O Reisado de Itanhaém - por Ernesto Bechelli
- Gustavo da Mota

- 21 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 23 de jan.

A tradição e demonstração de fé cristã que atravessou gerações, e que ainda hoje persiste levando a Boa Nova em Itanhaém: o Reisado! Evento que leva fiéis católicos a caminharem pelas ruas da ainda Conceição de Itanhaém (digam o que quiserem, ainda o é!), na calada da noite, para acordar-vos, se estiverdes dormindo...
Eu, Gustavo, jamais seria alguém à altura da importância desse evento o suficiente para trazer as informações precisas sobre ele. Por isso, convidei o também morador da Conceição de Itanhaém, meu padrinho na AIL, Ernesto Bechelli, para ilustrar o HISTORITA com seu candor e conhecimento, vindo da prática que ele acompanha há tantos anos.
Boa leitura:
"A tradição das Folias de Reis está presente na história de Itanhaém de forma muito intensa. A mais antiga e característica é a do Grupo "Reisado de Itanhaém", ligado ao início da Vila Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém e voltado mais aos moradores do núcleo central da cidade (1).
De origem relacionada às tradições lusitanas introduzidas no nosso país pela colonização portuguesa, contam os antigos itanhaenses que até bem pouco tempo (idos da década de 1960), a Folia de Reis era constituída por um pequeno grupo só de homens (os “reis”), com instrumentos de sopro, destacando-se os tocadores da tuba, do bombardino e do trombone, que juntos com o Puxador e o Coro acordavam os moradores nas madrugadas do início de cada janeiro. Preparavam a chegada do Dia dos Reis (6 de janeiro) e arrecadavam prendas para a Festa de São Sebastião, que era realizada na cidade. Por muitos anos essa foi a marca dos Reis de Itanhaém: na madrugada, a tuba, com seu grave ao longe tocando e anunciando o “Acordai se estais dormindo...” e as “Boas Vindas” para o novo ano que chegava.
No entanto, no último momento de fragilidade da sua história, ocorrido por volta de 1980 a 1985, uma transformação aconteceu no seu conjunto. Dos antigos músicos, alguns saíram por motivo de idade ou doença, outros faleceram. Não houve renovação dos tocadores dos instrumentos de sopro e, gradativamente, as “cordas” e a “percussão” foram sendo agregadas ao grupo, até a substituição daqueles por completo.
Um novo ânimo se estabeleceu a partir dessa mudança instrumental, que possibilitou a vinda de mais músicos, além da incorporação de outros símbolos como a Bandeira do Reisado, camisetas, mensagens, orações e figurantes representando os Três Reis Magos, com suas prendas revestidas da natureza caiçara, como conchas e folhas do peguaçu. É desse momento também a renomeação da Folia como o Reisado de Itanhaém.

Hoje, o grupo conta com uma média de trinta participantes, entre adultos, jovens e crianças. O violão, o cavaco, a sanfona, a timba e o pandeiro são agora seus instrumentos mais presentes. Permanece a melodia marcante da sua música, resultado da originalidade dos instrumentos metais e de sopro, com laços do “vira lusitano”, marcando a sua diferença com o tempo lento e “choroso” que comumente se vê, na maioria dos grupos existentes pelo resto do País. Os versos puxados se alternam entre os andamentos de “primeira, segunda ou terceira”, na sequência da “entrada”, no “pedido de óbolos”, no recebimento da prenda, ou na “acolhida” dentro da casa com a solene Oração do Reisado. Tudo é finalizado em forma de “agradecimento” e “despedida”, para a outra morada se dirigir.
Quando Itanhaém era formada basicamente pela Vila ao redor da Matriz e no sopé do Morro do Itaguaçu (Convento), "os reis" saíam apenas na noite que antecedia a Epifania (06 de janeiro). Com o crescimento da cidade, hoje as saídas acontecem por volta de oito noites entre 26 de dezembro e 06 de janeiro, sempre a partir das 22h, percorrendo cerca de 120 casas. Todas as doações não perecíveis das famílias visitadas são repassadas para a Festa do Divino Espírito Santo de Itanhaém. As perecíveis são consumidas ou partilhadas entre os seus membros. O dinheiro doado é reservado para a realização de momentos de Confraternização do grupo durante o ano.
Com esses momentos celebrativos, mais uma Folia se completa, onde todos são convidados para, ao redor da mesa e na comensalidade, partilhar suas vidas e alegrias nas Boas Vindas cantadas e desejadas. Nesses gestos, revivem a cada ano, a renovação da grande manifestação do Deus que se faz um de nós e nos pede a defesa e a promoção da Vida para todos e todas, e reforçam o compromisso de mudanças para a construção de um mundo mais justo, solidário, acolhedor e diverso do Bem."

(1) Outros grupos de Folias de Reis se organizaram em Itanhaém, a partir de 1940. Todos com migrantes que para a cidade vieram e com tradições ligadas aos seus locais de origem, principalmente Iguape/SP e Paraty/RJ. Com núcleos nos bairros de Agenor de Campos, hoje pertencente a Mongaguá (“Sr. Joaquim”), Belas Artes (“Sr. Totó”) e Anchieta (“Sr. Gentil”), enriqueceram e diversificaram a manifestação dos “Reis” por essas terras. Infelizmente, com o falecimento de seus líderes, foram deixando de se reunir. Ainda um desses grupos, remanescente do pessoal de Agenor de Campos, então estabelecido no Bairro do Belas Artes, voltou a se apresentar nos anos de 2004 e 2005, mas novamente por motivo de falecimento, agregado a mudanças de membros da cidade, não teve continuidade.

Oração do Reisado de Itanhaém
Senhor, Rei dos Reis, abençoe esta família
que com carinho acolheu o reviver dos Reis Magos
em direção à Estrela de Belém, anunciando a
chegada do Menino-Deus aos lares da
nossa querida “Conceição de Itanhaém”.
Sobre todos derrame muita paz, muita luz
e muita vontade de seguir sempre
os caminhos do Menino-Jesus.
Amém.
(autoria de Ernesto Bechelli)
reis aqui estão aqui
estão os reis cantando
numa alegria caiçara
sob o luar que na praia
rebrilha n’água o prateado do sonho
anunciando que o menino-deus
já é conosco
no peixe enrolado na rede
para saciar a fome da nossa gente
na mandioca transformada em manema do
café da manhã e do peixe ensopado
no arroz que socado dá-nos cuscuz de tão fortes
encontros em festivas alvoradas
nessa nossa paisagem a marcar em cada coração sensível
o seu belo, num memorial fascínio
na tradição a se enraizar mais e mais, no seio dos que
amam esse chão de pedra e areia
aqui estão os reis acordando
a todos do sono insistente
em acabar com as lembranças
de que quando crianças
não queríamos tivessem fim
aqui estão os reis entrando
e celebrando a saudade
das boas-vindas que nos fazem perguntar
onde estão os jundus, cambucás e araçás
que na memória despertam
o novo tempo que virá
aqui estão os reis
já vão partindo
aguardando o ano bem-vindo
para cantar a eterna esperança
do sonho de serem sempre os reis
resgatando pela nova-prenda
a certeza de continuar a história
dessa nossa amada itanhaém
com seu povo, sua terra e sua glória
(autoria de Ernesto Bechelli)
O HISTORITA agradece por essa preciosa união de colaboração para a memória do Reisado de Itanhaém, na forma do texto de Ernesto Bechelli e fotografias de Elói Conceição Marques, Francisco Mathias Leme e Monica Barros - COFIT. E se você tiver mais fotografias ou lembranças, entre em contato comigo, e eu as adicionarei aqui. Portanto, fique de olho e confira esta página de tempos em tempos: pode sempre ser que haja atualizações neste artigo.


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