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Leopoldino Antônio de Araújo

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • 18 de jan.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 4 de fev.


Já que falamos recentemente sobre um cidadão cujo nome foi dado a uma rua do Centro (João Mariano Soares), por que não estender essa graça a outros nomeados?


Hoje, vamos falar de Leopoldino Antônio de Araújo, o senhor carrancudo cuja foto estampa esta postagem. Há quem tenha dito que Leopoldino foi um dos primeiros padres da cidade (segundo relatos de um zelador antigo do Cemitério Municipal do Centro), muito querido. Seu túmulo é talvez o mais antigo que há ali, datado de 1902! Ora, se Leopoldino foi um padre, isso justificaria o nome dele ser paralelo ao de João Mariano, pois era visto como um dos anciãos da antiga Vila de Conceição de Itanhaém... certo?


Errado. Chegou a hora de desmistificar a história conhecida até então de Leopoldino Antônio de Araújo. Neste artigo, você vai descobrir quem foi e a importância que ele teve, para não restar dúvidas, e para celebrarmos Leopoldino por quem realmente foi.


O jazigo de Leopoldino Antônio de Araújo e sua neta, a "Irmã" Carolina Ballio, ao lado esquerdo do jazigo de sua esposa Maria Rita de Araújo.
O jazigo de Leopoldino Antônio de Araújo e sua neta, a "Irmã" Carolina Ballio, ao lado esquerdo do jazigo de sua esposa Maria Rita de Araújo.

Leopoldino nasceu na Vila de Conceição de Itanhaém em 26 de junho de 1820. Os registros que temos quanto às primeiras etapas de sua vida são praticamente inexistentes (até o momento desta publicação... seguirei pesquisando!). Tal é o caso, que o primeiro registro de fato encontrado é datado de 1861, quando ele já tinha 41 anos. A essa época, ele já era casado com Maria Rita de Araújo (que tinha 31 anos nesse ano), com quem viveria até seus últimos anos de vida (ambos morreriam em 1902). Já tinha inclusive quatro filhos: a mais velha, Antônia Leopoldina de Araújo (esposa de Benedicto Calixto), com 7 anos; Benedicto Jorge de Araújo, com 3 anos; Leopoldo Antônio de Araújo, com 1 ou 2 anos, e Rita de Araújo, com poucos meses de vida.


Na ocasião, Leopoldino já era membro da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, e foi por ela escolhido, junto de João Mariano Soares e Zeferino Antônio Soares, para tocar as obras de reedificação do Convento de N. Sa. da Conceição de Itanhaém. No rol de trabalhadores, Leopoldino é registrado como contramestre de obras e escrivão da Irmandade. Considerando o que pude averiguar em pesquisa, é seguro dizer que Leopoldino exerceu o ofício de carpinteiro na vila desde cedo, pois há mais de um registro encontrado que atribui essa vocação a ele.


Registro de eleitores de 1880, Leopoldino (n. 37) como Carpinteiro. Há um detalhe curioso aqui: a idade de Leopoldino parece não bater com sua data de nascimento, pois, se foi nascido em 1820, ele deveria ter 60 anos, não 44. Afinal, se seu filho tinha 25 anos em 1880, então teria nascido quando Leopoldino tinha 19... e sua esposa Maria Rita, 9, inclusive tendo sua primeira filha nascido aos 4 ou 5 anos?! Loucura, não? Fica evidente que o dado da idade aqui exibido não é verdade, a julgar pelos registros do Cartório Civil da época. A resposta para essa confusão de datas, a mim me parece clara: Leopoldino não revelava a verdadeira idade - ou talvez nem soubesse, por falta de documentações, situação comum na época. O ofício, entretanto, é certo de estar correto, pois Leopoldino é mencionado como carpinteiro em outros documentos, como veremos.
Registro de eleitores de 1880, Leopoldino (n. 37) como Carpinteiro. Há um detalhe curioso aqui: a idade de Leopoldino parece não bater com sua data de nascimento, pois, se foi nascido em 1820, ele deveria ter 60 anos, não 44. Afinal, se seu filho tinha 25 anos em 1880, então teria nascido quando Leopoldino tinha 19... e sua esposa Maria Rita, 9, inclusive tendo sua primeira filha nascido aos 4 ou 5 anos?! Loucura, não? Fica evidente que o dado da idade aqui exibido não é verdade, a julgar pelos registros do Cartório Civil da época. A resposta para essa confusão de datas, a mim me parece clara: Leopoldino não revelava a verdadeira idade - ou talvez nem soubesse, por falta de documentações, situação comum na época. O ofício, entretanto, é certo de estar correto, pois Leopoldino é mencionado como carpinteiro em outros documentos, como veremos.

Em 1864 e 1868, temos registros no períodico Revista Commercial em que constam chamados do tribunal do júri de Santos para que Leopoldino integrasse o corpo de jurados, inclusive junto de João Mariano Soares (em 1864). A propósito, 1868 foi um ano importante na vida dele: encontra-se em documentos e almanaques que foi nesse ano que Leopoldino assumiu o cargo de Juiz de Paz da vila pela primeira vez, pelo partido conservador. Também em 1868, ele ocupou a vaga de segundo suplente do subdelegado da Vila. Já em 1869, assumiu como primeiro subdelegado, a autoridade máxima policial.


Em 1870, Leopoldino surge pela primeira vez como alferes da 4a. Companhia da Guarda Nacional (a estabelecida na Vila). Ele seguiria nesse posto até pelo menos 1885, ou seja, quinze anos.


Enquanto foi alferes, Leopoldino exerceu outros cargos públicos. Em 1871, ele foi designado pela Província de São Paulo como inspetor da estrada Santos-Iguape, cargo que ocupou pelo menos até 1879, quando recebeu o último pagamento para os reparos da estrada que requereu à Província.


O ano de 1873 viu Leopoldino ser alçado a subdelegado novamente, e a vereador com grande número de votos. Sua popularidade se refletiu também na escolha dele e de Maria Rita como Imperador e Imperatriz da Festa do Divino daquele ano. Presume-se que era bastante religioso, porque ainda era escrivão da Irmandade de N. Sa. da Conceição, mas também tesoureiro da Irmandade de N. Sa. do Rosário.


Outro registro desse ano indica o nome de Leopoldino Antônio de Araújo como proprietário de uma oficina de cocheiras de carros e de animais, o que conversa, e de certo modo reafirma, seu ofício de carpinteiro. E também em 1873, nosso amigo alferes é registrado como tesoureiro da Sociedade de Música Concordia. Assim como outros contemporâneos cujos nomes ainda são lembrados em nomes de ruas, vê-se que Leopoldino era um homem de mil e uma utilidades!


Assinatura de Leopoldino em ofício da Câmara de 1873. Às vezes, ele assinava "d'Araujo", como se vê - Arquivo Público do Estado de SP
Assinatura de Leopoldino em ofício da Câmara de 1873. Às vezes, ele assinava "d'Araujo", como se vê - Arquivo Público do Estado de SP

Em 1874, diante da campanha de recenseamento da Província, Leopoldino foi um dos elencados para compor a Comissão Censitária na Vila, da qual seu filho Benedito Jorge de Araújo já havia feito parte em 1871.


Os dados que temos sobre a vida de Leopoldino entre 1874 e 1885 remontam o período em que foi alferes. Mas em 1885, novas informações surgem: ele foi novamente vereador, vice-presidente da Câmara que era presidida por João Mariano Soares.


Em 1887 e 1888, há registros de Leopoldino novamente no cargo de subdelegado. Há de se imaginar que ele fosse uma figura de respeito e autoridade na Vila - talvez até de certo medo, como principal responsável pela polícia em Conceição de Itanhaém.


Sabemos que 1888 foi um ano especial para a história da Itanhaém do século XIX, devido à fundação do Gabinete de Leitura Itanhaense. E sim, Leopoldino esteve lá, como consta das atas de fundação e das reuniões que os membros faziam.


O penúltimo registro de que se tem notícia é de 1891, que trata da dissolução das Câmaras Municipais de então, devido à nova República, e a criação de um Conselho de Intendência para fazer a transição ao novo sistema de governo. Leopoldino fez parte desse conselho, junto a personagens como João Baptista Leal e Isaías Cândido Soares.


Por fim, em 1902, temos a confirmação de sua eleição como Juiz de Paz novamente.


Ainda em 1902, no dia 26 de julho (coincidência com seu dia e mês de nascimento?), Leopoldino faleceu na Vila e foi sepultado onde hoje se encontra. Para ver a campa dele e de Maria Rita, basta andar um pouco adiante da entrada do cemitério e se embrenhar em meio às lápides e jazigos à direita. Procure por uma cruz branca bastante ornada, e logo vai encontrá-la.


Para encerrar, dois detalhes: primeiro, sobre o local da casa de Leopoldino. Uma coluna de 1912 de O Diário menciona imóveis a se herdar que estão sob contestação, onde se lê:

Uma morada de caza terrea, sita na Villa da Conceição de Itanhaem, freguezia de N. S. da Conceição, com 3 portas e uma janella para o largo da Matriz, fazendo esquina para um becco que vae dar no porto, tendo deste lado uma porta e duas janellas, com o seu respectivo terreno com fundos até o caminho que vae ter á fonte Itaguira, dividindo o outro lado com a casa da herança de Leopoldino Antonio de Araujo. Vistos e avaliados o predio e respectivo terreno pela quantia de réis 750$000 (Setecentos e cincoenta mil réis).

É uma casa que tinha uma janela voltada para o largo da Matriz e fazia esquina com um beco que levava ao porto (o antigo "Porto dos Frades", pequeno cais de partida de barcos pequenos e canoas). Ao lado dessa casa, estaria a de Leopoldino Antônio de Araújo, dividindo o muro. Por essa lógica, é possível argumentar tentativamente que as duas casas mencionadas são:


Uma tentativa de localizar a casa de Leopoldino. Devido às mudanças na fachada com o passar dos anos, é difícil dizer com certeza que seria a de muros pretos, ou talvez a casa onde está o bar Tropical, mas o beco nos serve de referência indiscutível. (Google Mapas, Set. 2025)
Uma tentativa de localizar a casa de Leopoldino. Devido às mudanças na fachada com o passar dos anos, é difícil dizer com certeza que seria a de muros pretos, ou talvez a casa onde está o bar Tropical, mas o beco nos serve de referência indiscutível. (Google Mapas, Set. 2025)

Em segundo lugar, transcrevo aqui parte de um relato feito por Emídio Emiliano de Souza em 1949, em coluna também do periódico O Diário. Perto do fim, o personagem Benedito vai até a casa de Leopoldino (tido como "delegado") para falar sobre o que tinha feito a um cidadão que andava espalhando conversas sobre lobisomens na vila. Emídio atribui a seguinte fala a Leopoldino:


Terminada a narrativa, feita nos termos descriptos, que foi ouvida pela autoridade, sem interrupção alguma, com muita atenção e curiosidade, o bondoso e criterioso velho Leopoldino Araújo, disse, com um leve sorriso, mas com firmeza, as seguintes palavras: — "Fêz muito bem, senhor Benedito!... As famílias, tanto dos ricos como do pobre, devem ser respeitadas... além disso, é preciso acabar com esses abusos, com tais ‘assombrações’, que tiram o sossego e intimidam os que neles acreditam... que outros distantes sigam o seu exemplo; assim, quando outro ‘fantasma’ ou ‘lobisome’ rondar a sua casa, dê-lhe uma boa surra, não com cacete de fole ou de machado; com uma vara de murta, ou com um chicote, para evitar um ferimento grave, e pode voltar ao seu districto, que o que o senhor fez sirva de lição para esses bobos."

Não se sabe ao certo quando isso teria acontecido; Emídio apenas diz que foi em sua "mocidade", o que nos indica possivelmente algum ano das décadas de 1870 e 1880, o que condiz com os documentos que têm Leopoldino no papel de subdelegado.


Imagem original de Leopoldino, pintada por Calixto e trazida à tona em seu Memória histórica do convento e igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém (1914).
Imagem original de Leopoldino, pintada por Calixto e trazida à tona em seu Memória histórica do convento e igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém (1914).

Como vimos, Leopoldino Antônio de Araújo não foi um padre. Foi, sim, um apaixonado por Itanhaém, a quem dedicou quase a vida toda em serviços públicos, seja como subdelegado, como Juiz de Paz, como escrivão e tesoureiro, alferes e inspetor da estrada Santos-Iguape, tudo sempre conduzido pela fé católica rigorosa. Foi sogro de Benedicto Calixto! Um verdadeiro ancião de respeito, cuja memória se faz agora restaurada.


Ao falar dele, sinto que minha promessa junto a seu túmulo está cumprida: brinquei, falando a seu jazigo que faria Itanhaém relembrar quem ele realmente foi, que era só questão de aguardar um pouquinho até que o HISTORITA estivesse pronto. E aqui estamos!


Mas este é só um começo das pesquisas sobre Leopoldino Antônio de Araújo. Este artigo seguirá sendo atualizado com novas informações. Fique de olho :)



Pesquisa por: MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes:

ALMANAK da Província de São Paulo. São Paulo, 1873.

ALMANACH da Província de São Paulo: administrativo, commercial e industrial. São Paulo, 1887–1888.

ALMANAK administrativo, mercantil e industrial do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1870–1885.

ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Lista de eleitores de 1880. Itanhaém, 1880.

AZEVEDO, Edison Telles de. Itanhaém de outrora. A Tribuna, Santos, 1958–1959.

CALIXTO, Benedicto. A vila de Itanhaém. 2. ed. Itanhaém: Noz Editoria, 2025.

CALIXTO, Benedicto. Memória histórica do convento e igreja da Imaculada Conceição de Itanhaém. 3. ed. Itanhaém: Noz Editoria, 2025.

CORREIO PAULISTANO. São Paulo, 1879; 1891.

DIÁRIO DE SANTOS. Santos, 1902; 1904.

DIÁRIO DE SÃO PAULO. São Paulo, 1868–1874.

NOVO almanach de São Paulo: para o anno de 1882–1883. São Paulo, 1882–1883.

O DIÁRIO. São Paulo, 1912; 1949.

O YPIRANGA. São Paulo, 1868.

REVISTA COMMERCIAL. São Paulo, 1864; 1868.

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