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Manácio Apelian

  • Foto do escritor: Gustavo da Mota
    Gustavo da Mota
  • 26 de fev.
  • 15 min de leitura

Atualizado: 27 de fev.


Certa vez, no ano passado (ou retrasado?), estive em um evento na Casa de Câmara e Cadeia (Museu Conceição de Itanhaém). Lá, no segundo andar, onde aconteceria o evento cuja memória me falha, eu me encontrei com o tão simpático colega de COFIT e itanhaensíssimo Elói Marques. Ele então me perguntou se eu já tinha ouvido falar da loja do Manácio. Com a minha negativa, ele então apontou para a esquina da rua Cunha Moreira que se liga à praça Narciso de Andrade.


Elói apontou para essa esquina com a fachada verde-claro - Google Maps (2025)
Elói apontou para essa esquina com a fachada verde-claro - Google Maps (2025)

"Ali era a loja do Manácio", disse ele. Eu confesso que fiquei um tempinho processando a informação, buscando na cabeça se eu tinha alguma informação sobre o tal comerciante. Mas o Elói logo complementou:


"O Manácio era o ponto de encontro da cidade. Tinha lá um painel assim grande, um painel em que o pessoal punha notícias, avisos, até recados pra quem morava na cidade."


Então eu fiquei olhando para aquela fachada com aparência simples, tão modificada pelas modernidades... Imaginei um pouco do cenário que o Elói me descreveu, e foi curioso, porque enxerguei aquele mesmo ponto da cidade com as cores amareladas de uma fotografia dos anos 1950.


O tempo passou. Mais perto do fim do ano, recebi uma mensagem da Teté, Maria Tereza Leal Diz, a tabacudíssima autora do delicioso livro 75 anos, 75 textos, Todos Itanhaenses. Se você gosta da história de Itanhaém e ainda não leu o livro da Teté, preciso puxar sua orelha!


Enfim, a mensagem dela dizia que ela havia deixado um exemplar do livro pra mim no café Delícias da Villa, no centro. Fui, peguei o presente e caí de cabeça na leitura logo em seguida.


Qual não foi minha surpresa quando, ao chegar no texto de número 12, Cartões de crítica, eu me deparei com a seguinte passagem:


"Era uma novidade sem tamanho! De boca em boca, a notícia se alastrou pela pequena Itanhaém: na loja do Manácio, havia agora 'cartões de crítica'!"


Não vou entrar em detalhes do que eram os cartões de crítica, pra deixar a vontade em você de conhecer esse pitoresco elemento na Itanhaém do meio do século XX - vá ler o livro da Teté!


O foco é que, novamente, a loja do Seu Manácio aparecia como um ponto social.


Agora, eu precisava saber mais a respeito. Pois bem: fui e pesquisei nos bons e velhos alfarrábios d'outrora e encontrei informações muito interessantes sobre Manácio Apelian, as quais começo a compartilhar neste instante.


A Armênia da Armênia...?

Manácio Apelian nasceu em 15 de março de 1902, na pequena cidade de Kessab, na região de Latakia, que na época era parte do Império Otomano (dos Turcos) que dominava a península arábica. Hoje, Kessab faz parte do norte da Síria e faz fronteira com o sul da Turquia, mas na época era tudo uma coisa só.


Casa tradicional em Kessab, da época do nascimento de Manácio Apelian - Wikimedia Commons
Casa tradicional em Kessab, da época do nascimento de Manácio Apelian - Wikimedia Commons

Cabe aqui esclarecer: a região onde Manácio nasceu havia sido uma nação própria, o Reino Armênio da Cilícia, que era composta de refugiados da Armênia, há muito tempo antes da tomada pelos Otomanos.


E para entendermos uma grande "confusão" que vai se estabelecer com a origem de Manácio, é importante mergulharmos na história da Armênia! Venha comigo, que eu garanto que tudo vai fazer sentido.


O Reino da Armênia original existia na região do Cáucaso, onde hoje é boa parte do Oriente Médio, e é muito antigo, datando do tempo de antes de Cristo. Foi o primeiro reino declaradamente cristão, onde se dizia ter existido o Jardim do Éden e onde a Arca de Noé teria estacionado após o Dilúvio.


Ao longo dos séculos, o Reino da Armênia foi enfraquecido por guerras e pela pressão de impérios vizinhos, como Bizâncio e os persas. No século XI, depois da derrota bizantina na Batalha de Manzikert (1071) contra os turcos, a região ficou ainda mais instável. Muitos armênios perderam suas terras e foram forçados a migrar para áreas mais seguras.


Grande parte dessa população se estabeleceu na Cilícia, no sul da Anatólia, uma região montanhosa e mais fácil de defender. Logo coroaram um rei próprio (no século XII), e esse novo estado tornou-se oficialmente o Reino Armênio da Cilícia.


Esse reino seria, alguns séculos depois, tomado pelo Sultanato dos Mamelucos, que mais pra frente entraria como parte do território do Império Otomano.


Tudo isso para dizer que, quando Manácio nasceu em Kessab, ele nasceu como descendente do povo armênio antigo. Para esses descendentes, a terra em que moravam era ainda o Reino da Armênia - ainda que não fosse mais "no papel".


É por isso que Manácio tinha sua origem na Armênia. Porque, de fato, era mesmo.


É claro que essa confusão histórica e geopolítica faria com que ele e outros imigrantes da Armênia fossem considerados Turcos ou Árabes, e isso complicaria um bom tanto a minha busca por documentos a respeito de Manácio. Mas no fim, consegui trazer aqui ao HISTORITA os dados mais precisos para o seu deleite historiográfico!


Kessab, na atualidade. (Kevorkmail em en.wikipedia, CC BY 3.0)
Kessab, na atualidade. (Kevorkmail em en.wikipedia, CC BY 3.0)

De Kessab para Santos


Desde o fim da década de 1880 e até o início do século XX, os armênios foram muitas vezes perseguidos e massacrados. Como prova maior disso, em abril de 1909 ocorreria na região de Kessab uma chacina que dizimaria cerca de 10.000 armênios.


Imagino que essas tensões, aliadas às dificuldades econômicas que o povo armênio vivia, tenham sido responsáveis pela partida da família Apelian de Kessab para o Brasil, em Santos. Sim, em 1908, um ano antes do massacre que mencionei logo acima, Manácio se mudou com a família para o Brasil. Ele tinha apenas 6 anos.


É de se imaginar: a viagem provavelmente foi até algum porto europeu primeiro (possivelmente na Itália), para só depois rumar para o Brasil. Pode ter levado entre 30 a 45 dias, segundo estimativas que consideram a velocidade média dos navios a vapor da época (especialmente o Kasato Maru, do Japão).


Eu pergunto a você que me lê: encararia uma viagem dessas? Talvez se fosse pelo bem de sua família...


E por falar em família, é importante mencionar os pais de Manácio: o sr. Issa Apelian (de 1871) e a sra. Anna Apelian (de 1873). E nessa época, Manácio tinha pelo menos dois irmãos: Flora (1900) e José (1903). Também foram parte da família Suzana, Rosa e Iracema, esta sendo a mais nova (1914).


Chegando a Santos, há registros de que Manácio viveu ali com a família até 1913 (com 12 anos de idade, apenas 1 ano após o nascimento de seu irmão Walter). Após isso, há um registro que mostra que Manácio voltou à região de Kessab (Latakia) brevemente (em dezembro de 1913), e logo emigrou para os Estados Unidos, chegando nas terras do Tio Sam em 28 de dezembro de 1914.


Em abril de 1915, ficaria formalizado o Genocídio Armênio pelos turco-otomanos, que levaria ao número grotesco de aproximadamente 1.8 milhão de mortos.


"O genocídio foi realizado durante e após a Primeira Guerra Mundial e executado em duas fases: a matança da população masculina sã através de massacres e sujeição de recrutas do exército para o trabalho forçado, seguida pela deportação de mulheres, crianças, idosos e enfermos em marchas da morte que levavam ao deserto sírio. Impulsionados por escoltas militares, os deportados foram privados de comida e água e submetidos a roubos, estupros e massacres periódicos." (Wikipedia)


Ossadas de vítimas do Genocídio Armênio. (Revista Veja)
Ossadas de vítimas do Genocídio Armênio. (Revista Veja)

É possível, então, que Manácio não tenha conseguido se manter em sua terra natal por conta das tensões que levariam ao genocídio, e foi junto de centenas ou milhares de outros armênios para os EUA.


Hello, Private Minas Apelian!


Quem recebeu Manácio nos Estados Unidos foi seu parente Zakar Apelian e família. Eis a lápide da família:


Lápide da família Apelian, no cemitério Cedar Lake, em Paterson, Nova Jérsei. (FindaGrave.com)
Lápide da família Apelian, no cemitério Cedar Lake, em Paterson, Nova Jérsei. (FindaGrave.com)

Lá, primeiro em Detroit, no Michigan, e depois na cidade de Paterson, Condado de Passaic, no estado de Nova Jérsei, junto da comunidade armênia, o menino Manácio aprendeu o ofício de tecelão de seda, com o qual trabalhou até atingir os 18 anos.


Afinal, em 13 de novembro de 1919, Manácio se alistou no Exército Americano. Ele foi convocado para o 12o. Batalhão de Cavalaria (12th Cavalry), como recruta (Private), logo no começo do ano, e serviu por alguns meses em US Army Jefferson Barracks, no estado do Missouri, que funcionava como um hospital federal.


Brasão da 12th Cavalry. (Wikimedia Commons)
Brasão da 12th Cavalry. (Wikimedia Commons)

Em seus registros militares, consta o nome Minas Apelian, ou às vezes Minos Apelian. Não posso afirmar com exatidão, mas suspeito que esse fosse o nome de batismo de Manácio, antes de ser aportuguesado.


Veja como a data de nascimento não deixa dúvidas (a não ser pelo ano, que foi tido como 1901 por razão desconhecida. Em toda sua estadia nos EUA, o ano de nascimento de Manácio é tido como 1901).
Veja como a data de nascimento não deixa dúvidas (a não ser pelo ano, que foi tido como 1901 por razão desconhecida. Em toda sua estadia nos EUA, o ano de nascimento de Manácio é tido como 1901).

Logo após ser convocado, Manácio foi transferido para atuar no departamento médico do Camp Gaillard, em CZ, como mostra o registro abaixo:


Transferência de Manácio para o Camp Gaillard, em 10 de agosto de 1920. (NARA)
Transferência de Manácio para o Camp Gaillard, em 10 de agosto de 1920. (NARA)

Esse termo, "CZ", me confundiu. Claro, porque não há nenhum estado norte-americano que tenha essas iniciais. Após pesquisas, eu descobri o seguinte:


CZ é a Canal Zone - a zona sob domínio dos Estados Unidos na região do Canal do Panamá, que estava sendo construído nessa época. Então, sim, Manácio serviu o exército no mesmo acampamento que cuidava desse ponto vital e estratégico de conexão entre os oceanos Pacífico e Atlântico.


Camp Gaillard, na Canal Zone, em 1917. (NARA)
Camp Gaillard, na Canal Zone, em 1917. (NARA)
Tenda da Associação Cristã de Moços (YMCA) no Camp Gaillard, 1917. (NARA)
Tenda da Associação Cristã de Moços (YMCA) no Camp Gaillard, 1917. (NARA)

No National Archives and Records Administration (NARA), é possível encontrar vários documentos que registram Manácio como recruta de 13 de novembro de 1919 a 8 de novembro de 1922 ainda no mesmo Camp Gaillard. Veja um exemplo abaixo:


Manácio/Minas Apelian na coluna da esquerda, sob PRIVATES, número 3. 31 jan 1921. (NARA)
Manácio/Minas Apelian na coluna da esquerda, sob PRIVATES, número 3. 31 jan 1921. (NARA)

Em 1923, surgem os documentos mais interessantes de toda esta pesquisa, que corroboram as informações que o HISTORITA trouxe até agora. Nesse ano, Manácio faz dois pedidos oficiais: um, de naturalização como estadunidense, outro, de passaporte, para poder viajar para Santos.


Naturalização e Passaporte


Primeiro, a petição por naturalização. Veja a foto abaixo, e a transcrição/tradução a seguir.


Petição de naturalização de Manácio/Minas Apelian, 12 mar 1923. Toque nele para ver com zoom.
Petição de naturalização de Manácio/Minas Apelian, 12 mar 1923. Toque nele para ver com zoom.

TRANSCRIÇÃO TRADUZIDA (apenas trechos mais importantes):


"A petição de Minas Apelian registrada por meio deste, mostra, respeitosamente que:

Primeiro: Minha residência é 134 Gould Ave. Paterson, New Jersey.

Segundo: Minha ocupação é tecelão de seda.

Terceiro: Eu nasci em 15 de março de 1901 em Kessab, Armênia, Turquia.

(...)

Sexto: Eu não sou casado.

Alistamento: 13/11/1919

Dispensa: 8/11/1922

Sétimo: (aqui ele renuncia a qualquer outra soberania, príncipe, estado, em especial ao imperador otomano Mohammed VI).

Oitavo: Eu sou capaz de falar a Língua Inglesa.

Nono: Eu já moro nos EUA pelo período de ao menos cinco anos antes desta petição, desde 28 de dezembro de 1914.


Mais abaixo, duas testemunhas, Dekran E. Gamareken e Harry Dervonian, atestam ter conhecido Manácio desde 1 de fevereiro de 1916. Um deles, Harry, mora no mesmo endereço que Manácio, 134 Gould Ave.


Agora, vamos ao pedido de passaporte, que tem frente e verso. Vamos com a frente primeiro.


Pedido de passaporte de Manácio/Minas Apelian, 3 abr 1923.
Pedido de passaporte de Manácio/Minas Apelian, 3 abr 1923.

TRANSCRIÇÃO TRADUZIDA (trechos mais interessantes):


"Eu, Minas Apelian, cidadão naturalizado e leal aos Estados Unidos, peço ao Departamento de Estado, em Washington, um passaporte para mim mesmo.

Juro solenemente que nasci em Kessab, Armênia, Turquia, em 15 de março de 1901; que meu pai, Issa M. Apelian, nasceu na Armênia e agora reside em Santos, no Brasil; que eu emigrei para os Estados Unidos, partindo de navio de Latakia, Arábia, perto de 28 de dezembro de 1914; que eu residi nos EUA, ininterruptamente, por 9 anos, de 1914 a 1923, em Detroit, Michigan e Paterson, New Jersey; (...) que eu residi fora dos Estados Unidos desde minha naturalização nos seguintes locais e pelos seguintes períodos:

Santos, Brasil, de 1908 a 1913;

Kessab, Armênia, de 1901 a 1908.

e que sou domiciliado nos Estados Unidos, minha residência permanente sendo 134 Gould Avenue, Paterson, no estado da NJ, onde sigo a ocupação de tecelão.

Meu último passaporte foi obtido em Santos, Brasil, em dezembro de 1913. (...) Estou prestes a ir para o exterior e voltar aos EUA em aproximadamente 3 anos, com o propósito de residir e seguir meus deveres de cidadão; e eu desejo um passaporte para usar em visita aos países aqui citados pelas seguintes razões:

Brasil, para visitar meus pais.

Pretendo deixar os EUA pelo porto de Nova Iorque, partindo no navio (ainda não decidido) em 11 de abril de 1923.


E agora, vamos ao verso, onde temos uma surpresa.


Verso da petição por passaporte de Manácio/Minas Apelian, 3 abr 1923.
Verso da petição por passaporte de Manácio/Minas Apelian, 3 abr 1923.

Aqui temos a descrição física de Manácio/Minas Apelian, e o testemunho de veracidade das informações, dado pelo parente Zakar Apelian, que afirma conhecer Manácio por 6 anos. E por fim... a fotografia assinada de Manácio, com "21" anos!


Vamos dar uma olhada mais de perto...


Esta fotografia não deixa dúvidas de que, sim, Minas Apelian e Manácio Apelian são a mesma pessoa.
Esta fotografia não deixa dúvidas de que, sim, Minas Apelian e Manácio Apelian são a mesma pessoa.

A título de curiosidade, temos o endereço onde Manácio morou em Nova Jérsei: 134 Gould Avenue. Eis o que encontramos no local na atualidade (2024):


134 Gould Ave. Paterson, New Jersey. (Google Maps)
134 Gould Ave. Paterson, New Jersey. (Google Maps)

Até 2024, era um terreno baldio de esquina. Imagino que isso seja devido a um incêndio de causas elétricas ocorrido em 2013, que provavelmente condenou o prédio de 3 andares e 12 apartamentos que ali havia, visto que evacuou 40 de seus moradores.


A notícia, nos arquivos dos bombeiros. 8 ago 2013.
A notícia, nos arquivos dos bombeiros. 8 ago 2013.

Seu Manácio, o Itanhaense


O período entre 1924 e 1927 carece de registros na minha pesquisa, mas é certo dizer que Manácio voltou para Santos e estabeleceu-se em Itanhaém com a família, pois ainda em 1927 é possível ver na Tribuna um requerimento que ele fez à Câmara da cidade. Terá sido relativo à fundação de seu comércio, a famosa Casa Armênia do Seu Manácio? No mesmo ano, ele também aparece na lista das pessoas que frequentaram o enterro de Benedicto Calixto em Santos.


Em 1931, há este registro no Diário de Santos:


Protesto de nota promissória. 8 ago 1931 (Diário de Santos)
Protesto de nota promissória. 8 ago 1931 (Diário de Santos)

Em 1934, Manácio esteve em um enterro em Santos:

Manácio presente no enterro de D. Francisca Alves Martins, 24 set 1934 (A Tribuna)
Manácio presente no enterro de D. Francisca Alves Martins, 24 set 1934 (A Tribuna)

Em 1938, o irmão de Manácio, Walter Apelian, casou-se com Noemia Pompeu. Manácio também se casaria, imagino eu, nos anos 1940, com Filomena Dias Apelian, mulher muito ativa e querida em Itanhaém.


Fotografia cedida por João Tadeu Bastos da Silva, onde é possível ver Manácio Apelian com sua esposa Filomena Dias Apelian (a segunda mulher da direita para a esquerda, ao lado direito de Manácio). Casamento na década de 1950.
Fotografia cedida por João Tadeu Bastos da Silva, onde é possível ver Manácio Apelian com sua esposa Filomena Dias Apelian (a segunda mulher da direita para a esquerda, ao lado direito de Manácio). Casamento na década de 1950.

Em 1939, temos alguns registros. No dia 31 de março, Manácio esteve em um enterro:

Enterro de José Harmenia, 31 mar 1939. (A Tribuna)
Enterro de José Harmenia, 31 mar 1939. (A Tribuna)

 No dia 16 de julho, em outro:


Enterro de Manoel Valente, 16 jul 1939. (A Tribuna)
Enterro de Manoel Valente, 16 jul 1939. (A Tribuna)

E no dia 23 de dezembro, seu nome aparece como juiz da Festa de São Benedito em Itanhaém, o que já nos demonstra sua influência na cultura e religiosidade da cidade. A Casa Armênia já era bastante popular na época.


Festa de São Benedito, 23 dez 1939. (A Tribuna)
Festa de São Benedito, 23 dez 1939. (A Tribuna)

Eis aqui como era a Itanhaém de 1939, em fotografia da ex-prefeita Spasia Albertina Bechelli Cecchi. A Casa Armênia, loja de Manácio e os irmãos, ficava na esquina da Cunha Moreira, onde a seta aponta, oposta ao Edifício Telmo Diz (onde hoje, 2026, há o Ragazzo de esquina). Detalhe: as casas que estão bem ao centro da imagem já não existem mais: hoje, ali é o começo da ladeira do "queijo".


Fotografia de Spasia Albertina Bechelli Cecchi, 1939. Acervo do Gabinete de Leitura, projeto Pró-Memória (doação de Sonia Maria de Oliveira).
Fotografia de Spasia Albertina Bechelli Cecchi, 1939. Acervo do Gabinete de Leitura, projeto Pró-Memória (doação de Sonia Maria de Oliveira).

Em 1944, temos o seguinte registro de Manácio organizando mais uma celebração:


Homenagem a Molinari. 3 jun 1944. (A Tribuna)
Homenagem a Molinari. 3 jun 1944. (A Tribuna)

Já em 12 de setembro, surge pela primeira vez o nome de Manácio atrelado a uma de suas paixões. Veja só:


Futebol em Conceição de Itanhaém. 12 set 1944 (A Tribuna)
Futebol em Conceição de Itanhaém. 12 set 1944 (A Tribuna)

Pois é, nesse ano de 1944, Manácio assumiu como Diretor Esportivo do Esporte Clube São Paulo, o time da cidade, cuja sede era no prédio do antigo Gabinete de Leitura Itanhaense.


Em 25 de outubro, ocorreu o seguinte evento envolvendo o E.C. São Paulo e o prefeito Jorge Rossmann:


Futebol em Itanhaém. 25 out 1944. (O Diário)
Futebol em Itanhaém. 25 out 1944. (O Diário)

E em novembro, teve mais futebol na cidade de Benedicto Calixto:


Futebol em Itanhaém. 12 nov 1944. (O Diário)
Futebol em Itanhaém. 12 nov 1944. (O Diário)

E em 28 de novembro, quase uma página inteira dedicada ao esporte em Itanhaém. Nela, Jorge Rossmann diz que Itanhaém teria uma praça de esportes junto do campo do E.C. São Paulo. E mais abaixo na página, encontramos mais uma surpresa:


Manácio Apelian conversando com jornalista na sede (Gabinete de Leitura Itanhaense), 28 nov 1944. (O Diário)
Manácio Apelian conversando com jornalista na sede (Gabinete de Leitura Itanhaense), 28 nov 1944. (O Diário)

Eis a matéria que acompanha esta foto:


Manácio fala sobre o E.C. São Paulo, 28 nov 1944. (O Diário)
Manácio fala sobre o E.C. São Paulo, 28 nov 1944. (O Diário)

Por fim, vai aqui uma foto da mesma página, mostrando atletas e membros do E.C. São Paulo em frente ao Gabinete de Leitura:


É possível que o homem mais à frente do grupo seja Manácio, se comparado com os trajes da fotografia anterior. 28 nov 1944. (O Diário)
É possível que o homem mais à frente do grupo seja Manácio, se comparado com os trajes da fotografia anterior. 28 nov 1944. (O Diário)

O Clube teve sucesso sob a visão de Manácio Apelian, pois veja só este incrível 7 a 1 que ocorreu em 9 de dezembro de 1945!


7 a 1 em Itanhaém. 12 dez 1945. (O Diário)
7 a 1 em Itanhaém. 12 dez 1945. (O Diário)

E vejam só: ali onde se lê placarde, temos a notícia da instalação do painel na Casa Armênia, o famoso painel onde se colocariam depois os cartões de crítica e comunicados da cidade! Lembra-se?


Manácio eterno


A partir dos anos 1950, Manácio aparece nos jornais como sócio do clube de futebol do Santos e como filantropo em muitas festas e celebrações de Itanhaém, contribuindo financeiramente para sua execução.


Em 1960, ele foi um dos fundadores do Clube Náutico de Itanhaém.


Em 1966, no jornal local Correio do Litoral, há uma coluna em homenagem a Manácio, a qual transcrevo aqui em sua inteireza:


"QUEM É QUEM


Snr. Manácio Apelian não é apenas um morador de Itanhaém a ser biografado no Quem é Quem. Mais que isso: é quase uma instituição local, uma figura geográfica de citação, um nome já meio legendário como o foi e é o João Farah, índices ambos de uma Itanhaém ida ou quase ida, e da qual se deveria obrigatoriamente citar, por referência de lugar, esses ocupantes de pontos estratégicos da boa prosa, da grande simpatia e, sobretudo, grande compreensão.


Também, essa bagagem toda não lhe veio apenas da usança do ponto, do colóquio com variada e rica plêiade de personagens, das personalidades mais diversas. Homem viajado, tendo vivido vários anos nos Estados Unidos, aonde prestou o serviço militar, parece ter tomado como gabarito de vida a absorção do que há de melhor na criatura humana: a boa prosa, a intimidade de uma mesa de jogo, a troca de impressões, enfim, talvez mais a apreciação do jogo de pessoas do que do carteado em si. Nascido em Kessabe, Armênia, em 1902, acompanhou seus pais na imigração para o Brasil, vindo a conhecer Itanhaém em 1917. Posteriormente é que foi aos Estados Unidos*, revirando a vida, o mundo de atrações de América. Gregário, a saudade da família o venceu, trazendo-o de volta à pequena Itanhaém para comandar a Casa Armênia e enfim, fundar esse Consulado de Esquina, ponto da melhor prosa, das «tiradas» sobre assuntos internacionais, futebol e principalmente, a política local. E qual o seu segredo? Muito simples: — não sabe dizer não quando é necessário abrir a registradora para algo em benefício da Cidade, do Esporte ou de alguém necessitado. O grande Embaixador de cabelos brancos mantém em perfeito atendimento o seu Consulado de Esquina, Palácio da Boa Prosa, a Casa Armênia, onde "esse maiô vai assentar-lhe perfeitamente, Senhora!"

E ele o diz com a ênfase de um conosseur, o respeito e fidalguia de quem se sabe o recepcionista mais antigo da cidade."


*Como já vimos em nossa pesquisa, dizer que Manácio só foi aos EUA após 1917 é um erro factual. Podemos atribuir isso à memória ter pregado uma peça em Manácio quando revelou essas informações ao jornal.


Anúncio da Casa Armênia, da década de 1960. (Correio do Litoral)
Anúncio da Casa Armênia, da década de 1960. (Correio do Litoral)

Em 1980, foi agraciado pelo então vereador de Itanhaém Ernesto Zwarg Jr. com o título de Cidadão Itanhaense, em homenagem a tantos anos prestados em serviço e doação à cidade que escolheu como lar.


Por fim, no dia 5 de julho de 1988, aos 86 anos, Manácio Apelian faleceu, deixando viúva a d. Filomena Dias Apelian. O casal não teve filhos, e hoje repousa em uma campa na via principal do Cemitério Municipal:


A campa onde repousa Manácio Apelian, 20 fev 2026. (Foto do autor)
A campa onde repousa Manácio Apelian, 20 fev 2026. (Foto do autor)

O legado de Manácio Apelian


O legado de Manácio Apelian não está apenas na antiga fachada da Casa Armênia, nem nos recortes amarelados de jornal, nem mesmo no título de Cidadão Itanhaense que recebeu em 1980; ele está, sobretudo, na cultura de convivência que ajudou a consolidar em Itanhaém.


Imigrante armênio, nascido em Kessab, moldado por travessias que passaram por Santos, pelos Estados Unidos e até pelo Canal do Panamá, Manácio poderia ter sido apenas mais um comerciante; em vez disso, transformou sua loja na esquina da Cunha Moreira com a praça Narciso de Andrade em ponto de encontro, mural público, tribuna informal e extensão da praça. Ali se discutia futebol, política, religião, ali se organizavam festas, ali se abria a registradora para ajudar a cidade, ali se fazia a boa prosa que sustentava laços. Seu maior feito talvez não tenha sido vender tecidos, dirigir o Esporte Clube São Paulo ou participar das celebrações locais, mas sim "costurar" pessoas e fazer com que um homem nascido do outro lado do mundo se tornasse referência geográfica e afetiva de uma cidade inteira.


Foto do jazigo, colorizada por IA - HISTORITA
Foto do jazigo, colorizada por IA - HISTORITA

Obrigado, Manácio Apelian!


Pesquisa feita por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Fontes:

APELIAN, Minas. Petition for Naturalization. Paterson, New Jersey, 12 mar. 1923. National Archives and Records Administration (NARA).

APELIAN, Minas. Application for Passport. Washington, D.C., 3 abr. 1923. National Archives and Records Administration (NARA).

A TRIBUNA. Diversas edições. Santos, 1927–1945.

CORREIO DO LITORAL. Quem é Quem – Manácio Apelian. Itanhaém, 1966.

DIÁRIO DE SANTOS. Protesto de nota promissória. Santos, 8 ago. 1931.

O DIÁRIO. Futebol em Itanhaém. Santos, 25 out. 1944; 12 nov. 1944; 28 nov. 1944; 12 dez. 1945.

DIZ, Maria Tereza Leal. 75 anos, 75 textos: Todos Itanhaenses. Itanhaém: [s.n.], [s.d.].

NATIONAL ARCHIVES AND RECORDS ADMINISTRATION (NARA). Military service records – 12th Cavalry; Camp Gaillard, Canal Zone. Washington, D.C., 1919–1922.

WIKIPÉDIA. Genocídio Armênio. Disponível em: https://pt.wikipedia.org. Acesso em: 2026.

WIKIPÉDIA. Kessab. Disponível em: https://en.wikipedia.org. Acesso em: 2026.

REVISTA VEJA. Ossadas de vítimas do Genocídio Armênio. São Paulo: Editora Abril, [s.d.].

FIND A GRAVE. Minas (Manácio) Apelian – Memorial. Disponível em: https://www.findagrave.com. Acesso em: 2026.

GOOGLE MAPS. 134 Gould Avenue, Paterson, New Jersey; esquina da Rua Cunha Moreira com Praça Narciso de Andrade, Itanhaém. Disponível em: https://maps.google.com. Acesso em: 2026.

PROJETO PRÓ-MEMÓRIA – GABINETE DE LEITURA DE ITANHAÉM (doação de Sonia Maria de Oliveira). Acervo fotográfico – Spasia Albertina Bechelli Cecchi. Itanhaém, 1939.

3 comentários


Jorge Eduardo dos Santos
Jorge Eduardo dos Santos
06 de mar.

Minha saudosa mãe era cliente de "carteirinha" do "seo" Manácio. Muitas coisas do dia a dia eram compradas lá. Trago muitas lembranças da minha infância acompanhando ela na Casa Armênia. Adorava ir pois sempre vinha algo de presente (por mais simples que fosse) que ela comprava. rs

Editado
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João Tadeu Bastos da Silva
João Tadeu Bastos da Silva
28 de fev.

Quem conheceu aquele homem tranquilo, sempre de terno, sentado em uma cadeira na calçada em frente à loja, admirando a Praça Narciso de Andrade, não imaginava uma história de vida tão fascinante. Parabéns Gustavo pelo excelente trabalho de pesquisa.


João Tadeu Bastos da Silva.

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Maria do Carmo Apelian de Oliveira
Maria do Carmo Apelian de Oliveira
27 de fev.

Espetacular! Parabéns, Gustavo por revelar a história de Manácio Apelian, meu tio avô. Fiquei encantada em conhecer tantos detalhes da história dessa importante personalidade da Itanhaém de outrora. Muito obrigada por tantas informações e por revelar a minha origem familiar!

Maria do Carmo Apelian de Oliveira

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© 2026 HISTORITA — História de Itanhaém 

por Gustavo C. da Mota

 

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