Chico Coveiro


O texto a seguir, escrito por Gabriela Pereira, e a foto feita por Dino Filho foram originalmente apresentados pelo COFIT - Coletivo de Fotógrafos de Itanhaém em 2016, quando da exposição Retratos & Relatos.
Esta contribuição do COFIT para a história de Itanhaém merece ser jamais esquecida. O HISTORITA agradece por essa doação de textos e fotos para que esses registros se perpetuem.
Nordestino cabra macho, arretado, trabalhador e dono de uma simpatia sem igual. Sujeito de estatura baixa, mãos ressecadas, pele marcada por sol, sorriso e sofrimento. São setenta anos de vida, dos quais trinta e cinco foram dedicados à cidade de Itanhaém. Esse é FRANCISCO FERREIRA RODRIGUES, o Chico Coveiro, orgulhoso Servidor Público Municipal.
“Eu vim em pau de arara, pagaram minha passagem e eu vim pra um sítio na Fazenda Mambu. Trabalhei um ano ou dois, depois vim pra cidade e até hoje tô aqui. Comprei meu terreno, construí minha casa, comprei meu carro pra andar também. Faz quarenta e oito anos que moro aqui e quarenta e oito anos de casado.... sou concursado a 35 anos. Mas eu trabalho, corto árvore, derrubo, uso motosserra, roço, bato, cerco terreno, faço tudo. Nunca fui no médico... nunca fiquei doente, num tenho diabetes, num tenho nada.”
Esse senhor risonho, natural de Arapiraca – AL, conta que não conhecia Itanhaém e só havia ouvido falar de São Paulo porque era comum o povo de sua terra migrar para cá em busca de oportunidade. “Meu pai dizia assim: - meu fio, não vai pra São Paulo que lá é curral de uma porteira só.” Porém, como um pescador atrás de seu sonho, seu Chico se atirou no mar do mundo, e veio fisgar a sorte nas águas abençoadas de Itanhaém.
Chegou sozinho, veio para encontrar um vizinho que já ganhava a vida nos bananais. Trabalhou um mês só a comer banana verde, a fim de economizar para buscar a mulher em Alagoas. Hoje, após tantos anos de sua chegada, ele se orgulha em dizer que conquistou seu espaço neste município que o abraçou.
“Foi Deus que me deu a sorte de eu vir pra aqui. Lá em Alagoas eu trabalhava de dia pra comer de noite, e aqui não. Eu tenho minha casa pra morar, tenho meu carro pra andar.”
O tempo e a distancia não fizeram com que esse matuto nordestino esquecesse suas raízes. Ele relata que todo ano junta lenha e acende cinco fogueiras no mês de junho, cercadas de uma festa com pipoca, quentão e batata doce. Uma fogueira é para Santo Antônio, a outra para São João, duas para São Pedro e a última para seu “Padinho Padre Ciço”. “Todo ano meu pai fazia assim. Todo ano. Se eu não fizer essas cinco fogueiras é como estar faltando alguma coisa. É uma penitência, uma devoção que eu tenho”.
Quando questionado se o cemitério em que trabalha, no Jardim Coronel, será sua futura morada, o coveiro responde afirmativamente, contando que já tem uma filha enterrada lá, que faleceu aos 27 anos por atropelamento e teve um cortejo enorme: “...era só carro desde a ponte até o outro lado.”
Ainda discursando sobre questões relacionadas à morte ele diz: “Deus chamou. Vai nós tudo nesse caminho. É se agarrar em Deus... batalhar a nossa vida até o dia que Deus quiser.”

Metade da jornada entre túmulos, covas e gavetas não retirou a alegria de viver desse homem ativo e forrozeiro. “Se eu pudesse eu tava todo dia no forró. Vou no forró todo sábado. Lá eu não pago nada, porque eles dizem... quando nóis morrê, quem vai enterrar é o senhor (risos). Todo mundo gosta de mim, graças a Deus.”
Com essa mesma disposição, Chico conta um episódio marcante da sua história, uma participação no quadro Se Vira nos Trinta do Programa do Faustão. Transbordando de felicidade ele fala de sua viagem de Van até os estúdios da emissora de TV em São Paulo, do hotel chic em que ficou hospedado e dos trinta reais que recebeu para o lanche. Episódio inesquecível na vida desse retirante famoso, que não perde nenhuma chance de demostrar a dancinha que o tornou um artista.
E é na dualidade de dor e alegria que esse imigrante da seca leva a vida a segurar alças de caixão, é no batalhar do dia-a-dia que ele sente o peso da morte em sua mão. Chico, que não é santo nem diabo, escolheu trilhar esse vale de sombras armado com a peixeira da animação. Afugentando pensamentos fúnebres, negando-se a enterrar os bons sentimentos e velando sem descanso o prazer de cada maravilhoso momento.

Vai seguindo, seu coveiro, se esquivando da derradeira despedida. Vai seguindo, seu coveiro, usando sua pá para cavar afeição. Vai seguindo, seu coveiro, não se avexe com a espreita da morte. Vai seguindo, seu coveiro, pois foi Deus quem escreveu a sua sorte.
Texto: Gabriela Pereira
Foto principal: Dino Filho
Antes de encerrarmos, segue a participação divertida do Chico Coveiro no programa do Faustão há tantos anos atrás. A qualidade do vídeo não é boa, mas dá pra curtirmos esse registro:
Francisco faleceu no começo de junho de 2026, deixando muita saudade em Itanhaém, por ter levado seu trabalho de maneira tão nobre por tanto tempo, fazendo o necessário para que o momento final de tantas histórias fosse guardado com dignidade.
Obrigado, Chico Coveiro!




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