Spasia Albertina Bechelli Cecchi
- Gustavo da Mota

- 3 de fev.
- 9 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.

Primeira-dama? Não... Dama primeira! Aspasia Albertina Bechelli Cecchi, ou Albertina Cecchi, como ficou mais conhecida, foi a primeira prefeita de Itanhaém, eleita em 23 de maio de 1936, após uma intensa disputa eleitoral que contou com traições denunciadas.
Antes de chegarmos a essa data, entretanto, cabe-nos reconhecer os dados biográficos de Spasia. Ela nasceu em São Bernardo (SP), como Spasia Albertina Bechelli, no dia 29 de dezembro de 1899. Foi filha de Lorenzo (Lourenço) e Maria Bechelli.
Em 14 de janeiro de 1900, ela foi batizada:

Infelizmente, após essa data, não há praticamente qualquer registro sobre ela sua infância ou adolescência. O que se pode depreender vem através de pesquisas da Prefeitura de Itanhaém com o Departamento de Comunicação Social da Secretaria de Governo, e de informações trazidas por Ernesto Bechelli e Fulvio Bechelli, no ano de 2016, e que foram a base para um artigo escrito por Ademir Médici, do Diário do Grande ABC de 1 de novembro daquele ano.
Segundo o artigo, Spasia conheceu Mansuetto Cecchi enquanto estava de viagem na Itália. Não se sabe exatamente o local dessa viagem, mas conhece-se que foi ali que o casal nasceu. Casaram-se, e Mansuetto imigrou em definitivo para São Bernardo para tocar a vida ali com sua Spasia.
Por alguma outra razão (especulo que seja profissional), o casal se mudou: residiram em Ribeirão Pires, e depois se mudaram novamente, desta vez para Itanhaém. Há registro em 5 de fevereiro de 1934 de que Spasia e ele já moravam por estas bandas, mais especificamente no Suarão. Mansuetto era madeireiro explorador da caxeta, madeira então muito comum nas áreas alagadiças do litoral paulista. Ele possuía uma serraria, também no Suarão, aparentemente já alguns anos, visto que tinha acordado de vendê-la, com todo maquinário, a outro descendente de italianos, Ricardo Giacomoli Severi.
Essa informação é importante, pois nos dá a data oficial mais antiga de moradia de Spasia em Itanhaém. O contrato de venda da serraria de seu marido data de 21 de outubro de 1933. E novamente, se era a venda de uma serraria já completa, é de se imaginar que Spasia e Mansuetto já estivessem na cidade há um tempo considerável.
Poucos meses após a venda da serraria, Ricardo Giacomoli deixou de pagar uma prestação da compra e Mansuetto entrou com processo para pedir a reintegração de posse de tudo o que foi vendido. Ricardo teria inclusive viajado para o Rio de Janeiro, e não se tinha mais notícias dele em Itanhaém.
Eis o registro completo, do jornal Gazeta Popular:

Após essa data, o que existe são registros já do que se sabe: de quando Spasia foi eleita Prefeita, em 1936. Ainda assim, vale-nos a pena observar as circunstâncias desse evento.
Na Tribuna de 3 de março de 1936, há esta notícia do Partido Constitucionalista:

Em 12 de março, foi publicada a chapa do Partido Republicano Paulista:

Em 15 de março ocorreu, de fato, a eleição, sendo eleitos 7 vereadores misturados dos dois partidos. Chegava então a hora desses vereadores votarem em um candidato a prefeito.
Para a surpresa da população de Itanhaém, foi postada a seguinte missiva na Tribuna de 13 de maio de 1936:

Qual foi a razão para que os quatro vereadores decidissem que precisavam abertamente declarar seu voto em Spasia, em carta publicada no maior jornal do litoral?
Bem, vamos por partes. Nessa época, o povo votava e elegia os vereadores, e os vereadores votavam e elegiam o prefeito. Era uma eleição indireta, mas ainda considerada soberana, visto que os vereadores estavam ali como representantes diretos do povo. Mas não era comum declarar voto assim, em jornal...
Na sexta-feira, dia 22, às vésperas da eleição que seria no dia 23, surgiu mais uma notícia:

Aqui fica bem nítida a situação: quatro vereadores, dois do Partido Constitucionalista e dois do Partido Republicano Paulista, já haviam se comprometido a votar em Spasia, candidata por essa maioria de 4 vereadores em 7. Essa organização deixou de lado três vereadores: Elcio Simões de Carvalho, Octacílio Dantas e Jorge Rossmann (sim, o mesmo que dá nome ao Hospital Regional da cidade). Essa minoria optou por um segundo candidato a prefeito, Oscar Simões de Carvalho, mas não havia mais o que fazer: a eleição seria 4 votos para Spasia e 3 para Oscar. A essa altura, fazer a cerimônia de votação era apenas uma burocracia política.
No dia seguinte, no próprio dia da eleição, A Tribuna trouxe pela manhã uma carta reveladora:

Segundo o candidato a prefeito que não seria eleito, Oscar Simões de Carvalho, houve um ato de traição política! Ele diz que houvera, no dia 17 de abril, uma reunião no Paço Municipal com membros do Partido e os vereadores, e ali ficara acertado que todos votariam nele. Foram abraços e apertos de mão entre todos, e o candidato ficou tranquilizado de que seria o próximo prefeito de Itanhaém.
Imaginem a surpresa de Oscar quando abriu as páginas do jornal no dia 13 de maio e se deparou com a nota que já vimos aqui?
É interessante notar que, em sua fala, Oscar deixa claro que quem mandaria em Itanhaém seria um estrangeiro, ou seja, Mansuetto, que, segundo ele, tinha aspirações políticas, mas não poderia jamais ter qualquer cargo, visto que não era brasileiro. Ele nem menciona Spasia - do jeito que ele traz as palavras, dá a entender que ele nem considerava que a candidatura dela pudesse ser genuína.
No dia 25 de maio, segunda-feira após a eleição, a Tribuna trouxe isto:

E aqui uma breve nota da Prefeitura, datada de 13 de julho de 1936:

Tudo parecia razoavelmente normal, até que em 17 de setembro ainda do mesmo ano, surge esta bomba:

O Partido Constitucionalista afirma que votou contra um projeto de aumento da conta de eletricidade, a qual não deveria ter aumento até 1949, segundo o contrato pré-estabelecido com a empresa - cujos motores geradores eram de Mansuetto Cecchi. O pedido de aumento foi feito por ele e teve aprovação plena pela Câmara, já que eram quatro vereadores os governistas e apenas três da oposição. Essa é a razão pela qual Ercio diz que há um grave conflito de interesses, sendo Spasia casada com Mansuetto.
Não cabe ao HISTORITA tecer juízo; meu papel é mostrar os fatos, simplesmente.
Em 1937, as coisas parecem ter se aquietado um bom tanto. Eis uma notícia pitoresca:

Outra notícia importante desse ano foi esta, em 31 de outubro:

Spasia foi responsável por conseguir esse financiamento com o então governador Armando de Salles Oliveira. A estrutura hídrica da cidade se modernizou muito com isso (terá sido nessa época que foi removida a caixa d'água no morro Itaguaçu? O HISTORITA irá pesquisar!). É possível inferirmos que a saúde pública pode ter conseguido um salto de melhoria na qualidade, em virtude do acesso à água potável.
Spasia Albertina Bechelli Cecchi só seguiria em seu mandato por mais 10 dias, visto que, em 10 de novembro de 1937, o então presidente Getúlio Vargas instaurou no Brasil a ditadura nacionalista do Estado Novo. Com esse golpe de Estado, dissolveram-se as Câmaras Municipais, e Spasia se viu destituída de seu cargo. Foi um período breve de governo, mas essencial: em pouco mais de um ano, Spasia foi responsável pelo financiamento do programa hídrico. Outras pesquisas indicam que ela teria atuado em favor da alfabetização e da habitação, mas nossa pesquisa não trouxe esses dados, então não podemos afirmá-los.
Em 27 de maio de 1939, uma história curiosa envolveu Mansuetto, e o seguimento nos deu a chance de conhecer sua aparência (clique ou toque na imagem para aumentá-la e conseguir ler):


Um grande mal-entendido, fruto da falta de comunicação rápida, e que com certeza deve ter deixado Spasia bastante preocupada com o marido!
E por falar em Mansuetto, mais notícias sobre ele, de 29 de junho de 1939, no Correio Paulistano:

Em 1940, o casal Cecchi estava ainda em Itanhaém, a julgar por esta nota na Tribuna de 18 de maio daquele ano:

Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, por conta da proibição de que estrangeiros morassem no litoral do Brasil, Spasia e Mansuetto se viram forçados a voltar para Ribeirão Pires, onde teriam vivido o resto de suas vidas. Essa informação parte da pesquisa dos primos Bechelli.
A partir daí, tem-se o registro de que Spasia faleceu em 1964 (63 anos), quando estava em viagem pela Itália. Mansuetto faleceria em 1970, também em viagem pelo país de origem. Eles não tiveram filhos - e talvez parta daí a dificuldade em encontrar fotos e informações sobre eles.

Antes de encerrarmos, vai aqui um bônus. Até antes da publicação deste meu artigo aqui pelo HISTORITA, a única imagem conhecida de Spasia era a que foi publicada em sua eleição. Entretanto, através da pesquisa que desenvolvi, consegui encontrar uma nova imagem dela, que nos dá uma outra visão da Prefeita, diferente da anterior: não estava preparada para um ensaio fotográfico, nem foi editada.
Acontece que em 16 de julho de 1936, ou seja, pouco tempo após sua eleição, Spasia participou de um evento como Prefeita de Itanhaém, tendo sido reconhecida como tal. Foi a inauguração das novas instalações da Capitania dos Portos do Estado de São Paulo, em Santos (Conselheiro Nébias, 170, onde havia funcionado o Club XV do Carnaval santista - alô, dr. Cunha Moreira!).
A edição da Tribuna do dia 17 trouxe fotografias do evento e a lista de presentes. É possível vermos, então, Spasia junto de outras mulheres.

Como eu mencionei no início deste artigo, pouco se sabe sobre os pormenores da vida de Spasia que não girem ao redor de seu mandato como prefeita. Ainda assim, espero que o HISTORITA possa ter trazido informações interessantes e novas para somar às que já se conhece.
Um detalhe, antes de encerrarmos: muito ainda se fala em Itanhaém que Spasia foi a primeira prefeita mulher do Estado de SP. Sabe-se hoje que não foi bem esse o caso. A primeira prefeita de SP foi Maria Teresa Silveira de Barros Camargo, em 1934, na cidade de Limeira. Já a primeira prefeita do Brasil foi Luiza Alzira Soriano Teixeira, em 1928, em Lajes, no Estado do Rio Grande do Norte.
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes:
A TRIBUNA (Santos). Chapa Constitucionalista das eleições para vereador em Itanhaém. Santos, 3 mar. 1936.
A TRIBUNA (Santos). Chapa do Partido Republicano Paulista para eleição de vereadores. Santos, 12 mar. 1936.
A TRIBUNA (Santos). Aviso ao povo de Itanhaém. Santos, 13 maio 1936.
A TRIBUNA (Santos). Sobre a instalação da nova Câmara de Itanhaém. Santos, 22 maio 1936.
A TRIBUNA (Santos). Ao povo de Itanhaém. Santos, 23 maio 1936.
A TRIBUNA (Santos). Nota sob a fotografia de Spasia Albertina Bechelli Cecchi. Santos, 25 maio 1936.
A TRIBUNA (Santos). Imposto cedular sobre a renda de imóveis rurais. Santos, 17 jul. 1936.
A TRIBUNA (Santos). Reclamação sobre o aumento da luz em Itanhaém. Santos, 17 set. 1936.
A TRIBUNA (Santos). Spasia Albertina Bechelli Cecchi em Itariri, assistindo a jogo de futebol. Santos, 1937.
A TRIBUNA (Santos). Obras hídricas financiadas pelo Estado. Santos, 31 out. 1937.
A TRIBUNA (Santos). Inauguração das novas instalações da Capitania dos Portos do Estado de São Paulo. Santos, 17 jul. 1936.
A TRIBUNA (Santos). Enlace Dias–Apelian. Santos, 18 maio 1940.
CORREIO DA TARDE (São Paulo). Mansuetto Cecchi não embarcou no avião acidentado. São Paulo, 27 maio 1939.
CORREIO DA TARDE (São Paulo). Seguimento da notícia com fotografia de Mansuetto Cecchi. São Paulo, 29 maio 1939.
CORREIO PAULISTANO (São Paulo). Extração de caxeta no litoral paulista. São Paulo, 29 jun. 1939.
GAZETA POPULAR (São Paulo). Processo de reintegração de posse movido por Mansuetto Cecchi. São Paulo, 1934.
MÉDICI, Ademir. Spasia Albertina Bechelli Cecchi: a primeira prefeita de Itanhaém. Diário do Grande ABC, Santo André, 1 nov. 2016.
PARÓQUIA DE SÃO BERNARDO. Registro de batismo de Albertina Bequelli. São Bernardo do Campo, 14 jan. 1900.
PREFEITURA MUNICIPAL DE ITANHAÉM. Departamento de Comunicação Social da Secretaria de Governo. Levantamento histórico-administrativo sobre Spasia Albertina Bechelli Cecchi. Itanhaém, s.d.
BECHELLI, Ernesto; BECHELLI, Fulvio. Informações biográficas e familiares sobre Spasia Albertina Bechelli Cecchi. Pesquisa familiar e depoimentos, 2016.




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