnico do Aero Clube de Santos, então é possível presumir que ele tinha muito conhecimento de aviação, talvez de reconhecimento em todo o litoral, tal qual Francisco Paniquar Filho, que também será trazido ao HISTORITA muito em breve.


Em 1961, ele foi eleito como um dos participantes do Conselho Municipal Rodoviário, que observava o desenvolvimento da rodovia e toda a malha viária da cidade.


Em 1969, com a explosão de casos de esquistossomose (barriga d'água) no litoral, criou-se uma Campanha de Controle à Esquistossomose (CACESQ), que foi capitaneada pelo Dr. Nogueira em Santos, com auxílio da educadora sanitária Sirlei de Oliveira Campos. Juntos, buscavam organizar o tratamento e erradicação da doença em toda a Baixada Santista, com registros de sua atuação até em Pedro de Toledo.




No mesmo ano, e registrado como chefe do Posto de Puericultura de Itanhaém, Dr. Nogueira se viu diante de uma nova questão envolvendo aviões em Itanhaém: desta vez, uma queda com vítimas fatais, noticiada pelo jornal O Estado de São Paulo.


Enquanto trabalhava pela CACESQ, Dr. Nogueira também foi responsável pela vacinação com a Sabin, a "gotinha" contra a poliomelite, visto que em 1970 ele se tornou chefe do Distrito Sanitário do Litoral Sul, que cuidava de Miracatu a Cananeia.


No ano de 1972, ele apareceria novamente nos jornais, agora no Jornal da Noite (RJ) de 07 de feveireiro, com a notícia de que as buscas por uma aeronave desaparecida na região da Serra do Mar já se estendiam por quase duas semanas sem resultados concretos. O Aero Clube de Itanhaém se empenhou em participar das buscas, com a orientação do Dr. Nogueira, e fizeram sobrevoos em vários pontos entre o litoral e a capital paulista, incluindo vales como os de Itapanhaú, Rio Branco, Mambú e Biritiba-Mirim.


Infelizmente, as buscas não deram resultado.


Em 1973, ele surge nos registros como chefe do Centro de Saúde de Itanhaém, além de fazer parte da fundação do Conselho da Comunidade do Município de Itanhaém (CCMI):


Conselho da Comunidade do Município de Itanhaém, 6 set 1973 (Cidade de Santos)
Conselho da Comunidade do Município de Itanhaém, 6 set 1973 (Cidade de Santos)

Os anos finais de Dr. Nogueira


Em 1974, segundo matéria de A Tribuna, o Dr. Nogueira fez vistorias em feiras e comércios da cidade para verificar os peixes lá vendidos, por conta do surgimento de muitos peixes mortos no Rio Aguapeú. Os peixes surgiam às margens do rio com manchas azuladas pelo corpo, e Dr. Nogueira temia que eles pudessem estar sendo envenenados pelo uso de pesticidas nas plantações que margeavam o rio. Essa conclusão se deu porque os peixes mortos surgiram por dez dias, e depois que foi feita a denúncia à CETESB, a mortandade diminuiu; ou seja, quem a provocou ficou com medo das consequências e interrompeu a atividade - fossem pesticidas ou ainda a pesca com dinamite, teoria trazida por José Rodrigues Poitena (o Zeca Poitena, pescador da estátua na Boca da Barra), que era proibida por lei.


Além disso, nesse mesmo ano houve um surto de sarna na prisão da cidade, e o Dr. Nogueira encaminhou o dermatologista dr. Benedito para resolver a situação.


Surto de sarna na prisão de Itanhaém, 25 jul 1974 (Cidade de Santos)
Surto de sarna na prisão de Itanhaém, 25 jul 1974 (Cidade de Santos)

Em 1975, uma situação dos chamados "ossos do ofício" aconteceu:


Agressão ao Dr. Nogueira por paciente em surto, 7 nov 1975 (Cidade de Santos)
Agressão ao Dr. Nogueira por paciente em surto, 7 nov 1975 (Cidade de Santos)

Detalhe divertido: o Doutor Nogueira tinha 64 anos na época, e não 24, como diz a matéria.


Ainda nesse mesmo ano, o Dr. Nogueira já estava encarando casos de encefalite e meningite que se espalhavam pelo sul do estado e traziam casos a Itanhaém, ainda que em menor número se comparado ao surto que se instalava em Iguape, por exemplo.


Agora, a falta de informações nos obriga a dar um salto temporal, como você já sabe, cara leitora ou caro leitor. Nós vamos para o ano de 1984, onde o registro civil do casamento de Dr. Nogueira com Deozinda traz uma informação curiosa: apenas nesse ano é que foi formalizado o divórcio entre os dois, ou seja, apenas aos 73 anos ele poderia se casar novamente.


Já em 1986, uma reportagem da época no jornal A Tribuna do dia 29 de setembro descreve uma cerimônia realizada ao ar livre, em Itanhaém, que marcou a entrega de melhorias no Aero Clube, reunindo autoridades civis e militares. Nessa cerimônia, foi inaugurada uma nova área destinada a embarque e desembarque de passageiros, além de uma sede social renovada.


O conteúdo da matéria indica que a solenidade incluiu o hasteamento de bandeiras e execução do Hino Nacional, com participação de autoridades como o prefeito Edson Baptista de Andrade e dirigentes do clube. Em discurso, o prefeito teria destacado a contribuição de Dr. Nogueira, apontando-o como um dos fundadores e principais apoiadores do Aero Clube.


Infelizmente, de 1986 a 1991, a única informação que temos é que o dr. Antonio Ribeiro Nogueira Junior faleceu em sua casa em Itanhaém aos 79 anos, sob um quadro de broncopneumonia e demência, no dia 23 de janeiro de 1991. Aqui, faltam informações se sua companheira Annete Marques ainda vivia, se vivia com ele, e se tiveram filhos. Não encontrei esses dados em minha pesquisa.


Dr. Antonio Ribeiro Nogueira Junior hoje


Quem é hoje o Dr. Nogueira? Bem, espero que após sua leitura deste artigo, sua figura tenha ganhado novo fôlego, para além do nome com o qual foi batizado o aeroporto de Itanhaém: Aeroporto Estadual Antonio Ribeiro Nogueira Jr.


Aeroporto Estadual Antonio Ribeiro Nogueira Jr. em 2020 (Prefeitura de Itanhaém)
Aeroporto Estadual Antonio Ribeiro Nogueira Jr. em 2020 (Prefeitura de Itanhaém)

Uma certeza, eu tenho: você, caro leitor ou leitora itanhaense, com certeza tem mais a falar sobre o doutor por ele não ter sido uma figura tão antiga na história da cidade. Se quiser compartilhar suas memórias, basta contatar o HISTORITA através de um dos canais que você encontra por aqui. Sinto que ainda falta uma fotografia boa dele já na terceira idade. Será que você consegue?


Um forte abraço do HISTORITA, e até breve!


Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes utilizadas:

A NOITE. Registros de amadores na Federação do Remo. Rio de Janeiro, 13 abr. 1932.

A TRIBUNA. Em plena atividade os "Comandos Sanitários". Santos, 4 jun. 1948.

A TRIBUNA. O avião já parado, com moradores indo ajudar. Santos, 19 abr. 1958.

A TRIBUNA. Serenidade e perícia do piloto da "Varig" evitaram um grande desastre. Santos, 19 abr. 1958.

A TRIBUNA. Iniciada a vacinação contra a paralisia infantil no município. Santos, 27 mai. 1959.

A TRIBUNA. Fundado o Aero Clube de Itanhaém. Santos, 2 ago. 1959.

A TRIBUNA. Eleitos os membros da primeira diretoria do Aero Clube Local. Santos, 8 ago. 1959.

A TRIBUNA. Escola de pilotagem inicia os trabalhos. Santos, 18 dez. 1959.

A VIDA MODERNA. Segunda exposição pecuária em São José do Rio Pardo. São Paulo, 1918.

CIDADE DE SANTOS. Conselho da Comunidade do Município de Itanhaém. Santos, 6 set. 1973.

CIDADE DE SANTOS. Surto de sarna na prisão de Itanhaém. Santos, 25 jul. 1974.

CIDADE DE SANTOS. Agressão ao Dr. Nogueira por paciente em surto. Santos, 7 nov. 1975.

CORREIO PAULISTANO. Posse de Dr. Nogueira como Prefeito de São José do Rio Pardo. São Paulo, 2 jul. 1938.

CORREIO PAULISTANO. A posse do novo prefeito, Dr. Ribeiro Nogueira Jr. São Paulo, 6 jul. 1938.

CORREIO PAULISTANO. Melhoramentos em São José do Rio Pardo pelo Dr. Nogueira. São Paulo, 19 fev. 1939.

CORREIO PAULISTANO. Reunião de prefeitos da zona Mogyana. São Paulo, 21 fev. 1939.

CORREIO PAULISTANO. Inauguração do Aeroporto Municipal de Itanhaém. São Paulo, 30 dez. 1954.

CORREIO PAULISTANO. Primeira ambulância em Itanhaém. São Paulo, 27 mar. 1955.

DIÁRIO CARIOCA. Proclamas de casamento. Rio de Janeiro, 5 mar. 1937.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Chamada da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1 set. 1935.

DIÁRIO NACIONAL. O primo de Nogueira Junior, com o uniforme como voluntário. São Paulo, 11 ago. 1932.

GUERRA, Rodolpho José del. Riquezas do baú provinciano. Grass, 2000. 264 p.

O DIÁRIO. Criada a CME em Itanhaém. Itanhaém, 27 fev. 1945.

O DIÁRIO. Empossados os membros da CME de Itanhaém. Itanhaém, 18 jul. 1945.

O DIÁRIO. O Aero Clube de Itanhaém em 1965. Itanhaém, 21 abr. 1965.

O ESTADO DE SÃO PAULO. Morre Antonio Ribeiro Nogueira (pai). São Paulo, 27 jun. 1951.

O ESTADO DE SÃO PAULO. Registro de horas de voo. São Paulo, 5 ago. 1954.

VARIG AIRLINES. O modelo Curtiss C-46. Disponível em: https://www.varig-airlines.com. Acesso em: 01 mai. 2026.

Comentários


 

© 2026 HISTORITA — História de Itanhaém 

por Gustavo C. da Mota

 

bottom of page