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"Irmã" Carolina Ballio

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
6 de jul.
9 min de leitura

Sim, querido leitor ou querida leitora do HISTORITA, você está vendo certo. Essa imagem pequenininha aí, da década de 1960, é a única imagem que foi encontrada por este intrépido fuçador de caixas com cheiro de mofo como um registro dessa personagem tão elusiva de Itanhaém. Dessa vez, meus queridos, nem a IA conseguiu nos salvar.


Isso acontece porque a personagem em questão não era fã de fotos. Ela não gostava de aparecer nessas coisas... Tinha as suas particularidades, suas obscuridades, por assim dizer. Até por conta dessa característica, sua vida e seu passado são até hoje envoltos em um tanto de mistério e de um disse-me-disse sem tamanho, dos quais vamos falar e tentar esclarecer pela primeira vez na história dessa vila da Conceição de Itanhaém aqui no HISTORITA.


Nosso artigo hoje é sobre ela: o terror das crianças itanhaenses. Ela, cuja casa inspirava medo nos "anjinhos"... Ela, cujos olhos visavam a Praça Carlos Botelho com a severidade de uma guardiã da moralidade...


Ela... a Irmã Carolina Ballio.


Casta, e de uma certa casta


Carolina (ou Carula) da Silva Ballio nasceu em 29 de setembro de 1902, em Santos - SP. Ela era filha de José da Silva Ballio e Rita de Araújo Ballio.


Rita... de Araújo? Ora, esse nome não me é estranho. E ao procurar aqui mesmo no HISTORITA, relembro: ela foi uma das filhas de Leopoldino Antônio de Araújo. Isso já começa nosso artigo com um detalhe importante. Rita era cunhada de Antônia Leopoldina de Araújo, que era ninguém mais, ninguém menos que a esposa de Benedito Calixto!


Então vamos rebobinar a fita: se Rita de Araújo era cunhada de Calixto, então... seria sua filha e nossa personagem atual, Carolina Ballio, sobrinha de Calixto?


É isso mesmo!


Provavelmente Calixto esteve presente no batizado da Irmã Carolina (que ainda não era Irmã, óbvio).


Enfim, a menina Carolina nasceu em Santos, onde seus pais tinham certo renome, tendo aparecido frequentemente nas colunas sociais da Tribuna.


A propósito, foi na Tribuna de 4 de novembro de 1913 que surgiu o primeiro registro de Carolina Ballio, com seu nome entre as meninas e meninos que estavam celebrando sua primeira comunhão na Matriz daquela cidade. Ela tinha, então, 11 anos.


Aos 13 anos, ou seja, 1915, encontramos o seguinte registro sobre ela:


Santos em 1915, 8 de dezembro (A Tribuna de 8 dez 1956)
Santos em 1915, 8 de dezembro (A Tribuna de 8 dez 1956)

Carolina teria se formado no Externato Cesário Mota, em Santos. Mas isso me deixou confuso. Por mais que eu procurasse, só pude encontrar um colégio com esse nome em Jundiaí, e a matéria acima deixou bem claro que se tratava de um colégio de Santos.


De duas, uma: ou o colégio existiu com esse nome em Santos, o que eu particularmente acho bem difícil, dada a ausência de registros da escola, que não passaria batido pela história da cidade, ainda mais na época; ou o nome do colégio foi escrito errado e eles queriam dizer na verdade o Grupo Escolar Cesário Bastos. Parece mais plausível a segunda opção, não acha?


Para mais informações sobre a história do colégio Cesário Bastos, veja esta postagem incrível do blog Novo Milênio: AQUI.


Professora Carolina Ballio


Bem, agora é capaz de você, cara leitora ou caro leitor, querer quebrar a minha cara, porque eu vou dar um salto de 15 anos, para 1930. Mas que culpa tenho eu se Carolina Ballio era discreta?


Apesar dessa falta de informações sobre esses 15 anos, é possível fazer uma inferência. Acontece que em 1930 nós vamos ver a Irmã Carolina como professora do Lyceu Feminino Santista.


Pois é. Acho que se você conheceu a Irmã Carolina enquanto viva, por essa, você não esperava.


Mas enfim, digo que dá pra fazer uma inferência, porque é quase 100% certo que as moças que queriam se tornar professoras aqui no litoral iam estudar lá no Lyceu, o colégio mais renomado e com ensino do magistério.


O prédio antigo do Lyceu Feminino Santista. Do site do Liceu Santista atualmente, https://www.liceusantista.com.br/quem-somos/nossa-historia/
O prédio antigo do Lyceu Feminino Santista. Do site do Liceu Santista atualmente, https://www.liceusantista.com.br/quem-somos/nossa-historia/

Como ela se tornou professora do Lyceu, é 99,99% de certeza de que ela se formou pela própria instituição antes de 1930. E sobre o Liceu, o fã de carteirinha do HISTORITA, João Tadeu Bastos da Silva, diz que sua avó Pedrina Pompeu Bastos, que também estudou no colégio, contava que teve aulas de Desenho com Benedito Calixto.


E sim, essa informação é verídica, pois há registros de Calixto como professor no colégio nessa época. Ou seja, existe uma chance bem grande de Carolina ter estudado desenho com o próprio tio no Lyceu.


Essa teoria se reforça ainda mais porque podemos ver nos registros de 1930 que Carolina era professora de...


Carolina Ballio como professora de Desenho no Lyceu, 11 jun 1930 (A Tribuna)
Carolina Ballio como professora de Desenho no Lyceu, 11 jun 1930 (A Tribuna)

É mesmo muito possível que Carolina tenha se inspirado pelas artes do tio Calixto.


No mesmo ano, há uma entrevista com a inspetora do Lyceu, D. Brites de Azevedo Marques, em que é possível confirmarmos Carolina Ballio como professora:


A instrução em Santos, 3 jun 1930 (A Gazeta)
A instrução em Santos, 3 jun 1930 (A Gazeta)

Outra inferência que é possível fazer é quanto às atividades religiosas de Irmã Carolina. Em janeiro desse ano de 1930, temos este registro aqui:


Enterro da Senhorinha Alice dos Santos Pacheco, 31 jan 1930 (A Tribuna)
Enterro da Senhorinha Alice dos Santos Pacheco, 31 jan 1930 (A Tribuna)

Então, é possível afirmarmos que a Irmã Carolina já era parte dessa Arquiconfraria do Imaculado Coração de Maria, de São Vicente, aos 28 anos. Como o registro é de um enterro, e vemos que ela esteve presente por si mesma e representando a Arquiconfraria, não é absurdo considerar que ela tivesse alguma posição de respeito ou responsabilidade no grupo. E como isso não acontece da noite pro dia, é de se imaginar que ela estivesse nessa confraria há um bom tempo.


Não é interessante como um registro supostamente bobo e sem importância pode oferecer pistas assim?


Sobre a Arquiconfraria do Imaculado Coração de Maria, cabe dizer: era um grupo de leigos, ou seja, não era uma congregação com hábitos, e tinhauma ala masculina e outra feminina. Eles tinham participação bastante intensa na vida da Paróquia do Imaculado Coração de Maria e Santos e São Vicente, pra tocar atividades religiosas como novenas, obras de piedade e caridade, orações diárias e até a organização das festas da padroeira.


E aliás, é importante frisar: até aqui, Carolina Ballio ainda não era uma Irmã propriamente dita, porque não havia entrado para nenhuma congregação. Mas seguiu nessa década com seu trabalho como professora e ao mesmo tempo envolvida nas questões da fé, como se vê nesta chamada de 1937:


Primeira comunhão de escolares, 28 out 1937 (A Tribuna)
Primeira comunhão de escolares, 28 out 1937 (A Tribuna)

Em 5 de junho de 1938, morre a mãe de Carolina, Rita de Araújo, aos 77 anos. Seu pai era 10 anos mais novo que a mãe, mas ele também era falecido nessa época. Então, Carolina se viu sozinha, até porque era filha única.


Certidão de óbito de Rita de Araújo Ballio, 5 jun 1938 (Registro civil)
Certidão de óbito de Rita de Araújo Ballio, 5 jun 1938 (Registro civil)

A difícil Irmã Carolina


Diante de sua nova condição de não ter mais família, Carolina resolve entrar de vez para uma congregação, em 1939. Veja só:


Investidura de hábito em uma irmã de caridade, 28 set 1939 (A Tribuna)
Investidura de hábito em uma irmã de caridade, 28 set 1939 (A Tribuna)

Essa nota da Tribuna é mesmo um achado: ela confirma várias das ideias da pesquisa do HISTORITA, e ainda dá mais informações sobre a prática do desenho e da pintura pela Irmã Carolina como algo notável. Será que ainda existe alguma pintura dela por aí?


A partir desse ponto, a história de Irmã Carolina volta a ficar enevoada. Isso porque, segundo relatos orais, ela havia deixado a congregação algum tempo depois de sua entrada por conta de não querer se desapegar das propriedades que tinha: as terras em Itanhaém deixadas por seu avô Leopoldino Antônio de Araújo.


Ao que tudo indica, após deixar o hábito, Carolina veio para Itanhaém para viver sua vida solitária em nome de Deus, ocupando uma das casas que havia sido de Leopoldino.


A antiga casa da Irmã Carolina, na praça Carlos Botelho, hoje é o União Contábil de Itanhaém, set 2025 (Google Maps)
A antiga casa da Irmã Carolina, na praça Carlos Botelho, hoje é o União Contábil de Itanhaém, set 2025 (Google Maps)

Sobre as terras de Irmã Carolina, João Tadeu nos conta que quando criança, certa vez ele acompanhou a Irmã em sua peregrinação pelas ditas terras. Ela ia passando pelo caminho, rezando e jogando água benta nos terrenos.


As terras ficavam na região da CESP, ali onde fica o Tenda Atacado, a rodoviária... Tudo eram terras de Irmã Carolina.


Agora vamos voar... para 1958. A Tribuna nos traz:


Inaugurado retrato de Benedito Calixto e entronizada a imagem do Cristo Crucificado no Grupo Escolar, 28 set 1958 (A Tribuna)
Inaugurado retrato de Benedito Calixto e entronizada a imagem do Cristo Crucificado no Grupo Escolar, 28 set 1958 (A Tribuna)

Os registros de Irmã Carolina em Itanhaém são escassos. Mais um que encontrei na pesquisa é este aqui (lembre-se de ampliar a imagem no celular com os dedos para poder ler):


Virgem de Anchieta: polícia procura pista, 20 mar 1971 (Cidade de Santos)
Virgem de Anchieta: polícia procura pista, 20 mar 1971 (Cidade de Santos)

Fora isso, nada mais se encontra sobre ela. Pois é. Frustrante, eu sei, mas assim acontece com as pessoas que não são públicas, e Irmã Carolina Ballio definitivamente não gostava de ser pública.


O que se sabe veio principalmente de fontes orais, que contam os seguintes detalhes:


  • Irmã Carolina ajudava nas missas e celebrações católicas, cuidando das alfaias (como toalhas e decorações) e zelando pelas imagens;

  • Ela também atuava como catequista. Sua linha de ensino era altamente tradicional e aterradora - bem Velho Testamento, digamos;

  • Em sua casa não havia luz elétrica;

  • Ela vivia principalmente de doações e ajudas que as pessoas davam a ela, pois não tinha renda própria. Esse dado é bastante confuso, pois ela tinha noção do valor que suas terras tinham, mas por alguma razão parece não ter feito uso delas;

  • A casa onde ela vivia foi doada informalmente pelo pai de Boá, José da Silva Aguiar;

  • Ela tinha profundo desprezo pelos biquínis e achava absurdo as meninas usarem aquele traje tão indecente;

  • Odiava o Carnaval, pois para ela, era coisa do demônio...

  • ... mas não perdia uma boa novela. Ia sempre assistir à noite na casa de Noêmia Apelian. Como já estava escuro, ela chegava lá de lanterna na mão;

  • Quando alguém fazia alguma coisa que ela reprovava, ela chamava de "cara suja";

  • Ela vivia sendo azucrinada pelas crianças, que faziam questão de provocá-la com todo gosto e de várias maneiras diferentes. Afinal, ela reagia da forma mais tempestuosa possível;

  • Costumava falar muito de seu avô Leopoldino Antônio de Araújo;

  • As crianças tinham medo de ir até a casa dela pegar os trajes de anjinhos para as celebrações, pois era muito escura e tinha móveis rústicos de madeira de lei. Tudo colaborava para a fama macabra da Irmã, que assinava embaixo com sua atitude severa;

  • Sofreu muito com a mudança da estátua do Padre Anchieta da frente da Matriz para mais à frente, na praça. Dizem que isso a devastou e fez com que ficasse deprimida, mais reservada ainda ao lar, sentindo que já não havia lugar para ela.


Irmã Carolina faleceria em 27 de outubro de 1985, aos 83 anos. Seus restos mortais estão hoje enterrados no mesmo jazigo de seu avô Leopoldino, e você pode ver a foto na pesquisa que o HISTORITA fez sobre ele, clicando AQUI.


Inesquecível, de uma forma ou outra


E assim chegamos ao fim do que foi possível reconstruir sobre a Irmã Carolina Ballio: professora de desenho, sobrinha de Calixto, dona de terras que ela nunca usou, e figura que atravessou décadas na memória de Itanhaém sem nunca ter posado para uma foto de bom grado.


A foto na qual é possível ver Irmã Carolina, à direita. Da década de 1960 (Acervo Museu da Conceição)
A foto na qual é possível ver Irmã Carolina, à direita. Da década de 1960 (Acervo Museu da Conceição)

Não é nossa intenção aqui pintá-la como santa, nem como vilã; o HISTORITA não está no negócio de fazer julgamento. Mas também não vamos fingir que essa memória seja só de lanternas e novelas na casa da vizinha: para bastante gente que hoje já está com os cabelos brancos, o nome Irmã Carolina ainda carrega um peso mais sério, e as lembranças da infância envolvendo ela nem sempre são leves de contar... Ela não era uma pessoa das mais fáceis de se lidar, e definitivamente foi uma personagem de sua época.


Fica o registro, então, dessa vez tão incompleto quanto os arquivos que sobraram dela. Se você tiver fotos, documentos ou histórias (sejam elas engraçadas ou nem tanto) sobre a Irmã Carolina, o HISTORITA quer ouvir. Às vezes entender uma pessoa dá mais trabalho do que julgá-la, mas é esse trabalho que tento fazer por essas bandas azuis, vermelhas e brancas.


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Pesquisa por: MOTA, Gustavo Caperutto da.


Referências utilizadas:


Jornais e periódicos

PRIMEIRA comunhão de escolares [meninos e meninas na Matriz de Santos]. A Tribuna, Santos, 4 nov. 1913.

SANTOS em 1915. A Tribuna, Santos, 8 dez. 1956.

CAROLINA Ballio, professora de Desenho no Lyceu Feminino Santista. A Tribuna, Santos, 11 jun. 1930.

A INSTRUÇÃO em Santos [entrevista com D. Brites de Azevedo Marques]. A Gazeta, Santos, 3 jun. 1930.

ENTERRO da Senhorinha Alice dos Santos Pacheco. A Tribuna, Santos, 31 jan. 1930.

PRIMEIRA comunhão de escolares. A Tribuna, Santos, 28 out. 1937.

INVESTIDURA de hábito em uma irmã de caridade. A Tribuna, Santos, 28 set. 1939.

INAUGURADO retrato de Benedito Calixto e entronizada a imagem do Cristo Crucificado no Grupo Escolar. A Tribuna, Santos, 28 set. 1958.

VIRGEM de Anchieta: polícia procura pista. Cidade de Santos, Santos, 20 mar. 1971.


Documentos oficiais

CERTIDÃO de óbito de Rita de Araújo Ballio. Cartório de Registro Civil, 5 jun. 1938.


Fontes eletrônicas

NOVO MILÊNIO. A educação... e as antigas escolas. Disponível em: https://www.novomilenio.inf.br/santos/h0250b.htm. Acesso em: 02/07/2026.

LICEU SANTISTA. Nossa história. Disponível em: https://www.liceusantista.com.br/quem-somos/nossa-historia/. Acesso em: 03/07/2026.

GOOGLE MAPS. [Imagem da antiga casa da Irmã Carolina, Praça Carlos Botelho, Itanhaém]. set. 2025. Disponível em: Google Maps. Acesso em: 02/07/2026.

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