O convento de Itanhaém - 1940 - por José Carlos Só


O HISTORITA segue hoje apresentando mais textos do pesquisador José Carlos Só sobre o Convento. Acompanhe o que aconteceu no Convento de N. Sa. da Imaculada Conceição de Itanhaém no ano de 1940, complementado com recortes de jornal conseguidos pelo HISTORITA:
1ª quinzena de fevereiro de 1940
Como amplamente divulgado, em 1833 houve um grande incêndio no Convento, que destruiu quase tudo, o que motivou o abandono dos freis franciscanos que ali residiam desde longa data...
Os restos da Igreja e do convento, ficaram então quase que num completo abandono, por mais de um século, “protegidos” e cuidados pela heroica Irmandade de Itanhaém, que, obviamente, não possuía dinheiro algum para a reconstrução. A Província Franciscana do Brasil, na época, também estava em má situação financeira para arcar com a reconstrução...
Bem, passado mais de um século do abandono, eis que em 1º de fevereiro de 1940, os franciscanos reassumem a administração da igreja e convento de Itanhaém, com a vinda dos freis Getulio Reimann e Hilário Banse.


Como encontraram o local em ruínas, eles foram residir num apertado aposento da Matriz local. Devido a não haver cama, improvisaram uns estrados de madeira e colocaram colchões em cima. O quarto já estava pronto. Quando chegava a hora do almoço e janta, faltavam pratos e talheres, e por isso, os freis tinham que pedir emprestado para os moradores locais, que nunca lhes negaram.
Houve um benfeitor de São Paulo, sr. José Gonzaga Franco Filho, que sabendo da situação precária dos religiosos, assumiu os custos do fornecimento de marmitas para eles, fornecidas pelo histórico Hotel Atlântico, tanto no almoço, quanto no jantar. Café e chá, os freis tinham que “se virar” para arrumar. A ordem do serviço na cozinha era a seguinte: aquele que celebrava a primeira missa, tinha que ferver o leite, preparar o café e pôr a mesa. Às 8 horas, ambos tomavam o café.
Lavar a louça, arrumar a cozinha, lavar as roupas etc. tornaram-se serviços habituais para ambos os freis, que não reclamavam, pois sabiam que uma força maior os
guiava...
2ª quinzena de fevereiro de 1940
Como dissemos anteriormente, os freis foram morar, provisoriamente num aposento da Matriz, enquanto que alguns pedreiros realizavam obras mais urgentes no Convento, a fim de recebê-los. O que não sabiam, era que , à noite, receberiam visitas de muitos morcegos... Ora, ali sempre foi o dormitório deles!
Era uma verdadeira tortura. Tudo fizeram para afugentá-los, ora acendendo as luzes, ora acendendo um lampião, ora balançando as toalhas etc. Era tudo em vão. Quando o sono vinha com toda força, eles eram esquecidos, e aí, dormiam...
Bem, o benfeitor de São Paulo, Dr. Gonzaga, quando soube do suplício que os frades viviam, trouxe para eles ótimos mosquiteiros que, colocados corretamente sobre a cama, forneciam ótima proteção contra esses intrusos.
Graças aos céus, esse problema foi solucionado.
Só que havia outro, que eram as goteiras: os mosquiteiros não conseguiam estancá-las. Aliada aos fortes ventos, a chuva penetrava em algumas telhas, gerando goteiras sobre as camas, o que obrigava os religiosos a arrastarem-nas para um lugar mais protegido. Era um tal de arrastar cama prá lá e pra cá, mas no final tudo dava certo e eles conseguiam dormir.
Conforme diziam os freis: “Felizmente nunca perdemos o bom humor no meio destas provações e privações. Pelo contrário, riamo-nos a valer, consolando-nos mutuamente”.
A esperança deles é que brevemente poderiam se mudar para o Convento, tão logo os edreiros terminassem as obras de seus quartos, que eles chamavam de celas. A rigor, a ordem era construir primeiro uma caixa d’água e depois 3 celas.
Terminada a caixa d'água, para 4.000 litros, foram enchê-la, e o que aconteceu? Ela começou a apresentar rachaduras, deixando claro que o serviço deveria ser refeito ou reforçado. Consequência: o prazo para mudança dos freis ficaria para mais tarde...
Março de 1940
No dia 1º de março, frei Hilário amanheceu com fortes cólicas. Considerando que não havia recursos médicos de boa qualidade na cidade, imediatamente frei Getulio conversou com várias pessoas vizinhas e, graças aos céus, conseguiu uma carona com um turista que voltava para São Paulo. Lá chegando, foi logo hospitalizado e operou o apendicite, solucionando o problema. Apenas 12 dias após retornou à Itanhaém.
Nessa época, conforme cálculo dos freis, a cidade contava com cerca de 900 habitantes*, porém, durante a Semana Santa, parecia que a população era muito maior.
[OBS: * hoje se sabe que o número de habitantes em Itanhaém na década de 1940 era maior, a julgar por trabalhos como os de Azis Simão e Frank Goldman - HISTORITA]
A notícia da Semana Santa se espalhou pela região e vieram pessoas de longe para participar da tão desejada celebração, que o povo chamava de festa!
Bem, seria a primeira celebração da Semana Santa após a retomada do Convento pelos franciscanos, e toda a praça da cidade ficou lotada, com o povo participando entusiasticamente de todas as celebrações e, claro, da tão esperada procissão. Foi uma beleza indescritível , e com muita fé, a celebração da Semana Santa de 1940...
Mudando de assunto, como dissemos na seção anterior, o empreiteiro não fez um bom serviço, e dessa forma o frei Hilário foi designado para dirigir e fiscalizar pessoalmente as obras do Convento.
Bem, o que fez ele?
Logo de cara, encomendou cal, cimento e 5.000 tijolos que deveriam ser desembarcados no pátio da Estação Ferroviária da cidade, que ficava relativamente longe do topo do morro do convento.
Uma semana depois chegou todo o material na Estação, mas os freis não tinham mais dinheiro para pagar o transporte dele até o santuário.
Bem, sabendo da situação, alguns dias antes da chegada frei Hilário foi de casa em casa, de pessoa a pessoa, convidando os moradores que quisessem, para ajudar no transporte do referido material. Dizia ele: "dinheiro não tenho para pagar".
No dia combinado, logo cedo, juntou uma verdadeira multidão de voluntários itanhaenses para ajudar no transporte; claro, utilizando as mãos, ombro etc., pois subir aquela difícil ladeira calçada com pedras irregulares, carrinho-de-mão nenhum conseguiria. Vale lembrar que naquela época não havia carrinho-de-mão com pneus.
O espantoso nesse episódio real é que participaram jovens e velhos, ricos e pobres, homens, mulheres e até crianças... inclusive vários turistas da alta sociedade de São Paulo, que se encontravam na cidade. Foi um espetáculo memorável.
Muitos choraram ao ver aquele povo, horas a fio, carregando os tijolos várias vezes na difícil ladeira, sem nenhum interesse que não demonstrar sua devoção pelo antigo e histórico Santuário de Nª Sª da Conceição de Itanhaém!
Em apenas seis horas todo o material já se encontrava no Convento!
Veja o que dizia a crônica da época: "...toda a ladeira parecia um grande formigueiro. Subia-se e descia-se brincando e cantando. Alguns garotos brincalhões diziam durante o trajeto: isto é para descontar os pecados..."
Bem, com este farto material, os freis desmancharam a caixa d’água anterior que estava vazando e construíram uma menor para 3.000 litros, porém mais resistente. Em vez da construção dos três quartos projetados, eles construíram seis.
Julho de 1940
Quatro de julho, como sabemos, é a data da independência dos EUA, e foi no dia 4 de julho de 1940 que os freis proclamaram sua independência do apertado aposento que usavam na Matriz, devido à mudança para o Convento no alto do morro.
A mudança, para os religiosos, foi extraordinária pois embora os pedreiros continuassem as obras de reparo, dois quartos já estavam quase concluídos, e ambos se mudaram cada um para o seu, permitindo, assim, maior privacidade. Outra vantagem foi que ali passaram a ter maior silêncio, tão necessário para as coisas místicas, além da grata satisfação de poderem "fuçar" na terra, cuidando da horta e do pequeno bananal ali existentes. Agora, sim, eles estavam no paraíso!
Para falar a verdade, a horta estava uma porcaria, toda atacada pelo mato, capoeira etc. e quase nada produzia. Segundo alguns, a terra do alto do morro não prestava mesmo para tal finalidade...
Bem, até que um dia, um dos freis teve a ideia de "contratar" um fiel japonês da paróquia para ver se ele dava um jeito na horta. Ele prontamente foi para lá, estudou-a e traçou seu plano: arrancou tudo que estava plantado, removeu a terra, bem fundo, jogou bastante esterco, revirou-a, usou seus segredinhos e plantou novas hortaliças por ele indicadas.
Conclusão: em apenas poucos meses, a horta já estava produzindo que era uma beleza!
Nessa época, eles não encontraram os paramentos e outras alfaias para o culto, e, por isso, compraram alguns paramentos novos com o dinheiro que um benfeitor de São Paulo lhes dera. Posteriormente soubemos que tais materiais estiveram, durante mais de um século, sob a guarda da incrível Irmandade de Nª Sª da Conceição de Itanhaém.
Foi nessa data também, pasmem, que pela primeira vez após mais de um século os franciscanos abriram a porta da igreja do convento, para o povo voltar a assistir missa e outras solenidades. Que maravilha!

Setembro a dezembro de 1940
Quando éramos criança, brincar com o IÔ-IÔ nos fazia muito felizes, não é verdade? Com os freis do convento, também. Às vezes eles se sentiam muito solitários, mas com a chegada do Yô-Yô, tudo mudou.
Bem, estamos falando de um cachorrinho que eles ganharam , que assim foi "batizado". Ele tinha apenas 6 meses, mas já era utilizado como estagiário de cão de guarda, porque era meio policial e valente...
No primeiro dia dormiu embaixo da cama de um frei, mas no dia seguinte passou a dormir no seu improvisado canil. Para ele, o espaço em torno do convento era enorme, e por isso brincava muito na região. Quando estava cansado, descansava embaixo de um frondoso pé de roseira.
Observando tal cena romântica, disse um frei: "parece um príncipe encantado debaixo das roseiras".
Vamos, agora, falar do Natal.
Como a maioria das pessoas sabe, quem "inventou/criou" o presépio, para homenagear o nascimento do menino Jesus, foi São Francisco. Ora, em meados de dezembro, os freis franciscanos notaram que nem na Matriz nem no Convento havia presépios para montar. Para eles isto era um verdadeiro insulto!
Dessa forma, o padre vigário foi a São Paulo e comprou, não um jogo de presépio, mas três: um de 50 cm para a Matriz; um de 40 cm para o convento; e um de 30 cm para a capela de Itariri, que na época pertencia ao município de Itanhaém. Os rapazes e moças da época, ficaram contentíssimos em ajudar a montar os presépios, que tinha até iluminação própria.
De acordo com testemunhas da época, a maioria das pessoas da cidade conhecia o presépio através de ilustração ou quadros, mas quando os viram artisticamente montados, com galinhas e tudo... ficaram maravilhados.
Continua em 1941...
Contribuição voluntária de José Carlos Só, 2026.

José Carlos Carneiro Paulin (pseudônimo: José Carlos Só), nascido em São Paulo em 7 de julho de 1947. Manteve casa no bairro Belas Artes, em Itanhaém, durante 20 anos. Foi nesse período que se apaixonou pela história da cidade e passou a pesquisá-la profundamente. Como resultado de suas pesquisas, escreveu três livros dedicados à história de Itanhaém: Itanhaém: História & Estórias (1995), Frei Santa Mafalda: o herói esquecido de Itanhaém (2000) e Anchieta e Itanhaém (2010)




Muito bom realmente. Vale a pena saber sobre um lugar histórico e tão místico para todos nós