Aniversário de Itanhaém (parte 3)
- Gustavo da Mota

- 21 de abr.
- 6 min de leitura

Aqui estamos mais uma vez para continuar com as celebrações do aniversário de Itanhaém, de 494 anos! Nesta terceira parte, vamos fazer uma nova pequena viagem no tempo.
Se você ainda não viu as duas partes anteriores, não perca. Elas são curtinhas!
Pois bem, dito isto, vamos com---

Ah, mas é claro. Eu já ia me esquecendo do enorme ELEFANTE BRANCO que está parado no meio da sala do HISTORITA. Antes de seguirmos viagem, convém falar dele.
No artigo de ontem aqui em nosso blog, eu mencionei um fato bastante interessante, e fiquei de dar mais detalhes. Eu me refiro à data certa do aniversário de Itanhaém. O bom leitor ou boa leitora deve estar querendo saber mais, né?
Muito bem, vamos lá.
22 de abril ou 8 de dezembro?
Pra começo de conversa, sobre o ano de fundação, ninguém duvida: 1532. O problema está no mês e dia em que aconteceu tal fundação.
Segundo Benedicto Calixto em seu livro A Vila de Itanhaém, de 1895 (e agora 2025, pela Noz Editoria em edição minha), Martim Afonso de Sousa esteve em São Vicente entre 22 de janeiro de 1532 e abril de 1533. Calixto menciona que foi nesse período que o navegador desceu um cadinho mais ao sul e foi estabelecendo povoações - entre elas, a de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém.
Ainda segundo Calixto, e também José Rosendo e outros estudiosos da história do Brasil colonial, quando os navegadores portugueses faziam as descobertas de terras e fundavam povoações, era tradição darem o nome para o local baseado em algum santo ou marco religioso que condizesse com a época. Afinal de contas, a colonização tinha também a intenção de espalhar a fé cristã, então os desbravadores do mar tinham a ordem do Rei de Portugal para consagrar as novas terras a Deus.
Isso nós podemos ver em toda a história do descobrimento do Brasil. É como nos traz José Rosendo no livro Itanhaém: Um mar de história (2008) e eu transcrevo:
"Foi pela Páscoa que Cabral avistou terra, razão pela qual deu o nome de Monte Pascoal ao outeiro que se destacava naquele ponto do litoral sul da Bahia; São Vicente, considerada a mais antiga cidade brasileira, foi fundada em 22 de janeiro, dia consagrado a São Vicente Mártir; Rio de Janeiro, que viria a ser sede da Corte Imperial, foi fundada em 20 de janeiro - dia de São Sebastião -, recebendo a denominação de São Sebastião do Rio de Janeiro; São Luís, capital do estado do Maranhão, fundada em 1612, pelos franceses, recebeu esse nome em homenagem a São Luís (...)"
José Rosendo continua citando vários exemplos de outras cidades, até chegar à questão de Itanhaém. Como é fato sabido que a povoação inicial de Itanhaém era mesmo chamada de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, e que Martim Afonso mandou que se construísse uma capela em louvor à Imaculada Conceição no morro do Itaguaçu, deduz-se que a fundação se deu mesmo em 8 de dezembro de 1532, o dia da padroeira, que serviu de inspiração para o nome do lugar.
Se Martim Afonso tivesse se adiantado em um dia, o nome provavelmente teria sido Santo Ambrósio de Itanhaém (santo de 7 de dezembro); se tivesse se atrasado um dia, São João Diogo de Itanhaém (de 9 de dezembro).
Se a fundação tivesse sido em 22 de abril, provavelmente o nome seria São Sotero de Itanhaém.
Mas de onde saiu o 22 de abril?
Pra dizer de maneira bem simples: em 1956, surgiu a necessidade de se pontuar qual era a data de fundação da cidade. De onde partiu a necessidade, o HISTORITA não sabe, porque a lei que contempla essa data não traz nenhuma justificativa.
No Projeto de Lei n. 14 de 1956, apenas se instituiu a data para a fundação como sendo 22 de abril. José Rosendo encontrou, em suas pesquisas, um pequeno trecho em uma "ata da Sessão Solene Extraordinária, na qual o projeto foi aprovado: 'a seguir, o senhor Prefeito Municipal, após breves palavras, procedeu à leitura do ofício que foi enviado por Sua Excelência o Senhor Governador do Estado, no qual solicita providências, após as pesquisas necessárias, para ser determinada a data de fundação da cidade.' O ofício citado não foi encontrado nos anais da Câmara Municipal" (ROSENDO, José. Itanhaém: Um mar de história. 2008).
Ou seja: o governador Adhemar de Barros pediu que se pesquisasse e determinasse a data de fundação da cidade. Por qual razão, é o que nem o HISTORITA, nem ninguém até o momento sabe.
O dia 22 de abril saiu como resultado de uma confusão na pesquisa que os então vereadores fizeram, imagino - e José Rosendo traz isso com bastante ênfase no mesmo livro citado.
A confusão se deu porque a data de 22 de abril, mas de 1555, consta registrada num Auto de Posse dado pelo Rei a Brás Cubas, onde se dizia que "Aos 22 de abril de 1555 ainda não existia povoação alguma no terreno, onde pelo tempo situaram a Vila da Conceição".
Era apenas uma anotação no documento, que por ser um Auto de Posse, foi entendido pelos vereadores como comprovação de que a fundação devia ser estabelecida como 22 de abril!
Mas acontece que esse documento era só uma "obrigação burocrática", porque registros históricos do governo de São Vicente (de 1561) comprovavam que já existia uma povoação ali desde 1532, que havia sido fundada por Martim Afonso de Sousa. É esse registro, aliado à tradição das nomenclaturas de terras portuguesas, que nos permite dizer com quase total certeza que 8 de dezembro de 1532 foi a data original da fundação da povoação de Itanhaém.
Se levarmos em conta que o documento que menciona 22 de abril de 1555 foi a base para escolherem essa data como a fundação, então teríamos um segundo problema... Itanhaém teria 23 anos a menos que se imagina! Percebe como não faz sentido, caro leitor ou querida leitora?
As más línguas ainda comentam que a data teria sido escolhida pela Câmara para fazer um agrado ao governador Adhemar de Barros, visto que 22 de abril era seu aniversário. De fato, Adhemar de Barros gostava de Itanhaém, chegando inclusive a visitar a cidade nessa época.
Será que tem algo a ver? Ou são só fofocas?
Nossa, é a data errada mesmo! E agora?
Meu amigo leitor, minha amiga leitora: a posição do HISTORITA é bem clara quando se trata de confusões históricas.
Consideremos que a data esteja mesmo errada (como eu, Gustavo, pessoalmente acredito). Seria o caso de alterar a data do aniversário? Mandar cancelar as festas? Botar a Ana Castela de volta no avião?
Então... Eu penso o seguinte: talvez a data de 22 de abril tenha partido de um erro. Talvez tenha sido escolhida como agrado político. Nunca vamos saber, imagino. O que sabemos é que não é a data da fundação.
... mas na minha opinião, ela é, sim, a data do aniversário de Itanhaém.
Esclareço: por mais que tenha começado errada, a celebração do aniversário ganhou, ano após ano, camadas e mais camadas de significado. Desde a primeira festa, em 1957, até hoje, em 2026, foram 69 anos de festas em que gerações de itanhaenses e turistas se reuniram para celebrar o que a cidade representava para cada um. Apresentações, desfiles, famílias que se divertiram, o orgulho em ser itanhaense renovado a cada ano... tudo isso, para mim, tem valor suficiente para que se considere o 22 de abril talvez não como o "aniversário de fundação de Itanhaém", mas um "Dia de Itanhaém". Um dia que merece seguir sendo celebrado.
Ademais, temos o dia 8 de dezembro também com a celebração que reúne toda a cidade. O aniversário real de Itanhaém, em comunhão com a origem cristã da povoação. Por que não celebrar o aniversário também nessa data?
Para mim, Itanhaém é um raro caso de cidade com dois "aniversários". Talvez você discorde, e está tudo bem. Mas você há de concordar: quem dá os significados aos eventos, aos momentos e à História somos eu e você, através da forma como conduzimos nossa existência tão passageira em meio às tradições seculares.
O que não se pode disputar, seja qual for a data, é que Itanhaém realmente foi fundada em 1532, por Martim Afonso de Sousa.
Ou seja, feliz 494 anos, Itanhaém!
Amanhã, chegaremos com a parte 4 de nossas postagens sobre o aniversário de Itanhaém, com um artigo especialíssimo trazido pelo querido amigo apaixonado pela História, João Tadeu Bastos da Silva.
Não perca!
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Fontes utilizadas:
FERREIRA, Ana Maria; ROSENDO, José; GAMBEUS, Teresa Faria; SIQUEIRA, Vanderlei de. Itanhaém: Um mar de história. Itanhaém: Editora Gráfica Expoente, 2008.
CALIXTO DE JESUS, Benedicto. A Vila de Itanhaém. Itanhaém: Noz Editoria, 2025.
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