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Bertha Henriqueta Rovai Castellan

Foto do escritor: Gustavo da Mota
Gustavo da Mota
17 de abr.
15 min de leitura

Atualizado: 19 de abr.

Fotografia editada por IA (a original está mais abaixo no artigo) - Historita
Fotografia editada por IA (a original está mais abaixo no artigo) - Historita

Você já parou pra se perguntar por que só este pedacinho da Avenida Rui Barbosa tem árvores frondosas no canteiro central? Este pedacinho aqui, em frente ao Cemitério:


As árvores em frente ao cemitério municipal de Itanhaém, 2026 (Google Mapas).
As árvores em frente ao cemitério municipal de Itanhaém, 2026 (Google Mapas).

Curioso, não? Árvores, banquinhos e até luminárias antigas compõem apenas este trecho da avenida. No passado, a avenida toda tinha árvores assim no canteiro... Será que deixaram essas só por conta do Cemitério?


Que nada... é por conta de dona Bertha!


Quando soube que estavam ali os funcionários da Prefeitura da época, prontos para arrancar essas últimas árvores, Bertha foi lá tirar satisfações e dizer que não iam tirar árvore nenhuma dali. Ali ficou, vigiando, impedindo que os funcionários começassem o trabalho.


O burburinho foi grande e deu resultado: a sombra nesse trecho da avenida se deve principalmente à pequena grande luta de Bertha... uma, entre tantas!


Venha comigo na leitura de hoje do HISTORITA: a história de Bertha Henriqueta Rovai Castellan, mulher valente que jamais se deixou abater pelas tragédias imprevisíveis da vida.


Paulistana itanhaense


Bertha Henriqueta Rovai Castellan nasceu em 10 de dezembro de 1930, na Lapa, em São Paulo, filha de Américo Rovai e Bertha Russel Rovai. Quando criança, estudou apenas até a quarta série do atual Ensino Fundamental (guarde esta informação e volte para ela após ler o artigo!)


Em 1953, (aos 23 anos), no dia 26 de setembro, ela se casou com Walter Francisco Castellan.


Walter Francisco Castellan. Final dos anos 1940 ou início dos 1950. (Acervo particular da família)
Walter Francisco Castellan. Final dos anos 1940 ou início dos 1950. (Acervo particular da família)

Walter trabalhava com joias em São Paulo, e pôde com isso prover condições de vida bem confortáveis à nova família. Juntos, Bertha e Walter teriam três filhas: Cleide, Miriam e Rita.


Logo após o casamento, Bertha e Walter conseguiram uma casa no Suarão, em Itanhaém, onde vinham passar férias durante o mês de janeiro todo, por vários anos.


A casa em que a família ficava, no Suarão. Walter é o que está no centro. (Acervo da família)
A casa em que a família ficava, no Suarão. Walter é o que está no centro. (Acervo da família)

E aí, você já sabe, caro leitor ou leitora... é como diz aquela música: "Quem vem uma vez, vem sempre, fica triste se não vem...". Walter certamente ficava triste todas as vezes que tinha que voltar para sua vida em São Paulo, o que eu entendo plenamente. Foi por isso que em 1959, quando sua filha Rita, a mais nova, estava já bem perto de nascer, que Bertha ouviu do marido que ele queria se mudar em definitivo para as terras de Anchieta. Ela não gostou muito da ideia, porque decerto via Itanhaém apenas como um local turístico, e porque a vida teria mais recursos se ficassem em São Paulo.


De espírito aventureiro, Walter decidiu com Bertha que assim que Rita nascesse, eles se mudariam de vez. Dito e feito: passados os 40 dias de segurança após o nascimento, Bertha e Walter vieram, em agosto de 1959. Walter empregou tudo o que tinha para viver esse sonho; a casa onde moravam era pequena, nem se comparava ao belo casarão que eles tinham na capital, mas na capital não havia o mar, o jundu, as cores em todos os cantos...


As filhas tinham as seguintes idades nessa época: Cleide, 4 anos; Miriam, 1 ano; e Rita, pouco mais de um mês.


Claro que a adaptação por aqui não foi fácil. Diferente de São Paulo, onde as luminárias já começavam a perder o gás e a eletricidade ganhava terreno a passos largos, Itanhaém era muito simples - uma vila, apenas. Não é que não houvesse eletricidade; ela existia, mas era de uso regrado, já que o gerador ficava ligado em dois períodos: das 6 às 9 da manhã e das 18 às 21h. Religado apenas no dia seguinte.


O Centro de Itanhaém, a "Vila", na época em que Bertha se mudou com o marido. (autoria desconhecida)
O Centro de Itanhaém, a "Vila", na época em que Bertha se mudou com o marido. (autoria desconhecida)

O Posto Atlantic, a Elétro Gaz, Lions e Náutico, e o inesperado


Empreendedor, Walter comprou o terreno e abriu um posto de gasolina, o Posto Atlantic, ao lado do Cemitério Central, na esquina da rua João Mariano Ferreira com a Avenida Rui Barbosa. Ainda existe um posto no mesmo local, mas hoje é um posto Ipiranga, veja:


Local onde ficava o posto de Bertha e Walter. abr 2026 (Google Mapas)
Local onde ficava o posto de Bertha e Walter. abr 2026 (Google Mapas)
O Posto Atlantic, de Bertha e Walter, no começo dos anos 1960. (Acervo particular da família)
O Posto Atlantic, de Bertha e Walter, no começo dos anos 1960. (Acervo particular da família)
Inauguração do Posto Atlantic, jan 1960 (Correio do Litoral)
Inauguração do Posto Atlantic, jan 1960 (Correio do Litoral)

Nesse artigo de cima, é possivel ver na foto superior o ex-prefeito Aurélio Ferrara representando o prefeito Harry Forssell. Ao lado de Aurélio, é possível ver Walter e Bertha. Para a surpresa de um total de zero pessoas, o nome de d. Bertha não foi mencionado no artigo.


Bertha no escritório do Posto Atlantic. (Acervo da família)
Bertha no escritório do Posto Atlantic. (Acervo da família)

Eram poucos os carros que circulavam por Itanhaém (menos de 10, segundo registros) mas havia a promessa da construção da estrada de rodagem cruzando o litoral, e Walter quis apostar nisso, mesmo que lhe dissessem que o terreno ficava "longe do centro". E deu certo, pois assim que a estrada se tornou uma realidade, a movimentação de caminhões ficou bem intensa no posto, e não era raro ver Bertha atendendo os clientes, colocando combustível ela mesma, carregando materiais de construção pra lá e pra cá, enfim, tocando o negócio com o marido.


Mensagem de Natal do Posto Atlantic, dez 1961 (Correio do Litoral)
Mensagem de Natal do Posto Atlantic, dez 1961 (Correio do Litoral)

Com o sucesso de seu empreendedorismo, Bertha e Walter foram ainda além: construíram um pequeno prédio no terreno da casa simples onde moravam na rua João Mariano Ferreira. Ali, investiu na criação de uma loja de eletrodomésticos, bicicletas e gás de cozinha que foi o local onde muitos itanhaenses compraram a prazo suas primeiras utilidades para o lar. Era a loja Itanhaém Eletro Gáz. Sobre a loja, ele começou a construir apartamentos.


Anúncio da Eletro Gáz com foto da fachada, do Natal, dez 1961 (Correio do Litoral)
Anúncio da Eletro Gáz com foto da fachada, do Natal, dez 1961 (Correio do Litoral)
Parte interna da loja. (Acervo da família)
Parte interna da loja. (Acervo da família)
Balcão de atendimento da loja Elétro Gaz. (Acervo da família)
Balcão de atendimento da loja Elétro Gaz. (Acervo da família)

Nesses primeiros anos de Bertha em Itanhaém, ela se envolveu junto com Walter com a vida social da Vila: Walter foi um dos fundadores do Lions Clube de Itanhaém e ganhou o título de "Leão", como é de praxe no clube. Bertha ganhou o título de "Domadora", pois assim eram as esposas dos membros. Era uma época em que não era permitida a entrada de mulheres como associadas, a não ser que estivessem casadas com um membro.


A nova diretoria do Lions Clube, incluindo Walter Castellan 12 ago 1964 (O Diário)
A nova diretoria do Lions Clube, incluindo Walter Castellan 12 ago 1964 (O Diário)

Outro clube que o casal gostava de frequentar e participar de maneira bastante ativa era o Clube Náutico de Itanhaém. Fizeram muitos amigos ali e participavam das festas com gosto!


O casal mais à esquerda é Walter e Bertha, no Carnaval do Náutico, início dos anos 1960. (Grupo Memórias de Itanhaém - Facebook)
O casal mais à esquerda é Walter e Bertha, no Carnaval do Náutico, início dos anos 1960. (Grupo Memórias de Itanhaém - Facebook)

Alguns poucos anos depois, em 1965, Walter adoeceu, com problemas nos rins - nefrite. Foi levado ao hospital Santa Catarina, em São Paulo, e lá ficou internado por cerca de dois meses. Bertha esteve ao seu lado enquanto ele recebia o tratamento, enquanto as filhas ficaram em Itanhaém, sob os cuidados de Josefa e a supervisão de Eda, cunhada de Bertha.


Infelizmente, no dia 8 de março de 1965, Walter faleceu, com apenas 35 anos. Deixou Bertha viúva, sem um emprego ou carreira, e com as três filhas para criar em uma cidade que nem havia sido escolha inicial dela vir a morar.


Não havia como voltar a São Paulo, já que tudo da família tinha sido investido por aqui. E pior: como Bertha esteve longe de tudo por quase três meses, os negócios da família ficaram sob responsabilidade de parceiros comerciais que, infelizmente, não tinham o tino necessário e puseram os empreendimentos em risco.


Pensando na sobrevivência de sua jovem família, Bertha então decidiu vender o Posto Atlantic e fechar a loja Elétro Gaz. Com a venda, conseguiu terminar o apartamento de sobreloja, e colocou o espaço da loja inferior disponível para locação por outras lojas.


Nesse momento triste e desafiador de sua vida, Bertha foi acolhida pelos amigos, em especial os do Lions Clube, que lhe deram apoio nesse período e dariam por toda a vida. Bertha participava ativamente de tantas iniciativas do Clube, que acabou sendo a única "Domadora" sem "Leão" na época em que, lembre-se, isso não existia nem era permitido. Pra ela, foi aberta uma exceção, e isso mostra o quanto ela era querida.


Detalhe: mesmo quando o Lions permitiu que as mulheres sozinhas se associassem, Bertha insistiu em continuar com o título de Domadora, pois era assim que ela tinha entrado e assim ficaria para sempre. Era decidida!


Aos amigos e a quem quisesse ouvir, ela dizia, resoluta: "Eu não tenho tempo pra chorar". Seu espírito valente só brilharia ainda mais com o passar dos anos, como veremos.


Antes de seguirmos à próxima seção, uma curiosidade: Itanhaém tem (pelo menos na lei) um dia para a execução de uma competição de Ciclismo em homenagem ao Walter Francisco Castellan. A última edição parece ter sido feita em 1990, e não houve mais nenhuma.


Uma das edições da prova (provavelmente a primeira, de 1965). (Acervo da família)
Uma das edições da prova (provavelmente a primeira, de 1965). (Acervo da família)

Seria bacana trazer esse evento de volta à cidade. A lei já existe, então... quem se habilita a dar uma chance aos ciclistas itanhaenses do século XXI? Até eu iria com meu triciclo enferrujado...


É a Lei n° 755, de 10 de setembro de 1965. Ainda dá tempo de termos a prova este ano, pois seria no segundo domingo de setembro, e seria uma linda maneira de homenagear tanto Walter Castellan quanto Dona Bertha e promover o esporte.



"Lá vem Dona Bertha...!"


Para conseguir sustentar a família, Bertha conseguiu em 2 de maio de 1969 um emprego no escritório de contabilidade ECONTITA, que existe até hoje na rua Antonio Olívio de Araújo. Lá, ela trabalhava com o Dr. Albertino, Fausto e João. Tinha uma rotina de trabalho pesada, que muitas vezes envolvia viagens para Santos e até São Paulo, mas não se deixava esmorecer nem por um momento em sua rotina de criação das filhas.


Em 1971, Bertha foi convidada por João para ser tesoureira na sua chapa enquanto Presidente do Clube Náutico. A chapa, que era de oposição, acabou ganhando e Bertha então esteve envolvida diretamente com os projetos iniciais de mudanças para o Clube.


Já em 1973, a ECONTITA foi vendida (creio que para os donos atuais, mas me corrija se eu estiver errado) e Bertha foi convidada pelo amigo João para trabalhar em um escritório de administração de imóveis, a Almeida Batista & Cia. Ltda. E ela foi.


Artigo sobre a administradora de imóveis e auto-escola, 11 mai 1978 (Repórter do Litoral)
Artigo sobre a administradora de imóveis e auto-escola, 11 mai 1978 (Repórter do Litoral)

E sabe para onde mais ela foi? Bem, ainda em 1973, o mandato de João como Presidente do Clube Náutico se encerrou. O professor Walter Arduini assumiu em seu lugar, mas ficou poucos meses, logo renunciando. Havia um belo abacaxi a ser descascado: o Náutico precisava crescer, reformar, fazer investimentos arriscados para isso, e ninguém queria aceitar a bucha estratosférica de liderar o Clube nessas condições.


Quer dizer... havia alguém! Para desespero de suas filhas, que não queriam a mãe ainda mais envolvida com esses projetos sociais (queriam curtir a mãe, poxa), Bertha decidiu ela mesma aceitar a Presidência, e se tornou assim a primeira e única Presidente do Clube Náutico.


Em seu mandato, Bertha conseguiu fazer acontecer o ginásio de esportes coberto do Clube Náutico, que foi o primeiro ginásio desse tipo na cidade. Suas filhas, que jogavam vôlei pela cidade na época, dizem que o ginásio foi um divisor de águas para que pudessem treinar e disputar nos Campeonatos Regionais por Itanhaém.


Bertha já como presidente do Clube Náutico, rodeada de outros membros ,1975 (acervo de João Tadeu Bastos da Silva)
Bertha já como presidente do Clube Náutico, rodeada de outros membros ,1975 (acervo de João Tadeu Bastos da Silva)

Além de tocar as reformas e construções, Bertha também era a organizadora de todas as festas e eventos do Náutico, em especial os famigerados bailes de Carnaval. Veja este anúncio no jornal Repórter do Litoral, de 1974, que nos mostra o que a população podia esperar dos bailes:


Carnaval no Clube Náutico, fev 1974 (Repórter do Litoral)
Carnaval no Clube Náutico, fev 1974 (Repórter do Litoral)

Apesar da propaganda, as NOITES ALUCINANTES eram bem ajuizadas. Bertha ficava de olho pelo salão, à espreita de alguma mão boba ou de amassos mais exaltados entre os casais. Assim que detectava que alguém estava passando do limite, ia até o meliante e dava só uns tapinhas no ombro do cidadão. Era o suficiente pra que mensagem fosse dita.


Dizem, inclusive, que era muito comum que os casais também ficassem de olho nela pra tentar ajudar uns aos outros e não deixar que ela os pegasse no ato! Daí, quando percebiam a presença dela, avisavam "Lá vem Dona Bertha...!"


E ela vinha mesmo. Quando começava alguma música mais lenta e a luz do salão estava um tanto baixa, Bertha mandava que acendessem mais as luzes, para desespero dos românticos.


Esse zelo todo era porque o Clube Náutico era um ambiente frequentado por famílias inteiras, com crianças e idosos, e Bertha queria que continuasse assim: um local que todos pudessem frequentar, sem receio de ver nada que não estivessem esperando. Talvez aos nossos olhos de século XXI pareça algo excessivo, mas eu posso falar por mim mesmo que um pouquinho desses limites não faria mal nas NOITES ALUCINANTES de hoje...


Bertha seria presidente de 1973 a 1975, e depois novamente por um período em 1977.


E não se esqueça: ela ainda seguia trabalhando na Almeida Batista enquanto estava envolvida tanto com o Náutico quanto com o Lions e cuidava da criação das filhas. Dona Bertha era ligada no 220, como dizia minha avó!


(do site do Clube Náutico de Itanhaém. A foto não representa a idade que Bertha tinha quando foi presidente pela primeira vez)
(do site do Clube Náutico de Itanhaém. A foto não representa a idade que Bertha tinha quando foi presidente pela primeira vez)

Como uma verdadeira "mai" (mãe+pai), Bertha acompanhava as filhas em outras cidades quando elas iam disputar vôlei, e era bem séria quanto a não oferecer mimos e carinhos a elas enquanto lá estivesse. Dizia que se as outras meninas vissem carinhos, podiam ficar enciumadas e tristes, já que não tinham como ter o carinho de suas mães ali também - então todas tinham que ter os mesmos direitos.


A Força e a Amizade


Bertha seguiu como parte da Almeida Batista & Cia. até 1983. Na ocasião, ela buscou se aposentar... mas lembra-se, cara leitora ou leitor, que dona Bertha não conseguia ficar inativa? Pois é. O retiro ao lar foi questão que durou pouco tempo: ela foi convidada pelo grande amigo Wilson Carlos Gatto para trabalhar no Cartório. Lá, ela ficaria trabalhando por ainda mais de 10 anos, e era muito respeitada. Wilson tinha total tranquilidade de deixar as tarefas mais delicadas do Cartório nas mãos dela em sua ausência, pois sabia que ela não lhe falharia.


As filhas de Bertha, Cleide e Miriam, contaram em entrevista para o HISTORITA que certa vez, cansadas de verem a mãe não descansar, deram a ela um belo elefante branco: uma viagem para Águas Quentes. Dona Bertha não tinha gosto nenhum por viagens, então ficou brava, bateu o pé dizendo que não ia de jeito nenhum.


Quando chegou o dia da viagem, elas colocaram dona Bertha no ônibus, e ela quase que não entrava de jeito nenhum, tamanha era a falta de vontade de viajar. Não queria mesmo! Ainda assim, ela foi. Teimosa, brava, mas foi.


E quem diria... seria só o começo das aventuras dela pelo globo terrestre, pois a partir dali ela viajaria por vários países do mundo, chegando até a tirar Carteira de Motorista Internacional.


Como ocorreu essa transformação, talvez você me pergunte. Acontece que na época dona Bertha descobriu a Friendship Force International e, claro, passou a fazer parte do grupo.


Logo atual da Friendship Force International em seu site.
Logo atual da Friendship Force International em seu site.

A iniciativa, promovida pelo então presidente estadunidense Jimmy Carter (1977), consistia em unir as pessoas através do poder da amizade. Ora, era exatamente o que Bertha já fazia em suas atividades no Lions e no Náutico, então caiu para ela como uma luva!


A diferença é que agora a escala era global. O projeto gerenciava viagens aéreas para as pessoas do grupo poderem visitar outros países, hospedando-se na casa de outros membros do grupo mundial e oferecendo sua casa como estadia também. Com isso, a troca de experiências e culturas era formidável.


Ao ajundar a fundar o Friendship Force de Itanhaém, Bertha então dispunha sua moradia para receber os viajantes, em sua maioria já de alguma idade. E um detalhe: Bertha não sabia falar Inglês - tinha aprendido muito pouco numa tentativa que não havia dado muito certo, como alternativa para exercitar a mente.


Claro, isso jamais a impedia de se comunicar com os hóspedes. Sua filha Cleide comentou que era comum ir visitar a mãe nessa época, encontrar-se com os hóspedes e bater um papo em Inglês com eles. Lá, a pessoa hospedada comentava sobre irmãos de Cleide que não existiam, por exemplo, e diziam que foi dona Bertha quem contou a respeito. E Cleide então emendava perguntando sobre a família do hóspede, apenas para descobrir que as informações que a mãe passara a ela estavam todas desencontradas também. Era hilário!


Mesmo com a comunicação prejudicada, esses contatos de Bertha se tornariam amigos que ainda entrariam em contato por muitos e muitos anos após sua visita. Sua atividade era tão intensa com o grupo, que ela chegou a presidir a filial itanhaense por um período.


Será que a filial ainda existe em Itanhaém? Eu encontrei registros que iam até 2020, mas nada além do temido ano da pandemia. Se você que me lê souber de alguma coisa, entre em contato!


"Lá foi Dona Bertha... e aqui está Bertha Henriqueta Rovai Castellan"


Bertha já na terceira idade. (Acervo particular da família, editada)
Bertha já na terceira idade. (Acervo particular da família, editada)

Em seus últimos anos de vida, Bertha aproveitou tudo que podia desfrutar. Por exemplo, ela se dispôs a estudar Italiano por um bom tanto de anos, literalmente até poucos meses antes de seu passamento, que ocorreu em 2016.


Antes disso - e a essa altura o leitor ou leitora vai me perdoar pela repetição, mas é a mais pura verdade - Bertha seguiu ativa na comunidade itanhaense. É claro que as limitações que foram aparecendo com os anos existiam, mas ela "não tinha tempo pra chorar", lembra?


Bertha e a filha Miriam, na semana da Festa do Divino de 2012 (Boletim Oficial da Prefeitura de Itanhaém)
Bertha e a filha Miriam, na semana da Festa do Divino de 2012 (Boletim Oficial da Prefeitura de Itanhaém)

Por fim, cabe dizer: a presença de Dona Bertha era constante nas comemorações religiosas, culturais e sociais, como a Festa do Divino, que ela tanto acompanhava com carinho e devoção. Em seu depoimento ao Boletim Oficial da Prefeitura de Itanhaém, aos 81 anos, ela dizia que aquele evento, com sua tradição centenária, era um momento de união entre as pessoas, algo que lhe falava diretamente ao coração. E eu acrescento: desse coração que batia pela força da amizade, não se podia esperar outra coisa.


Bertha foi, sem dúvidas, um dos rostos mais conhecidos de Itanhaém, mas que tem sido muito pouco lembrado ultimamente... e quando eu descobri sua história, soube no ato que tinha que trazê-la ao nosso pequeno salão de memórias virtual rodeado de mar, areia, mangue e humanidade caiçara, o HISTORITA.


A mim me parece bastante nítido que aqueles que tiveram a sorte de conviver com ela em algum momento sua passagem pela Terra tiveram dela a impressão não de uma mulher que sobreviveu à tragédia que os desígnios da vida a impuseram, simplesmente. Não; imagino que a impressão que tenham tido foi a de uma mulher que reescreveu o destino da própria família para que ele se tornasse no futuro uma linda história, divertida e muito, muito saudosa.


E não só isso: as sombras que ela fez permanecer através das árvores na frente do Cemitério são pequenas, perto da sombra deixada pela existência de Bertha Rovai: um gigantesco chapéu-de-sol de generosidade, coragem e caridade que abrigou tanta gente dentro de sua proteção.


Dona Bertha foi dona mesmo: de casa, dona de posto, dona de loja, "dona" de clube, dona de família e, sobretudo, dona de sua própria história. Por isso, se antigamente Itanhaém dizia "Lá vem Dona Bertha!" pra avisar sobre sua chegada, hoje, Itanhaém diz: "aqui ainda está Dona Bertha!"


A próxima vez em que você, leitora ou leitor, for passar por aquele trecho da Avenida Rui Barbosa, lembre-se dela. As raízes que ela plantou ainda estarão lá, mesmo que algum dia alguém resolva tirar as árvores de vez.


Debaixo daquela sombra gostosa, pense em qualquer coisa que esteja lhe afligindo, ouça em seu coração e se inspire com as palavras que Bertha Henriqueta Rovai Castellan dizia:


"Eu não tenho tempo pra chorar".


Se cuide, querida leitora ou querido leitor, e até o próximo artigo!


Pesquisa por:

MOTA, Gustavo Caperutto da.


Agradecimentos:

Cleide Rovai Castellan

João Tadeu Bastos da Silva

Miriam Rovai Castellan


Fontes utilizadas:


ACERVO Particular da família Castellan. Fotografias de Walter Francisco Castellan e de Bertha Henriqueta Rovai Castellan. Itanhaém, acervo pessoal, s.d.

BOLETIM Oficial da Prefeitura de Itanhaém. Festa do Divino mantém tradição de mais de 300 anos. Itanhaém, 2012. Disponível em: <https://www2.itanhaem.sp.gov.br/boletim-oficial/bo201.pdf>. Acesso em: 17 abr. 2026.

CORREIO DO LITORAL. Inauguração do Posto Atlantic. Itanhaém, jan. 1960.

CORREIO DO LITORAL. Mensagem de Natal do Posto Atlantic. Itanhaém, dez. 1961.

CORREIO DO LITORAL. Anúncio de Natal da loja Itanhaém Eletro Gáz, com fachada. Itanhaém, dez. 1961.

GRUPO Memórias de Itanhaém. Foto do casal Walter e Bertha Castellan no Carnaval do Clube Náutico, início dos anos 1960. Disponível em: <https://www.facebook.com/groups/377099299674227>. Acesso em: 17 abr. 2026.

O DIÁRIO. Nova diretoria do Lions Clube de Itanhaém, com Walter Castellan. Santos/Itanhaém, 12 ago. 1964.

REPÓRTER DO LITORAL. Artigo sobre a administradora de imóveis Almeida Batista & Cia. Ltda. e a auto‑escola anexa. Itanhaém, 11 maio 1978.

REPÓRTER DO LITORAL. Anúncio dos bailes de Carnaval no Clube Náutico de Itanhaém. Itanhaém, fev. 1974.

CLUBE NÁUTICO de Itanhaém. Site institucional – página histórica e de gestão do clube. Itanhaém, s.d. Disponível em: <https://www.clubenautico.com.br> . Acesso em: 17 abr. 2026.

ACERVO DE João Tadeu Bastos. Fotografia de Bertha Henriqueta Rovai Castellan como presidente do Clube Náutico, 1975. Itanhaém, s.d.

FOTO‑DOCUMENTAL (autoria desconhecida). Centro de Itanhaém, a “Vila”, na década de 1950/1960. Itanhaém, s.d.

GOOGLE MAPS. Representação aérea e de ruas: Avenida Rui Barbosa e entorno do Cemitério Municipal de Itanhaém. São Paulo, 2026. Disponível em: <https://www.google.com/maps>. Acesso em: 17 abr. 2026.

FRIENDSHIP FORCE INTERNATIONAL. Site oficial da organização. São Paulo, 2026. Disponível em: <https://friendshipforce.org>. Acesso em: 17 abr. 2026.

Lei n° 755, de 10 de setembro de 1965 de Itanhaém que institui Competição de Ciclismo em homenagem a Walter Francisco Castellan. Itanhaém, s.d.


1 comentário


pridevaialmeida
23 de abr.

Essa mulher foi batalhadora, estará de Parabéns sempre!!!!!

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