Celinho (Célio Roberto de Souza)


O texto a seguir, escrito por Gabriela Pereira, e a foto feita por Michel Idris foram originalmente apresentados pelo COFIT - Coletivo de Fotógrafos de Itanhaém em 2019, quando da segunda exposição Retratos & Relatos.
Esta contribuição do COFIT para a história de Itanhaém merece ser jamais esquecida. O HISTORITA agradece por essa doação de textos e fotos para que esses registros se perpetuem.
Em um mundo que parece, muitas vezes, desertificado de bons sentimentos, em meio a tantas notícias amargas e misérias incontáveis, eis que encontramos, aqui e acolá, pequenos oásis de carinho, doces seres possuidores de uma riqueza interior incalculável. Célio Roberto de Souza é exatamente um desses refrescos no Atacama cotidiano. Com seu sorriso gentil e com a pureza de suas ações, ele oferece repouso para todos aqueles que desejam uma pausa calmante e, de brinde, convida à reflexão sobre respeito e inclusão.
Celinho, como é conhecido, é um jovem adulto com Síndrome de Down, de 36 anos. Sua família veio de Minas Gerais e fincou raízes em terras itanhaenses há mais de três décadas, sendo Celinho filho dessa acolhedora cidade.
Eliana de Fátima Souza, irmã que atualmente reside com esse simpático personagem, relata que a infância de Célio não contou com muitos estímulos para seu desenvolvimento neuropsicomotor, já que a falta de informação sobre a condição do irmão ainda era grande naquela época. “Minha mãe e meu pai tinham muito medo que os outros não cuidassem bem dele ou que as crianças o machucassem… era muita proteção, ele não fazia quase nada… em casa só ficava lá sentadinho no sofá, meu pai levava tudo na mão… Enquanto bebê ele sofreu muito com médicos, vivia internado e era todo machucadinho de tanta injeção que tomava… isso colaborou para que minha mãe ficasse com mais preocupação em protegê-lo.”
Conforme a criança meiga ia crescendo, isolada nas grades do medo, as irmãs tentavam convencer a mãe da necessidade de levar Celinho para a escola, liberta-lo para voar na vida. Aos nove anos o pequeno menino perdeu a mãe e os cuidados foram transferidos para a irmã mais velha, que, ansiando ajudar o caçula, resolveu amparar-se por meio da expansão de seu conhecimento sobre Síndrome de Down e buscar apoio na rede municipal. Na adolescência, Celinho começou a frequentar as atividade do Centro de Orientação aos Deficientes de Itanhaém (CODI). A professora Cris ficou encantada com a desenvoltura de seu mais novo aluno, que havia aprendido a ler e a escrever sozinho, segundo narrativa de Eliana.
“Ele começou a ler sozinho, com as novelas, porque ele ama as novelas e futebol… então comprávamos revistinhas sobre esses assuntos e ele foi aprendendo sozinho… ele lia, escrevia, copiava tudo” – recorda a irmã.
A Professora Cris, vendo o potencial de Celinho, recomendou que a família procurasse uma escola que pudesse oferecer mais oportunidades ao jovem, e neste momento surgiu na vida desse aplicado aluno a professora Denise Rossmann e sua equipe de educação especial da Escola Municipal Eleonor Mendes de Barros. Nessa sala de aula e com a dedicação dessa excelente educadora, Celinho evoluiu consideravelmente e se enquadrou no perfil para o programa de inserção no mercado de trabalho. A Professora Denise fez a proposta de inclusão para a família e, diante da resposta positiva, assim que a oportunidade na loja de conveniência surgiu, Célio foi indicado para a vaga. Desde que passou no teste admissional, há 12 anos, trabalha esbanjando alegria, como balconista.
Focado e caprichoso, Celinho é um profissional exemplar e agrada, sem esforço todas as pessoas que tem a sorte de ser recepcionado por ele. “Eu gosto de atender os clientes, cada cliente que chega eu falo bom dia, boa tarde ou boa noite. No trabalho estou sempre com meu padrão: boné, crachá, tudo ok… unhas cortadas, cabelo cortado, barba feita.”
Com espontaneidade, ele conta sobre o companheirismo dos colegas, a realização que o trabalho lhe proporciona, a afeição pelos clientes, a estima pela família e o que sente pela cidade onde vive: “Itanhaém pra mim é uma cidade maravilhosa, linda, sou feliz por morar aqui.” Ainda descreve orgulhoso o especial momento vivido em 2008, quando visitou o Projac e, dentre outras estrelas que pôde conhecer, teve a felicidade de estar com sua atriz favorita, Isis Valverde. Esse episódio acorreu graças ao envio de uma carta à Emissora de TV carioca, que contava a história de sua vida e comparava sua ocupação com o papel do ator Antônio Calloni, em uma loja de conveniência na novela do momento, Beleza Pura.
História de superação diária, que em cada olhar bondoso catequisa para o amor. Quadro pintado em tons vivos de diversidade e respeito que agrada qualquer curador. Lição que insiste a nos ensinar que preconceito é insensatez. Quanto antes enxergarmos a beleza das diferenças, mais livres seremos, mais próximos estaremos de um mundo melhor.
Foto Michel Idris, texto por Gabriela Pereira
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