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A fundação de Itanhaém, em histórias e canções - por João Tadeu Bastos da Silva

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
22 de abr.
10 min de leitura
Igreja Matriz de Santana, 6 mai 2010 (Sérgio Furtado), pela https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.en
Igreja Matriz de Santana, 6 mai 2010 (Sérgio Furtado), pela https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.en

Chegou o 22 de abril! O aniversário de Itanhaém, que completa hoje meros 494 aninhos de juventude, e que tem sido assunto dos nossos papos mais recentes aqui no HISTORITA.


E para fecharmos esses papos recentes, trazemos ao bom leitor ou boa leitora um presente especial, guardado com carinho já há um tanto de tempo, na espera do momento ideal para lançá-lo à leitura.


Trata-se do artigo Itanhaém: História e canções, do nosso querido amigo e colaborador-mor João Tadeu Bastos da Silva, que o escreveu para uma apresentação junto ao Coral Por Todo o Canto, no aniversário dos 490 anos de Itanhaém. As músicas que compuseram a apresentação poderão ser vistos no decorrer do texto em links distintos do YouTube para que você possa ouvir, e a apresentação completa dos 490 anos será disponibilizada ao final, diretamente do canal do YouTube do coral.


Hoje, o espaço é 100% do querido João, do Tadeu, ou do João Tadeu, em uma jornada musical que conta a história de Itanhaém.


Boa leitura!


Itanhaém: História e canções

João Tadeu Bastos da Silva


Nossa História


Na história da humanidade, o século XV é marcado pela Expansão Marítima Europeia. A necessidade de novos mercados, a busca por especiarias e por novas fontes de metais preciosos levou os europeus a explorar o Atlântico, em um processo denominando “As Grandes Navegações”. Nesse contexto, Cristóvão Colombo, navegador italiano à serviço da Espanha, chega à América em 1492. Tempos depois, mais precisamente em 22 de abril de 1500, o fidalgo Pedro Álvares Cabral, a serviço de D. Manuel, rei de Portugal, vislumbra as terras que futuramente teria o nome de Brasil. Diante do contrabando de pau-brasil na costa brasileira, a coroa portuguesa resolve colonizar as novas terras. É preciso povoar a nova terra e explorar suas riquezas.


Portugal organiza então a primeira expedição colonizadora, comandada por Martim Afonso de Souza. Em janeiro de 1532, Martim Afonso fundou a Vila de São Vicente, primeiro núcleo efetivo dos portugueses no Brasil.


É justamente nessa conjuntura histórica que se dá a fundação de Itanhaém. A tese mais aceita é a do pintor e historiador Benedito Calixto de Jesus, depois reforçada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. De acordo com Calixto, em 1532 a frota do navegador português, em viagem de reconhecimento, percorreu todo o litoral até Cananeia. Também é consenso entre os historiadores Machado de Oliveira e Frei Gaspar da Madre de Deus que Martim Afonso estabeleceu uma povoação próxima à Aldeia dos Itanhaens, entre os rios Peruíbe e Itanhaém, no meio da Praia de Peruíbe. Ali foi construída uma igreja e um colégio, sob a invocação da Imaculada Conceição. O impulso do aldeamento aconteceu com o início da catequese pelos jesuítas Padres Leonardo Nunes e Manoel de Paiva. “Abarebebê”, Padre voador ou Padre que voa, era como os indígenas chamavam Leonardo Nunes, devido à rapidez com que caminhava e se transportava de um lado para outro do litoral.


A pequena povoação, mais tarde, passou a chamar-se “São João Batista de Peruíbe”.


Devido à insegurança pela presença de indígenas hostis e pela pouca fertilidade da terra, Martim Afonso fundou uma segunda povoação às margens do Rio Itanhaém e mandou construir uma ermida no outeiro da Pedra Grande ou Morro do Itaguaçu. A pequena igreja foi dedicada à Nossa Senhora da Conceição, daí o primeiro nome: Conceição de Itanhaém.


Frei Gaspar e outros cronistas da época afirmam que o Capitão Francisco de Moraes Barreto foi quem elevou o povoado à categoria de Vila, em abril de 1561. Em 20 de outubro de 1700, por Carta Régia, Conceição de Itanhaém foi elevada a município. Além da sede, compreendia os atuais municípios de Itariri, Peruíbe e Mongaguá. Através da Lei Municipal nº 1021, de 06 de novembro de 1906, passou a chamar-se Itanhaém.



HINO DE ITANHAÉM

Letra: Roberto Gonçalves Juliano. Música: Vidal França


Num dia assim como se fosse o maior,

Esta paisagem se pintava em azul;

Nas formas vivas, vistas lá do alto,

A natureza de Calixto em tons de amor.


Num dia assim, todo banhado de sol,

Martim Afonso ancorava as caravelas,

De paixão por estas serras, céu e mar, beleza e cor.


Itanhaéns, gente de terra,

– o som da pedra e do mar –

Têm novo canto, um Deus de encanto,

Anchieta a ensinar:

O que nasce da Glória só tem por destino iluminar;

Na raiz do teu povo, razão pra sonhar.


(refrão)


Itanhaém, ilha do tempo,

– a foz no rio de abraço ao mar –

Lição da vida mais querida,

Não param de chegar

Os teus filhos do Leste, do Norte, Nordeste, de todo lugar;

O caminho da História, no berço do mar.


Belezas Naturais


O Oceano Atlântico banha 26 quilômetros de praias. Destacam-se as praias dos Pescadores, Praia do Sonho, Cibratel e Praião, também chamada de Praia da Frente. A rede fluvial é extensa. O principal rio é o Itanhaém, formado por uma grande quantidade de afluentes, onde se destacam os rios Branco, Preto, Aguapeú e Mambu.



O RIO DE ITANHAÉM

Música e letra: Antonio Bruno


Meu barco ninguém quer mais

No Rio Itanhaém

A lancha agora é que faz

Viagem de vai e vem

Adeus velho amigo rio

Progresso te conquistou

Adeus velho amigo rio

A lancha nos separou


Adeus, adeus (Bis)

Adeus velho amigo rio (Bis)

Meu coração mais padece

Se pego a matutar

Pra que ter meus braços fortes

Pra que eu saber remar

Adeus velho amigo rio

Adeus noroeste adeus

Vou ver se lá no sertão

Os rios ainda são meus


Os Irmãos Zwarg


Antonio Bruno, Ernesto Zwarg Júnior e Ascendino Rocha Zwarg deixaram registradas em muitas músicas as belezas e a paixão por Itanhaém.


Antonio Bruno, paulistano, frequentava a cidade desde 1946. Dos três irmãos, foi o único que seguiu a carreira musical. Tocava piano, violão, baixo, órgão, saxofone, acordeão, cavaquinho e bandolim. Compôs mais de seiscentas músicas, muitas delas gravadas por cantores famosos como Jamelão, Maysa, Sílvio Caldas, Elizete Cardoso.


Ascendino (Tino) nasceu em São Paulo e morou muitos anos em Itanhaém. Desde cedo dedicou-se à música, principalmente aos instrumentos de corda, todos aprendidos “de ouvido”. Sua canção “O Velho Mar”, uma das mais lindas sobre nossa cidade foi gravada pelo conjunto musical Titulares do Ritmo.


Nascido em Piracicaba em 1925, Ernesto Zwarg Júnior, filho de Ernesto Zwarg e Cymodocéa Rocha Galhardo Zwarg (a poetisa Pedrinha), mudou-se para Itanhaém em 1948. Além de compositor, foi professor, vereador por três legislaturas e ecologista. Fundou a Sociedade de Ecologia de Itanhaém, juntamente com José Rosendo e José Rodrigues Poitena. Sempre lutou em defesa do meio ambiente, fazendo de Itanhaém a capital das lutas ambientalistas.




O VELHO MAR

Música e letra: Ascendino Rocha Zwarg (Tino)


O velho mar me faz

Lembrar Itanhaém

Velhas casas, o Convento, a Matriz,

O Guaraú, o Baixio, o rio

O rio pra atravessar

Cama de Anchieta e o mar


O velho mar me faz

Lembrar Itanhaém

Velhas casas, o Convento, a Matriz,

O Guaraú, o Baixio, o rio

A serenata na Pedra da Lua

Para as sereias que vêm ao mar


O velho mar me faz

Lembrar Itanhaém

Velhas casas, o Convento, a Matriz,

O Guaraú, o Baixio, o rio.




PRAIAS DE ITANHAÉM

Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior


Praias de Itanhaém

Magia de luz e cor

Princesa dos mares do sul

Devolve o meu amor


Há um ditado na minha terra

Amor de praia não sobe a serra

É como a onda que beija a areia

Quando é noite de lua cheia


A onda beija e vai-se embora

A areia fica tão triste e chora

Eu já sabia linda criança

Que era tudo onda

Só ficou uma esperança


Amor de praia...


O Convento


A pequena ermida no alto do Morro do Itaguaçu deu lugar ao imponente Convento de Nossa Senhora da Conceição. Segundo Frei Basílio Röwer, em 2 de janeiro de 1654 foi dada a posse do local para a Ordem Franciscana.


A construção da igreja abrange o período de 1699 a 1713. Posteriormente, o local foi ampliado com a construção do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, entre os anos de 1733 e 1734. O acesso ao Convento fazia-se até 1752 por uma escada de 83 degraus. Depois, foi autorizada pela Câmara a construção de uma ladeira, em dois lances, ou planos inclinados, com muralhas e parapeitos.




O CONVENTO DE ITANHAÉM

Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior


Lá no convento de Nossa Senhora

Da Conceição de Itanhaém... (bis)


São 83 degraus

Pra se alcançar Jerusalém... (bis)


Em Itanhaém... (bis)


Lá no Convento de São Francisco

em Conceição de Itanhaém... (bis)


Se ouve um canto misterioso

Ninguém sabe de onde vem... (bis)


Em Itanhaém... (bis)


Índios cantando em latim

no altar do Convento

Padres rezando em tupi

no escuro da mata

Os índios e os curumins

de mãos dadas

O manto de Nossa Senhora

está todo molhado

do orvalho da mata,

onde abençoou

a um índio guerreiro ferido


Lá no Convento de São Benedito

em Conceição de Itanhaém... (bis)


Frei Epifânio e Frei Venâncio

Repicam o sino belembembem...(bis)


bebemlembembembebemlembembembebelembembem

Amém...!


Samba Itanhaense


João Pedro Orsi, o popular João Lucas, nasceu em Nova Trento, Santa Catarina, em 1921. Começou a tocar violão aos 17 anos, junto com os irmãos que tocavam cavaquinho e pandeiro. Após a morte do pai, mudou-se para Pedro de Toledo e com os irmãos formou um conjunto musical denominado “Morro de Fome”. Fixou residência na cidade de Mongaguá e, após ficar viúvo, veio para Itanhaém, indo trabalhar como padeiro na famosa Padaria da Praça. Compôs inúmeras canções, inclusive jingles para campanhas políticas na região, sendo as mais conhecidas “Jardim Ivoty”, “Eleitor” e “Itanhaém Também faz Samba”.



ITANHAÉM TAMBÉM FAZ SAMBA

Música e letra: João Lucas


Quem é que não conhece

Uma cidade quadrissecular

Protegida por montanhas

E beijada pelo mar

Mora a Virgem Conceição

Lá no alto da cidade

Deus proteja essa beleza

Com paz e felicidade

(2x)


Também tem Praia do Sonho

Tem Prainha e Cibratel

Lugares pitorescos

Pra passar lua de mel

Tem uma cama de pedra

Foi do apóstolo Anchieta

Tem seu nome na história

Itanhaém tem sua glória


Por isso eu canto

Para toda a gente bamba

Com o tempo que passou

Itanhaém também faz samba


Nossa Gente


A população de Itanhaém, em sua origem, era formada por caiçaras. A palavra “caiçara” é de origem indígena. Possui vários significados: “paliçadas de proteção nas tabas indígenas”; “cerca de ramos, fortificação para vedar o trânsito”;” armadilha para apanhar peixes” entre outros.


O termo também é aplicado às populações que que vivem junto às praias, em economia de subsistência baseada na pesca, extração de palmitos e alguns frutos silvestres e uma fraca agricultura onde predominavam as roças de mandioca.


A população caiçara ocupa toda a costa dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Os traços físicos e culturais revelam a mistura do português com o índio e, em menor grau, com o negro africano. Os constantes movimentos migratórios proporcionaram a chegada de outros caiçaras das regiões de Iguape, litoral norte de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda nas primeiras décadas do século XX começam a aparecer os migrantes nordestinos. Importante ressaltar a chegada de imigrantes de diversos países que contribuíram para o desenvolvimento econômico e cultural de nossa cidade. Destaque para as famílias Apelian, Bechir, Saito e Bechelli.



O TRENZINHO DO LITORAL

Música e letra: Ernesto Zwarg Júnior


É um trenzinho que sai lá da Ana Costa,

Sacode, sacode, mas a gente gosta (bis)


Samaritá, tem mosquito pra coçar,

Mas antes vem a ponte, que dá medo atravessar

Êta Mongaguá, nome difícil de falar,

Tem o poço das Antas pra gente passear.


Sorocabana, Sorocabana...


Itanhaém era primeiro Conceição,

Por cima passa o trem e por baixo embarcação;

Viva Peruíbe, o xodó da pescaria,

O trem deixa a praia, vai seguindo a serrania

Itarirí, Toledo, Miracatu,

Plantação mais plantação,

“brajirero”, japonês;

Tamo chegando à Juquiá,

Bom Jesus de Iguape vamos visitar,

Tamo chegando à Juquiá

Tamo chegando à Juquiá...




O CORREIO DE IGUAPE

Música e letra: Antonio Bruno e Ernesto Zwarg Júnior


Itanhaém da praia grande tão bonita

Como a saudade que é infinita (bis)


O Correio de Iguape

Que chegava a Cananéia

Namorava uma índia

Lá na Serra da Juréia (bis)


Saía de São Vicente

Nem ligava pra maré

Praia Grande, Peruíbe

Percorria tudo a pé (bis)


Itanhaém da praia grande tão bonita

Como a saudade que é infinita (bis)


Mas chegando na Juréia

Que nas nuvens se escondia

Só por causa dessa índia,

Do "correio" se esquecia (bis)


Uma vez na Primavera,

Nem chegou à Cananéia,

Dizem que ficou pra sempre

Lá na Serra da Juréia!



SAUDADE RENITENTE

Música e letra: Ernesto Zwarg Júnior


Saudade renitente

Lembrando Itanhaém

Com seus telhados velhos

O mar e a serra além (bis)


Nas noites de seresta

Do mar o cantochão

As ondas acompanham

Nas teclas do costão (bis)


Saudade do voo da gaivota

E das cores do poente

Dos sinos da velha igrejinha

Chamando aquela boa gente


Saudade da areia prateada

Quando o sol vem despontando

Do leve balanço da canoa

O rio atravessando

O rio atravessando (bis)


Finalizando, procuremos aqui sintetizar a nossa Itanhaém em seus múltiplos aspectos: sua história e tradições, seus monumentos, suas belezas naturais, sua gente e sua cultura. Atualmente com uma população estimada em 103.000 habitantes, continua atraindo muitas pessoas que aqui vem residir ou visitar, afinal:


“Itanhaém, o que é que você tem?

Quem vem uma vez, vem sempre.

Fica triste se não vem...”



ITANHAÉM, O QUE É QUE VOCÊ TEM?

Música e letra: Carlos Paschoal Allievi e Alpheu Piedade


Itanhaém, o que é que você tem?

Itanhaém, o que é que você tem?

Quem vem uma vez vem sempre

Fica triste se não vem

Quem vem uma vez vem sempre

Fica triste se não vem


Vim de longe com saudade

Do seu povo, de sua serra

De seu rio, de sua praia

De tudo que é desta terra


Itanhaém, o que é que você tem? (bis)

Quem vem uma vez vem sempre

Fica triste se não vem (bis)


Sua praia tem romance,

Tem história pra contar

Quando chega a madrugada

as ondas levam pro mar


Itanhaém, o que é que você tem? (bis)

Quem vem uma vez vem sempre

Fica triste se não vem (bis)


De noite a sereia canta

pra quem anda apaixonado

Quem vai sozinho não ouve

Deve ir acompanhado


Itanhaém, o que é que você tem?

Itanhaém, o que é que você tem?

Eu perguntei à sereia

Ela não sabe também

Eu perguntei à sereia

Ela não sabe também

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João Tadeu Bastos da Silva, fevereiro de 2026.


Texto adaptado do roteiro original do espetáculo “Itanhaém, gente que encanta”, apresentado em abril de 2022, sob a regência do Maestro Luiz Marcelo Baeta da Silva (in memoriam).


O espetáculo dos 490 anos inteiro para seu deleite, que inclui canções adicionais, está a seguir.


Deixo meu agradecimento ao João Tadeu por essa pérola, compartilhada com o HISTORITA para todo o sempre, para que tantas gerações atuais e futuras possam conhecer o encanto da música e da história itanhaense.


Parabéns, Itanhaém!!



Referências Bibliográficas:

BRANCO, Alice. Cultura Caiçara, regate de um povo. 1. ed. Peruíbe: Oficina do Livro e Cultura, 2005.

DIZ, Maria Tereza Leal. Itanhaém e suas músicas. Itanhaém: [s.n.], [s.d.]

JESUS, Benedito Calixto de. A Vila de Itanhaém. 2.ed. rev. e ampl. Itanhaém: Gustavo Caperutto da Mota, 2025.

SILVA, João Tadeu Bastos da. Devoção e culto à N. Sra. da Conceição de Itanhaém. Monografia apresentada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Católica de Santos. p. 96.1993.

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