O mistério de Celeste Stipanich


Olá, caro leitor, cara leitora do HISTORITA. Fazia um tempinho que eu não trazia fatos novos aqui no site, e isso se deve muito a ter investido mais tempo no Instagram @ohistorita. Peço desculpas pela demora, mas aqui estou de volta.
Hoje eu venho trazer a você uma pesquisa curiosíssima. Ela nasceu de uma maneira totalmente descompromissada e, sem querer, tem o potencial de mudar em definitivo informações institucionais sobre a história de Guarujá. E claro, tem tudo a ver com Itanhaém, você vai ver.
E aí, tudo pronto pra, juntos, fazermos história?
Boa leitura!
Quem é Celeste Stipanich?
Estava eu aqui esses dias folheando entre os Artigos aqui no site, procurando por dados interessantes para criar carrosséis no Instagram. Foi então que, no artigo sobre a prefeita Spasia Albertina Bechelli Cecchi, eu revi este pequeno recorte de jornal:

Confesso que um detalhe me chamou a atenção. Não era algo que eu nunca tivesse reparado, mas que saltava aos olhos, como decerto saltaram aos seus olhos também.
Afinal, nessa comunicação de vereadores de Itanhaém de 1936, está o nome de Celeste Stipanich.
Quando eu escrevi o artigo sobre Spasia, fiquei surpreso que logo na mesma eleição foram eleitas duas mulheres, sendo a prefeita, claro, e essa vereadora, Celeste Stipanich.
E segui com a vida.
Nesse meio-tempo, eu conheci a história de Zulmira Fortes Gatto, que foi tida como a primeira vereadora de Itanhaém, em 1956.
Então, como eu disse no início, estava eu aqui quase meia-noite folheando os artigos e me deparei com Celeste Stipanich mais uma vez.
De repente, senti que alguma coisa estava errada. Se Celeste foi vereadora em 1936, então ela é quem deveria ter o título de primeira mulher vereadora de Itanhaém, não acha?
Teria sido ela uma figura esquecida da história de Itanhaém? Era bem possível; já vimos outros casos por aqui, como o do prof. João Baptista do Espírito Santo.
Comecei então a fazer minhas buscas.
A primeira busca me levou ao site da Câmara Municipal de Guarujá. Lá, vinha uma matéria de 29 de junho de 2018 dizendo algo formidável: que Celeste Stipanich foi a primeira mulher vereadora da cidade de Guarujá, eleita em 1948 e de mandato até 1951.


Achei curioso, porque imaginava que Celeste pudesse ter sido itanhaense e seguido algum tipo de carreira política aqui. Talvez ela tivesse se mudado nos anos 1940 para a Ilha de Santo Amaro: para o Guarujá?
Assim, resolvi aprofundar minhas buscas, pois estava potencialmente diante de um novo mistério: por que a vereadora Celeste Stipanich não foi nomeada como a primeira vereadora de Itanhaém, e só foi reconhecida em Guarujá?
Foi aí que eu entrei num buraco de minhoca que jamais poderia imaginar, e cuja conclusão seria surpreendente, pra dizer o mínimo.
Os jornais
Como sempre, os jornais ajudam nas minhas pesquisas de maneira muito útil, pois trazem supostos registros "inúteis", mas que quando olhados sob a luz investigativa da curiosidade histórica, trazem detalhes impressionantes.
Ao buscar nos exemplares de A Tribuna da década de 1940, encontrei que Celeste tinha um estaleiro e... construía barcos? Foi membro de associações de pescadores? Presidente de um clube esportivo? Ligou-se a competições com veleiros, com uma embarcação chamada Cisne, construída por Celeste?
Essa mulher era uma pioneira e à frente de seu tempo! Como assim, ela havia sido esquecida? Por quê?


Milhares de hipóteses foram se formando em minha cabeça. Teria ela morrido jovem demais e sua história se perdera com as décadas? Não, não fazia muito sentido, porque ela havia sido homenageada, lembrada pela Câmara de Guarujá quando celebraram os 70 anos. A memória dela permanecia, e como uma pessoa de importância histórica para o litoral paulista, possivelmente.
Será que sua história pública havia sido esquecida em Itanhaém por alguma intriga política? Ora, isso não é nada absurdo de se pensar, considerando que a eleição que teve Celeste alçada a vereadora em 1936 (junto de Jorge Rossmann, aliás) foi bastante controversa, como já noticiamos. Tal intriga poderia ter sido o estopim pra que ela se mudasse pro Guarujá.
Mas não... ainda assim, haveria algum tipo de registro. Essas tretas políticas quase sempre deixam marcas, ou pelo menos fofocas. E não havia nada quanto a Celeste.
Foi então que eu vi o seguinte recorte, e ri pra mim mesmo, dizendo que era mais um dos erros tipográficos comuns que se fazia nos jornais. Claro, pois chamar Celeste Stipanich de sr. Celeste era um erro crasso.
Veja só:

Mas... e se não fosse um erro?
Um tanto preocupado com uma nova possibilidade que começava a surgir a essa altura do campeonato, decidi continuar procurando por mais recortes.
... então minha ficha caiu, ou melhor, despencou.
Veja com seus próprios olhos, cara leitora, caro leitor:


Agora eu estava diante de uma possibilidade muito, muito forte de que, em algum momento, alguém viu o nome Celeste Stipanich nos registros da Câmara do Guarujá e imediatamente presumiu que se tratasse de uma mulher. Poxa, eu mesmo presumi isso quando vi o recorte sobre a prefeita Spasia, lembra? Arrisco-me a dizer que ninguém que lesse aquele nome fosse supor que Celeste Stipanich era na verdade um homem.

Eu custei a acreditar. Não era possível que um registro institucional da Câmara do Guarujá dissesse com todas as letras que Celeste Stipanich foi a primeira mulher vereadora da cidade, sem ter certeza disso. Por outro lado, sei que errar é humano, e como eu disse, eu mesmo jamais suspeitei que Celeste fosse um homem.

Para que eu pudesse bater o martelo quanto a essa informação histórica de interesse tanto da história de Itanhaém quanto (e principalmente) da história de Guarujá, eu precisava de documentos que não deixassem em aberto a possibilidade de haver duas pessoas, um homem e uma mulher, com o mesmo nome, que foram vereadoras de Guarujá. Mas o leitor ou a leitora há de concordar: através dos recortes de jornal e das certidões oficiais ligadas à Celeste Stipanich, não me restam dúvidas.
Celeste Stipanich, nascido em Santos em 1899 e falecido em 1982, foi vereador em Itanhaém na Câmara de 1936 e posteriormente na Câmara de Guarujá, de 1948 a 1951.
Foi casado duas vezes, tendo enviuvado cedo, quando sua esposa Amelia não tinha ainda 40 anos, vitimada por um ataque cardíaco 5 anos após a morte de sua mãe.
Para não restar dúvida, fica a certidão de óbito de Celeste Stipanich:


No que essa revelação impacta? Para Itanhaém, não muda nada. A primeira vereadora da cidade continua sendo Zulmira Fortes Gatto, como já se conhece e registra.
Para o Guarujá, bom, muda bastante. Fica a certeza de que a primeira Câmara não tinha mulheres. E Celeste, por ser homem, estava com o título que deveria pertencer à próxima vereadora que foi eleita em seguida.
E veja só: se por um lado, não é mais correto dizer que Celeste Stipanich foi a primeira mulher vereadora, e a cidade "perde" um referencial histórico de significado para a luta política das mulheres, por outro lado Guarujá ganhou um novo referencial nesse aspecto.
Afinal, a Câmara de 1952 trouxe DUAS vereadoras. Donatila Gomes Rangel e Hilda Gomes Rivera. Guarujá elegeu duas mulheres de uma vez como representantes. A elas, então devem ser levadas as homenagens sobre serem as primeiras vereadoras de Guarujá.




Não é curioso, caro leitor ou cara leitora? Veja como uma pesquisa aparentemente mínima pode tomar rumas inesperados. É por isso que eu gosto muito de investigar essas coisas. Agora, Celeste Stipanich pode voltar a ser celebrado como quem realmente foi - pois sua história, ao que parece, foi muito significativa.
Devido a uma percepção errada, a própria identidade dele desapareceu, e seu nome ficou atrelado a uma figura inexistente da primeira mulher vereadora de Guarujá. Ao mesmo tempo, a celebração de Donatila e Hilda enquanto vereadoras também ficou esquecida.
Através desse pequeno elo histórico entre a cidade e Itanhaém, estabelecido pelo senhor Celeste Stipanich, a pesquisa do HISTORITA chega agora restaurando os louros a todos os envolvidos.
Pesquisa por:
MOTA, Gustavo Caperutto da.
Referências:
A TRIBUNA (Santos, SP). Edições de 18 fev. 1936; 23 maio 1936; 28 abr. 1937; 7 dez. 1940; 20 dez. 1942; 4 abr. 1943; 6 abr. 1943; 18 out. 1951; 3 jan. 1952. Santos, SP.
JORNAL DE NOTÍCIAS. Edição de 7 abr. 1949.
CÂMARA MUNICIPAL DE GUARUJÁ. Solenidade comemora os 70 anos da Câmara Municipal. Guarujá, 26 jun. 2018. Disponível em: https://www.camaraguaruja.sp.gov.br/Noticia/Visualizar/1571. Acesso em: 24 out. 2026.
CERTIDÃO DE ÓBITO de Celeste Stipanich. Documento de registro civil consultado pelo pesquisador.
REGISTROS CIVIS relativos a Celeste Stipanich e seus familiares, consultados para a verificação de dados biográficos e familiares.




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