A fundação de Itanhaém, em histórias e canções - por João Tadeu Bastos da Silva


Chegou o 22 de abril! O aniversário de Itanhaém, que completa hoje meros 494 aninhos de juventude, e que tem sido assunto dos nossos papos mais recentes aqui no HISTORITA.
E para fecharmos esses papos recentes, trazemos ao bom leitor ou boa leitora um presente especial, guardado com carinho já há um tanto de tempo, na espera do momento ideal para lançá-lo à leitura.
Trata-se do artigo Itanhaém: História e canções, do nosso querido amigo e colaborador-mor João Tadeu Bastos da Silva, que o escreveu para uma apresentação junto ao Coral Por Todo o Canto, no aniversário dos 490 anos de Itanhaém. As músicas que compuseram a apresentação poderão ser vistos no decorrer do texto em links distintos do YouTube para que você possa ouvir, e a apresentação completa dos 490 anos será disponibilizada ao final, diretamente do canal do YouTube do coral.
Hoje, o espaço é 100% do querido João, do Tadeu, ou do João Tadeu, em uma jornada musical que conta a história de Itanhaém.
Boa leitura!
Itanhaém: História e canções
João Tadeu Bastos da Silva
Nossa História
Na história da humanidade, o século XV é marcado pela Expansão Marítima Europeia. A necessidade de novos mercados, a busca por especiarias e por novas fontes de metais preciosos levou os europeus a explorar o Atlântico, em um processo denominando “As Grandes Navegações”. Nesse contexto, Cristóvão Colombo, navegador italiano à serviço da Espanha, chega à América em 1492. Tempos depois, mais precisamente em 22 de abril de 1500, o fidalgo Pedro Álvares Cabral, a serviço de D. Manuel, rei de Portugal, vislumbra as terras que futuramente teria o nome de Brasil. Diante do contrabando de pau-brasil na costa brasileira, a coroa portuguesa resolve colonizar as novas terras. É preciso povoar a nova terra e explorar suas riquezas.
Portugal organiza então a primeira expedição colonizadora, comandada por Martim Afonso de Souza. Em janeiro de 1532, Martim Afonso fundou a Vila de São Vicente, primeiro núcleo efetivo dos portugueses no Brasil.
É justamente nessa conjuntura histórica que se dá a fundação de Itanhaém. A tese mais aceita é a do pintor e historiador Benedito Calixto de Jesus, depois reforçada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. De acordo com Calixto, em 1532 a frota do navegador português, em viagem de reconhecimento, percorreu todo o litoral até Cananeia. Também é consenso entre os historiadores Machado de Oliveira e Frei Gaspar da Madre de Deus que Martim Afonso estabeleceu uma povoação próxima à Aldeia dos Itanhaens, entre os rios Peruíbe e Itanhaém, no meio da Praia de Peruíbe. Ali foi construída uma igreja e um colégio, sob a invocação da Imaculada Conceição. O impulso do aldeamento aconteceu com o início da catequese pelos jesuítas Padres Leonardo Nunes e Manoel de Paiva. “Abarebebê”, Padre voador ou Padre que voa, era como os indígenas chamavam Leonardo Nunes, devido à rapidez com que caminhava e se transportava de um lado para outro do litoral.
A pequena povoação, mais tarde, passou a chamar-se “São João Batista de Peruíbe”.
Devido à insegurança pela presença de indígenas hostis e pela pouca fertilidade da terra, Martim Afonso fundou uma segunda povoação às margens do Rio Itanhaém e mandou construir uma ermida no outeiro da Pedra Grande ou Morro do Itaguaçu. A pequena igreja foi dedicada à Nossa Senhora da Conceição, daí o primeiro nome: Conceição de Itanhaém.
Frei Gaspar e outros cronistas da época afirmam que o Capitão Francisco de Moraes Barreto foi quem elevou o povoado à categoria de Vila, em abril de 1561. Em 20 de outubro de 1700, por Carta Régia, Conceição de Itanhaém foi elevada a município. Além da sede, compreendia os atuais municípios de Itariri, Peruíbe e Mongaguá. Através da Lei Municipal nº 1021, de 06 de novembro de 1906, passou a chamar-se Itanhaém.
HINO DE ITANHAÉM
Letra: Roberto Gonçalves Juliano. Música: Vidal França
Num dia assim como se fosse o maior,
Esta paisagem se pintava em azul;
Nas formas vivas, vistas lá do alto,
A natureza de Calixto em tons de amor.
Num dia assim, todo banhado de sol,
Martim Afonso ancorava as caravelas,
De paixão por estas serras, céu e mar, beleza e cor.
Itanhaéns, gente de terra,
– o som da pedra e do mar –
Têm novo canto, um Deus de encanto,
Anchieta a ensinar:
O que nasce da Glória só tem por destino iluminar;
Na raiz do teu povo, razão pra sonhar.
(refrão)
Itanhaém, ilha do tempo,
– a foz no rio de abraço ao mar –
Lição da vida mais querida,
Não param de chegar
Os teus filhos do Leste, do Norte, Nordeste, de todo lugar;
O caminho da História, no berço do mar.
Belezas Naturais
O Oceano Atlântico banha 26 quilômetros de praias. Destacam-se as praias dos Pescadores, Praia do Sonho, Cibratel e Praião, também chamada de Praia da Frente. A rede fluvial é extensa. O principal rio é o Itanhaém, formado por uma grande quantidade de afluentes, onde se destacam os rios Branco, Preto, Aguapeú e Mambu.
O RIO DE ITANHAÉM
Música e letra: Antonio Bruno
Meu barco ninguém quer mais
No Rio Itanhaém
A lancha agora é que faz
Viagem de vai e vem
Adeus velho amigo rio
Progresso te conquistou
Adeus velho amigo rio
A lancha nos separou
Adeus, adeus (Bis)
Adeus velho amigo rio (Bis)
Meu coração mais padece
Se pego a matutar
Pra que ter meus braços fortes
Pra que eu saber remar
Adeus velho amigo rio
Adeus noroeste adeus
Vou ver se lá no sertão
Os rios ainda são meus
Os Irmãos Zwarg
Antonio Bruno, Ernesto Zwarg Júnior e Ascendino Rocha Zwarg deixaram registradas em muitas músicas as belezas e a paixão por Itanhaém.
Antonio Bruno, paulistano, frequentava a cidade desde 1946. Dos três irmãos, foi o único que seguiu a carreira musical. Tocava piano, violão, baixo, órgão, saxofone, acordeão, cavaquinho e bandolim. Compôs mais de seiscentas músicas, muitas delas gravadas por cantores famosos como Jamelão, Maysa, Sílvio Caldas, Elizete Cardoso.
Ascendino (Tino) nasceu em São Paulo e morou muitos anos em Itanhaém. Desde cedo dedicou-se à música, principalmente aos instrumentos de corda, todos aprendidos “de ouvido”. Sua canção “O Velho Mar”, uma das mais lindas sobre nossa cidade foi gravada pelo conjunto musical Titulares do Ritmo.
Nascido em Piracicaba em 1925, Ernesto Zwarg Júnior, filho de Ernesto Zwarg e Cymodocéa Rocha Galhardo Zwarg (a poetisa Pedrinha), mudou-se para Itanhaém em 1948. Além de compositor, foi professor, vereador por três legislaturas e ecologista. Fundou a Sociedade de Ecologia de Itanhaém, juntamente com José Rosendo e José Rodrigues Poitena. Sempre lutou em defesa do meio ambiente, fazendo de Itanhaém a capital das lutas ambientalistas.
O VELHO MAR
Música e letra: Ascendino Rocha Zwarg (Tino)
O velho mar me faz
Lembrar Itanhaém
Velhas casas, o Convento, a Matriz,
O Guaraú, o Baixio, o rio
O rio pra atravessar
Cama de Anchieta e o mar
O velho mar me faz
Lembrar Itanhaém
Velhas casas, o Convento, a Matriz,
O Guaraú, o Baixio, o rio
A serenata na Pedra da Lua
Para as sereias que vêm ao mar
O velho mar me faz
Lembrar Itanhaém
Velhas casas, o Convento, a Matriz,
O Guaraú, o Baixio, o rio.
PRAIAS DE ITANHAÉM
Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior
Praias de Itanhaém
Magia de luz e cor
Princesa dos mares do sul
Devolve o meu amor
Há um ditado na minha terra
Amor de praia não sobe a serra
É como a onda que beija a areia
Quando é noite de lua cheia
A onda beija e vai-se embora
A areia fica tão triste e chora
Eu já sabia linda criança
Que era tudo onda
Só ficou uma esperança
Amor de praia...
O Convento
A pequena ermida no alto do Morro do Itaguaçu deu lugar ao imponente Convento de Nossa Senhora da Conceição. Segundo Frei Basílio Röwer, em 2 de janeiro de 1654 foi dada a posse do local para a Ordem Franciscana.
A construção da igreja abrange o período de 1699 a 1713. Posteriormente, o local foi ampliado com a construção do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, entre os anos de 1733 e 1734. O acesso ao Convento fazia-se até 1752 por uma escada de 83 degraus. Depois, foi autorizada pela Câmara a construção de uma ladeira, em dois lances, ou planos inclinados, com muralhas e parapeitos.
O CONVENTO DE ITANHAÉM
Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior
Lá no convento de Nossa Senhora
Da Conceição de Itanhaém... (bis)
São 83 degraus
Pra se alcançar Jerusalém... (bis)
Em Itanhaém... (bis)
Lá no Convento de São Francisco
em Conceição de Itanhaém... (bis)
Se ouve um canto misterioso
Ninguém sabe de onde vem... (bis)
Em Itanhaém... (bis)
Índios cantando em latim
no altar do Convento
Padres rezando em tupi
no escuro da mata
Os índios e os curumins
de mãos dadas
O manto de Nossa Senhora
está todo molhado
do orvalho da mata,
onde abençoou
a um índio guerreiro ferido
Lá no Convento de São Benedito
em Conceição de Itanhaém... (bis)
Frei Epifânio e Frei Venâncio
Repicam o sino belembembem...(bis)
bebemlembembembebemlembembembebelembembem
Amém...!
Samba Itanhaense
João Pedro Orsi, o popular João Lucas, nasceu em Nova Trento, Santa Catarina, em 1921. Começou a tocar violão aos 17 anos, junto com os irmãos que tocavam cavaquinho e pandeiro. Após a morte do pai, mudou-se para Pedro de Toledo e com os irmãos formou um conjunto musical denominado “Morro de Fome”. Fixou residência na cidade de Mongaguá e, após ficar viúvo, veio para Itanhaém, indo trabalhar como padeiro na famosa Padaria da Praça. Compôs inúmeras canções, inclusive jingles para campanhas políticas na região, sendo as mais conhecidas “Jardim Ivoty”, “Eleitor” e “Itanhaém Também faz Samba”.
ITANHAÉM TAMBÉM FAZ SAMBA
Música e letra: João Lucas
Quem é que não conhece
Uma cidade quadrissecular
Protegida por montanhas
E beijada pelo mar
Mora a Virgem Conceição
Lá no alto da cidade
Deus proteja essa beleza
Com paz e felicidade
(2x)
Também tem Praia do Sonho
Tem Prainha e Cibratel
Lugares pitorescos
Pra passar lua de mel
Tem uma cama de pedra
Foi do apóstolo Anchieta
Tem seu nome na história
Itanhaém tem sua glória
Por isso eu canto
Para toda a gente bamba
Com o tempo que passou
Itanhaém também faz samba
Nossa Gente
A população de Itanhaém, em sua origem, era formada por caiçaras. A palavra “caiçara” é de origem indígena. Possui vários significados: “paliçadas de proteção nas tabas indígenas”; “cerca de ramos, fortificação para vedar o trânsito”;” armadilha para apanhar peixes” entre outros.
O termo também é aplicado às populações que que vivem junto às praias, em economia de subsistência baseada na pesca, extração de palmitos e alguns frutos silvestres e uma fraca agricultura onde predominavam as roças de mandioca.
A população caiçara ocupa toda a costa dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Os traços físicos e culturais revelam a mistura do português com o índio e, em menor grau, com o negro africano. Os constantes movimentos migratórios proporcionaram a chegada de outros caiçaras das regiões de Iguape, litoral norte de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda nas primeiras décadas do século XX começam a aparecer os migrantes nordestinos. Importante ressaltar a chegada de imigrantes de diversos países que contribuíram para o desenvolvimento econômico e cultural de nossa cidade. Destaque para as famílias Apelian, Bechir, Saito e Bechelli.
O TRENZINHO DO LITORAL
Música e letra: Ernesto Zwarg Júnior
É um trenzinho que sai lá da Ana Costa,
Sacode, sacode, mas a gente gosta (bis)
Samaritá, tem mosquito pra coçar,
Mas antes vem a ponte, que dá medo atravessar
Êta Mongaguá, nome difícil de falar,
Tem o poço das Antas pra gente passear.
Sorocabana, Sorocabana...
Itanhaém era primeiro Conceição,
Por cima passa o trem e por baixo embarcação;
Viva Peruíbe, o xodó da pescaria,
O trem deixa a praia, vai seguindo a serrania
Itarirí, Toledo, Miracatu,
Plantação mais plantação,
“brajirero”, japonês;
Tamo chegando à Juquiá,
Bom Jesus de Iguape vamos visitar,
Tamo chegando à Juquiá
Tamo chegando à Juquiá...
O CORREIO DE IGUAPE
Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior
Itanhaém da praia grande tão bonita
Como a saudade que é infinita (bis)
O Correio de Iguape
Que chegava a Cananéia
Namorava uma índia
Lá na Serra da Juréia (bis)
Saía de São Vicente
Nem ligava pra maré
Praia Grande, Peruíbe
Percorria tudo a pé (bis)
Itanhaém da praia grande tão bonita
Como a saudade que é infinita (bis)
Mas chegando na Juréia
Que nas nuvens se escondia
Só por causa dessa índia,
Do "correio" se esquecia (bis)
Uma vez na Primavera,
Nem chegou à Cananéia,
Dizem que ficou pra sempre
Lá na Serra da Juréia!
SAUDADE RENITENTE
Música e letra: Ernesto Zwarg Júnior
Saudade renitente
Lembrando Itanhaém
Com seus telhados velhos
O mar e a serra além (bis)
Nas noites de seresta
Do mar o cantochão
As ondas acompanham
Nas teclas do costão (bis)
Saudade do voo da gaivota
E das cores do poente
Dos sinos da velha igrejinha
Chamando aquela boa gente
Saudade da areia prateada
Quando o sol vem despontando
Do leve balanço da canoa
O rio atravessando
O rio atravessando (bis)
Finalizando, procuremos aqui sintetizar a nossa Itanhaém em seus múltiplos aspectos: sua história e tradições, seus monumentos, suas belezas naturais, sua gente e sua cultura. Atualmente com uma população estimada em 103.000 habitantes, continua atraindo muitas pessoas que aqui vem residir ou visitar, afinal:
“Itanhaém, o que é que você tem?
Quem vem uma vez, vem sempre.
Fica triste se não vem...”
ITANHAÉM, O QUE É QUE VOCÊ TEM?
Música e letra: Carlos Paschoal Allievi e Alpheu Piedade
Itanhaém, o que é que você tem?
Itanhaém, o que é que você tem?
Quem vem uma vez vem sempre
Fica triste se não vem
Quem vem uma vez vem sempre
Fica triste se não vem
Vim de longe com saudade
Do seu povo, de sua serra
De seu rio, de sua praia
De tudo que é desta terra
Itanhaém, o que é que você tem? (bis)
Quem vem uma vez vem sempre
Fica triste se não vem (bis)
Sua praia tem romance,
Tem história pra contar
Quando chega a madrugada
as ondas levam pro mar
Itanhaém, o que é que você tem? (bis)
Quem vem uma vez vem sempre
Fica triste se não vem (bis)
De noite a sereia canta
pra quem anda apaixonado
Quem vai sozinho não ouve
Deve ir acompanhado
Itanhaém, o que é que você tem?
Itanhaém, o que é que você tem?
Eu perguntei à sereia
Ela não sabe também
Eu perguntei à sereia
Ela não sabe também
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João Tadeu Bastos da Silva, fevereiro de 2026.
Texto adaptado do roteiro original do espetáculo “Itanhaém, gente que encanta”, apresentado em abril de 2022, sob a regência do Maestro Luiz Marcelo Baeta da Silva (in memoriam).
O espetáculo dos 490 anos inteiro para seu deleite, que inclui canções adicionais, está a seguir.
Deixo meu agradecimento ao João Tadeu por essa pérola, compartilhada com o HISTORITA para todo o sempre, para que tantas gerações atuais e futuras possam conhecer o encanto da música e da história itanhaense.
Parabéns, Itanhaém!!
Referências Bibliográficas:
BRANCO, Alice. Cultura Caiçara, regate de um povo. 1. ed. Peruíbe: Oficina do Livro e Cultura, 2005.
DIZ, Maria Tereza Leal. Itanhaém e suas músicas. Itanhaém: [s.n.], [s.d.]
JESUS, Benedito Calixto de. A Vila de Itanhaém. 2.ed. rev. e ampl. Itanhaém: Gustavo Caperutto da Mota, 2025.
SILVA, João Tadeu Bastos da. Devoção e culto à N. Sra. da Conceição de Itanhaém. Monografia apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Santos. p. 96.1993.




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