Festa do Divino de Itanhaém através dos anos (parte 3)
- Gustavo da Mota

- há 6 dias
- 12 min de leitura
Bom ver você aqui mais uma vez, para seguirmos nosso passeio pela Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém com o passar do tempo. Nesta terceira parte, começaremos em 1936 e vamos tocando adiante, até a hora que der!
Festa do Divino em 1936, e o festeiro que morreu em 1938
Eis a notícia trazida pelo Correio de São Paulo, em 12 de maio de 1936:

É de observar como a tradição dos tiros se manteve em todos os anos. Será que descobriremos quando acabou? Afinal, que eu saiba, hoje em dia não são dados tiros. Isso é bom, porque imagine só o medo dos desavisados... ou mesmo dos avisados, porque a situação da criminalidade anda meio assustadora no geral aqui na Baixada... risos
Enfim, em 1940, a notícia trazida pelo Correio da Tarde chega com uma informação surpreendente. Veja:

O festeiro eleito em 1938 para o ano de 1939, Sizino Patusca, morreu! E isso fez com que não tivesse a festa em 1939. Pois é! Este é o primeiro registro de um ano em que a Festa do Divino de Itanhaém não foi celebrada, por falta de festeiro.
E quem foi Sizino Patusca, você poderia me perguntar. Ora, para a nossa felicidade, esse é um nome sobre o qual dá pra se encontrar muitas informações. Afinal, ele foi o primeiro presidente do Santos F.C.!

Ao verificarmos sua biografia, é possível ver que ele faleceu em 5 de setembro de 1938. Isso mostra que ele foi tido como o festeiro durante os festejos de 1938 (abril ou maio, possivelmente), e bancaria a festa de 1939. Mas como morreu em setembro, a Festa ficou sem festeiro e foi cancelada.
E por ter sido cancelada, não foi feita a escolha de um novo festeiro em 1939, claro. Por isso o jornal acima menciona que as pessoas (incluindo os descendentes de Patusca) é que se uniram em comissões para conseguir donativos para a Festa de 1940. Veja como é aquilo que já falamos nas partes anteriores: como o povo mantém a tradição viva por seus próprios recursos e esforços.
Agora vamos já para bem mais longe: 1955. Aqui, a notícia encontrada pelo HISTORITA não é diretamente sobre a Festa, mas sim sobre uma excursão feita a Itanhaém, que por acaso estava celebrando a Festa do Divino na data. Apesar disso, ela traz um pequeno detalhe interessante, que não havia sido mencionado até então:

O biscoitinho em forma de pomba! Será que essa tradição se manteve durante os anos? Confesso que não acompanhei todas as andanças do Divino neste ano, mas não vi biscoitinhos de pomba. Eu quero biscoito! risos O que eu sei é que se compartilhou o pão em formato de pomba por muitos anos - seria esse o biscoito? O HISTORITA está confuso! Comente, caso você tenha mais informações, que eu as acrescentarei aqui.
Festa do Divino de 1976 - um dos registros mais completos
Nosso salto agora vai a 1976, onde é possível encontrarmos no saudoso jornal Repórter do Litoral uma matéria completíssima, a qual vou transcrever aqui, porque as fotos que consegui estão um tanto ruins de se ler. Essa edição do jornal é do acervo da Biblioteca Municipal Poeta Paulo Bomfim, de data de 2 de junho de 1976.
"A TERCEIRA PESSOA
Nem o Pai, nem o Filho — a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o ESPÍRITO SANTO.
No sétimo domingo depois da Páscoa, será a Festa do Divino Espirito Santo — PENTECOSTES — do grego Pentêkostê — o quinquagésimo dia.
É uma data importante dentro da liturgia da Igreja Católica, pois assinala o dia em que no Cenáculo, o Espirito Santo manifestou-se sob a forma de línguas de fogo a 120 discípulos de Cristo ali reunidos.
Para os judeus, Pentecostes assinala o dia em que, no monte Sinai, Deus entregou a Moisés, as Tábuas da Lei — 16 séculos antes do acontecimento cristão. Instituíram uma festa, inicialmente chamada Festa da Colheita e depois, Festa dos Cinquenta Dias.

Quando Pentecostes passou a ser o dia da Festa do Divino Espírito Santo ou simplesmente a popular Festa do Divino? Presume-se que tenha sido em Portugal, no século XIV, quando a rainha Isabel, mulher de D. Dinis, mandou construir a Igreja do Espírito Santo em Alenquer. A devoção da rainha à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade ganhou popularidade rapidamente, tendo sido trazido para o Brasil no século XIV o costume de celebrar-se Pentecostes.
Durante os festejos, armavam-se coretos, palanques e um trono para o “Imperador” do Divino (criança ou adulto) escolhido para presidir a festa. O Imperador gozava dos direitos de majestade, libertando presos comuns e dando audiência, com sua corte solenemente reunida. A festa propriamente dita era constituída de missa cantada, procissão e leilão de prendas.
A Folia do Divino é uma festa que cresceu paralelamente à Festa do Divino ou em decorrência dela; é uma celebração folclórica, realizada por grupos de pessoas que se reúnem com a finalidade de pedir donativos, em várias casas, para os festejos do Divino. Esses grupos eram formados por músicos e cantores — os Foliões — que dependiam do valor de ofertas, cantavam, acompanhados ou não, de violas e pandeiros, a ladainha de onze meses para a coleta de auxílio e era acolhida com satisfação e em sítios e fazendas, quando todo o pessoal comia, rezava e dançava. Ao clarear do dia, era servido o café (bem acompanhado). A Folia cantava a “Alvorada ao Divino” e partia para outra jornada. A cerimônia foi muito popular em Portugal e no Brasil.
Em Itanhaém, sobre as origens da Festa do Divino, fala-se de uma rainha de Portugal que vendo-se incapacitada para solucionar os problemas do país, fez um alto juramento: abdicou o trono em favor do Espírito Santo — Numa pentecostes, toda a corte, em solene procissão, tendo à frente a rainha e o príncipe consorte, dirigiu-se à Catedral, depositando no altar-mór a coroa, o cetro e o estandarte. A rainha recolheu-se a um convento e aguardou os acontecimentos. Em razão da medida extrema, sem precedentes, houve um apaziguamento geral e Portugal voltou aos moldes anteriores, sendo o acontecimento tido como um milagre do Espírito Santo. Atendendo ao apelo popular, a rainha reformou o trono, realizando novo cortejo a cada ano, no dia consagrado ao Espírito Santo, Pentecostes.
D. Isabel (a rainha santa) nasceu em 1271 e morreu em 1336. Era filha de Pedro II de Aragão. Foi esposa de D. Dinis (o lavrador ou trovador) 1261-1325. Um dos mais notáveis monarcas portugueses, favoreceu a unidade linguística e cultural do país (o dialeto do Porto tornou-se a língua nacional), a fundação da universidade de Lisboa (1290) transferida para Coimbra (1308) e o desenvolvimento econômico.
Dona Isabel era dedicada à prática da caridade e popularizou-se como santa. Seu papel político foi importante no apaziguamento do rei com seu irmão primeiro e com o infante D. Afonso depois. No auge das discórdias entre pai e filho, ela atravessou-se no meio do campo de batalha em Alvalade (Lisboa), fundou hospitais em Coimbra, Santarém e Leiria, subsidiou a construção do convento da Trindade em Lisboa e do mosteiro das freiras de São Bernardo em Almoster. Foi beatificada em 1516 e canonizada em 1626, sendo festejada a 8 de julho.
Os dados históricos sobre a rainha santa em nenhum momento citam o fato de ter abdicado o trono em favor do Espírito Santo, por isso, não se pode afirmar que se trate da mesma rainha ou que o acontecimento místico tenha realmente existido, como afirmam alguns pesquisadores das origens da Festa do Divino.
Como toda festa religiosa que ganha popularidade, o folclore envolve as raízes e de século em século vai perdendo algo da celebração original e acrescentando outros rituais, mais bonitos talvez, mas menos autênticos.
Transformando-se a rainha que abdica o trono ou a rainha santa em Imperador; o estandarte real em Bandeira do Divino; os foliões em Corte; a colheita dos judeus em Coleta de auxílios para a Folia; as cores de Portugal em cores obrigatórias de trajes e bandeiras do Império: o branco e o vermelho; o fato é que Pentecostes ainda é comemorado em Santa Catarina, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Rio Grande do Sul e São Paulo — em poucas e pequenas cidades — e em Itanhaém há mais de trezentos anos.
Até 1912, uma viagem de São Vicente à Itanhaém, em carros de tração animal, era feita em 12 horas, na melhor das hipóteses. Mesmo assim, inúmeros romeiros, devotos do Espírito Santo, vinham de São Vicente, Santos, São Paulo e do interior do Estado e das cidades vizinhas. Gente de toda parte, de carro de boi, à cavalo ou de barco, chegava à Itanhaém para assistir a tradicional Festa do Divino, anunciando sua chegada com grande foguetório. E ainda tem gente que se lembra com saudade da casa da Dona Maria Florência, da famosa Casa Grande do finado João Mariano Soares e de João Pedro de Jesus — Festeiros de tradição.
Depois, veio a estrada de ferro e tudo "se modernizou".
Houve época em que quando nascia uma criança, já no dia do batizado, seu nome era marcado na lista dos futuros "Imperadores". As famílias tradicionais disputavam o privilégio de realizarem a Festa em sua casa — de serem os Festeiros — e toda a cidade participava das festividades de uma forma ou de outra.
A Igreja apresentava uma suntuosidade incomum, com finos reposteiros de veludo encarnado; o púlpito e os altares, com as mais finas toalhas engomadas; e todo o piso da Igreja era forrado de folhas de peguassu, para que a medida em que fossem sendo pisadas pelo povo, exalassem um delicado e característico aroma.
A noite da Soca, como se tornou conhecida a noite que antecede Pentecostes, era realizada na casa dos Festeiros. Grande número de pessoas dirigia-se ao local onde era socado o arroz, em pilões, para a confecção do cuscuz (típico dos caiçaras, legado pelos índios). Havia cantos e danças, misturados com o ruído incessante e característico do bater dos pilões, cujas "mãos" eram manejadas pelos mais robustos, desenvolvendo-se interessantes disputas de habilidade e força. Eram momentos de confraternização legados pelos antepassados. Esse cuscuz de arroz era servido aos participantes pela manhã, com café, bolacha, pão, etc.
Antigamente havia a distribuição do "bodo" (palavra cujo significado se perdeu nos tempos) que era o alimento dado aos pobres na Festa do Divino.
Também havia a distribuição do "pão bento" — Aos pares, moças e rapazes com as bandeiras do Divino e salvas contendo o "pão bento", acompanhados pela banda de música que executava o antiquíssimo "Folia do Divino", distribuíam o "pão bento" de casa em casa, nas ruas principais da cidade e recebiam donativos em toda a peregrinação.
As três figuras centrais da festividade são: o Imperador, a Imperatriz e o Capitão do Mastro, mantendo no topo a Bandeira do Divino, símbolo que preside as festividades;
A programação da Festa do Divino em Itanhaém, seria a seguinte:
1 — Alvorada Festiva — às 5 horas da manhã do domingo anterior ao Pentecostes, dia em que se inicia o Setenário.
2 — Levantamento do Mastro — o Capitão do Mastro, ao meio dia do mesmo sábado, faz o levantamento do mastro que é fincado defronte à Igreja.
3 — Início do Setenário — de preparação espiritual, quando, por sete dias realiza-se na Igreja Matriz à noite, a cerimônia da benção do Santíssimo Sacramento, com orações, pregações catequéticas e cantos alusivos, destacando-se a belíssima "Jaculatória" cantada pelo povo há mais de duzentos anos.
4 — No sábado seguinte, véspera de Pentecostes. Às 7 horas, Missa no Convento.
5 — Abertura do Império — na véspera de Pentecostes, são apresentados o Imperador e a Imperatriz com seus trajes típicos. O Padre paramentado, após liturgia própria, benze a coroa e as bandeiras (em número de doze aproximadamente). Essas bandeiras saem no Cortejo, dentro de um quadro formado por quatro varas especiais, da Sala do Império até a Igreja e vice-versa.
6 — Ainda no sábado, Missa e Encerramento do Setenário — às 19 horas, o cortejo deixa a Sala do Império, rumando para a Igreja, levando a Coroa e o Estandarte, conduzidos pelos Imperadores para o encerramento do Setenário.
7 — À noite do mesmo sábado, realiza-se a Soca — Depois é distribuído o cuscuz de arroz aos participantes.
8 — Domingo de Pentecostes — Às 5 horas da manhã há a segunda Alvorada do Divino — repique de sinos, salva real e estourar de fogos.
9 — Missa solene — Às 10 horas na Igreja Matriz.
10 — Distribuição do Pão Bento — Às 14 horas, moças e rapazes conduzindo as bandeiras e os pães bentos, percorrem as ruas principais da cidade, acompanhados pela banda de música.
11 — Procissão — às 17 horas — O Cortejo com os Imperadores vestidos à caráter (sendo que desta vez a Imperatriz usa roupa vermelha) conduzindo uma valiosa Coroa (guardada no Banco durante o ano) e o estandarte, é realizado novamente, integrando a procissão do Divino Espírito Santo.
12 — Missa e Encerramento da Festa
13 — O Cortejo volta a Sala do Império, quando são apresentados os Imperadores que reunirão nos festejos do ano seguinte, havendo grande queima de fogos.
14 — Durante os dias da festa, em local central, o povo participa e se diverte com a quermesse e leilão de prendas.
Considerações finais
Neste ano de 1976, o Imperador será: Marcelo Francisco de Camargo Stortini. A Imperatriz: Maria Fernanda de Oliveira Caniças. O Capitão do Mastro: Luiz Fernando Pugliesi Alves de Lima.
Atualmente há pouca publicidade e popularidade em torno da Festa do Divino. A cada ano, ela é mais individual e íntima, passando quase desapercebida pela maioria dos moradores e pertencendo somente ao pequeno grupo organizador.
Estaria morrendo essa tradicional festa folclórica? Falta de divulgação, de interesse, ou simplesmente estaria superada para a época? Mas não é justamente esta, a época em que mais se pesquisam as origens e tradições no Brasil?
Uma festa bem organizada, colorida, folclórica, de cunho religioso e principalmente rara, não seria uma atração turística a tanto, para um Estado como São Paulo, de tão poucos atrativos?
Precisaria que houvessem mesmo, momentos de confraternização legados pelos antepassados, para que a festa em si e principalmente a noite da Sóca (que ultimamente transformou-se numa reunião de marginais e bêbados) se convertesse num sucesso absoluto.
Que o Divino Espírito Santo ilumine as cabeças pensantes de Itanhaém, para que num futuro bem próximo, tenhamos uma Festa do Divino digna de suas tradições.
Amém.
Trabalho realizado por Maria Dilnah de Freitas Civelli.
Itanhaém, Maio de 1976.
Dados de um manuscrito de autor anônimo recolhido pela Biblioteca "Capitão Mendes" — pesquisas da Professora Inês Martins, organizadora da referida Biblioteca — dados coletados pela Tribuna de 1971 — Enciclopédia Larousse Du XXe Siècle."
Mais alguns registros
Agora vamos a 1988! No periódico Espaço Aberto, de Santos, temos na edição da segunda semana de maio:

E na terceira semana de maio, o mesmo jornal traz:

Chama a nossa atenção o fato de que nesse ano várias atividades aconteceram no calçadão da avenida Condessa de Vimieiro (lembre-se que o certo é Vimieiro!).
Em 2012, já no nosso século atual, o Espaço Aberto mais uma vez faz uma cobertura dos festejos e traz o enfoque para o tradicional Concurso Letras do Divino:

Em 2014, de novo pelo Espaço Aberto de maio:

Ué. Só isso?
Pois é! Da segunda metade do século XX, o HISTORITA encontrou pouca coisa. Mas existe a APRODIVINO, a Associação que promove as Festas do Divino em Itanhaém, que traz um registros especialíssimos para nós em seu canal do YouTube.
Por exemplo, há um vídeo em 4 partes que mostra a Festa do Divino no início da década de 1990, onde é possível ver várias figuras que deixaram saudade, como o querido Boá, que logo mais, logo menos, vai receber um artigo só dele aqui no HISTORITA.
Assista abaixo os vídeos do próprio canal da APRODIVINO, que mostram e explicam ponto a ponto os pormenores das celebrações, e inscreva-se no canal da APRODIVINO, para não perder o presente e futuro da Festa, com transmissões ao vivo!
Por hoje, vamos ficando por aqui. Nossa próxima e última postagem sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém através dos anos vai trazer uma surpresa. Aguarde!
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Referências:
CIVELLI, Maria Dilnah de Freitas. A Festa do Divino Espírito Santo. Itanhaém: [s.n.], maio 1976. Trabalho realizado com base em manuscrito de autor anônimo recolhido pela Biblioteca "Capitão Mendes", pesquisas da Professora Inês Martins e dados coletados pela Tribuna de 1971.
CORREIO DA TARDE. Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém. Rio de Janeiro, 15 abr. 1940.
CORREIO DE SÃO PAULO. As Festas do Divino em Itanhaém. São Paulo, 12 maio 1936.
CITY-JORNAL. Excursão do Grêmio Escritórios Unidos. Santos, jul. 1955.
ESPAÇO ABERTO. Festa do Divino em Itanhaém. Santos, 2. sem. maio 1988.
ESPAÇO ABERTO. Festa do Divino em Itanhaém. Santos, 3. sem. maio 1988.
ESPAÇO ABERTO. Festa do Divino tem Concurso de Poesia. Santos, maio 2012.
ESPAÇO ABERTO. Notas sobre a Festa do Divino. Santos, maio 2014.
REPÓRTER DO LITORAL. A Terceira Pessoa [matéria sobre a Festa do Divino Espírito Santo em Itanhaém]. Itanhaém, 2 jun. 1976. Acervo da Biblioteca Municipal Poeta Paulo Bomfim.
APRODIVINO. Canal APRODIVINO. [S. l.]: YouTube, [s.d.]. Associação responsável pela salvaguarda e promoção da Festa do Divino Espírito Santo de Itanhaém — Patrimônio Cultural Imaterial da cidade. Disponível em: https://www.youtube.com/@APRODIVINO. Acesso em: 24 maio 2026.
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